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Cinzas sob o Sol da Tarde

O ar na sala de aula estava pesado, saturado com o cheiro de giz e o zumbido monótono do professor de história discorrendo sobre revoluções mortas há séculos. Para os seis estudantes ali presentes, no entanto, as verdadeiras revoluções eram internas, silenciosas e muito mais perigosas.

Sua mantinha a cabeça baixa, a franja fina escondendo parcialmente seus olhos roxos. Para qualquer observador casual, ela estava absorta em suas anotações. Mas, dentro de seu estojo entreaberto, um pequeno espelho de mão estava posicionado em um ângulo cirúrgico. De três em três minutos, seus olhos se desviavam do caderno para o reflexo. Ali, emoldurada pelo plástico barato do estojo, estava Mizi. Sua observava a curva do pescoço de Mizi, o modo como o cabelo rosa com pontas azuis caía sobre o ombro e, principalmente, a cadência da sua respiração. Ninguém notava. Para o mundo, Sua era apenas a garota quieta do fundo; para si mesma, ela era a guardiã de um mapa detalhado da existência de Mizi.

Algumas fileiras à frente, a paz era um conceito inexistente. Ivan, com um pirulito de cereja no canto da boca e um sorriso que nunca alcançava a totalidade de sua expressão enigmática, estava ocupado. Com uma precisão quase artística, ele rasgava pequenos pedaços de papel, enrolava-os em bolinhas minúsculas e as lançava no cabelo cinza e bagunçado de Till.

Till não sentia. Ele estava em seu próprio universo, com os fones de ouvido escondidos sob os fios rebeldes, o volume do rock alto o suficiente para fazer seus tímpanos vibrarem. Ele encarava o professor com uma intensidade fingida, balançando a cabeça levemente no ritmo da bateria, acreditando piamente que estava enganando a todos.

Ivan sabia que ele estava ouvindo música. Sabia exatamente qual era a playlist pela forma como o pé de Till batia no chão. Cada bolinha de papel que se enroscava naqueles fios cinzas era um marco de território. "Você é meu entretenimento, Till", pensava Ivan, a doçura do pirulito misturando-se à satisfação ácida de sua obsessão.

Enquanto isso, Hyuna lutava contra a gravidade de um olhar que ela tentava evitar a todo custo. Luka estava sentado em seu lugar habitual, a postura impecável, capturando cada palavra da aula com uma facilidade irritante. Hyuna sentia o peso da presença dele. Ela tentava focar na lousa, mas sua mente traidora continuava voltando para a conversa da noite anterior, para o modo como Luka sempre parecia ter a chave para suas inseguranças.

Luka, por sua vez, não precisava olhar diretamente para Hyuna para saber que ela estava nervosa. Ele percebia a rigidez nos ombros dela, o modo como ela apertava a caneta com força excessiva. Era fascinante. Ele gostava da resistência dela; tornava o processo de desconstrução muito mais interessante.

E então, havia Mizi.

Mizi não estava ouvindo o professor, nem fingindo, nem observando ninguém. Ela estava afundada em um sono pesado, com o rosto apoiado nos braços cruzados sobre a mesa. Mas não era um sono restaurador.

Em sua mente, as cores vibrantes da sala de aula deram lugar a um cinza asfáltico. Ela tinha sete anos de novo. O cheiro de perfume barato da mãe e o odor de couro velho do carro a sufocavam.

— Você é um fardo, Mizi! — a voz da mãe ecoava, distorcida e violenta. — Por que você não pode simplesmente calar a boca?

No sonho, a mãe não estava apenas gritando; ela estava batendo. Mizi sentia o impacto do cinto, a dor aguda na pele tenra, e suas próprias mãos pequenas se levantavam em um gesto inútil de defesa.

— Desculpa, mãe... por favor, para... eu vou ser boa... — a pequena Mizi soluçava.

De repente, o cenário mudou. O som de uma buzina ensurdecedora rasgou o ar. As paredes da casa imaginária onde ela apanhava desmoronaram quando um carro preto, gigantesco e monstruoso, atravessou a alvenaria como se fosse papel. O impacto foi seco. O corpo da mãe foi arremessado para longe, e o sangue — quente, metálico e viscoso — espirrou diretamente no rosto de Mizi.

Mizi acordou com um solavanco violento. Seu coração martelava contra as costelas como um animal enjaulado.

A sala de aula continuava a mesma. O professor falava sobre tratados de paz. A maioria dos alunos nem sequer notou o susto dela. Till continuava em seu transe musical; Hyuna continuava em sua guerra interna; Ivan continuava seu bombardeio de papel.

Mas Luka virou a cabeça levemente, os olhos amarelos capturando o tremor nas mãos de Mizi. E Sua... Sua viu tudo. Pelo espelho, ela viu a dilatação das pupilas de Mizi, o suor frio brilhando em sua testa e o modo como ela perdeu a cor instantaneamente. O peito de Sua apertou. Ela queria levantar, atravessar a sala e segurar Mizi, mas a barreira invisível entre os grupos a mantinha pregada à cadeira.

Mizi não olhou para trás. Seus olhos dourados estavam vazios, fixos no relógio da parede. *Tic-tac. Tic-tac.* Cada segundo era uma condenação. Ela começou a morder as unhas, um hábito que tentava esconder, destruindo a cutícula até que um filete de sangue brotou.

O sinal tocou, um som estridente que, para Mizi, pareceu o eco da buzina do acidente.

Antes que o professor pudesse terminar a frase ou que Ivan pudesse fazer um comentário sarcástico, Mizi juntou suas coisas de qualquer jeito. Ela não esperou por Luka ou Ivan. Ela apenas saiu, quase correndo, atropelando as cadeiras no caminho.

— Mizi? — Luka chamou, sua voz controlada escondendo a surpresa.

