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Problema com coco

O Limiar da Entrega e o Toque da Cura

A luz da manhã em Los Angeles não pediu licença. Ela atravessou as frestas da cortina com uma agressividade que contrastava com a paz frágil que havíamos alcançado durante a madrugada. Eu acordei primeiro, sentindo o peso reconfortante do braço de Walker sobre a minha cintura, mas logo percebi que algo estava errado. O corpo dele, geralmente uma fonte de calor constante e relaxada, estava rígido.

Ouvi um som baixo, um estalido de língua contra o céu da boca, seguido por um suspiro entrecortado. Walker não estava dormindo. Ele estava com os olhos apertados, a testa franzida em vincos profundos de sofrimento, e sua respiração vinha em golfadas curtas, como se cada movimento do diafragma causasse uma fisgada insuportável.

— Walker? — chamei baixinho, colocando a mão sobre a dele. — Ei, olha para mim.

Ele abriu os olhos, e o azul que eu tanto amava estava turvo de dor e exaustão. Ele tentou sorrir, mas o gesto morreu antes de chegar às bochechas.

— Voltou, não foi? — perguntei, sentindo meu coração apertar de empatia.

— Está... está pior — ele admitiu, a voz falhando. — Parece que a pomada parou de fazer efeito e agora tem uma pressão... eu não sei explicar. Dói até para respirar fundo.

Eu sabia o que aquilo significava. A fissura e a inflamação da noite anterior não eram apenas superficiais; o trauma físico da constipação severa e do esforço que ele fizera sozinho tinha causado um espasmo muscular profundo. Se eu não interviesse de forma mais técnica e direta, ele passaria o dia inteiro em agonia.

— Meu amor, escuta — eu disse, sentando-me e acariciando o cabelo dele, que estava bagunçado e úmido de suor frio. — Eu vou precisar fazer um procedimento mais detalhado. Não vai ser só passar pomada por cima. Eu preciso relaxar essa musculatura e limpar a área internamente com um aplicador, ou essa dor não vai passar.

Walker fechou os olhos com força, e uma lágrima solitária escapou, descendo pela têmpora. Não era apenas dor física; era o peso de ter que se abrir novamente, de perder a última barreira de privacidade que um ser humano possui.

— Eu não aguento mais ficar assim — ele sussurrou, a voz carregada de derrota. — Faz o que você precisar. Eu confio em você. Só... por favor, seja carinhosa. Eu me sinto um lixo.

— Você não é um lixo, Walker Socobell — eu disse com firmeza, inclinando-me para beijar sua testa. — Você é o homem mais incrível que eu conheço, e cuidar de você é um privilégio, não um fardo. Agora, vamos para o banheiro. Lá é melhor por causa da luz e da higiene.

Ajudei-o a se levantar. Ele caminhava curvado, as mãos pressionando as coxas como se tentasse estabilizar a pelve. Cada passo arrancava dele um gemido abafado. No banheiro, preparei tudo com cuidado meticuloso: luvas de látex, soro fisiológico, gazes, o aplicador de medicação interna e uma toalha macia.

— Walker, preciso que você se posicione — instrui suavemente. — Desta vez, vamos fazer diferente. Quero que você fique ajoelhado no tapete do banheiro, mas apoie o peito e os braços no banco de madeira que deixamos aqui.

Ele assentiu, a respiração acelerada pelo nervosismo. Vi suas mãos tremerem enquanto ele desamarrava o cordão do moletom. Ele baixou as calças lentamente, revelando a nudez que, horas antes, havíamos tentado tratar. A área estava visivelmente mais inchada, um tom de púrpura irritado que denunciava a gravidade da inflamação.

— Isso, querido. Fique bem inclinado — pedi, posicionando-me atrás dele. — Eu vou precisar que você fique bem exposto agora. Vou precisar afastar as nádegas com firmeza para conseguir inserir o aplicador sem te machucar mais.

Walker enterrou o rosto nos braços cruzados sobre o banco. O bumbum dele estava empinado, vulnerável sob a luz fria do teto. Eu podia ver o tremor em suas pernas.

— Estou com medo — ele confessou, a voz saindo abafada.

— Eu sei, vida. Eu estou aqui. Vou começar limpando a área com o soro, vai estar geladinho.

Calcei as luvas, o som do látex estalando no meu pulso pareceu um trovão no silêncio do cômodo. Com uma mão, afastei suavemente a pele, expondo a fissura. Walker deu um solavanco, os músculos do glúteo se contraindo por instinto de defesa.

