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Ecos de Vidro e a Pose de Vênus

O sol da manhã entrava pelas janelas altas da sala de aula, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Era aquele intervalo tenso entre o fim da aula de História e a chegada do professor de Matemática. O ambiente estava dividido, como sempre, em seus pequenos feudos de silêncio e segredos.

Ivan estava sentado de lado na cadeira, o sorriso de canto fixo enquanto observava Till. O garoto de cabelos cinza parecia uma corda de violão esticada ao máximo, os dedos tamborilando nervosamente sobre a mesa, evitando a todo custo olhar para o moreno que, no dia anterior, o havia subjugado no vestiário. Luka, ao lado de Ivan, folheava um livro de filosofia com uma calma irritante, ocasionalmente trocando palavras baixas sobre a ineficácia do sistema de ensino.

Do outro lado, o trio de Sua, Till e Hyuna tentava manter uma fachada de normalidade. Hyuna falava sobre uma banda nova, mas seus olhos azuis vagavam constantemente para Luka, uma mistura de desejo e autodesprezo brilhando ali. Sua, por sua vez, estava estranhamente quieta, a mão direita acariciando o próprio pescoço, onde a gola do uniforme escondia as marcas deixadas por Mizi.

Mizi era a única que parecia alheia a tudo. Ela estava jogada em sua cadeira, as pernas esticadas, os olhos dourados fixos na tela do celular enquanto digitava algo com uma expressão de tédio absoluto. O cabelo rosa com pontas azuis caía sobre seus ombros, emoldurando um rosto que parecia esculpido em porcelana fria.

O burburinho da sala foi interrompido quando a porta se abriu com um estrondo suave. Uma garota do segundo ano, conhecida por ser uma das mais bonitas da escola — cabelos castanhos ondulados, olhos verdes e um sorriso que costumava desarmar qualquer um —, entrou na sala com uma confiança inabalável. O nome dela era Sarah, e ela caminhou direto para a mesa de Mizi.

A sala inteira pareceu prender a respiração. Era um evento raro ver alguém de fora dos grupos principais tentar uma aproximação tão direta.

— Oi, Mizi — disse Sarah, inclinando-se sobre a mesa da rosada, deixando o perfume doce pairar no ar. — Eu estava pensando... Vai ter uma festa na casa do Leo sexta-feira. Eu adoraria que você fosse comigo. Sabe, como meu par.

Um murmúrio percorreu os alunos. "Putz, mais um casal?", alguém sussurrou no fundo. "Elas seriam o casalzão da escola", comentou outro. A expectativa era de que Mizi, com seu jeito descontraído e sedutor, aceitasse o convite com um sorriso sarcástico.

Mizi, no entanto, nem sequer tirou os olhos do celular por alguns segundos. O silêncio se tornou desconfortável. Sarah começou a perder o sorriso, mudando o peso do corpo de uma perna para a outra.

— E aí? O que me diz? — insistiu a garota, a voz agora um pouco menos firme.

Mizi finalmente bloqueou o celular e levantou o olhar. Seus olhos dourados estavam gélidos, desprovidos de qualquer brincadeira.

— Não — respondeu Mizi, a voz seca como palha seca.

Sarah piscou, atordoada.

— Como? Você... você tem algum compromisso? A gente pode ir no sábado, se preferir...

— Eu disse não, porra. Você é surda? — Mizi guardou o celular no bolso da saia e levantou-se lentamente. — Eu não tenho interesse.

— Mas... por quê? — Sarah gaguejou, o rosto começando a corar de humilhação diante da sala inteira que assistia à cena. — Todo mundo diz que você... que você gosta de garotas.

Mizi soltou uma risada curta e sem humor, um som que fez Sua estremecer em seu lugar.

— Eu gosto de mulher, sim. Mas eu já tenho a minha. — Mizi deu um passo à frente, ignorando o choque coletivo da sala. — Então, faz um favor e vaza daqui antes que eu perca a paciência de vez.

Sarah, sem chão e com os olhos marejados, deu meia-volta e saiu da sala quase correndo. O silêncio que se seguiu foi absoluto, denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Até Ivan parou de sorrir por um momento, surpreso com a declaração pública de Mizi.

Mizi, ignorando a plateia, levou as mãos ao cabelo e prendeu-o em um rabo de cavalo alto e firme. O movimento expôs seu pescoço e a linha elegante de seu maxilar, fazendo-a parecer ainda mais bonita e intimidante. Ela suspirou, massageando as têmporas.

— Que dor de cabeça do caralho — resmungou ela.

Ela caminhou até a mesa de Ivan, que a observava com curiosidade. Sem pedir licença, Mizi enfiou a mão na mochila dele, revirando os bolsos internos até encontrar um frasco de comprimidos.

— Valeu, Ivan — disse ela, tirando um remédio e jogando-o direto na boca, engolindo a seco com uma careta.

— De nada, estrela — respondeu Ivan, recuperando o sorriso provocador. — Cuidado para não ter uma overdose de sinceridade.

Mizi mostrou o dedo médio para ele e virou-se. Ela não voltou para sua mesa. Em vez disso, caminhou com passos decididos até a mesa de Sua.

Sua sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela não conseguia desviar o olhar. Mizi parou na frente dela, a expressão ainda dura pela irritação anterior, mas seus olhos suavizaram um milímetro ao encontrarem os roxos de Sua. Sem dizer uma palavra, Mizi esticou o braço e pegou a garrafa de água que estava sobre a mesa de Sua.

Ela abriu a tampa, encostou os lábios no bocal e bebeu metade do conteúdo em grandes goles, a garganta movendo-se de forma rítmica. Sua observava a cena em transe, o fato de Mizi estar compartilhando algo tão pessoal quanto uma garrafa de água na frente de todos parecia uma marcação de território muito mais potente do que qualquer declaração verbal.

