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Cinzas e Confissões nas Sombras

A fumaça azulada serpenteava pelo ar frio do andar em construção, dissipando-se antes de atingir as vigas de aço expostas. Mizi, ainda sentada no caixote, sentia o metal do isqueiro esfriar em sua palma. O movimento de balanço de seu corpo era quase rítmico, uma tentativa mecânica de ninar a criança aterrorizada que gritava dentro de seu peito.

"Eu matei ela. Eu matei ela. Eu matei ela."

As palavras eram como pregos sendo martelados em sua consciência. Para abafar o som daquela voz interna, Mizi acendeu o segundo cigarro. A primeira tragada foi profunda, queimando a garganta e preenchendo os pulmões com uma toxicidade que, ironicamente, a fazia se sentir viva. Ela fechou os olhos dourados, deixando a cabeça pender para trás. O trauma era um parasita; ele se alimentava de seu silêncio, e o cigarro era a única coisa que parecia sufocar o bicho por alguns minutos.

Sua, escondida atrás da coluna, sentia o ar faltar em seus próprios pulmões. Ver Mizi naquele estado de vulnerabilidade crua era como ler uma página arrancada de um diário proibido. Ela queria memorizar cada detalhe: a forma como os lábios de Mizi tremiam ao soltar a fumaça, a palidez de seus dedos, o brilho úmido em seus olhos. Era doloroso, mas para Sua, a dor de Mizi era um segredo que agora elas compartilhavam, mesmo que Mizi não soubesse.

De repente, a vibração de um celular cortou o silêncio sepulcral do andar. Mizi deu um sobressalto, quase derrubando o cigarro. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas da mão, respirou fundo para estabilizar a voz e atendeu.

— Oi... — A voz de Mizi saiu rouca, mas ela forçou um tom mais leve. — Não, eu tô bem. Só... estudando num lugar quieto.

Sua apurou os ouvidos, inclinando-se para frente. O coração batia tão forte que ela temia que Mizi pudesse ouvi-lo.

— É, eu sei. Eu também senti sua falta hoje — continuou Mizi, e um pequeno sorriso, genuíno e melancólico, surgiu em seus lábios. — Tá bom, eu passo aí mais tarde.

Houve uma pausa. Mizi olhou para o horizonte, onde o sol morria em tons de brasa.

— Eu também te amo. Tchau.

O mundo de Sua desmoronou em um microssegundo.

"Eu te amo?"

Aquelas três palavras ecoaram nas paredes de concreto como uma sentença de morte. Sua sentiu um frio glacial percorrer sua espinha. Quem era? Quem poderia ser o destinatário daquele afeto que ela tanto cobiçava? Ela seguia Mizi. Ela conhecia sua rotina, sabia seus horários, sabia até que marca de chiclete ela preferia. Como algo tão monumental quanto um relacionamento — ou um amor — poderia ter escapado de seu radar obsessivo?

O pânico começou a subir pela garganta de Sua como bile. A ideia de que Mizi pertencia a outra pessoa, de que havia um espaço na vida daquela garota rosa que ela nunca conseguiria ocupar, fez sua visão escurecer. Em um momento de desequilíbrio emocional e físico, Sua recuou um passo, esquecendo-se completamente de onde estava.

O calcanhar de seu sapato bateu com força em uma caixa de ferramentas de metal deixada pelos operários. O som foi ensurdecedor no silêncio do prédio vazio. *CLANG.*

Mizi congelou. Ela desligou o celular instantaneamente e se levantou do caixote em um movimento fluido, a postura descontraída desaparecendo para dar lugar a uma tensão defensiva.

— Quem está aí? — perguntou Mizi, a voz agora afiada como uma navalha.

Sua ficou estática, o rosto pálido fundindo-se com as sombras da coluna. Ela não conseguia respirar.

— Aparece logo, porra! Eu sei que tem alguém aí! — gritou Mizi, caminhando em direção ao som.

Sem saída, Sua deu um passo hesitante para fora do esconderijo. Suas mãos tremiam e ela evitava o olhar de Mizi.

— Sou eu... — murmurou Sua, a voz quase inaudível.

Mizi parou abruptamente. Seus olhos dourados faíscaram de surpresa, que rapidamente se transformou em algo mais sombrio.

— Sua? O que caralho você está fazendo aqui em cima?

— Eu... eu perdi um caderno — mentiu Sua, a desculpa saindo trêmula e patética. — Achei que pudesse ter deixado cair por aqui quando vim ver a vista mais cedo.

