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Prima Malfoy

O Eco das Masmorras e o Brilho do Ouro

A primeira semana em Hogwarts passou como um borrão de cores vivas e sentimentos conflitantes. Para Andrômeda, cada corredor do castelo parecia um campo minado. Na Torre da Grifinória, ela era observada com uma curiosidade cautelosa; nas masmorras, onde as aulas de Poções aconteciam, ela era alvo de olhares que variavam entre a traição e o desprezo.

A carta de Lucius ainda queimava em sua memória, mas era o silêncio de sua mãe, Luna, que mais doía. Ela esperava um bilhete, talvez uma daquelas mensagens enigmáticas que a mãe costumava deixar sob seu travesseiro na Mansão Malfoy, mas nada veio.

Naquela manhã de sexta-feira, o Salão Principal estava agitado. O cheiro de torradas e café preenchia o ar, mas Andrômeda mal conseguia tocar em seu mingau.

— Você está encarando o suco de abóbora há dez minutos — observou Hermione Granger, sentada ao seu lado com um exemplar de *História de Hogwarts* aberto. — Se continuar assim, ele vai acabar evaporando.

Andrômeda piscou, saindo de seu transe.

— Só estou pensando na aula de Poções — mentiu ela, embora a perspectiva de enfrentar o Professor Snape na companhia de Draco e seus amigos Sonserinos fosse, de fato, desanimadora.

— Snape é o diretor da Sonserina — disse Rony Weasley, com a boca cheia de pão. — Ouvi dizer que ele sempre favorece os dele. E, bem... você tecnicamente é uma "deles", mas está sentada aqui. Isso não vai ser bonito.

— Rony, não ajude! — repreendeu Hermione, lançando um olhar severo ao garoto. Ela se voltou para Andrômeda. — Você é excelente em Teoria da Magia, Andy. Poções é apenas prática. Você vai se sair bem.

— Não é a prática que me preocupa — sussurrou Andrômeda, lançando um olhar rápido para a mesa da Sonserina.

Draco estava cercado por Crabbe e Goyle, rindo de algo que Pansy Parkinson dizia. Ele não olhou para ela nem uma vez. Era como se a barreira invisível entre as mesas fosse feita de aço reforçado.

Quando o sino tocou, os alunos do primeiro ano da Grifinória e da Sonserina desceram para as masmorras. O ar ali era mais frio, carregado com o cheiro de ervas secas e umidade. Andrômeda sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto se sentava em uma bancada nos fundos, esperando que a escuridão do fundo da sala a ocultasse.

A porta da sala bateu com um estrondo, e o Professor Snape entrou, sua capa preta flutuando atrás dele como as asas de um morcego gigante. Ele começou a chamada, parando abruptamente quando chegou ao nome dela.

— Andrômeda... Black... Malfoy — disse Snape, a voz baixa e arrastada, como veludo sobre pedra. Ele ergueu os olhos do pergaminho, fixando-os nela. — Uma adição... inesperada à casa dos leões. Diga-me, Srta. Malfoy, a sua nova afiliação mudou sua capacidade de distinguir entre um acônito e um lúpus?

Andrômeda sentiu o sangue subir ao rosto. Ela sentiu o olhar de Draco queimando em suas costas.

— Não, senhor — respondeu ela, a voz firme. — Ambos são a mesma planta, também conhecida como *Aconitum*.

Snape estreitou os olhos, parecendo levemente desapontado por ela saber a resposta.

— Pelo menos o cérebro parece ter permanecido intacto, mesmo que o julgamento tenha falhado — comentou ele friamente. — Cinco pontos para a Grifinória.

Um burburinho correu pela sala. Draco soltou um bufo audível. A aula seguiu com a preparação de uma solução para curar furúnculos. Andrômeda trabalhava com precisão, cortando as cerdas de porco-espinho com a destreza que sua mãe lhe ensinara nas tardes de verão no jardim da mansão.

No entanto, o silêncio da sala foi quebrado por um estalo. Neville Longbottom, que trabalhava na bancada ao lado, havia derretido seu caldeirão, e uma poção rosa e pegajosa começou a se espalhar pelo chão.

— Menino idiota! — rosnou Snape, limpando a bagunça com um aceno de varinha. — Potter, por que você não o impediu? Achou que ele pareceria mais brilhante se você o deixasse errar? Menos um ponto para a Grifinória.

