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Premissa

O Banquete da Melancolia

Dois dias haviam se passado desde o incidente na calçada, e a tensão silenciosa que se instalara entre Mizi e Sua era quase palpável, pelo menos para uma delas. Mizi e Luka continuavam sendo o centro das atenções à distância; a beleza exótica da garota e a inteligência reservada do irmão criavam uma barreira natural que impedia os outros alunos de se aproximarem demais. Eles eram uma unidade fechada, dois astros novos em uma órbita que ninguém ainda ousava cruzar.

A aula de Educação Física estava em pleno vapor no ginásio. O som das bolas de basquete batendo contra o verniz do chão e os gritos de Till — que levava qualquer competição a sério demais — ecoavam pelas vigas do teto. O professor, um homem distraído que parecia mais interessado em seu cronômetro do que nos alunos, tateou os bolsos com uma careta.

— Droga... esqueci o apito no depósito. Sua! — O professor chamou, avistando a figura pequena e quieta sentada no banco. — Você pode ir buscar para mim? Está na caixa azul, logo na entrada.

Sua apenas assentiu. Ela não se importava em ser a "faz-tudo" do professor; qualquer desculpa para sair daquele barulho e ficar sozinha com seus pensamentos era bem-vinda. Ela se levantou, caminhando com os ombros levemente encolhidos, e saiu do ginásio em direção aos fundos do bloco esportivo.

O corredor que levava ao depósito era mal iluminado e cheirava a mofo e borracha velha. Sua empurrou a porta pesada de metal, que rangeu em protesto.

— Professor? — Ela murmurou por hábito, embora soubesse que ele estava na quadra.

O que ela encontrou, no entanto, não foi uma sala vazia repleta de redes de vôlei e cones.

O cheiro a atingiu primeiro. Não era o aroma doce e melancólico que Mizi sentia em Sua; era o cheiro cru, metálico e avassalador de um abatedouro. O depósito parecia ter sido transformado em um cenário de pesadelo.

No centro da sala, entre colchonetes empilhados, Mizi estava agachada. Seu uniforme escolar, outrora impecável, estava manchado de um carmesim profundo. Seus cabelos rosa pareciam mais escuros, grudados no rosto pelo sangue. Em suas mãos, ela segurava o que restava de uma garota — alguém que Sua vagamente reconhecia de outra turma, mas que agora era apenas uma massa estraçalhada de carne e ossos expostos.

Mizi estava comendo.

O som de mastigação parou. Sua sentiu o mundo girar. Seus instintos gritaram para que ela corresse, para que gritasse até rasgar a garganta, mas seu corpo estava paralisado pelo choque. Seus olhos se arregalaram ao ver o rosto de Mizi virar-se em sua direção.

Os olhos dourados da novata brilhavam com uma intensidade desumana, as pupilas verticais como as de um predador. Seus lábios estavam tingidos de vermelho, e quando ela sorriu, Sua viu as fileiras de dentes afiados, brilhando como navalhas sob a luz fraca.

Sua finalmente recuperou o controle das pernas e girou para fugir, mas a velocidade de Mizi era sobrenatural. Antes que Sua pudesse dar o segundo passo, uma mão fria e forte agarrou seu ombro e a arremessou contra a parede de metal do depósito.

O impacto expulsou o ar de seus pulmões. Antes que pudesse inspirar, Mizi pressionou a palma da mão contra a boca de Sua, prendendo-a contra a parede.

— Shhh... — sussurrou Mizi. Sua voz não era mais a de uma adolescente brincalhona. Era profunda, vibrante, carregada de um eco milenar. — Se você gritar, vai estragar a sobremesa.

Sua tremia violentamente, os olhos roxos fixos no rosto manchado de sangue à sua frente.

— Sabe o que é mais engraçado? — Mizi continuou, aproximando o rosto do pescoço de Sua, inalando o terror que emanava dela. — Você pode contar para quem quiser. Pode sair daqui gritando o nome dela. Mas ninguém vai se lembrar. Quando um yokai como eu devora um humano por completo, a existência dele é apagada da trama deste mundo. Nem a família, nem os amigos... ninguém vai saber que ela sequer nasceu. É como se ela nunca tivesse existido.

Mizi retirou a mão da boca de Sua, mas permaneceu perigosamente próxima.

— Eu sou um yokai, Sua. E você... — Mizi passou a língua pelos dentes afiados, deixando um rastro de sangue nos próprios lábios. — Você cheira tão bem que eu mal consigo me controlar. Eu estou doida para te comer. Quero rasgar esse seu ventre pálido, tirar suas tripas para fora e sentir o calor do seu sangue enquanto eu mastigo cada pedacinho do seu coração.

Sua ficou estática. O medo estava lá, sim, gélido e paralisante. Mas, conforme as palavras cruéis de Mizi entravam em sua mente, algo diferente começou a florescer no peito de Sua. Uma aceitação mórbida.

Ela olhou para o corpo estraçalhado no chão e depois para Mizi. Morrer era algo ruim, era o que todos diziam. Mas, para Sua, a vida era um peso constante. A ideia de desaparecer completamente, de ter sua existência apagada para que nem Ivan tivesse que carregar a dor de sua perda, parecia... libertadora.

Mizi, que esperava ver o colapso total da garota, franziu a testa. O cheiro de Sua mudou. O medo não desapareceu, mas foi submerso por uma resignação melancólica e profunda.

