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Prima Malfoy

Entre o Voo e a Verdade

O campo de Quadribol de Hogwarts era vasto, um anfiteatro de grama verde esmeralda cercado por arquibancadas que pareciam tocar as nuvens. Para Andrômeda, o vento que soprava ali tinha um gosto diferente do ar confinado da Mansão Malfoy. Era um gosto de liberdade.

Ela segurava a vassoura de treinamento da escola com uma firmeza que surpreendeu a si mesma. Draco sempre se gabara de sua *Nimbus 2000*, presente de Lucius, mas Andrômeda aprendera a voar escondida, nas madrugadas frias de Wiltshire, usando uma velha vassoura de limpeza que encontrara no depósito de ferramentas, longe dos olhos severos do tio.

— Você parece saber o que está fazendo — comentou Harry, aproximando-se com sua própria vassoura. — A maioria dos primeiranistas olha para a vassoura como se ela fosse morder.

— Eu já tive algumas lições — respondeu Andrômeda, sentindo o peso do olhar de Draco vindo da lateral do campo, onde os alunos da Sonserina observavam o treino da Grifinória com desdém. — Mas nunca em público. Na minha casa, garotas devem se preocupar com etiquetas e poções, não com gols e balaços.

— Bem, aqui você pode se preocupar com o que quiser — disse Harry, montando em sua vassoura. — Vamos ver se você consegue me acompanhar.

Com um impulso, Harry disparou para o céu. Andrômeda não hesitou. Ela chutou o chão com força, sentindo o solavanco familiar no estômago enquanto o solo se afastava. Em segundos, ela estava nivelada com Harry, o cabelo castanho-escuro chicoteando seu rosto, os olhos cinzentos brilhando com uma intensidade que raramente mostrava no castelo.

Eles mergulharam e subiram, contornando as torres das arquibancadas em uma dança aérea que atraiu a atenção de quem estava lá embaixo. Andrômeda sentia-se leve. Lá em cima, ela não era a sobrinha de Lucius ou a filha órfã de um traidor; ela era apenas uma parte do céu.

— Nada mal, Malfoy! — gritou Fred Weasley, que passava voando ao lado de seu irmão George.

— Uma técnica impecável! — completou George, dando um looping. — Mas será que ela aguenta a pressão de um jogo de verdade?

— Eu aguento qualquer coisa que vocês jogarem em mim! — rebateu Andrômeda, sentindo uma audácia nova percorrer suas veias.

Lá embaixo, no entanto, a cena era menos harmoniosa. Quando Andrômeda finalmente pousou, ofegante e com as bochechas coradas, Draco estava lá para recebê-la. Ele não estava sozinho; Pansy Parkinson e Blásio Zabini o acompanhavam, todos com expressões de escárnio.

— Muito bonito, Andy — disse Draco, a voz pingando sarcasmo. — Voando com os Weasley. O que vai ser depois? Vai começar a usar roupas de segunda mão e morar em um barraco?

— Pelo menos eles sabem voar por mérito, Draco, não porque o pai comprou o lugar deles no time — retrucou Andrômeda, limpando a fuligem da túnica.

— Cuidado com a língua — sibilou Draco, dando um passo à frente. — Você se acha muito corajosa agora, não é? A protegida do Potter. Mas lembre-se: o Natal está chegando. Você realmente acha que será bem-vinda na Mansão depois de tudo isso?

O comentário de Draco atingiu o alvo. O Natal. O feriado que ela sempre passara cercada pelo luxo frio dos Malfoy, mas também pelo carinho silencioso de sua mãe. Se ela fosse deserdada, ou se Lucius a proibisse de voltar, o que seria de Luna?

— Eu não preciso da sua permissão para voltar para minha casa — disse ela, embora sua voz tenha falhado levemente.

— Sua casa? — Pansy soltou uma risadinha estridente. — Você é uma hóspede caridosa, Andrômeda. Uma Black que sobrevive das migalhas dos Malfoy. Agora que é uma Grifinória, você é apenas um estorvo.

