Pra Sempre, nós
O Rastro da Sombra e o Colapso do Vidro
O sol da manhã não trazia conforto; era apenas uma luz crua que expunha as feridas da cidade e as olheiras profundas no rosto de Sarah. Após uma noite de sono inquieto no galpão, ela retornara para casa antes que o pai acordasse de seu estupor alcoólico. O silêncio da residência, interrompido apenas pelo ronco pesado vindo do quarto dele, era um campo minado. Ela se moveu como um fantasma, lavou o rosto com água gelada e encarou o reflexo no espelho manchado. As maçãs do rosto estavam mais proeminentes, a pele bronzeada parecia perder o viço para uma palidez doentia.
— Você prometeu ao Jungkook — sussurrou para si mesma, a voz falhando. — Você prometeu que ia comer.
Era sua folga na lanchonete, mas o estômago vazio agora doía de uma forma diferente, uma fome que se misturava à ansiedade. Ela pegou as poucas notas amassadas que escondia dentro de uma fresta no assoalho do guarda-roupa e saiu. O ar lá fora estava úmido. Sarah caminhou até o pequeno mercado de bairro, tentando manter a cabeça erguida. Seus cabelos loiros, agora soltos e caindo em ondas mel pelas costas, chamavam a atenção de alguns transeuntes, mas ela não via ninguém. Seus olhos buscavam apenas por sedans pretos ou sombras que não deveriam estar ali.
Dentro do mercado, o cheiro de frutas frescas e produtos de limpeza a deixou tonta. Ela pegou uma cesta e, com um esforço consciente, colocou um pacote de biscoitos, algumas bananas e uma garrafa de suco. Cada item parecia pesar uma tonelada. Ao chegar ao caixa, suas mãos tremiam enquanto entregava o dinheiro.
— Tudo bem, querida? — perguntou a senhora do caixa, notando o suor frio na testa de Sarah.
— Sim, só... um pouco de tontura. O calor, eu acho — mentiu Sarah, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
Ao sair do mercado, a sensação de segurança que o ambiente iluminado proporcionava evaporou instantaneamente. A rua estava estranhamente vazia para aquele horário. Sarah apertou a sacola contra o peito e começou a caminhar em direção ao caminho de casa, mas algo a fez parar. Um estalo de galho seco, ou talvez apenas o som de passos que não eram os seus.
Ela olhou por cima do ombro. A cerca de cinquenta metros, um homem estava parado junto a um poste. Ele vestia um sobretudo preto, as mãos nos bolsos, e um boné que escondia a parte superior do rosto. Ele não estava caminhando; estava apenas observando.
O coração de Sarah deu um solavanco, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela apressou o passo. O som dos seus sapatos no asfalto parecia ensurdecedor. Ela olhou novamente. O homem agora caminhava. Ele não corria, mas seus passos eram longos e decididos, encurtando a distância com uma calma predatória.
— Não é nada, Sarah. É apenas a sua paranoia — murmurou ela, mas o instinto de sobrevivência gritava o contrário.
Ela dobrou a esquina e começou a correr. O pânico, frio e paralisante, subiu por sua garganta. A imagem de Jin, caído em um beco escuro, passou por sua mente como um flash de horror. Ela não queria ser a próxima. Seus pulmões começaram a queimar. A desordem alimentar cobrava seu preço; suas pernas pareciam feitas de gelatina, e a visão começava a escurecer nas bordas.
"O posto", pensou ela. "O Namjoon está no posto."
Era o único lugar seguro que ela conseguia alcançar. Ela atravessou a rua sem olhar para os lados, ouvindo o chiado de pneus de um carro que freou bruscamente, mas ela não parou. O homem de preto continuava lá, uma mancha escura e persistente em sua visão periférica. Ele estava ganhando terreno.
Sarah entrou na área iluminada do posto de gasolina como se estivesse entrando em um santuário. Ela tropeçou nos próprios pés, a sacola do mercado rasgando e espalhando as frutas pelo chão, mas ela não se importou.
— Namjoon! — ela gritou, a voz saindo em um ganido desesperado. — Namjoon, por favor!
Namjoon, que estava abastecendo um caminhão antigo, largou a mangueira e correu em direção a ela. Ele a segurou pelos ombros antes que ela caísse no chão.
— Sarah? O que houve? Você está pálida! — Ele olhou para o rosto dela, aterrorizado com o estado da amiga.
— Ele... ele está atrás de mim — ela ofegou, apontando com a mão trêmula para a direção de onde viera. — O homem de preto... ele me seguiu do mercado...
Namjoon imediatamente se colocou na frente dela, protegendo-a com seu corpo alto e robusto. Ele estreitou os olhos, vasculhando a calçada do outro lado da rua. No limite entre a luz das lâmpadas de vapor de sódio do posto e a escuridão do terreno baldio vizinho, ele viu.
Havia uma silhueta. Um homem parado nas sombras, imóvel como uma estátua de mármore negro. Por um segundo, os olhos de Namjoon encontraram o que parecia ser o brilho de um olhar frio vindo debaixo do boné.
— Ei! O que você quer? — Namjoon gritou, dando um passo à frente, o punho cerrado.
O homem não respondeu. Ele simplesmente recuou para dentro da escuridão total do terreno baldio. Namjoon correu até a borda do asfalto, mas não havia mais ninguém lá. A sombra havia sumido, como se tivesse sido engolida pela própria noite.
— Ele sumiu — disse Namjoon, voltando para Sarah. — Sarah, ele foi embora.
Mas Sarah não respondeu. Ela estava encostada em uma das bombas de gasolina, deslizando lentamente para o chão. Seus olhos estavam arregalados, mas não focavam em nada. Suas mãos agarravam a própria garganta, tentando buscar um ar que não vinha.