— O que foi? — perguntou Mizi, a voz voltando a um tom mais humano, mas ainda afiada. — Você não vai implorar? Não vai chorar?

A pergunta de Mizi agiu como um gatilho. A imagem do carro caindo no penhasco, o som da água invadindo seus pulmões, o rosto desesperado de Ivan... tudo voltou como uma onda avassaladora. Sua começou a arfar. O ar parecia não chegar aos seus pulmões.

— Eu... eu... — Sua tentou falar, mas a falta de ar a impediu. Era um ataque de pânico, um dos piores que já tivera.

Ela viu o apito do professor caído perto da caixa azul. Com um movimento trêmulo e desesperado, ela se abaixou, pegou o objeto e saiu correndo do depósito, tropeçando nos próprios pés.

Mizi não a seguiu. Ela ficou parada no meio do sangue, observando a porta bater.

— Humana estranha — murmurou Mizi, voltando ao normal, seus dentes e olhos retomando a aparência humana. — Ela realmente queria que eu terminasse o serviço?

Minutos depois, Sua entregou o apito ao professor com as mãos ainda trêmulas. Ela não disse nada sobre o sangue, sobre Mizi ou sobre a garota morta. Sua mente estava em frangalhos. Ela se sentou na arquibancada, o mais longe possível de todos, abraçando os próprios joelhos.

Mizi voltou para a quadra pouco depois. Ela estava limpa. Não havia um pingo de sangue em seu uniforme, e seu cabelo estava perfeitamente arrumado. Era como se o massacre no depósito tivesse sido apenas uma alucinação de Sua.

O professor deu o restante da aula como tempo livre. Ivan, sempre energético, começou a provocar Till, tentando roubar a bola de basquete dele. Luka, para a surpresa de alguns, acabou sentado perto de Hyuna, conversando sobre algo que parecia ser o currículo escolar, embora Hyuna estivesse claramente tentando tornar a conversa mais leve.

Mizi caminhou calmamente pelo ginásio. Ela ignorou o irmão e os outros, dirigindo-se diretamente para a arquibancada onde Sua estava isolada.

— Oi — disse Mizi, sentando-se ao lado dela como se fossem melhores amigas. — O tempo está bom hoje, não acha?

Sua olhou para ela com olhos vazios. O contraste entre a Mizi que devorava alguém e a Mizi que puxava assunto casual era aterrorizante.

— ...Por que você está falando comigo? — perguntou Sua, a voz fraca.

— Porque eu gosto de você — respondeu Mizi com um sorriso brilhante e falso. — E porque você é a única que sabe quem eu sou de verdade. Isso nos torna próximas, não acha?

Sua não respondeu. Ela voltou a olhar para o chão, desejando que o mundo simplesmente parasse de girar.

Ao fim das aulas, o movimento nos corredores era o de sempre. Luka teve que passar na diretoria para resolver as últimas burocracias da transferência, deixando Mizi esperando na saída principal.

Mizi encostou-se no pilar da entrada, observando os alunos passarem. Ela viu Sua se aproximando dos armários. A garota de cabelos pretos tinha a mesma expressão melancólica, o mesmo olhar perdido que parecia carregar séculos de tristeza.

Mizi, um ser que vivia pelo prazer e pelo instinto, achou aquela tristeza fascinante. Era engraçado como alguém tão jovem podia estar tão ansioso para deixar de existir. Ela soltou um riso baixo, um som curto e quase terno, enquanto observava Sua fechar o armário e caminhar em direção à saída sem olhar para os lados.

Mais tarde, na casa de Ivan e Sua, o silêncio era a regra. Os dois moravam sozinhos em um apartamento pequeno, mas bem cuidado, sustentados por uma herança e pelo seguro de vida dos pais. A ausência de adultos tornava o lugar um santuário de memórias dolorosas.

Ivan estava na sala, deitado no sofá com o celular no ouvido.

— ...Eu estou te dizendo, Hyuna, o Till quase chorou quando eu fiz a cesta — Ivan ria, sua voz sarcástica preenchendo o vazio da casa. — Ele é sensível demais para esse esporte.

Sua estava em seu quarto, deitada na cama com as luzes apagadas. Ela conseguia ouvir a voz do irmão através da porta, um lembrete constante de que ele ainda estava ali, tentando manter as aparências.

Ela fechou os olhos e a imagem de Mizi no depósito voltou com força total. O sangue, os dentes afiados, a promessa de ser devorada.

Pela primeira vez em anos, Sua sentiu uma centelha de algo que não era apenas dor. Era uma expectativa sombria. Se Mizi cumprisse o que disse, se ela realmente a matasse e apagasse sua existência, a dor finalmente pararia. Ivan não sofreria, porque não se lembraria de que teve uma irmã. O mundo continuaria girando, e o peso que Sua carregava seria finalmente dissolvido no estômago de um monstro.

"Finalmente", pensou Sua, sentindo uma lágrima solitária escorrer pelo rosto antes de adormecer. "Eu vou ser livre."

Enquanto isso, em algum lugar da cidade, Mizi olhava para a lua da janela de seu quarto, sentindo o cheiro da melancolia de Sua flutuando no ar noturno. Ela sorriu. O banquete estava sendo preparado, e o tempero da tristeza estava ficando perfeito.

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