— Deixem ela em paz — interveio Hermione, que se aproximava com os livros apertados contra o peito, acompanhada por Rony.

— Ora, se não é a sangue-ruim e o pobretão — zombou Draco, mas seus olhos voltaram para a prima. — Pense bem no que você está fazendo, Andy. O sangue é mais grosso que a água, mas o gelo da Mansão Malfoy pode ser muito cortante para quem não tem onde se aquecer.

Draco deu as costas e saiu, deixando um silêncio desconfortável para trás. Andrômeda sentiu a euforia do voo desaparecer, substituída por um peso familiar no peito.

— Ele é um idiota — disse Rony, tentando consolar. — Minha mãe sempre diz que gente como os Malfoy tem o coração feito de moedas de ouro. Frio e duro.

— O problema é que a minha mãe ainda está lá — sussurrou Andrômeda. — E ela não é como eles.

— Você pode escrever para ela — sugeriu Hermione. — Use uma coruja da escola, se não quiser usar a da família.

Andrômeda assentiu, mas sabia que não era tão simples. A correspondência na Mansão Malfoy era vigiada. Cada palavra que Luna escrevia ou recebia passava pelo crivo de Lucius. O fato de Luna ter conseguido enviar a pequena estrela-do-mar metálica fora um milagre, ou talvez um ato de rebeldia que ela pagaria caro.

Nos dias que se seguiram, Andrômeda tornou-se uma sombra na biblioteca. Ela buscava não apenas os deveres de casa, mas informações sobre seu pai. Sirius Black. O nome era um tabu, mas nos registros antigos de Hogwarts, ela encontrou o que procurava. Fotos de um jovem de cabelos rebeldes e sorriso arrogante, sempre acompanhado por um grupo de amigos que pareciam irradiar a mesma energia vibrante.

— Ele era o melhor amigo do meu pai — disse uma voz atrás dela.

Andrômeda deu um pulo, fechando o livro bruscamente. Harry estava parado ali, observando-a com uma expressão melancólica.

— Eu vi as fotos no álbum que Hagrid me deu — continuou Harry, sentando-se à mesa. — Sirius Black, James Potter, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Eles eram inseparáveis.

— Meu tio diz que ele foi um traidor — disse Andrômeda, a voz baixa. — Que ele é o motivo de eu não ter uma família de verdade.

— Meu tio diz que meus pais morreram em um acidente de carro — rebateu Harry, com um sorriso amargo. — Tios nem sempre dizem a verdade, Andy. Especialmente quando a verdade não convém a eles.

Andrômeda olhou para a foto de Sirius novamente. Havia algo nos olhos dele que ela via no espelho todas as manhãs. Uma inquietação. Um desejo de quebrar as correntes.

— Você acha que ele era uma pessoa boa, Harry? — perguntou ela, quase com medo da resposta.

— Eu não sei — admitiu Harry. — Mas eu sei que ele escolheu a Grifinória. E você também escolheu. Isso deve significar alguma coisa, não acha?

Antes que ela pudesse responder, um barulho de passos apressados ecoou pela biblioteca. Madame Pince, a bibliotecária, surgiu de trás de uma estante, parecendo mais irritada do que o normal.

— Srta. Malfoy! — chamou ela. — Há uma visita para você no saguão de entrada. O Professor Dumbledore deu permissão, mas seja breve.

Andrômeda sentiu o coração disparar. Uma visita? Lucius? Se ele estivesse ali, seria para levá-la embora. Ela olhou para Harry, que parecia tão preocupado quanto ela.

— Vá — disse ele. — Estaremos por perto se precisar.

Andrômeda caminhou pelos corredores de pedra com as pernas trêmulas. Quando chegou ao saguão, seus olhos procuraram pela figura alta e imponente de seu tio, mas o que encontrou foi algo completamente diferente.

Parada perto da grande porta de carvalho, envolta em uma capa de veludo azul-celeste que parecia brilhar com luz própria, estava Luna Malfoy. Ela parecia uma aparição, com seus cabelos loiros platinados caindo em ondas suaves e um olhar que parecia ver através das paredes do castelo.

