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PULGAR & CARRASCAL

Estilhaços no Chão de Mármore

O estrondo reverberou pela estrutura de concreto e vidro da mansão como o impacto de uma granada. O som do bronze partindo o espelho do closet foi seguido pelo retinir seco de milhares de lascas pontiagudas despencando sobre o chão. No corredor, envolto pela penumbra suave das arandelas douradas, Jorge Carrascal não diminuiu o ritmo dos passos. Ele mantinha a coluna ereta, o queixo empinado e a respiração contida, mas por dentro suas entranhas pareciam ter sido reviradas por uma lâmina cega.

A porta do quarto do final do corredor se abriu em um estalo brusco. Santino apareceu no vão, vestindo uma calça de moletom cinza, os olhos pequenos de sono e a testa franzida em genuíno sobressalto.

— Pai? Que porra foi essa? Parece que caiu um lustre lá dentro!

Jorge parou, forçando cada músculo do rosto a se desarmar. A ginga descontraída que o mundo conhecia voltou à tona como uma máscara impecável, embora seus punhos estivessem cerrados com tanta força que as unhas se cravavam na palma das mãos tatuadas.

— Nada demais, meu amor — disse Jorge, a voz saindo aveludada, quase melodiosa. — O Erick esbarrou numa luminária no escuro. Sabe como seu pai é estabanado quando bebe demais.

Santino olhou na direção do quarto principal, desconfiado.

— Tem certeza? Parecia que alguém tava quebrando a casa no meio.

— Certeza absoluta. Volta pra cama, garoto. Amanhã você tem que conferir os balanços da distribuidora comigo logo cedo. Vai dormir.

O jovem hesitou por um segundo, mas a autoridade natural de Jorge não dava margem para questionamentos. Santino deu um beijo no topo da cabeça do colombiano e recuou para o quarto, fechando a porta.

Assim que o clique da tranca ecoou, a máscara de Jorge ruiu. Ele desceu as escadas em direção ao escritório do térreo, entrou, trancou a pesada folha de carvalho e se encostou contra a madeira, soltando o ar que parecia preso em seus pulmões há horas. Suas pernas tremiam levemente. Ele havia dito aquilo. Havia cuspido na cara de Erick a pior mentira e a pior ofensa que poderia formular, apenas para ferir, apenas para rasgar o peito daquele brutamonte possessivo na mesma medida em que tivera sua própria honra pisoteada.

No andar de cima, no entanto, o silêncio que sucedeu a destruição era ainda mais aterrorizante.

Erick Pulgar estava de pé no meio dos cacos, ofegante. O peito largo, coberto por tatuagens que contavam sua vida inteira e traziam o nome de Jorge desenhado em tinta indelével perto da clavícula, subia e descia em um ritmo descompassado. Sua mão direita pingava sangue escuro sobre o tapete persa. No ápice da fúria cega, ele não havia apenas atirado a peça de bronze; havia desferido um soco violento contra o que restara da moldura de madeira lascada na parede.

A dor física não era nada comparada à queimação sufocante em seu peito. As palavras de Jorge ecoavam em sua mente como um eco maldito. *O pau do Mateo foi um dos melhores em que eu já sentei na minha vida toda.*

Erick puxou o ar entre os dentes, sentindo o gosto metálico da própria raiva. Ele era temido nos quatro cantos da América do Sul. Homens imploravam por suas vidas quando ele entrava em um galpão; cartéis inteiros curvavam a cabeça para o poderio bélico que herdara de seu pai, Don Pablo. Mas bastava uma frase daquele colombiano atrevido, o homem que ele resgatara da miséria e com quem dividira sua alma por doze anos, para reduzi-lo a cinzas.

O chileno caminhou até o banheiro sem se importar com os pedaços de vidro que estalavam sob as solas descalças. Abriu a torneira com a mão trêmula, enfiando os nós dos dedos ensanguentados sob a água fria. A água tingiu-se de vermelho vivo, escorrendo pelo ralo. Ele encarou o reflexo distorcido no espelho do lavabo. Seus olhos pretos estavam injetados.

— Filho da puta — murmurou para si mesmo, com a voz embargada de rancor e um desespero que ele jamais admitiria. — Traíra desgraçado.

A noite não trouxe descanso para ninguém. Erick não limpou o sangue da mão além de enrolar uma toalha escura ao redor dos dedos, e permaneceu sentado na beira da cama desfeita, encarando a escuridão enquanto fumava um charuto atrás do outro. No andar de baixo, Jorge permaneceu na poltrona do escritório, com uma garrafa de rum intocada sobre a mesa, vendo a madrugada se transformar na luz cinzenta e úmida da manhã carioca.

