Premissa
O Banquete dos Artifícios
O pátio do Colégio Anakt estava estranhamente silencioso naquela manhã de terça-feira. Talvez fosse a ausência de Till e Ivan, que haviam decidido faltar para resolver alguma confusão em um estúdio de ensaio, ou talvez fosse apenas o peso da atmosfera que parecia se condensar ao redor dos alunos.
Luka estava sentado em um dos bancos de cimento, revisando algumas anotações de física, quando Hyuna se aproximou com seu passo saltitante e um sorriso que irradiava uma energia quase excessiva para aquele horário.
— Bom dia, nerd número um! — Hyuna exclamou, sentando-se ao lado dele sem pedir licença. — Onde está sua metade rosa e barulhenta hoje?
Luka ajustou os óculos, sem tirar os olhos do tablet.
— Mizi disse que tinha "assuntos pendentes" no telhado. Provavelmente está dormindo sob o sol. Ela tem essa mania de lagarto.
Hyuna soltou uma risadinha, mas logo sua expressão mudou para algo mais conspiratório. Ela se inclinou, baixando o tom de voz.
— Escuta, Luka... eu não sabia que sua irmã era tão rápida. Quero dizer, a Sua é um túmulo, mas a Mizi? Elas estão realmente tendo um rolo?
Luka finalmente travou o tablet e olhou para Hyuna, sua expressão de confusão sendo genuína e quase cômica.
— Um rolo? Do que você está falando, Hyuna? Mizi e Sua mal se conhecem. Elas se transferiram agora.
Hyuna arregalou os olhos azuis, surpresa.
— Você não sabe?! Vimos as duas de mãos dadas no sábado! Mizi até deu um selinho nela na frente de todo mundo para provar. Achei que você, sendo o irmão protetor, estivesse a par do novo romance da família.
Luka piscou várias vezes, o cérebro processando a informação com uma lentidão atípica. Mizi... e Sua? A garota mais espontânea e perigosa que ele conhecia com a alma mais melancólica e silenciosa da escola?
— Ela não me disse nada — murmurou Luka, ajeitando os óculos novamente, agora com uma ponta de irritação racional. — Mizi é imprevisível, mas isso... isso não faz sentido nenhum.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, Sua estava sentada sob a sombra de uma árvore, olhando para o nada. Ela sentia o peso da presilha branca em seu cabelo, o objeto parecendo queimar contra seu couro cabeludo. Sua mente era um turbilhão de imagens: o sangue na cabana, o gosto metálico, a promessa de morte e o beijo de mentira na rua. Ela estava mergulhada naquela depressão de sempre, questionando por que ainda acordava, por que ainda respirava.
Uma sombra cobriu seu rosto. Ela não precisou olhar para cima para saber quem era. O cheiro de flores e algo selvagem a precedia.
— Você parece um cadáver que esqueceu de deitar — a voz de Mizi soou, debochada e vibrante.
Sua levantou os olhos roxos, encontrando o sorriso predatório da yokai.
— O que você quer, Mizi?
— Quero que você saia comigo hoje à noite — Mizi disse, sentando-se ao lado dela e invadindo seu espaço pessoal sem a menor cerimônia. — Tem um festival perto do santuário. Muita comida, luzes e humanos agindo como idiotas. Vai ser divertido.
Sua franziu a testa, a confusão nublando seus pensamentos melancólicos.
— Isso é... um encontro? — Ela perguntou, a palavra soando estranha em sua boca.
Mizi soltou uma gargalhada curta, jogando a cabeça para trás.
— Um encontro? Porra, Sua, você é muito egocêntrica! Eu só quero cuidar bem da minha "presa". Se sua pressão cair de novo por causa dessa sua mania de não comer, seu sangue vai ficar com gosto de água choca. Eu quero você saudável para quando eu decidir te devorar.
Sua sentiu um aperto no peito, uma mistura de alívio e uma decepção que ela se recusava a admitir.