Andrômeda sentiu uma onda de indignação. Harry não tinha feito nada. Ela abriu a boca para protestar, mas sentiu um chute leve em seu tornozelo por baixo da mesa. Era Hermione, balançando a cabeça negativamente.

Ao final da aula, enquanto limpava seu caldeirão, Andrômeda foi cercada. Draco, Crabbe e Goyle bloquearam sua saída.

— Mandando bem com o Snape, hein? — zombou Draco. — "Cinco pontos para a Grifinória". Papai vai adorar saber que você está dando pontos para os traidores do sangue com o conhecimento que ele pagou para você ter.

— O conhecimento é meu, Draco — retrucou Andrômeda, guardando seus frascos com mãos trêmulas. — E o Snape é um professor, não um juiz de linhagem.

— Ele é leal à família — disse Draco, aproximando-se, a voz caindo para um sussurro perigoso. — Coisa que você parece ter esquecido. Recebi uma carta da mamãe hoje. Ela disse que tia Luna se trancou no observatório. Ela não fala com ninguém. Você está destruindo a única pessoa que se importa com você naquela casa.

O coração de Andrômeda falhou uma batida. A imagem de sua mãe, tão frágil e etérea, sofrendo por causa de sua seleção, era quase demais para suportar.

— Você está mentindo — disse ela, embora a dúvida começasse a corroê-la.

— Pergunte a ela, então. Se ela te responder — Draco deu um passo para trás, um sorriso amargo nos lábios. — Vejo você no jantar, "leoa". Se sobrar algum lugar para você.

Ele saiu, seguido por seus guarda-costas. Andrômeda ficou parada, sentindo as paredes frias da masmorra se fecharem sobre ela.

— Não dê ouvidos a ele — disse uma voz vinda da sombra da porta.

Era Harry. Ele estava esperando por ela, junto com Rony.

— Ele só quer te desestabilizar — continuou Harry. — Ele faz isso comigo o tempo todo.

— É diferente, Harry — suspirou Andrômeda, saindo da sala com eles. — Ele é minha família. Ou era.

— Família não é só sangue — interveio Rony, tentando ser útil. — Olhe para os meus irmãos. Às vezes eu gostaria que eles fossem de outra família, mas no fim das contas, a gente se apoia. Se o Draco não te apoia, talvez ele não seja a família que você precisa agora.

Andrômeda olhou para o ruivo, surpresa com a simplicidade da lógica dele.

— Talvez — admitiu ela.

O restante do dia foi um teste de resistência. Andrômeda tentou se concentrar nas aulas de Feitiços com o Professor Flitwick, onde conseguiu fazer sua pena levitar na primeira tentativa, mas a sombra das palavras de Draco não a abandonava.

À noite, na sala comunal da Grifinória, o ambiente era o oposto da frieza das masmorras. A lareira estalava, espalhando um calor reconfortante, e o som de conversas e jogos de snap explosivo preenchia o espaço. Andrômeda estava sentada em uma poltrona perto da janela, observando a floresta negra lá fora, quando uma coruja branca como a neve pousou no parapeito.

— Hedwig? — perguntou Harry, aproximando-se da janela. — O que você tem aí?

A coruja deu um pio suave e estendeu a pata. Mas não era para Harry. Ela se inclinou na direção de Andrômeda.

Presa à pata da coruja estava uma pequena flor de metal, uma miniatura perfeita de uma estrela-do-mar, e um pedaço de pergaminho amarrado com uma fita prateada.

Andrômeda pegou o bilhete com dedos ansiosos.

*“Minha pequena estrela,”* dizia a letra trêmula e elegante de Luna. *“As estrelas brilham mais forte onde a escuridão é mais profunda. Não escute os sussurros dos Narguilés que habitam a mente de seu tio. O chapéu viu o que eu sempre soube: você tem o coração de um leão e a alma de um pássaro. Voe alto, Andrômeda. O vermelho lhe cai bem. Com todo o meu amor, Mamãe.”*

Uma lágrima solitária escapou do olho de Andrômeda e manchou o pergaminho. Ela apertou a pequena flor de metal contra o peito. Sua mãe não estava inconsolável. Ela a entendia.

