Problemas
Sombras e Cicatrizes sob as Luzes Neon
A música eletrônica pulsava nas paredes da mansão, um batimento cardíaco artificial que parecia ditar o ritmo frenético da noite. No centro da sala, Hyuna dançava com uma energia contagiante, tentando arrastar Sua para o meio do caos, enquanto Ivan e Till mantinham sua eterna competição de quem conseguia ser mais irritante um com o outro. Luka, por outro lado, permanecia como uma âncora de seriedade, observando Mizi com um misto de proteção e cautela.
Mizi, no entanto, não parecia precisar de proteção. Ela se movia pelo espaço com uma fluidez predatória, o olhar dourado capturando cada detalhe, cada fraqueza. Ela estava perto de Hyuna e Sua quando um vulto atravessou a multidão.
— Sua! Finalmente te achei — disse Acorn, aproximando-se com um sorriso que não alcançava os olhos.
Ele era o namorado de Sua, um rapaz que, para quem olhava de fora, parecia apenas mais um estudante comum, mas que para o grupo de amigos de Sua era sinônimo de alerta vermelho. Sua tencionou os ombros instantaneamente, o livro que ela costumava usar como escudo não estava ali para protegê-la.
— Oi, Acorn — respondeu Sua, a voz baixa, quase sumindo sob os decibéis da música.
Acorn cumprimentou o resto do grupo com um aceno vago e forçado. Ivan estreitou os olhos pretos, a bala de goma parando no canto da boca, enquanto Till fechou os punhos, a revolta natural de seu temperamento subindo um degrau.
— Vamos dar uma volta? — sugeriu Acorn, segurando o pulso de Sua de um jeito que parecia um convite, mas que todos ali sabiam ser um comando. — Quero um pouco de silêncio.
Sua olhou rapidamente para Hyuna, um pedido de socorro silencioso que foi sufocado pelo medo. Ela assentiu levemente e deixou-se ser guiada para longe da luz, subindo as escadas em direção ao segundo andar, onde a escuridão dos corredores prometia uma privacidade perigosa.
Minutos se passaram. A festa continuava, mas o clima na mesa dos amigos mudou. Till foi o primeiro a verbalizar o desconforto.
— Cadê a Sua? — perguntou ele, olhando ao redor com os olhos verdes inquietos. — Ela sumiu faz tempo com aquele imbecil.
— Eles subiram — disse Mizi, sua voz sedutora agora carregada de uma neutralidade observadora. Ela girava um copo vazio entre os dedos. — O namorado dela a levou lá para cima. Pela cara dele, eu diria que foram buscar um quarto.
O efeito das palavras de Mizi foi instantâneo. O rosto de Hyuna empalideceu e Luka ajeitou os óculos com um movimento brusco.
— Mizi, você não entende — disse Luka, a voz urgente. — O Acorn não é... ele não é um cara legal.
— Ele é um lixo — disparou Ivan, já se levantando. — Ele é abusivo. A gente tenta tirar ela dessa, mas ele a ameaça. Se eles estão sozinhos lá em cima, ela está em perigo.
O pânico se instalou como um nevoeiro frio. Sem trocar mais palavras, o grupo se moveu como uma unidade em direção às escadas. Mizi, percebendo a gravidade da situação pela reação dos amigos, deixou o copo de lado e os seguiu, sua expressão fechada tornando-se ainda mais séria.
O segundo andar era um labirinto de portas fechadas e carpetes grossos que abafavam os passos. A música lá embaixo era apenas um eco abafado.
— Vamos nos dividir! — ordenou Hyuna, o instinto de líder falando mais alto. — Eu e Luka vamos para a ala esquerda. Till, verifique os banheiros. Ivan e Mizi, vão para o corredor do fundo!
Ivan correu pelo corredor, com Mizi logo atrás. O silêncio daquela parte da casa era perturbador. Eles passavam por portas até que, no final do corredor, um som abafado fez Ivan congelar.
— Para... por favor, Acorn... — A voz de Sua era um sussurro quebrado, vindo de trás de uma porta de madeira pesada.
Ivan não hesitou. Ele não tentou girar a maçaneta; ele simplesmente jogou o peso do corpo contra a porta, arrombando-a com um estrondo.
O que viram dentro do lavabo luxuoso fez o sangue de Ivan ferver. Acorn tinha Sua prensada contra a pia de mármore. Ele a segurava pelos pulsos com uma força desnecessária, o corpo dele bloqueando qualquer saída. O cinto de Acorn já estava solto e ele ignorava as lágrimas que escorriam pelo rosto pálido da garota.
— Solta ela agora! — rugiu Ivan, avançando como um animal defendendo o bando.
Ivan agarrou Acorn pelo colarinho, tirando-o de cima de Sua com uma violência que o jogou contra a parede oposta. Sua escorregou pela lateral da pia, tremendo violentamente, tentando ajeitar as roupas com as mãos trêmulas.
— O que é isso? — gritou Acorn, recuperando o fôlego e tentando manter a pose de arrogância. — É a minha namorada! A gente estava se divertindo. Ela não disse nada, não é, Sua?
Ele olhou para ela com um brilho de ameaça nos olhos, esperando o silêncio submisso de sempre.
— Nunca mais encoste nela — disse Ivan, a voz tremendo de ódio, os punhos cerrados ao lado do corpo.