— Entendi. É apenas manutenção de gado.
— Exatamente — Mizi piscou, levantando-se e oferecendo a mão. — Esteja pronta às sete. E use a presilha. Fica bonitinha em você.
***
A noite do festival estava abafada, carregada com o cheiro de fritura e incenso. As lanternas de papel criavam um rastro de luz avermelhada que guiava a multidão. Sua caminhava ao lado de Mizi, sentindo-se pequena e deslocada. Ela usava um vestido simples e, como ordenado, a presilha de flor branca.
Mizi, por outro lado, parecia estar em seu elemento. Ela vestia uma jaqueta escura por cima do uniforme e tinha um cigarro apagado entre os lábios, apenas pelo prazer de parecer rebelde. Ela comprou uma maçã do amor para Sua, entregando-a com uma ordem silenciosa para que ela comesse.
— Come tudo — Mizi disse, enquanto acendia o cigarro com um isqueiro prateado. — Açúcar ajuda a manter o sangue espesso.
Elas se afastaram do barulho das barracas, subindo uma colina gramada que dava vista para o vale onde os fogos de artifício seriam lançados. Era uma parte isolada, onde apenas o som distante da música tradicional chegava.
Sua mordeu a maçã do amor, o doce do caramelo grudando em seus dentes. Mizi soltou uma nuvem de fumaça, olhando para o horizonte com olhos que brilhavam levemente no escuro.
— Sabe — Mizi começou, a voz mais baixa —, aquela presilha realmente destaca o quanto você é pálida. Mas combina. Você parece uma daquelas bonecas de porcelana que as pessoas enterram junto com os mortos.
Sua sentiu o rosto esquentar, a mesma sensação de calor que a yokai provocara na noite anterior.
— Obrigada... eu acho.
Mizi soltou um riso anasalado, virando-se para ela.
— Você é tão idiota, Sua. Fica toda vermelha com qualquer comentário. É tão fácil manipular você que chega a ser sem graça.
O tom de Mizi mudou, tornando-se ácido, quase tóxico. Sua sentiu a irritação borbulhar sob sua pele. A doçura da maçã do amor pareceu amargar instantaneamente.
— Você é sempre assim? — Sua perguntou, levantando-se e limpando o açúcar do canto da boca. — Só se importa com você mesma, com seu banquete, com seu divertimento. Você é egoísta, Mizi. É fácil perceber isso, mesmo em pouco tempo. Você não se importa se eu estou sofrendo ou se eu quero estar aqui. Você só quer um brinquedo.
Mizi não se moveu. Ela continuou fumando, um sorriso cínico brincando em seus lábios.
— E você descobriu isso agora, gênia? — Mizi concordou, a voz carregada de deboche. — Eu sou um yokai. Eu vivo há mais tempo do que toda a sua linhagem familiar somada. Por que eu me importaria com os sentimentos de uma humana que tem a validade de uma fruta de verão?
Sua sentiu as lágrimas de frustração picarem seus olhos. Ela deu as costas, pronta para descer a colina e ir embora.
— Eu vou para casa. Divirta-se com seu ego.
Antes que pudesse dar o primeiro passo, a mão de Mizi fechou-se em seu pulso. A força foi imediata, fria e esmagadora. Mizi a puxou de volta com um solavanco, forçando-a a encostar em uma árvore próxima.
A atmosfera mudou em um milésimo de segundo. O calor do festival desapareceu, substituído pela aura gélida e predatória da yokai. Mizi jogou o cigarro fora, aproximando o rosto do de Sua. Seus olhos dourados tornaram-se fendas intensas e seus dentes afiados apareceram, brilhando sob a luz da lua.
— O que você quer de mim, Sua? — Mizi rosnou, sua voz vibrando com uma frieza que fez os ossos de Sua tremerem. — Quer que eu te devore agora mesmo? Quer que eu rasgue essa sua garganta e acabe com essa sua melancolia irritante? Ou você quer que eu continue te elogiando e fingindo que você é especial?