— Walker, tenta soltar — pedi, massageando a parte interna de suas coxas para aculmar o sistema nervoso dele. — Se você contrair, o aplicador não vai entrar e vai doer dez vezes mais. Respira comigo. Inspira... solta...

— Eu estou tentando... — ele arquejou, o corpo suando sob o meu toque. — Dói tanto, meu Deus.

— Eu sei, meu anjo. Estou sendo o mais rápida que posso.

Limpei a secreção e o sangue seco com a gaze embebida em soro. Walker gemia a cada toque, um som gutural que me partia o coração, mas eu sabia que não podia parar. A firmeza era necessária para a cura.

— Agora vem a parte mais difícil — avisei, pegando o aplicador lubrificado. — Vou inserir apenas a pontinha para liberar o gel anestésico e anti-inflamatório lá dentro. No três, você solta todo o ar, ok?

— Tá... — ele respondeu, os dedos arranhando a madeira do banco.

— Um... dois... três. Solta!

No momento em que o aplicador tocou a área inflamada e penetrou levemente, Walker soltou um grito contido, o corpo inteiro se retesando em um arco de dor. Ele tentou se levantar, mas eu mantive minha mão firme em sua base lombar, mantendo-o na posição.

— Fica parado, Walker! Só mais um segundo! — eu disse, a voz cheia de urgência e carinho. — Já está indo... pronto. Liberei o remédio.

Retirei o aplicador e mantive as nádegas dele afastadas por mais alguns instantes para garantir que a medicação não fosse expelida pela contração involuntária. Walker estava soluçando agora, um choro de alívio e de exaustão emocional.

— Acabou, meu amor. O pior já passou — eu disse, retirando as luvas e começando a acariciar suas costas com as mãos nuas, tentando devolver a ele uma sensação de conforto e humanidade.

Fiquei ali, ajoelhada atrás dele, massageando seus ombros e sua lombar enquanto ele se recuperava. A exposição dele era total, mas o clima de cuidado era tão denso que a vergonha parecia ter sido substituída por uma gratidão profunda.

— Você foi tão corajoso — sussurrei, inclinando-me para beijar o topo de sua cabeça. — O remédio vai agir rápido agora. Em dez minutos você vai sentir como se tivesse tirado um peso de cem quilos de cima de você.

Walker virou o rosto levemente para me olhar de soslaio. Seus olhos estavam vermelhos, mas havia um brilho de paz começando a retornar.

— Obrigado por não desistir de mim — ele disse, a voz ainda trêmula. — Eu sei que não é o tipo de coisa que um namorado quer ver na namorada, mas... eu nunca me senti tão amado.

— Walker, amar alguém é cuidar de todas as partes, inclusive das que doem, das que sangram e das que a gente tem vergonha de mostrar — respondi, ajudando-o a se levantar com cuidado. — Para mim, você continua sendo o cara mais lindo do mundo. Mesmo aqui, no chão do banheiro, com o bumbum de fora.

Ele soltou uma risada fraca, limpando as lágrimas com as costas da mão.

— Você é terrível — ele brincou, permitindo que eu o ajudasse a se vestir novamente.

Voltamos para o quarto, mas desta vez ele não se sentou na beira da cama. Ele deitou-se de lado, e eu me aconcheguei atrás dele, envolvendo-o em um abraço protetor. O efeito do anestésico começou a se espalhar, e vi a tensão abandonar os ombros dele centímetro por centímetro.

— Sabe o que as meninas disseram ontem? — perguntei, quebrando o silêncio.

— O quê? — ele murmurou, já quase pegando no sono.

— Que isso não é sobre biologia. É sobre amor. E elas estavam certas. O que a gente passou nessas últimas 24 horas... pouca gente tem a sorte de ter. Essa confiança, esse nível de entrega.

Walker pegou minha mão e a levou aos lábios, beijando meus dedos com uma reverência que me fez arrepiar.

— Eu te daria minha vida — ele disse, a voz ficando pesada pelo sono. — Mas acho que entregar meu bumbum para você cuidar já prova o quanto eu te amo.

Eu ri baixinho, sentindo as lágrimas de alívio arderem em meus próprios olhos.

— Prova sim, Walker. Prova muito.

Dormimos o resto da manhã, abraçados e curados. Não apenas da constipação ou da fissura, mas de qualquer medo que pudéssemos ter de não sermos aceitos em nossas maiores fraquezas. Ali, entre lençóis e remédios, havíamos descoberto a forma mais pura de intimidade. E nada, absolutamente nada, poderia ser mais bonito que isso.