Premissa
O Sabor do Delírio e da Devoção
A segunda-feira no Colégio Anakt sempre tinha o cheiro de café requentado e o som de sapatos arrastando pelo linóleo, mas para Sua, o ar parecia mais denso, quase elétrico. Ela caminhava pelo pátio lateral, um atalho menos frequentado que levava ao bloco de ciências, quando avistou a silhueta inconfundível de cabelos rosa à frente.
Mizi estava sozinha. Era uma visão rara; geralmente, Luka estava a poucos centímetros de distância, agindo como uma sombra racional para a exuberância da irmã. Mas ali, sob a luz pálida da manhã, Mizi parecia diferente. Seus passos, geralmente saltitantes e cheios de uma energia predatória, estavam pesados, erráticos.
Sua parou, observando de longe. Ela não sabia nada sobre a vida de Mizi além do segredo monstruoso que compartilhavam. Não sabia onde moravam, por que se transferiram ou o que um yokai fazia quando não estava caçando.
De repente, Mizi estancou. Seus ombros subiram e desceram em uma respiração curta e, sem um único som, ela desabou. O corpo caiu pesadamente no chão de concreto, os cabelos coloridos espalhando-se como uma mancha de tinta vibrante contra o cinza.
Sua sentiu o coração disparar. Ela olhou ao redor; a rua lateral estava deserta. O pânico começou a subir por sua garganta. E se Mizi estivesse se transformando? E se ela morresse ali e o segredo fosse exposto? A ideia de alguém descobrir a natureza de Mizi aterrorizava Sua mais do que a própria morte.
— Mizi? — Sua se aproximou, a voz saindo em um sussurro falho.
A yokai não respondeu. Ela estava pálida, uma palidez doentia que contrastava com o dourado opaco de suas pálpebras fechadas. Sua tentou puxá-la pelos braços, mas Mizi, apesar de parecer pequena, era densa, como se seus ossos fossem feitos de um material mais pesado que o humano.
Com um esforço sobre-humano e o desespero guiando seus músculos, Sua conseguiu arrastar a garota para a velha cabana de equipamentos de jardinagem que ficava escondida atrás de uns arbustos altos. O lugar estava empoeirado, cheio de sacos de terra e tesouras de poda enferrujadas, mas era privado.
Sua ajeitou Mizi sobre alguns sacos de adubo secos e a deixou lá, trancando a porta por fora com um cadeado quebrado que encontrou no chão. Durante todo o dia escolar, Sua foi um autômato. Ela não ouviu uma palavra das aulas. Seus olhos buscavam Luka, que parecia discretamente preocupado, mas mantinha a compostura.
Assim que o sinal final tocou, Sua não esperou por Ivan ou Hyuna. Ela correu.
Ao abrir a porta da cabana, o calor a atingiu. Mizi estava ardendo. Sua febre era tão intensa que o ar ao redor dela parecia vibrar. A yokai murmurava coisas inaudíveis, palavras em uma língua gutural e antiga que faziam os pelos do braço de Sua se arrepiarem.
— Mizi, acorda... — Sua se ajoelhou ao lado dela, tocando sua testa. Era como tocar metal aquecido.
Em um espasmo inconsciente, Mizi levou a própria mão à boca, mordendo os nós dos dedos com força. O som dos dentes raspando na pele fez Sua estremecer. Ela percebeu imediatamente: não era uma doença comum. Era fome. Uma fome que estava consumindo a criatura de dentro para fora.
Sua olhou para o próprio pulso. A faixa branca estava levemente suja, cobrindo a mordida da semana anterior que já começava a cicatrizar. Um pensamento absurdo cruzou sua mente. Era idiotice, era suicídio. Mas Mizi parecia estar morrendo.
Com as mãos trêmulas, Sua desamarrou a faixa. Ela afastou a mão de Mizi da boca da yokai e, com um suspiro de quem aceita o próprio destino, posicionou o pulso contra os lábios secos da garota.
Por um segundo, nada aconteceu. Sua sentiu-se estúpida. Mas então, os olhos de Mizi nem chegaram a abrir antes que ela atacasse. Mesmo inconsciente, o instinto falou mais alto. Ela agarrou o braço de Sua com uma força que quase quebrou o rádio, e enterrou as presas.
Desta vez não foi um aviso. Mizi sugou com uma voracidade selvagem. Sua sentiu o mundo escurecer nas bordas, a vitalidade sendo drenada para dentro daquele abismo rosa. Ela não conseguia se soltar; os dedos de Mizi eram como grampos de ferro.
De repente, Mizi parou. Ela abriu os olhos.
Eles não eram os olhos da Mizi brincalhona. Eram fendas douradas, frias e preenchidas por uma escuridão absoluta. Ela soltou o braço de Sua, mas antes que a garota pudesse recuar, Mizi a prensou contra a parede de madeira da cabana.
