Premissa
O Gosto Metálico da Redenção
O sol da manhã ainda não havia vencido a neblina que cobria a cidade quando Sua se levantou. O apartamento estava mergulhado naquele silêncio sepulcral que ela tanto conhecia, interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Ivan no quarto ao lado. Ela se moveu como um fantasma pela cozinha, preparando o café da manhã de forma mecânica. Seus movimentos eram precisos, treinados por anos de uma rotina que servia como uma âncora para não flutuar para longe da realidade.
Enquanto cortava uma maçã, sua mente divagou. Ela pensou nos olhos de Mizi. Dourados, profundos e famintos. O pensamento fez sua mão vacilar por um milésimo de segundo. A lâmina afiada da faca de cerâmica deslizou pelo fruto e encontrou a ponta de seu dedo indicador.
— Droga... — sussurrou ela, observando a gota de sangue vermelho-vivo brotar da pele pálida.
Não era um corte profundo, mas o sangue insistia em escorrer, manchando a tábua de madeira. Sua sentiu uma pontada estranha no peito. Ela não sentia dor física com a mesma intensidade que os outros; o trauma antigo parecia ter anestesiado seu sistema nervoso. Ela apenas limpou o dedo no papel toalha de qualquer jeito, sem se dar ao trabalho de procurar um curativo, e continuou o que estava fazendo. O cheiro ferroso do próprio sangue pairou no ar por um momento antes de ser abafado pelo aroma do café.
Mal sabia ela que, do outro lado da cidade, Mizi havia acabado de acordar com um solavanco, as narinas dilatadas.
***
No corredor do colégio, o ambiente estava caótico como sempre, mas para Mizi, o mundo havia se reduzido a um único rastro. Um fio invisível e inebriante que guiava seus instintos.
— Mizi, você está me ouvindo? — Luka perguntou, ajustando os óculos enquanto caminhava ao lado da irmã. — Eu estava dizendo que o professor de história quer os ensaios até sexta-feira e... Mizi?
Mizi não respondeu. Ela estava estática, com a cabeça levemente inclinada para o lado. O cheiro de Sua, que normalmente já era atraente como um banquete de luxo, agora estava... transformado. O corte no dedo da garota havia liberado uma fragrância que, para os sentidos de um yokai, era o equivalente a um farol no meio do oceano. Era doce, metálico e carregado com aquela melancolia viciante que só Sua possuía.
— Eu já volto, Luka — disse Mizi, sem desviar o olhar do final do corredor, onde a silhueta baixa de Sua acabara de aparecer.
— A aula vai começar em cinco minutos! — protestou Luka, mas Mizi já havia desaparecido entre os alunos.
Sua caminhava com a mochila pesada, sentindo o olhar de alguém antes mesmo de ver quem era. Quando virou o rosto, encontrou Mizi parada a poucos metros. A garota de cabelos rosa não estava sorrindo. Seu rosto estava sério, quase predatório, e seus olhos dourados pareciam rastreadores fixos na mão esquerda de Sua, onde o pequeno corte ainda pulsava sob a pele.
Mizi passou a língua pelos lábios de forma lenta, um gesto carregado de uma fome que não era humana.
Sua sentiu o coração falhar uma batida. O medo subiu por sua espinha, mas, logo em seguida, veio aquele alívio doentio. "Ela vai fazer agora?", pensou Sua. "Vai ser aqui, no meio de todo mundo?".
O sinal tocou, estridente, dispersando a multidão. Os alunos correram para suas salas, mas Sua e Mizi permaneceram imóveis.
Luka entrou na sala 3-A e suspirou ao ver a cadeira da irmã vazia. Ele já estava acostumado com as escapadas de Mizi; ela sempre fora um espírito livre e rebelde. Ivan, por outro lado, franziu o cenho ao notar que a cadeira de Sua também estava vaga. Sua era pontual, quase robótica em sua disciplina.