Mizi arqueou uma sobrancelha. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. O cheiro de cigarro e o perfume doce de Mizi envolveram Sua, entorpecendo seus sentidos.

— Um caderno? — Mizi soltou uma risada seca, sem nenhum humor. — No andar em construção? No final do corredor onde ninguém vem? Você é uma péssima mentirosa, Sua.

Mizi continuou avançando até que Sua não teve para onde recuar, as costas batendo contra a parede fria de concreto. Mizi colocou as duas mãos na parede, uma de cada lado da cabeça de Sua, encurralando-a. A diferença de altura e a intensidade do olhar de Mizi faziam Sua se sentir minúscula, mas, ao mesmo tempo, eletrizada.

— Há quanto tempo você está aqui me vigiando? — Mizi rosnou, o rosto a centímetros do de Sua.

— Eu não estava... — Sua tentou desviar o olhar, mas Mizi segurou seu queixo com uma mão, forçando-a a encará-la.

— Não minta para mim de novo. Você viu, não viu? Viu eu fumando, viu eu... — Mizi hesitou por um segundo, a vulnerabilidade passando por seus olhos antes de ser substituída por uma fúria fria. — Escuta aqui, sua esquisita. Se você abrir a boca para falar qualquer coisa do que viu ou ouviu aqui, eu acabo com você. Entendeu? Eu vou transformar a sua vida num inferno maior do que ela já parece ser.

Para qualquer outra pessoa, aquela ameaça seria aterrorizante. O tom de Mizi era agressivo, a pressão de seus dedos no queixo de Sua era firme e o olhar era de puro desprezo. Mas para Sua, aquilo era o ápice. Mizi estava tocando nela. Mizi estava olhando apenas para ela. A proximidade era tamanha que Sua conseguia sentir o calor do hálito de Mizi em seus lábios.

O coração de Sua disparou, não de medo, mas de uma adoração doentia e avassaladora. Ela queria fechar os olhos e se perder naquele momento. Queria que Mizi a apertasse mais forte, que continuasse a gritar com ela, desde que não se afastasse. Sua teve que morder o interior da bochecha para não avançar e beijar Mizi ali mesmo, um impulso que quase a venceu.

— Entendeu, porra? — Mizi reforçou, sacudindo-a levemente.

— Entendi — respondeu Sua, a voz falhando. — Eu não vou contar. Para ninguém.

Mizi a soltou bruscamente, como se o contato de repente a enojasse. Ela pegou sua mochila no chão e jogou-a sobre o ombro.

— Ótimo. Fica longe de mim — disse Mizi, dando as costas e caminhando em direção às escadas sem olhar para trás.

Sua permaneceu encostada na parede, as pernas bambas. Ela esperou até que o som dos passos de Mizi desaparecesse completamente. Só então ela se permitiu escorregar até o chão, cobrindo o rosto com as mãos. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios. O pânico sobre o "eu te amo" ainda estava lá, uma ferida aberta, mas a sensação da pele de Mizi contra a sua era um bálsamo corrosivo. Ela estava em transe, uma mistura de agonia e êxtase que só alguém com sua obsessão poderia compreender.

***

Lá embaixo, perto dos armários principais, Ivan e Luka estavam encostados na parede, observando o fluxo de alunos que saíam para o pátio. Ivan girava uma caneta entre os dedos com uma destreza irritante, enquanto Luka checava algumas mensagens no celular, a expressão indecifrável.

Quando Mizi apareceu no pé da escada, sua fachada já estava reconstruída. O sarcasmo estava de volta em seus olhos, embora a palidez ainda denunciasse o estresse.

— Olha só quem resolveu descer das nuvens — comentou Ivan, abrindo um sorriso largo ao vê-la se aproximar. — Onde você se meteu, Mizi? Luka já estava quase chamando o corpo de bombeiros.

— Vai se foder, Ivan — respondeu Mizi, batendo a porta de seu armário com força desnecessária. — Eu só precisava de um tempo longe da cara de vocês. Vocês são um porre.

Luka guardou o celular e olhou para ela com atenção, notando o leve cheiro de fumaça que emanava de suas roupas.

— Você parece melhor — disse Luka, sua voz calma e manipuladora agindo como um sedativo. — O descanso fez bem?

— Fez maravilhas — mentiu Mizi, forçando um sorriso sedutor. — Agora, vamos sair daqui logo. Esse lugar me dá náuseas.