A mudança de temperatura foi instantânea. Mizi agora estava fria como um cadáver.
— Sua... — O nome saiu como um rosnado faminto.
Mizi a prendeu com uma brutalidade nova. Uma mão apertava o topo da cabeça de Sua, forçando-a contra a madeira, enquanto a outra prendia os dois pulsos de Sua acima de sua cabeça, apertando-os até que os ossos protestassem. As presas de Mizi estavam totalmente expostas, brilhando com o sangue fresco de Sua.
Mizi avançou. Sua fechou os olhos, vendo o flashback de sua vida: a água, os pais, o carro... e então a boca de Mizi, os dentes lindos e aterrorizantes. Ela esperou a dor final. Esperou o rasgar da garganta.
Mas a dor não veio.
Sua abriu os olhos lentamente. Mizi estava a centímetros de seu pescoço, tremendo. Seus músculos estavam tensos, as veias saltadas no pescoço, mas ela parecia estar lutando contra si mesma. Uma batalha interna entre o monstro e... algo mais.
Com um rosnado de frustração e dor, Mizi soltou Sua abruptamente. Ela se levantou, cambaleando, e saiu da cabana sem olhar para trás.
Sua ficou caída no chão, ofegante. Segundos depois, um grito agudo e curto rasgou o silêncio da rua lateral. O grito de um homem. Sua fechou os olhos e apertou o braço ferido contra o peito. Ela sabia o que aquilo significava. Mizi tinha encontrado uma saída para sua fome, uma que não envolvia destruir a garota que a salvara.
Ignorando o tremor nas pernas, Sua enrolou o braço novamente na faixa e caminhou para casa, mergulhada em um silêncio atordoado.
***
Mais tarde naquela noite, o apartamento estava silencioso. Ivan estava no banho, o som da água caindo abafando qualquer outro ruído. Sua estava deitada em sua cama, olhando para o teto, quando sentiu a brisa fria.
Mizi estava sentada na beirada da janela, as pernas balançando. Ela parecia perfeitamente bem agora, a pele radiante e os olhos calmos, embora houvesse uma mancha escura quase imperceptível no canto de sua camisa.
— Você é muito teimosa, sabia? — Mizi disse, a voz baixa para não alertar Ivan. Ela pulou para dentro do quarto com a leveza de um gato. — Podia ter morrido naquela cabana.
— Você estava morrendo — respondeu Sua, sentando-se na cama.
Mizi não respondeu. Ela tirou algo do bolso do casaco: uma caixa de chocolates caros, com embalagem dourada. Ela jogou no colo de Sua.
— Coma. Você perdeu muito sangue por causa da minha estupidez. Considere um agradecimento.
Sua olhou para os chocolates e depois para a yokai.
— O que foi aquilo, Mizi? A febre, a fome...
— Às vezes o controle falha — Mizi deu de ombros, aproximando-se da cama. — Yokais jovens precisam de mais sustento do que aparentam. E o seu cheiro... ele não ajuda.
Mizi sentou-se ao lado de Sua. Ela parecia lembrar-se de algo. Enfiou a mão no outro bolso e tirou um pequeno objeto brilhante. Era uma presilha de cabelo, um enfeite delicado em formato de uma flor branca com pequenos detalhes em prata.
Sem pedir permissão, Mizi inclinou-se e prendeu a presilha no cabelo curto e preto de Sua. Ela se afastou um pouco para admirar o resultado, a cabeça inclinada.
— Combinou com você — comentou Mizi, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. — Você é uma humana muito bonita, Sua. É um desperdício que queira tanto desaparecer.
Sua travou. O elogio, vindo daquela criatura que quase a matara horas antes, pareceu mais potente do que qualquer coisa que já ouvira. Ela sentiu o rosto esquentar, uma sensação que não experimentava há anos.
Mizi soltou uma risadinha, achando a reação de Sua hilária.
— Olha só, você está vermelha. Humanos são tão fáceis de ler. Tão idiotas.
Ela se aproximou novamente, desta vez reduzindo a distância até que seus narizes quase se tocassem. O cheiro de flores noturnas agora estava misturado ao perfume doce dos chocolates.
— Mas não se engane — sussurrou Mizi, a voz voltando a ter aquele tom aveludado e perigoso. — Eu ainda quero muito te comer. Cada pedacinho. Você é deliciosa demais para eu deixar passar para sempre.
Sua olhou nos olhos dourados de Mizi e, pela primeira vez, não sentiu apenas o desejo de morrer. Ela sentiu o desejo de ser consumida por aquela chama rosa, de pertencer a algo tão vasto e terrível que fizesse sua própria tristeza parecer pequena.
— Eu sei — respondeu Sua, a voz firme.
Mizi sorriu, satisfeita, antes de desaparecer pela janela tão silenciosamente quanto havia chegado, deixando para trás o gosto do chocolate e o peso de uma promessa sombria.