— Estranho... — murmurou Ivan, girando uma caneta entre os dedos. — Será que ela passou na diretoria? Ou o professor de educação física pediu outro favor?
Ele tentou se convencer de que era apenas um atraso bobo, mas uma inquietação começou a roer o fundo de sua mente.
Enquanto isso, em uma parte isolada do prédio, Mizi segurou o pulso de Sua com uma força desnecessária e a arrastou para dentro de uma sala de limpeza estreita. O lugar cheirava a desinfetante e poeira. Mizi trancou a porta e empurrou Sua contra uma prateleira de baldes.
— Por que você quer tanto morrer? — perguntou Mizi, a voz rouca, quase um rosnado.
Sua tentou desviar o olhar, a respiração começando a ficar curta. O espaço era pequeno demais, a presença de Mizi era grande demais.
— Eu não... eu não sei do que você está falando — mentiu Sua, embora sua voz trêmula entregasse tudo.
— Não minta para mim — disse Mizi, dando um passo à frente, encurralando a garota. — Eu sinto o cheiro em você. Não é só esse sangue delicioso no seu dedo. É o cheiro de alguém que já desistiu. Por que uma coisinha tão apetitosa como você quer virar cinzas?
As perguntas de Mizi eram insensatas, cruéis em sua objetividade. Sua sentiu o início de um ataque de pânico. O peito subia e descia freneticamente. As paredes da sala de limpeza pareciam estar se fechando, transformando-se nas paredes de metal de um carro submerso.
— Para... por favor — implorou Sua, começando a hiperventilar. — Você não entende... o barulho... a água...
Mizi observou o estado da garota. Para um yokai, a agonia humana costumava ser divertida, mas havia algo na vulnerabilidade de Sua que a irritava de uma forma nova. Ela não fez por bondade, ou pelo menos foi o que disse a si mesma, mas agiu por puro instinto de posse. Aquela presa era dela, e não poderia quebrar antes da hora.
Mizi envolveu Sua em um abraço apertado, forçando a cabeça da garota contra seu ombro. Com a outra mão, começou a fazer um carinho lento nos cabelos pretos e curtos.
— Respira, Sua. Respira comigo — ordenou Mizi, suavizando o tom de voz. — Inspira... expira... Está tudo bem. Eu estou aqui. Nada vai te machucar se eu não permitir.
Sua se agarrou ao uniforme de Mizi, enterrando o rosto no pescoço da garota. O cheiro de Mizi — uma mistura de flores silvestres e algo antigo, como terra úmida — começou a acalmá-la. Aos poucos, a hiperventilação cessou, substituída por soluços baixos.
Quando Sua finalmente conseguiu estabilizar a respiração, Mizi se afastou um pouco, mas ainda mantendo as mãos em seus ombros.
— Agora, me conte — disse Mizi. — Se você vai ser meu lanche, eu quero saber o que estou comendo. Por que o vazio?
Sua olhou para os próprios pés. Ela sabia que Mizi não era humana, que ela era um monstro que provavelmente não se importava com sentimentos, e talvez fosse por isso que era mais fácil falar com ela do que com Ivan.
— Meus pais... — começou Sua, a voz quase inaudível. — Teve um acidente. O carro caiu de um penhasco. Eu estava lá dentro. Eu senti a água gelada entrando, o silêncio... o Ivan me tirou de lá, mas eles não voltaram. Desde aquele dia, parece que uma parte de mim ficou lá no fundo. Eu sinto que estou ocupando um espaço que não me pertence. Se eu sumir... se você me apagar... ninguém vai sofrer. O Ivan vai ser livre da responsabilidade de cuidar de uma irmã quebrada.
Mizi inclinou a cabeça, processando a informação com uma lógica fria.
— Então você quer morrer porque se sente culpada por estar viva? — Mizi soltou uma risada curta, desprovida de humor. — Que desperdício de sangue. Você acha que seus pais gostariam disso? Que o seu irmão ficaria feliz? Humanos são tão complicados... se agarram ao passado como se fosse uma âncora, esperando que ela os afogue.
