Voltar ao resumo

PRBLMS

O Doce Sabor da Rendição

A cozinha da casa de Sua era o oposto exato do mundo frio e cinzento que Mizi habitava. Havia um calor ali que não vinha apenas do forno, mas de algo intangível, algo que Mizi havia enterrado sob camadas de sarcasmo e cigarros há muitos anos. Ela estava sentada à mesa de madeira clara, observando a mãe de Sua, a Sra. Han, colocar um prato de biscoitos recém-saídos do forno à sua frente.

— Coma, querida. Você parece precisar de um pouco de açúcar — disse a mulher, com um sorriso que não carregava julgamento, apenas uma gentileza que fazia Mizi se sentir estranhamente despida de suas defesas.

— Obrigada, senhora — respondeu Mizi, pegando um biscoito. O gosto de manteiga e baunilha explodiu em sua boca, e por um segundo, o som da freada de carro em sua mente silenciou.

Sua estava sentada ao lado dela, rígida como uma estátua, o rosto ainda tingido de um rosa profundo. Ela observava a interação com o coração na boca, temendo que Mizi soltasse algum palavrão ou que sua mãe fizesse alguma pergunta invasiva demais sobre o "relacionamento" delas.

O momento de paz, porém, durou pouco. O som da chave girando na fechadura da frente ecoou pelo corredor, seguido por passos leves e uma voz que Mizi reconheceria em qualquer lugar do inferno.

— Cheguei, família! Onde está o lanche? — Ivan entrou na cozinha com sua habitual elegância desleixada, mas parou abruptamente ao ver a cena.

Seu olhar saltou de Sua para a mãe, e finalmente parou em Mizi. O sorriso provocador de Ivan alargou-se, tornando-se algo quase predatório, mas carregado de uma diversão genuína.

— Ora, ora... O que temos aqui? — Ivan caminhou até a mesa e pegou um biscoito, ignorando o olhar mortal que Sua lhe lançava. — Mizi, minha estrela, o que você está fazendo na toca do lobo?

— Comendo biscoitos, Ivan. O que parece que estou fazendo? — Mizi respondeu, recuperando seu tom seco, embora não tivesse a mesma agressividade de antes.

Ivan inclinou-se sobre a mesa, olhando para a Sra. Han com aquele charme falso que ele usava tão bem.

— Tia, a senhora sabia que a Mizi é a minha melhor amiga? Minha confidente, minha parceira de crimes? — Ele então voltou os olhos pretos para Sua, estreitando-os. — E agora parece que a sua filha está tentando roubá-la de mim. Isso é muito feio, Sua. Amigos não roubam amigos.

Sua, que geralmente era a personificação da reserva e do silêncio, sentiu uma onda de possessividade subir pelo peito. Ela olhou para Ivan, depois para Mizi, e então para a mão de Mizi que descansava sobre a mesa.

— Eu não estou roubando nada, Ivan — disse Sua, a voz surpreendentemente firme. — Eu estou apenas ficando com o que é meu.

Antes que Ivan pudesse soltar uma de suas risadinhas irritantes, Sua levantou-se, agarrou o pulso de Mizi com uma força inesperada e a puxou da cadeira.

— Com licença, mãe. Ivan, vá se ferrar — disparou Sua, arrastando uma Mizi atônita pelo corredor.

— Ei! — Ivan gritou atrás delas, rindo. — Eu ainda não terminei de contar as histórias da Mizi no fundamental!

Sua não parou. Ela abriu a porta do seu quarto, empurrou Mizi para dentro e trancou a porta com um clique decisivo. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração ofegante de Sua e pelo olhar confuso de Mizi.

— Porra, Sua... que força é essa? — Mizi soltou uma risada curta, sentando-se na beira da cama de Sua. O quarto era exatamente como ela imaginava: organizado, cheio de livros e com um leve cheiro de lavanda.

Sua não respondeu imediatamente. Ela caminhou até Mizi, o olhar fixo e determinado. Sem pedir permissão, ela se posicionou entre as pernas da rosada e sentou-se em seu colo, envolvendo o pescoço de Mizi com os braços. A proximidade fez Mizi prender a respiração.

— Você é minha — sussurrou Sua, escondendo o rosto na curva do pescoço de Mizi.

Mizi sentiu o corpo relaxar. Ela passou os braços pela cintura de Sua, puxando-a para mais perto.

— Eu sou, é? — Mizi murmurou, a voz ficando mais rouca. — Desde quando você decidiu isso, baixinha?