Ivan riu, passando o braço pelos ombros de Mizi, que se esquivou imediatamente.

— Grossa. Mas tudo bem, eu te perdoo porque você é a única pessoa interessante nesse deserto de mediocridade.

Enquanto o trio se afastava, Sua saía do prédio pelas sombras laterais. Ela caminhava mecanicamente, a mente trabalhando a mil por hora. Ela precisava descobrir quem era a pessoa no telefone. Precisava saber quem ousava amar Mizi além dela.

Seus passos a levaram, quase por instinto, à biblioteca. O silêncio do lugar costumava acalmá-la, mas hoje parecia apenas um vácuo. Ao entrar, ela avistou Till e Hyuna sentados em uma mesa ao fundo, cercados por pilhas de livros que provavelmente não estavam lendo.

Hyuna gesticulava com as mãos, falando algo em voz baixa, enquanto Till tinha a cabeça apoiada na mesa, parecendo exausto.

— ...eu estou dizendo, Till, ele faz de propósito! — Hyuna dizia, a frustração evidente em seu tom. — Ele joga essas iscas e eu, como uma idiota, mordo todas.

— O Luka é um merda, Hyuna. Já te falei isso mil vezes — resmungou Till, a voz abafada pela madeira da mesa. — E o Ivan é outro. Aquele desgraçado colou papel no meu cabelo a aula inteira. Eu vou matar ele, eu juro por Deus.

Sua se aproximou da mesa, sentando-se sem pedir licença. O silêncio dela era habitual, mas havia algo diferente em sua aura hoje — uma vibração de instabilidade que fez Hyuna parar de falar.

— Sua? — Hyuna perguntou, franzindo a testa. — Você tá legal? Tá mais pálida que o normal.

Sua olhou para as próprias mãos sobre a mesa.

— Mizi tem alguém — disse ela, a voz desprovida de emoção, mas carregada de um peso sombrio.

Till levantou a cabeça, os olhos verdes piscando de confusão.

— O quê? Do que você tá falando?

— Ela recebeu uma ligação. Ela disse "eu te amo" — continuou Sua, ignorando a pergunta de Till. — Eu preciso saber quem é.

Hyuna trocou um olhar preocupado com Till. Eles sabiam que Sua tinha uma queda por Mizi, mas a intensidade com que ela falava — o brilho maníaco nos olhos roxos — era um sinal de alerta que eles costumavam ignorar para manter a paz no grupo.

— Sua, calma — disse Hyuna, tentando soar razoável. — A Mizi é bonita, sociável... é normal que ela tenha alguém. Talvez seja um parente? Ou uma amiga de infância?

— Não era um parente — afirmou Sua categoricamente. — O tom de voz dela mudou. Ela sorriu. Ela nunca sorri assim para o Ivan ou para o Luka.

Till soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira.

— Cara, por que todo mundo nessa escola é obcecado por alguém que não presta ou que não tá nem aí? Olha pra gente. Você fissurada na Mizi, a Hyuna sendo manipulada pelo loiro de farmácia, e eu tendo que aguentar o psicopata do Ivan me perseguindo.

— Não é a mesma coisa, Till — disse Sua, levantando-se abruptamente. — Vocês não entendem.

— Onde você vai? — perguntou Hyuna.

— Vou para casa — mentiu Sua.

Na verdade, ela não ia para casa. Ela ia para o único lugar onde se sentia no controle: seu quarto, onde as paredes estavam cobertas de fotos e as gavetas cheias de segredos. Ela ia revisar cada detalhe, cada conversa ouvida nos corredores, cada interação de Mizi nos últimos meses.

Ela ia caçar aquele "eu te amo" até descobrir a verdade.

Enquanto Sua saía da biblioteca, Hyuna olhou para Till com um suspiro.

— A gente devia fazer alguma coisa, não devia? Ela parece que vai explodir.

Till fechou os olhos, a imagem de Ivan sorrindo para ele vindo à mente sem permissão.

— A gente não consegue nem salvar a gente mesmo, Hyuna. Como vamos salvar a Sua?

O silêncio voltou a reinar na biblioteca, pesado e sufocante. Seis jovens, divididos em grupos, mas unidos pela mesma teia invisível de segredos e desejos distorcidos. E no centro de tudo, Mizi caminhava para fora da escola, sentindo o peso do celular no bolso e a lembrança da mãe sussurrando em seus ouvidos, sem saber que a tempestade que ela tanto temia estava apenas começando a ganhar força.

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