— Sarah? Ei, respira comigo! — Namjoon se ajoelhou ao lado dela, em pânico. — É um ataque de pânico, Sarah. Tenta se acalmar.
— Eu... eu não... consigo... — as palavras dela foram sufocadas por um soluço seco.
O mundo ao redor dela começou a girar. O cheiro de gasolina tornou-se insuportável, as luzes do posto brilhavam com uma intensidade dolorosa. Ela via o rosto de Namjoon, ouvia sua voz chamando seu nome, mas ele parecia estar a quilômetros de distância, submerso em água. O trauma da morte de Jin, o medo constante do pai, a fraqueza física e a perseguição recente colidiram em uma tempestade perfeita dentro de sua mente.
— Sarah! — foi a última coisa que ela ouviu antes que a escuridão, densa e pesada, finalmente a reivindicasse.
***
O cheiro era diferente. Não era o cheiro de mofo do galpão, nem o cheiro de álcool barato da casa de seu pai. Era um odor antisséptico, metálico e frio. Sarah abriu os olhos lentamente, a luz fluorescente acima dela fazendo sua cabeça latejar. Ela tentou se levantar, mas sentiu uma pressão suave em sua mão.
— Ei, devagar. Não tenta levantar rápido.
Ela virou a cabeça e encontrou Jungkook sentado em uma poltrona desconfortável ao lado da cama. Ele parecia não dormir há dias. Seus olhos estavam vermelhos e o cabelo, geralmente bagunçado de um jeito charmoso, estava apenas... bagunçado.
— Jungkook? — a voz dela era apenas um sussurro. — Onde eu estou?
— No hospital municipal — ele respondeu, apertando a mão dela com delicadeza. — O Namjoon te trouxe. Você desmaiou no posto. Os médicos disseram que foi uma combinação de exaustão, desnutrição e um ataque de pânico severo.
Sarah fechou os olhos, as lembranças do mercado e do homem de preto voltando em uma onda de náusea.
— Ele estava lá, Jungkook. Ele me seguiu.
— Eu sei. O Namjoon me contou. Ele viu o cara também — Jungkook disse, e havia uma fúria contida em seu tom de voz que Sarah nunca tinha ouvido antes. — Yoongi e Taehyung estão lá fora no corredor. Não deixamos ninguém avisar seu pai ainda. O Namjoon disse que é melhor você ficar aqui sob observação por enquanto.
— Eu não posso ficar aqui — Sarah tentou sentar-se, sentindo a agulha do soro repuxar em seu braço. — O meu pai vai me matar se descobrir que estou num hospital, ele vai dizer que estou chamando atenção indesejada...
— Ele não vai encostar em você — Jungkook interrompeu, levantando-se e sentando na beirada da cama. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Escuta bem, Sarah. Você quase morreu hoje. Se o Namjoon não estivesse lá, se você tivesse desmaiado na rua... eu nem consigo pensar nisso.
Sarah começou a chorar, lágrimas silenciosas escorrendo por suas bochechas.
— Eu estou com tanto medo, Kookie. O Jin se foi e agora esse homem... ele está vindo atrás de nós, um por um.
— Ele cometeu um erro — Jungkook sussurrou, aproximando o rosto do dela. — Ele te assustou. E ele me deu um motivo para parar de apenas me esconder. Nós vamos descobrir quem ele é, Sarah. Eu juro pela memória do Jin.
A porta do quarto se abriu levemente e a cabeça de Taehyung apareceu.
— Ela acordou? — ele perguntou baixo.
— Sim — respondeu Jungkook, sem soltar Sarah.
Taehyung entrou, seguido por um Namjoon que ainda usava o uniforme sujo do posto. Eles cercaram a cama, formando um círculo de proteção que Sarah sentia ser a única coisa que a mantinha inteira.
— O Hoseok conseguiu sair do quarto dele e veio te ver enquanto você dormia — comentou Namjoon, tentando aliviar o clima. — Ele quase foi pego pelas enfermeiras, mas disse que você parecia um anjo, só que um anjo que precisa comer mais hambúrgueres.
Sarah soltou uma risada fraca, que logo se transformou em um suspiro.
— Como está o Jimin? — ela perguntou.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Namjoon olhou para o chão.
— Ele ainda está em isolamento. Mas soubemos que ele desenhou algo na parede da cela hoje de manhã.
— O quê? — perguntou Jungkook.
— Uma asa de anjo — respondeu Namjoon. — Igual ao pingente que você achou, Jungkook.
Um arrepio percorreu a espinha de todos no quarto. Sarah olhou para a janela, onde a noite da cidade brilhava lá fora. Em algum lugar, entre aqueles prédios e becos, o assassino estava esperando. Mas ali, naquele quarto de hospital, ela não era apenas uma garota faminta e assustada. Ela era parte de algo que as sombras não podiam entender.
— Jungkook — Sarah chamou, enquanto os outros começavam a conversar sobre como tirá-la dali sem que o pai percebesse.
— Sim?
— Não me deixe sozinha. Nem aqui, nem nunca.
Jungkook se inclinou e beijou a testa dela, um pacto silencioso selado na frieza daquele hospital.
— Nunca, Sarah. Nós somos a âncora um do outro agora.
Enquanto ela fechava os olhos para tentar descansar, a imagem do homem de preto ainda assombrava sua mente, mas a mão de Jungkook, quente e firme na sua, era o único lembrete de que ela ainda estava viva. E, pela primeira vez, a fome que ela sentia não era de comida, mas de justiça. A caçada havia começado, e Sarah Cameron não seria mais a presa.