Sua ia responder, mas Mizi já não estava mais ouvindo. O cheiro do corte no dedo de Sua, agora intensificado pelo calor do corpo durante o ataque de pânico, tornou-se insuportável para os instintos da yokai.
Sem aviso, Mizi pegou o pulso de Sua. Seus olhos brilharam em um dourado quase incandescente e, em um movimento rápido que lembrou as lendas de vampiros que Sua vira na TV, Mizi cravou os dentes no pulso da garota, logo abaixo da palma da mão.
Sua soltou um arquejo de choque. Não foi uma mordida profunda para matar, mas foi o suficiente para que Mizi bebesse um pouco do sangue que pulsava ali. A sensação foi indescritível; um calor agudo seguido por uma dormência estranha que se espalhou pelo braço de Sua.
Mizi se afastou após alguns segundos, lambendo os lábios com uma satisfação evidente. Um rastro de sangue escorria pelo canto de sua boca.
— Você é realmente deliciosa, Sua — murmurou Mizi, a voz carregada de uma luxúria predatória. — O gosto da sua tristeza é o melhor tempero que já provei em séculos.
Sua estava em transe, olhando para as marcas de dentes em seu pulso. Ela não sabia se deveria sentir medo ou se aquela frase — "você é deliciosa" — carregava um duplo sentido que fazia seu coração acelerar por motivos que não tinham nada a ver com o pânico.
— Fique aqui — ordenou Mizi, voltando à sua aparência humana normal em um piscar de olhos. — Não saia.
Sua permaneceu sentada no chão da sala de limpeza, encostada nos baldes, sentindo o pulso latejar. Alguns minutos depois, Mizi retornou com um rolo de faixa e alguns antissépticos que claramente haviam sido "emprestados" da enfermaria.
Mizi se ajoelhou na frente de Sua e pegou seu pulso com delicadeza. Antes de enfaixar, ela fez algo que fez Sua estremecer: Mizi passou a língua sobre o ferimento, lambendo o sangue restante. A saliva de um yokai tinha propriedades curativas, e Sua sentiu o ardor desaparecer instantaneamente, substituído por uma sensação de frescor. Mizi a tratava como algo precioso, como uma iguaria que precisava ser preservada.
Pela primeira vez em anos, Sua sentiu-se... vista. Não como uma vítima, não como uma órfã, mas como algo que alguém desejava intensamente.
Mizi enrolou a faixa com habilidade, cobrindo as marcas de dentes.
— Pronto — disse Mizi, dando um tapinha leve no curativo. — Agora vá para a aula. Eu vou matar o resto do dia. Ver esses humanos fingindo que entendem de matemática me dá sono.
Sua se levantou, limpando a saia. Ela olhou para Mizi uma última vez antes de sair.
— Por que você me ajudou com o ataque de pânico se só quer me comer? — perguntou Sua na porta.
Mizi sorriu, um sorriso que desta vez parecia quase real, embora ainda perigoso.
— Eu não gosto de carne estragada pelo estresse. Quero você no ponto certo.
Sua voltou para a sala de aula no meio do segundo período. Ivan a encarou com preocupação, notando a faixa em seu pulso, mas ela apenas balançou a cabeça, sinalizando que explicaria depois. Ela se sentou e abriu o caderno, mas não conseguia se concentrar em uma única palavra do professor.
Ela olhava para a faixa branca em seu braço. O medo ainda estava lá, mas agora havia algo mais. Uma ansiedade sombria. Ela queria ser livre, queria que a dor parasse... mas a forma como Mizi a olhara, como se ela fosse a coisa mais valiosa do mundo, mexera com algo profundo em seu ser.
Se morrer significava ser consumida por aquela intensidade dourada, talvez o fim não fosse tão terrível assim. Sua tocou o curativo, sentindo o calor da pele de Mizi ainda presente ali, e pela primeira vez, o vazio em seu peito não pareceu tão frio.