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Problemas

O Despertar da Pantera e o Gelo Quebrado

A atmosfera na mansão havia mudado drasticamente após o confronto com Acorn. O ar parecia mais leve, porém carregado de uma eletricidade residual, como se a tempestade tivesse passado, mas o cheiro de ozônio ainda pairasse sobre eles. Sua estava sentada em um sofá de couro branco, bebendo água em pequenos goles, enquanto Hyuna, que já havia virado alguns copos de ponche de procedência duvidosa, balançava o corpo no ritmo da batida pesada que vinha do andar de baixo.

— Eu estou falando, Sua... — balbuciou Hyuna, com as bochechas coradas e o brilho nos olhos denunciando seu estado de embriaguez alegre. — Aquilo foi a libertação! Você não precisa mais daquele encosto. E olha só... a noite está só começando!

Foi nesse momento que Lexy, a garota de cabelos brancos que parecia ter saído de um conto de fadas gélido, intensificou seu cerco sobre Mizi. Lexy era conhecida no segundo ano como a "Rainha de Gelo" da escola, popular, intocável e, aparentemente, muito interessada na irmã de Luka.

— Você não respondeu minha pergunta, Mizi — disse Lexy, aproximando-se tanto que a ponta de seu nariz quase tocou a de Mizi. O hálito dela cheirava a vodca com frutas vermelhas. — Vai ficar aqui sendo vigiada pelo seu irmãozinho ou vai me mostrar se esse seu olhar dourado é tão perigoso quanto parece?

Hyuna, ouvindo aquilo, soltou uma risada alta e deu um empurrãozinho no ombro de Mizi.

— Vai lá, Mizi! Escuta o que a garota está falando. Vocês deveriam ir conversar a sós, sabe? Em algum lugar mais... privativo.

Lexy, completamente sem filtro devido ao álcool, soltou um sorriso malicioso e olhou diretamente para o grupo, sem se importar com a presença de Luka, Ivan ou Till.

— Escuta a sua amiga, Mizi — disse Lexy, a voz arrastada e confiante. — A gente pode ir para qualquer lugar. Tem quartos vazios lá em cima, tem os banheiros de mármore, tem o meu carro lá fora... ou até mesmo o porão se você curte algo mais sombrio. Podemos ir até para a floresta se você quiser ver as estrelas.

O grupo inteiro ficou em choque. Ivan parou de mastigar sua bala de goma no meio do caminho, os olhos pretos arregalados. Till quase engasgou com a própria saliva, e Luka ajeitou os óculos com tanta força que quase os entortou, o rosto assumindo um tom de vermelho que competia com o cabelo da irmã.

— Só tem um detalhe — continuou Lexy, passando a mão pelo braço de Mizi e descendo até o pulso. — Eu não curto muito fazer o trabalho pesado, se é que você me entende. Eu gosto de ser surpreendida.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, apesar da música alta. A frase de Lexy foi um convite explícito, um chamado para que Mizi tomasse o controle. O pensamento geral na mesa era o mesmo: "Isso nunca vai acontecer". Mizi tinha aquela aparência de "femme fatale", uma beleza clássica que, na cabeça limitada de muitos ali, a colocava automaticamente no papel de quem é conquistada, de quem espera a atitude de um homem. Ela parecia heterossexual demais, feminina demais para aceitar um convite daqueles de outra garota, e muito menos para assumir a postura ativa que Lexy exigia.

Luka, porém, era o único que mantinha uma expressão de "eu avisei". Ele conhecia a peça que tinha em casa.

Mizi soltou uma risada baixa, um som que vibrou na garganta e fez a espinha de Sua se arrepiar. Ela olhou para Lexy de cima a baixo, o olhar dourado agora transformado em brasas puras.

— O trabalho pesado, é? — Mizi murmurou, a voz assustadoramente sedutora. — Então você quer que eu tome as rédeas?

Sem dizer mais nada, Mizi levou as mãos à nuca. Em um movimento lento e deliberado, ela juntou seus longos cabelos rosa e azul e os prendeu em um rabo de cavalo firme, expondo a nuca e a linha do maxilar. O gesto tinha uma aura de preparação, como uma guerreira se preparando para a batalha ou um predador se preparando para a caça.

— Escolha o lugar, Lexy — disse Mizi, dando um passo à frente e segurando o queixo da garota de cabelos brancos com firmeza. — Mas já vou avisando: eu não costumo ser gentil com quem me desafia.

Lexy soltou um suspiro audível, os olhos brilhando de antecipação. Ela segurou a mão de Mizi e começou a puxá-la em direção ao corredor que levava aos quartos dos fundos. Mizi nem olhou para trás. Ela simplesmente seguiu a garota, com uma postura de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

O grupo ficou estático, observando as duas desaparecerem na penumbra do corredor.

— O que... o que acabou de acontecer aqui? — perguntou Till, quebrando o silêncio. — A irmã do Luka acabou de...

— Sim — interrompeu Ivan, parecendo genuinamente impressionado. — Ela acabou de aceitar o convite para acabar com a popular do segundo ano. E eu achando que o Luka era o único prodígio da família.