— Boas notícias? — perguntou Harry, sentando-se no braço da poltrona ao lado.

— As melhores — respondeu Andrômeda, limpando o rosto e dando a ele um sorriso radiante. — Minha mãe... ela disse que o vermelho me cai bem.

Harry sorriu de volta.

— Ela tem razão. Combina com o seu fogo.

Naquela noite, Andrômeda não sonhou com cães negros ou masmorras frias. Ela sonhou com o céu noturno, onde a constelação de Andrômeda brilhava intensamente, cercada por leões dourados.

No dia seguinte, no café da manhã, Andrômeda caminhou até a mesa da Grifinória com uma nova postura. Ela não se escondeu. Quando passou pela mesa da Sonserina, Draco a encarou, esperando ver a mesma expressão de derrota do dia anterior.

Em vez disso, Andrômeda parou diante dele. A pequena estrela-do-mar de metal estava presa orgulhosamente em sua gola, bem ao lado do emblema da Grifinória.

— Draco — disse ela, a voz clara o suficiente para que os alunos ao redor ouvissem.

O primo a olhou de cima a baixo, os olhos fixos na joia. Ele reconhecia aquela peça. Era um dos tesouros de sua tia Luna.

— O que você quer? — perguntou ele, a voz menos firme do que antes.

— Só queria dizer que a mamãe mandou lembranças — disse Andrômeda, com um sorriso calmo. — E ela disse para eu não me preocupar com os Narguilés. Acho que ela estava se referindo a você.

Rony, que passava por trás dela, soltou uma gargalhada alta que fez o rosto de Draco ficar da cor de um rabanete maduro.

— Você vai se arrepender disso, Andy — sibilou Draco.

— Talvez — respondeu ela, virando as costas. — Mas não hoje.

Ela se sentou entre Hermione e Neville, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente em casa. O peso do sobrenome Malfoy ainda estava lá, mas não era mais uma corrente. Era apenas uma parte da história que ela estava começando a reescrever.

— Ei, Andrômeda — chamou Neville, timidamente, estendendo um prato de bolinhos. — Você quer um? Minha avó mandou, e eles são... bem, eles não explodem, eu prometo.

— Eu adoraria, Neville — disse ela, aceitando o bolinho.

Enquanto comia e conversava sobre a próxima aula de Herbologia, Andrômeda sentiu um olhar sobre si. No alto da mesa dos professores, o Diretor Dumbledore a observava por trás de seus óculos de meia-lua. Ele ergueu levemente seu cálice de ouro em um brinde silencioso, um pequeno brilho de aprovação em seus olhos azuis.

Andrômeda percebeu que a guerra entre seu sangue e sua escolha estava longe de terminar. Lucius enviaria mais cartas. Draco tentaria mais sabotagens. O mundo bruxo lá fora estava mudando, e ser uma Black Malfoy na Grifinória a colocava em uma posição perigosa.

Mas, enquanto olhava para Harry, que ria de uma piada de Rony, e para Hermione, que tentava explicar a importância das raízes de mandrágora, Andrômeda soube que não estava mais sozinha. Ela tinha amigos, tinha o apoio secreto de sua mãe e, acima de tudo, tinha a coragem que o Chapéu Seletor vira nela.

A prata poderia ser elegante, mas o ouro... o ouro tinha o calor do sol. E Andrômeda Black Malfoy estava pronta para queimar.

— Próxima parada, o campo de Quadribol? — perguntou Harry, levantando-se da mesa. — Ouvi dizer que os testes para o time vão começar logo, e precisamos de alguém que saiba voar tão bem quanto um Malfoy, mas que jogue como um Grifinório.

Andrômeda sentiu um frio na barriga, mas era um frio de excitação, não de medo.

— Eu nunca joguei em um time oficial — admitiu ela —, mas meu pai... Sirius... dizem que ele era um batedor incrível.

— Então está no seu sangue — disse Harry, piscando para ela. — Vamos ver o que você consegue fazer.

Enquanto caminhavam em direção aos jardins ensolarados de Hogwarts, Andrômeda sentiu que, pela primeira vez, o futuro não era um caminho traçado por outros, mas uma página em branco, esperando para ser escrita com tinta vermelha e dourada. E ela mal podia esperar para começar o próximo capítulo.