Mizi fechou a garrafa, colocou-a de volta no lugar com um baque surdo e deu um tapinha leve no ombro de Sua.

— Valeu, baixinha.

Ela voltou para sua mesa, deitou a cabeça sobre os braços cruzados e, em segundos, parecia ter pegado no sono, deixando a sala inteira mergulhada em um caos de sussurros e teorias.

***

O restante do dia foi uma tortura para Sua. Ela sentia o peso dos olhares de Hyuna e Till sobre ela, cheios de perguntas que ela não sabia como responder. Luka, do outro lado, parecia estar processando a nova informação com seu habitual distanciamento científico, enquanto Ivan não parava de lançar olhares divertidos para Till, que estava visivelmente perturbado pela menção de "ter alguém".

Quando o sinal da última aula finalmente tocou, Mizi foi a primeira a se levantar. Ela bocejou, espreguiçou-se e caminhou até Sua, que estava guardando seus livros com mãos trêmulas.

— Vamos logo — disse Mizi, pegando a mochila de Sua e jogando por cima do próprio ombro. — Eu te acompanho até em casa.

— Você... você não precisa fazer isso, Mizi — gaguejou Sua, embora estivesse morrendo de vontade de aceitar.

— Eu sei que não preciso. Eu quero. Agora anda, caralho, antes que eu mude de ideia.

Elas saíram da escola sob o olhar atento dos outros quatro. Hyuna parecia preocupada, Till confuso, Ivan entretido e Luka... Luka apenas observava a dinâmica das "peças" no tabuleiro.

O caminho até a casa de Sua foi feito em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos passos no asfalto e pelo barulho ocasional do trânsito. Mizi não estava com vontade de usar seu sarcasmo habitual, e Sua estava ocupada demais tentando processar a proximidade da garota.

Quando chegaram à frente da casa de Sua — uma construção simples com um pequeno jardim na frente —, Mizi parou e entregou a mochila.

— Entregue em segurança — disse Mizi, as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Obrigada, Mizi. Por tudo... hoje na sala...

Mizi olhou para os lados, certificando-se de que a rua estava deserta. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância entre elas.

— Eu não menti, Sua — sussurrou Mizi, a voz rouca. — Eu não tenho interesse em garotas perfeitas do segundo ano. Eu prefiro as esquisitas que me seguem como sombras.

Antes que Sua pudesse responder, Mizi segurou seu rosto com as duas mãos e a beijou. Foi um beijo profundo, calmo e carregado de uma possessividade que fez os joelhos de Sua fraquejarem. Mizi explorou a boca de Sua com uma lentidão deliciosa, como se estivesse saboreando a vitória de ter finalmente admitido algo para si mesma.

O que elas não perceberam foi o som da porta da frente se abrindo.

A mãe de Sua, uma mulher de aparência gentil e cabelos pretos presos em um coque, saiu com um saco de lixo na mão. Ela parou no meio do caminho, os olhos arregalados ao ver a filha prensada contra o portão por uma garota de cabelos rosa vibrante.

Mizi e Sua se separaram bruscamente. Sua sentiu que ia desmaiar de vergonha.

— Mãe! Eu... a gente... — Sua começou a gaguejar, o rosto mais vermelho que o cabelo de Mizi.

A mãe de Sua olhou para Mizi de cima a baixo. Mizi, recuperando sua postura de "não estou nem aí", apenas acenou levemente com a cabeça, embora suas bochechas tivessem um leve tom rosado.

— Boa tarde, senhora — disse Mizi, a voz firme.

A mulher ficou em silêncio por um momento, observando o jeito que Mizi ainda mantinha uma mão protetora no ombro de sua filha. De repente, um sorriso largo e genuíno iluminou o rosto da mãe de Sua.

— Ah, finalmente! — exclamou a mulher, deixando o saco de lixo no chão e aproximando-se. — Sua fala tanto de uma "garota de rosa" que eu achei que ela estava imaginando coisas. Você é muito mais bonita pessoalmente, querida!

Mizi piscou, pega totalmente de surpresa pela reação positiva.

— Mãe, por favor, entra! — Sua implorou, tentando empurrar a mãe para dentro.

— Deixe de bobagem, menina! — A mãe de Sua virou-se para Mizi. — Você quer entrar para tomar um lanche? Fiz biscoitos agora pouco.

Mizi olhou para Sua, que parecia querer cavar um buraco e se esconder, e depois para a mulher, que parecia genuinamente feliz em vê-la. A culpa que Mizi carregava, aquele peso frio no estômago, pareceu dissipar-se por um momento diante daquela hospitalidade calorosa.

— Eu adoraria, senhora — respondeu Mizi, dando um sorriso de canto que, desta vez, não tinha nada de sarcástico.

Enquanto entravam na casa, Sua sentiu uma onda de alívio e pavor. O mundo lá fora, com Ivan, Till, Luka e Hyuna, continuava sendo um labirinto de traumas e obsessões. Mas ali, dentro daquela sala com cheiro de biscoitos, Mizi não era a garota que matou a mãe ou a rebelde da escola. Ela era apenas Mizi. E Sua, pela primeira vez, sentiu que sua obsessão não era apenas um delírio solitário, mas algo que, contra todas as probabilidades, estava começando a florescer em algo real.

Mizi sentou-se à mesa, observando a interação entre Sua e a mãe. O calor daquela casa era algo que ela não sentia há anos. E, enquanto aceitava um biscoito, ela percebeu que, talvez, a redenção não viesse do esquecimento do passado, mas de encontrar alguém disposto a caminhar ao seu lado, mesmo conhecendo todas as suas sombras.

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