Sua tentou desviar o olhar, mas Mizi segurou seu queixo, forçando-a a encarar o abismo dourado.
— Parece que nem você sabe o que quer — continuou Mizi, o tom de voz subindo em uma agressividade controlada. — Uma hora você implora para morrer, diz que quer sumir para que ninguém sofra. Na outra, você fica toda derretida porque eu te dei uma presilha barata. Uma hora parece me adorar, me seguindo como um cachorrinho, e na outra diz que me odeia. Decida-se! O que você quer?!
Sua sentiu o coração bater contra as costelas, um ritmo frenético de puro pavor e uma excitação sombria que ela odiava sentir. Metade dela queria gritar que queria viver, que queria que Mizi a elogiasse de verdade, que a tocasse sem a intenção de matá-la. Mas a outra metade, a parte quebrada que morava no fundo do oceano desde o acidente, ainda clamava pelo fim.
— Eu quero morrer! — Sua gritou, a voz saindo rasgada. — Eu quero que você cumpra a porra da sua promessa e me apague deste mundo!
Mizi estreitou os olhos, a pressão em seu pulso aumentando até quase o limite.
— Mentirosa — sussurrou Mizi. — Você quer morrer, mas quer que eu sinta sua falta. Você quer ser devorada, mas quer que eu saboreie cada pedaço seu como se fosse a única coisa que importa. Você é patética, Sua.
Mizi aproximou os lábios da orelha de Sua, sua respiração fria arrepiando cada poro da garota.
— Você sabe que eu nunca vou te dar o que você realmente quer, não sabe? Eu sou um monstro. Eu só quero o seu sangue. Eu só quero o gosto da sua tristeza. Não espere amor de algo que não tem alma.
Sua fechou os olhos, sentindo as lágrimas finalmente caírem. Ela sabia. Ela sempre soube. Mizi nunca seria a salvação; ela era apenas o carrasco mais bonito que o destino poderia ter enviado.
— Então me mata logo — soluçou Sua. — Para de brincar comigo.
Mizi relaxou a pressão no pulso, mas não a soltou. Ela se afastou o suficiente para olhar o rosto devastado de Sua. Por um breve momento, a frieza em seus olhos vacilou, substituída por uma curiosidade quase cruel.
— Ainda não — Mizi disse, voltando à sua aparência humana normal, embora o brilho dourado ainda persistisse no fundo das pupilas. — O tempero ainda não está pronto. Você ainda tem muita raiva misturada com essa tristeza. Eu quero o sabor puro da sua entrega.
Os primeiros fogos de artifício explodiram no céu, iluminando a colina em tons de verde e vermelho. O barulho abafou o soluço de Sua. Mizi soltou o pulso da garota e voltou a sentar-se na grama, agindo como se a explosão de violência de segundos atrás nunca tivesse acontecido.
— Senta aqui — Mizi ordenou, apontando para o espaço ao seu lado. — Os fogos estão começando. E não ouse ir embora. Eu paguei por aquela maçã.
Sua, trêmula e com a mente em frangalhos, obedeceu. Ela sentou-se, mantendo uma distância segura, enquanto olhava para as luzes no céu. Ela sabia que Mizi era tóxica, sabia que ela era um perigo constante e que seu interesse era puramente gastronômico. Mas ali, sob as explosões coloridas, com a presilha branca ainda firme em seu cabelo, Sua percebeu que estava presa em uma teia da qual não queria mais escapar.
Mesmo que o destino final fosse o estômago do monstro, a jornada até lá era a única coisa que a fazia se sentir viva.
Mizi olhou de soslaio para Sua, vendo o reflexo dos fogos nos olhos roxos da garota. Ela sorriu para si mesma. Os humanos eram realmente fascinantes em sua autodestruição. O banquete estava ficando cada vez mais requintado.