— Desde sempre — respondeu Sua.

Em um movimento súbito, Sua inclinou o corpo, levando Mizi junto com ela. Elas caíram para trás na cama macia, com Sua por cima, deitada sobre o peito de Mizi. O cabelo preto de Sua se espalhou como seda sobre a camiseta de Mizi. A garota reservada e melancólica havia desaparecido, dando lugar a uma versão manhosa e carente que Mizi nunca vira.

Sua começou a distribuir beijinhos leves pelo maxilar de Mizi, roçando o nariz na pele dela.

— Mizi... — Sua chamou, a voz doce e pequena.

— Hum?

Sua hesitou, a vergonha lutando contra a curiosidade. Ela lembrou-se vividamente da cena na sala de aula, de Mizi enfrentando aquela garota bonita e declarando que já tinha a "mulher dela".

— Aquilo que você disse na escola... — Sua começou, levantando a cabeça para olhar nos olhos dourados de Mizi. — Sobre já ter uma mulher. Quem... quem é ela?

Mizi arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. Ela levou a mão ao rosto de Sua, afastando uma mecha de cabelo.

— Você é burra ou só está se fazendo, Sua? — Mizi perguntou com carinho. — Quem mais seria? Quem mais me segue como uma sombra, sabe todos os meus hábitos e me beija em becos sujos?

O rosto de Sua iluminou-se. Um sorriso radiante, genuíno e puramente feliz surgiu em seus lábios, algo que Mizi achou a coisa mais bonita que já tinha visto na vida. Sua se agarrou a Mizi com ainda mais força, escondendo o rosto no peito dela novamente.

— Eu te amo, Mizi — sussurrou Sua. — Eu te amo. Eu te amo muito.

Ela começou a dar beijinhos fofos por todo o rosto de Mizi — na testa, nas bochechas, na ponta do nariz. Era um carinho puro, sem a agressividade ou o desespero de antes. Era apenas Sua, sendo feliz por ser notada, por ser amada.

— Tá bom, tá bom! — Mizi riu, sentindo o peito aquecer de uma forma que a assustava, mas que ela não queria que parasse. — Você está muito melosa hoje. O que deu em você?

— Eu só estou feliz — disse Sua, manhosa, esfregando a bochecha no peito de Mizi como um gato. — Quero ficar assim para sempre.

Mizi, movida por um impulso brincalhão, começou a fazer cócegas nas costelas de Sua. A garota menor soltou um grito agudo e começou a rir, contorcendo-se no colo de Mizi.

— Para! Mizi, para! — Sua implorava entre gargalhadas, os olhos roxos brilhando de alegria.

Mizi parou, mas continuou segurando-a. Ela ficou observando o rosto de Sua, o modo como o riso iluminava suas feições melancólicas, tornando-a radiante.

— Você é muito bonita quando sorri, sabia? — Mizi disse, a voz suave e séria.

Sua parou de rir instantaneamente, o rosto ficando vermelho novamente. Ela desviou o olhar, tímida.

— Não sou, não...

— É sim — insistiu Mizi, segurando o queixo dela e forçando-a a olhar de volta. — Você é linda, Sua. E é minha.

Sua, em um surto de coragem e timidez, puxou Mizi para um beijo. Foi um beijo doce, calmo, que selava todas as promessas silenciosas que haviam feito uma à outra. Quando se separaram, Sua voltou a ficar manhosa, deitando a cabeça no ombro de Mizi e suspirando de satisfação.

Mizi começou a acariciar os cabelos de Sua, perdida em seus próprios pensamentos. Ela sabia que o mundo lá fora ainda era cruel. Ela sabia que a culpa pela morte da mãe ainda voltaria a visitá-la nas noites escuras. Mas ali, com Sua em seus braços, o fardo parecia compartilhado.

— Mizi... — Sua murmurou, quase dormindo.

— O que foi agora?

— Promete que não vai embora?

Mizi apertou o abraço, sentindo o batimento cardíaco de Sua contra o seu.

— Eu não vou a lugar nenhum, baixinha. Você está presa comigo agora.

Sua sorriu contra a pele dela e soltou mais um "te amo" baixinho. Mizi não respondeu com palavras, mas continuou a dar atenção, beijando o topo da cabeça de Sua e fazendo carinho em suas costas, deixando o tempo parar naquele quarto. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não era assustador. Era, finalmente, um lar.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.