— Mamãe! — exclamou Andrômeda, correndo em direção a ela.

Luna a abraçou, e o cheiro de flores silvestres e fumaça de lareira envolveu a menina. Era o cheiro de casa, a parte boa de casa.

— Minha pequena estrela — sussurrou Luna, afastando-se para olhar o rosto da filha. — Você parece mais forte. O ar de Hogwarts lhe faz bem.

— O que você está fazendo aqui? O tio Lucius sabe? — perguntou Andrômeda, olhando nervosamente para os lados.

— Seu tio está ocupado com o Ministério — disse Luna, com uma serenidade que beirava o sobrenatural. — E ele acredita que vim tratar de assuntos relacionados à sua... educação. Ele quer que eu a convença a pedir uma nova seleção.

Andrômeda sentiu um nó na garganta.

— E você vai?

Luna sorriu, um sorriso triste e doce ao mesmo tempo. Ela estendeu a mão e ajeitou o distintivo da Grifinória na túnica de Andrômeda.

— Eu vim lhe dizer para não pedir desculpas por ser quem você é. Seu pai nunca pediu. Ele caminhava por estes corredores como se fosse o dono do mundo, Andrômeda. E, por um tempo, ele foi.

— Você o amava, não é? — perguntou a menina, a voz quase um sussurro.

— Ele era o fogo, Andrômeda. E eu era a lua. O fogo aquece, mas também pode queimar. Mas sem ele, o mundo é um lugar muito escuro e frio.

Luna tirou algo de dentro da capa. Era um pequeno frasco de cristal contendo um líquido prateado que se movia como fumaça.

— Lucius quer que você seja uma Malfoy. Eu quero que você seja uma Black — disse Luna, entregando o frasco à filha. — Isto é uma lembrança. Quando você se sentir perdida, quando as sombras daquela mansão parecerem grandes demais, leve isto ao Penseiro do Diretor. Ele prometeu que a ajudaria.

— O que tem aí dentro? — perguntou Andrômeda, maravilhada com o brilho do frasco.

— A verdade — respondeu Luna. — A verdade que seu tio tentou apagar. E agora, eu preciso ir antes que as corujas comecem a voar com notícias da minha presença.

Luna beijou a testa da filha e, com um movimento fluido, virou-se para sair.

— Mamãe! — chamou Andrômeda. — Eu vou poder voltar no Natal?

Luna parou à porta, a silhueta emoldurada pela luz do entardecer.

— A Mansão Malfoy é feita de pedra, minha querida. Mas Hogwarts é feita de magia. Às vezes, o lar não é o lugar onde nascemos, mas o lugar onde nossa alma respira. Se você não puder voltar, saiba que meu coração estará onde você estiver.

E com essas palavras, ela se foi, deixando Andrômeda sozinha no saguão, segurando o frasco de cristal como se fosse o tesouro mais precioso do mundo.

— Andy? — Harry e Rony apareceram no topo da escadaria. — Está tudo bem? Vimos sua mãe saindo.

Andrômeda olhou para os amigos e depois para o frasco em sua mão. A sensação de isolamento que a acompanhara desde a seleção começou a diminuir.

— Sim — disse ela, a voz agora carregada de uma nova determinação. — Está tudo bem.

Naquela noite, Andrômeda não foi para a sala comunal. Em vez disso, ela procurou o escritório do Professor Dumbledore. Ela subiu a escada em caracol e encontrou o Diretor sentado à sua mesa, examinando alguns pergaminhos.

— Srta. Malfoy — disse ele, sem surpresa. — Imagino que sua mãe tenha lhe entregado algo importante.

— Ela disse que o senhor me ajudaria — disse Andrômeda, colocando o frasco sobre a mesa. — Ela disse que isto é a verdade.

Dumbledore observou o líquido prateado com um olhar profundo.