Às sete da manhã, o barulho característico dos portões de aço se abrindo anunciou a chegada da segurança externa. Jorge foi o primeiro a sair do escritório. Ele havia tomado um banho rápido no banheiro auxiliar e vestira uma camisa de seda preta com os primeiros botões abertos, deixando à mostra o crucifixo de ouro que ganhara de sua mãe. Seus cabelos estavam milimetricamente penteados para trás.

Ao passar pela cozinha, encontrou dona Olga, que havia chegado cedo com a equipe de apoio da casa. A senhora colombiana, de cabelos grisalhos presos num coque firme e mãos calejadas por décadas de trabalho duro, parou de cortar as frutas assim que viu o filho mais velho.

— *Buenos días*, meu filho — disse ela, examinando o rosto pálido de Jorge com a precisão cirúrgica que só as mães possuem. — Você não dormiu.

— Trabalho demais, mamãe — desconversou ele, aproximando-se para beijar a mão enrugada da mãe. — A cúpula deu dor de cabeça ontem.

Dona Olga estreitou os olhos, pousando a faca sobre a tábua. Ela conhecia Jorge desde o tempo em que ele voltava para casa com os pés cheios de bolhas de tanto andar por Cartagena entregando pães.

— O trabalho dá dor de cabeça, Jorge. Mas olheiras fundas desse jeito e essa boca amarga só quem dá é o coração. Cadê o Erick?

O nome soou como um estalo no ar. Jorge enrijeceu a postura.

— Deve estar no quarto. Não sei e não quero saber.

— Jorge Andrés...

— Não se meta, dona Olga. Por favor — pediu ele, a voz falhando ligeiramente antes de recuperar a dureza. — É assunto nosso.

Antes que a mãe pudesse rebater, passos pesados desceram os degraus da escada principal. Erick entrou na cozinha como uma tempestade silenciosa. Ele usava uma camisa social preta com as mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando a bandagem improvisada e manchada de vermelho na mão direita. O rosto do chileno era uma máscara de pedra esculpida pelo ódio.

Dona Olga arfou discretamente ao ver o curativo.

— *Dios mío*, Erick! O que aconteceu com a sua mão?

Erick parou a três passos de Jorge. O olhar que lançou ao marido foi tão cortante que o ar pareceu rarear no cômodo.

— Um acidente doméstico, dona Olga — respondeu Pulgar, a voz rouca e gutural como a de um predador ferido. — Nada com que a senhora deva se preocupar. A senhora sabe o quanto eu valorizo a sua presença aqui, mas hoje eu preciso que a senhora e os funcionários fiquem longe do piso superior.

Jorge sustentou o olhar do marido, sem recuar um milímetro. A eletricidade entre os dois era quase palpável, uma carga densa que prenunciava tragédia.

— Não precisa assustar a minha mãe com as suas grosserias, Erick — interveio Jorge friamente. — Se você perdeu o controle das suas mãos e quebrou o quarto inteiro, o problema é seu.

— Se eu perdi o controle — rosnou o chileno, dando um passo à frente, fechando a distância entre eles de forma intimidadora —, foi porque você se esqueceu de quem construiu esse império com você. Você se esqueceu do seu lugar.

— O meu lugar? — Jorge soltou uma risada debochada, aproximando o rosto do de Erick até que suas respirações se misturassem. — O meu lugar eu conquistei com o meu sangue, seu merda. Ninguém me deu nada. Nem o meu antigo Don, nem você. E se você acha que pode me tratar como um dos seus soldadinhos descartáveis de Santiago, você tá muito enganado.

Dona Olga deu um passo à frente, a voz firme cortando a discussão antes que as armas na cintura de ambos fossem sacadas.

— Parem! Os dois! Vocês parecem dois animais selvagens! Já se esqueceram de que há doze anos vocês juraram proteger um ao outro diante da minha família?

Nenhum dos dois quebrou o contato visual. Os olhos escuros de Erick queimavam com promessas de retaliação; os de Jorge brilhavam com a frieza inabalável de Cartagena.

— O carro já está pronto lá fora — disse Erick, cortando a tensão sem desviar a atenção de Jorge. — Vou para o porto de Santos agora mesmo. Pessoalmente.

— Vá — respondeu Jorge em um sussurro venenoso. — E tente não estragar os quinze milhões que eu consegui para a organização enquanto você choramingava nos cantos.

Erick cerrou o punho machucado, sentindo a dor pulsar, mas deu as costas e saiu a passos largos, batendo a porta principal com força suficiente para estremecer os vidros da sala.