— Eu disse que ela era diferente — comentou Luka, sentando-se e massageando as têmporas. — Mizi nunca foi de seguir regras. Ou expectativas.

Hyuna deu um tapa na mesa, rindo de forma histérica.

— Aquilo foi a coisa mais incrível que eu já vi! Vocês viram a cara da Lexy? Ela parecia uma presa prestes a ser devorada. Mizi é uma lenda!

Enquanto os rapazes e Hyuna discutiam a reviravolta chocante, Sua permanecia em silêncio. Ela olhava para o corredor onde Mizi havia sumido, sentindo um aperto estranho no peito. Não era medo, não era o trauma de Acorn — era algo mais agudo, mais incômodo. Era uma pontada de ciúmes que ela não conseguia explicar. Por que a imagem de Mizi prendendo o cabelo e assumindo o controle sobre outra garota a deixava tão inquieta?

Hyuna, apesar de bêbada, tinha um radar social afiado. Ela parou de rir e inclinou-se na direção de Sua, observando o olhar fixo da amiga.

— Ei, Suazinha... — sussurrou Hyuna, com um sorriso de canto. — Por que essa cara? Parece que alguém queria estar no lugar da Lexy agora.

— Não seja idiota, Hyuna — retrucou Sua, desviando o olhar rapidamente e sentindo as bochechas queimarem. — Eu só estou... processando o que aconteceu. É muita coisa para uma noite só.

— Sei... — Hyuna cantarolou, encostando a cabeça no ombro de Sua. — Mas admita, a voz daquela garota faz coisas com a cabeça da gente. Se eu não estivesse tão focada em não vomitar esse ponche, eu mesma teria dado em cima dela.

— Ela é irmã do Luka, Hyuna! — exclamou Sua, tentando usar a lógica para disfarçar o desconforto.

— E o que isso tem a ver? — Ivan interveio, entrando na conversa. — Genética boa é genética boa. Mas sério, Sua, você está pálida. Mais do que o normal. Quer ir embora?

— Não — respondeu Sua, quase de imediato. — Eu quero... eu vou ficar mais um pouco.

No fundo, ela sabia que estava esperando. Esperando para ver Mizi voltar por aquele corredor. Esperando para ver se aquele olhar dourado voltaria a pousar nela com a mesma intensidade que pousou em Lexy.

— Vocês acham que elas vão demorar? — perguntou Till, olhando para o teto como se pudesse ver através das paredes.

— Depende da disposição da Mizi — respondeu Luka, com um suspiro conformado. — Mas conhecendo minha irmã, ela não faz nada pela metade.

O grupo voltou a conversar, tentando digerir os eventos da noite. Ivan começou a contar sobre uma vez que viu Lexy dar um fora épico em um capitão do time de basquete, o que tornava a rendição dela a Mizi ainda mais impressionante. Till parecia dividido entre a admiração e o choque cultural.

Sua, no entanto, não conseguia prestar atenção em nada. Cada vez que uma porta batia ou alguém passava pelo corredor, seu coração dava um salto. Ela se sentia pequena, uma leitora de livros fria e retraída, diante da explosão de autoconfiança que era Mizi. A voz de Mizi ainda ecoava em sua mente: "Gosto de observadores. Eles costumam ver o que os outros deixam passar".

— Você está bem mesmo, Sua? — perguntou Luka, notando o silêncio prolongado da amiga.

— Estou — mentiu ela, apertando o copo plástico vazio entre as mãos. — Só estou pensando em como a escola vai estar cheia de fofocas na segunda-feira.

— A escola? — Ivan soltou uma gargalhada. — O Instagram vai explodir amanhã de manhã. Alguém com certeza filmou aquela interação na escada. Mizi mal chegou e já virou a rainha da selva.

Hyuna continuava a provocar Sua com olhares significativos, mas a morena estava ocupada demais tentando entender o turbilhão de emoções em seu estômago. O ciúme era uma cor nova em sua paleta de sentimentos, uma cor vibrante e irritante, muito parecida com o rosa e o azul dos cabelos da garota que, naquele momento, estava em algum lugar daquela casa vasta, fazendo exatamente o que Lexy havia pedido.

A noite estava longe de acabar, e para Sua, o verdadeiro desafio não era o trauma que deixara para trás com Acorn, mas o mistério que acabara de entrar em sua vida na forma de uma irmã de olhos dourados e voz de veludo. Ela olhou para o corredor uma última vez, desejando, secretamente, que a conversa de Mizi e Lexy terminasse logo.

— Ela vai voltar — sussurrou Hyuna no ouvido de Sua, como se estivesse lendo seus pensamentos mais sombrios. — E quando ela voltar, Sua, tente não babar.

Sua empurrou o rosto de Hyuna para longe, mas não conseguiu evitar que um pequeno sorriso, misturado com uma ansiedade devoradora, surgisse em seus lábios. A festa na floresta tinha se tornado muito mais do que uma simples fuga escolar; era o início de algo que ela ainda não sabia nomear, mas que já sentia queimar sob a pele.