— A verdade é uma coisa bela e terrível, e deve ser tratada com grande cautela — disse ele, levantando-se e caminhando até uma bacia de pedra esculpida com runas antigas. — Você tem certeza de que está pronta para ver, Andrômeda? Uma vez que se sabe a verdade, não se pode voltar a ser a pessoa que era antes.

— Eu passei minha vida inteira vivendo em uma mentira moldada pelo meu tio — respondeu ela, aproximando-se do Penseiro. — Eu prefiro a verdade, por mais terrível que seja.

Dumbledore despejou o conteúdo do frasco na bacia. A fumaça prateada começou a girar, formando imagens de um passado distante. Andrômeda inclinou-se para frente, sentindo a atração magnética da memória.

Ela viu uma sala luxuosa, mas não era a Mansão Malfoy. Era uma casa cheia de livros e música. Viu Luna, muito jovem, rindo enquanto um homem de cabelos escuros a girava no ar. O homem tinha os mesmos olhos de Andrômeda. Sirius.

— Ele não queria a guerra, Luna — dizia o Sirius da memória, a voz carregada de angústia. — Mas eu não posso ficar parado enquanto o mundo queima. Se algo acontecer comigo...

— Nada vai acontecer — respondia a jovem Luna, tocando o rosto dele. — Nós temos a nossa pequena estrela.

A cena mudou. Andrômeda viu Lucius Malfoy, mais jovem, discutindo com Luna. O rosto dele estava contorcido de raiva.

— Ele é um criminoso, Luna! Um traidor do sangue! Se você insistir em manter essa criança com o nome dele, você perderá tudo o que a família Malfoy pode oferecer.

— Eu não me importo com o seu ouro, Lucius! — gritava Luna. — Ela é filha dele!

— Ela será o que eu decidir que ela seja — sibilou Lucius, e a memória começou a se dissolver em sombras negras.

Andrômeda afastou-se do Penseiro, ofegante. Suas mãos tremiam. Ela vira o suficiente para entender que seu tio não apenas a criara; ele tentara apagar a existência de seu pai de sua vida, transformando um homem que amava sua família em um monstro para justificar seu controle sobre elas.

— Ele mentiu para mim — sussurrou ela. — Sobre tudo.

— Ele tentou protegê-la do jeito que ele entende a proteção — disse Dumbledore suavemente. — Mas o amor de sua mãe foi mais forte que o controle dele.

Andrômeda olhou para o Diretor, as lágrimas finalmente caindo.

— O que eu faço agora, Professor? Se eu voltar para lá, ele vai saber que eu sei.

Dumbledore colocou uma mão reconfortante em seu ombro.

— Por enquanto, você faz o que os Grifinos fazem de melhor. Você permanece firme. Você estuda, você faz amigos e você constrói sua própria força. O Natal está longe, Andrômeda. E muita coisa pode mudar até lá.

Andrômeda saiu do escritório de Dumbledore sentindo-se exausta, mas estranhamente em paz. Ela caminhou de volta para a Torre da Grifinória, passando pelo quadro da Mulher Gorda, que a deixou entrar com um bocejo.

Na sala comunal, Harry e Hermione ainda estavam acordados, sentados perto da lareira. Eles olharam para ela com expectativa.

— E então? — perguntou Hermione.

Andrômeda sentou-se entre eles, sentindo o calor do fogo e a presença reconfortante de seus amigos.

— Eu descobri quem eu sou — disse ela, olhando para as chamas. — E descobri que o nome Malfoy é apenas um rótulo. Eu sou Andrômeda Black. E eu vou honrar esse nome, não do jeito que meu tio quer, mas do jeito que meu pai teria orgulho.

— Estamos com você, Andy — disse Harry, colocando a mão sobre a dela. — Não importa o que aconteça.

Andrômeda sorriu. Pela primeira vez em sua vida, ela não tinha medo do futuro. Ela era uma leoa, uma estrela e uma Black. E Hogwarts, com todos os seus segredos e perigos, era o lugar onde ela finalmente aprenderia a brilhar.