Ela não respondeu. Seus passos ecoaram rápidos pelo corredor, em direção às escadas que levavam ao andar superior, uma área que estava em manutenção e tecnicamente proibida para os alunos durante a semana.

Sua não hesitou. Ela fechou o estojo com um estalo, ignorando os olhares de Till e Hyuna, e saiu da sala logo em seguida. Ela conhecia os refúgios de Mizi. Sabia que ela buscava o isolamento daquele andar inacabado quando a pressão se tornava insuportável, mas nunca a vira sair daquele jeito — como se estivesse fugindo de um fantasma que acabara de tocar seu ombro.

No corredor, Ivan se espreguiçou, o pirulito agora reduzido ao palito.

— O que deu nela? — perguntou Ivan, olhando para Luka. — Ela parecia que tinha visto o diabo. Ou pior, a diretora.

— Ela teve um pesadelo — respondeu Luka, ajustando a alça da mochila. — Um bem ruim.

Nesse momento, Till e Hyuna saíram da sala. Till estava ocupado tirando as bolinhas de papel do cabelo, xingando baixinho todos os palavrões que conhecia.

— Que porra é essa, Ivan? — Till rosnou, parando na frente do outro. — Você tem cinco anos de idade, seu imbecil?

Ivan sorriu, aquele sorriso calmo que fazia Till querer socar a parede.

— Só achei que seu cabelo precisava de um pouco mais de textura, Till. Você fica tão concentrado com esses fones... dá vontade de ver até onde vai sua paciência.

— Vai pro inferno! — Till deu um passo à frente, mas Hyuna o segurou pelo braço.

— Deixa pra lá, Till. Não vale a pena — disse Hyuna, a voz cansada. Ela tentou não olhar para Luka, mas era impossível. Ele estava ali, parado como uma estátua de marfim, observando-a.

— Hyuna — disse Luka, sua voz soando como seda. — Você parece tensa hoje. A aula foi assim tão difícil ou você está apenas se perdendo em pensamentos desnecessários de novo?

Hyuna sentiu o nó na garganta.

— Não é da sua conta, Luka. Vamos, Till.

Os dois se afastaram apressadamente. Ivan soltou uma risada curta.

— Você é cruel, Luka. Ela gosta de você e você a trata como um experimento de laboratório.

— E você trata o Till como um brinquedo de mastigar — rebateu Luka, sem perder a compostura. — Somos todos hipócritas aqui, Ivan. Agora, vamos. Temos que descobrir onde a Mizi se meteu antes que ela faça alguma bobagem.

***

No andar superior, o cheiro era de cimento fresco e poeira. As janelas amplas, ainda sem vidros em algumas partes, deixavam o vento entrar livremente, trazendo o som distante do tráfego da avenida.

Mizi estava sentada em um caixote de madeira, as pernas balançando no vazio. Entre seus dedos trêmulos, um cigarro aceso soltava uma fumaça fina e azulada. Ela raramente fumava; era um hábito sujo que ela guardava para os momentos em que a culpa se tornava física, uma dor que nem o sarcasmo conseguia anestesiar.

Escondida atrás de uma coluna de sustentação, Sua observava. Seu coração disparou ao ver o cigarro. Mizi nunca fumava perto deles. Mizi era a garota alegre, a que fazia piadas sujas e dormia nas aulas. Ver aquela figura frágil, envolta em fumaça e com o olhar perdido no horizonte, quebrava algo dentro de Sua.

Mizi soltou a fumaça lentamente, seus olhos dourados marejados.

— Eu sou uma merda — sussurrou Mizi para o vento. — Uma merda completa.

Ela fechou os olhos e, por um momento, o barulho dos carros lá embaixo pareceu aumentar. Ela se encolheu, o cigarro quase caindo de seus dedos. A culpa era um monstro que não envelhecia; ele continuava com sete anos, faminto e implacável.

Sua deu um passo à frente, a intenção de confortá-la queimando em seu peito, mas parou. O que ela diria? "Eu te sigo todos os dias e sei que você chora às terças-feiras"? Não. Ela era a sombra, e sombras não oferecem colo.

Mizi levou o cigarro aos lábios novamente, mas sua mão tremia tanto que ela desistiu, apagando-o no concreto áspero. Ela abraçou os próprios joelhos e começou a balançar o corpo para frente e para trás, um gesto infantil de auto-conforto que Sua registrou com uma tristeza profunda.

Lá embaixo, a vida continuava. Ivan e Luka caminhavam pelo pátio, planejando como abordar Mizi sem quebrar sua fachada. Till e Hyuna estavam sentados em um banco distante, dois náufragos tentando encontrar terra firme em meio às suas próprias obsessões e medos.

Ninguém sabia do trauma de Mizi. Ninguém sabia que, por trás do cabelo rosa e do sorriso sedutor, vivia uma criança que ainda pedia desculpas a uma mãe que não podia mais ouvi-la.

Sua encostou a cabeça na coluna fria, fechando os olhos roxos. Ela não podia curar Mizi, mas podia vigiá-la. Podia garantir que, enquanto Mizi estivesse naquele andar, ninguém a machucaria. Era uma obsessão doentia, ela sabia. Ivan tinha razão. Eles eram iguais em sua loucura, cada um orbitando um sol que prometia queimá-los.

— Eu não vou deixar você cair — sussurrou Sua, tão baixo que nem mesmo o vento ouviu.

Mizi continuou lá, olhando para o céu que começava a ganhar tons de laranja e roxo, sem saber que, nas sombras, a sua observadora mais fiel compartilhava cada grama de seu silêncio quebrado. O teatro escolar terminara por hoje, mas nos corredores vazios e nos andares em construção, as verdadeiras peças estavam apenas começando a ser encenadas.

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