Nesse momento, o restante do grupo chegou correndo, atraído pelos gritos e pelo barulho da porta sendo arrombada. Hyuna correu direto para Sua, envolvendo-a em um abraço protetor, enquanto Till e Luka cercavam Acorn, impedindo qualquer tentativa de fuga ou agressão.
— Você é doente — disse Till, os olhos verdes faiscando de uma raiva que parecia prestes a explodir em um soco.
— Eu não vou terminar com ela só porque vocês querem — cuspiu Acorn, tentando limpar o sangue do lábio que cortara na queda. — Ela me ama. Ela sabe o que acontece se me deixar.
Sua, ainda nos braços de Hyuna, levantou a cabeça. Seus olhos roxos, geralmente frios e distantes, agora brilhavam com uma determinação nascida do puro esgotamento.
— Acabou, Acorn — disse ela, a voz fraca, mas audível. — Eu não quero mais nada com você. Nunca mais.
— Você vai se arrepender disso, sua vadia — ameaçou Acorn, apontando o dedo para ela enquanto Luka o empurrava em direção à saída do quarto. — Você sabe do que eu sou capaz!
— Sai daqui antes que eu esqueça que sou um aluno exemplar e quebre cada osso da sua cara — disse Luka, o tom de voz tão gélido que fez até Ivan se surpreender.
Acorn, percebendo que estava em desvantagem numérica e que a fachada tinha caído, bufou e saiu pisando fundo pelo corredor, desaparecendo na escuridão da escadaria enquanto gritava ameaças vazias que se perdiam na música lá embaixo.
O silêncio que se seguiu no quarto era pesado, carregado pelo trauma do que quase aconteceu. Hyuna continuava a ninar Sua, que agora chorava silenciosamente.
— Vamos sair daqui — sugeriu Mizi. Ela tinha observado tudo de perto, sua presença silenciosa sendo um suporte estranhamente reconfortante. — Este lugar está contaminado.
Eles desceram as escadas lentamente, formando um escudo humano ao redor de Sua. Ao chegarem no andar de baixo, tentaram encontrar um canto mais afastado para respirar. Ivan foi buscar água, Till tentava não chutar nada para extravasar a adrenalina, e Luka mantinha a vigia.
— Ei, olha para mim — disse Hyuna para Sua, limpando o rosto da amiga. — Ele foi embora. Ele não vai mais te machucar. Estamos aqui.
Tentando mudar o assunto para aliviar o peso no peito de Sua, Ivan voltou com copos de água e começou a falar sobre como a decoração da casa era brega e como os doces da festa eram de baixa qualidade. O grupo tentava, a todo custo, criar uma bolha de normalidade.
— Sério, quem coloca luz neon roxa com carpete verde? — comentou Ivan, forçando um sorriso. — É um crime contra a estética.
Enquanto conversavam, uma figura começou a descer a escadaria principal com uma elegância que chamou a atenção de todos. Era uma garota de estatura baixa, mas com uma presença que parecia iluminar o ambiente de forma diferente das luzes artificiais da festa.
Ela tinha longos cabelos brancos que caíam como uma cascata de seda pelas costas, e sua pele era tão pálida quanto a de Sua, quase etérea. Seus olhos eram de um azul cristalino, emoldurados por cílios brancos que lhe davam uma aparência de boneca de porcelana ou de uma criatura das neves.
A garota parou no meio da escada, seu olhar percorrendo o salão até pousar diretamente no grupo — mais especificamente, em Mizi.
— Ora, ora... — disse a garota de cabelos brancos, sua voz soando como sinos de cristal. — Eu sabia que essa festa estava entediante demais, mas parece que o destino resolveu me compensar trazendo algo realmente interessante para o meu campo de visão.
Ela desceu o restante dos degraus e caminhou em direção a eles, parando a poucos centímetros de Mizi. Ela ignorou completamente os rapazes e as outras garotas, focada apenas na figura de cabelos rosa e azul.
— Meu nome é Lexy — disse ela, inclinando a cabeça de forma charmosa, um sorriso brincando em seus lábios perfeitamente desenhados. — E eu não pude deixar de notar que você tem uma energia... fascinante. Quase tão fascinante quanto a cor do seu cabelo.
Mizi arqueou uma sobrancelha, o olhar dourado encontrando o azul de Lexy. O clima de tensão anterior, embora ainda presente no fundo da mente de todos, foi momentaneamente nublado por essa nova e inesperada interação.
— Lexy, é? — Mizi respondeu, sua voz sedutora retornando com força total, um desafio implícito em cada sílaba. — Você costuma abordar estranhos assim, ou eu sou uma exceção especial?
— Você — Lexy disse, aproximando-se um pouco mais, o suficiente para que o contraste entre seu branco gélido e as cores vibrantes de Mizi criasse uma imagem marcante — é definitivamente uma exceção. Eu não costumo perder meu tempo com o que é comum.
Sua observou a cena, a água no copo tremendo levemente em suas mãos. A chegada de Lexy e o flerte descarado com Mizi trouxeram uma nova dinâmica para a noite, algo que prometia distraí-los do horror que acabara de ocorrer, mas que também despertava uma curiosidade estranha e nova em seu próprio peito.
A festa ainda estava longe de terminar, e entre traumas superados e novos encontros, o destino daquele grupo de amigos parecia estar apenas começando a se entrelaçar de maneiras que nenhum deles poderia ter previsto entre os cadernos e o caos da escola.