As horas seguintes foram um teste de resistência para toda a cúpula do Rio de Janeiro. Nos galpões do cais do porto, a presença de Pulgar era tão sufocante que até homens experientes como Giorgian de Arrascaeta e Guillermo Varela mantinham distância segura. Quando Varela tentou comentar sobre os carregamentos italianos que já estavam sendo descarregados sob a supervisão do homem de confiança de São Paulo, Erick simplesmente descarregou a pistola em um tambor vazio a três centímetros dos pés do uruguaio, exigindo silêncio absoluto.

A notícia da crise no casamento mais poderoso do submundo correu rápido pelos bastidores. Ninguém ousava se intrometer, mas todos sabiam que uma ruptura entre o chileno e o colombiano significaria uma guerra sangrenta pelo controle das rotas marítimas.

No Leblon, Jorge almoçou em um restaurante discreto com Mateo Marcone para concluir a papelada dos descarregamentos. O italiano percebeu a tensão logo nos primeiros minutos.

— Jorgito, você parece pronto para matar alguém — comentou Mateo, cortando a carne com elegância. — O seu marido chileno ainda está chateado por causa da minha presença?

Jorge encarou o homem à sua frente. As lembranças da juventude em Nápoles vieram à tona: o carinho que Don Santiago tivera com ele, as noites quentes e despreocupadas que dividira com Mateo antes de saber o que era o verdadeiro amor, antes de conhecer Erick. Não havia mágoa ali, mas também não havia nada do fogo que ele usara para queimar Pulgar na noite anterior.

— Mateo — disse Jorge, pousando os talheres com calma e fixando os olhos nos do italiano —, o acordo de Santos está fechado. A sua família tem passagem livre pelas próximas três semanas conforme o combinado. Mas quando você terminar seus negócios, você pega o primeiro voo de volta para Roma.

Mateo ergueu as sobrancelhas, surpreso com o tom gélido.

— Pensei que éramos amigos, Jorge. Pensei que você queria que eu fizesse parte da vida do Santino.

— Santino tem um pai — rebateu o colombiano, sem pestanejar. — E esse pai se chama Erick Pulgar. O que aconteceu entre nós faz mais de uma década e morreu no instante em que eu pisei no Brasil. Não confunda a minha gratidão pelo seu pai com espaço na minha vida pessoal. O trabalho acabou aqui.

Mateo encarou o parceiro por longos segundos, percebendo a linha intransponível que havia sido desenhada. Ele deu um sorriso resignado e assentiu com a cabeça.

— Como você quiser, Don Carrascal.

Quando Jorge voltou para casa, o sol já havia se posto sobre o mar da Barra da Tijuca. A mansão estava silenciosa demais. Santino havia saído com amigos da faculdade, avisado por mensagem. A casa parecia um túmulo.

Jorge subiu as escadas lentamente. A porta do quarto principal estava aberta. Os cacos de vidro haviam sido removidos, restando apenas o buraco vazio na parede onde o espelho costumava ficar.

Erick estava lá.

O chileno estava sentado na poltrona escura a um canto, sem camisa, expondo o peito maciço e as cicatrizes antigas de tiros e facadas. Ele segurava uma garrafa de vodca pela metade e encarava o vazio. A fumaça de um baseado pairava densa no quarto. Quando Jorge entrou, Erick ergueu os olhos pesados, vermelhos de cansaço e desgosto.

— Ele já foi embora? — perguntou Erick, a voz arrastada, destituída da agressividade de antes, soando apenas terrivelmente exausta.

Jorge parou no meio do quarto, cruzando os braços.

— O Mateo volta para a Itália assim que o descarregamento terminar. Eu encerrei as pontes sociais com ele.

Erick soltou uma risada nasal, fraca, sem humor.

— Que nobre da sua parte. Depois de foder com a minha autoridade na frente de todo mundo e de me dizer aquilo ontem à noite.

Jorge sentiu a garganta secar. A dor nos olhos do marido era crua, exposta de uma maneira que ele raramente via. Erick era uma fortaleza para o mundo exterior, mas ali, naquele quarto desmantelado, ele parecia um homem sangrando por dentro.

— Você me humilhou primeiro, Erick — respondeu Jorge, a voz perdendo a frieza e ganhando o peso do ressentimento acumulado. — Você desconfiou de mim. Depois de doze anos! Depois de tudo o que eu passei do seu lado, você achou que eu abriria as pernas para o primeiro fantasma do meu passado que aparecesse? Você me tratou como se eu fosse uma puta sem valor.

Erick levantou-se devagar. Ele caminhou até parar a poucos centímetros de Jorge, a diferença colossal de porte físico criando uma sombra sobre o colombiano, mas Jorge não recuou.

— Eu vi como ele tocou em você — disse Pulgar, a voz quebrando ligeiramente, revelando a fraqueza que guardava sob a couraça de assassino. — Ele pegou na sua nuca, Jorge. Aquele homem olhou para você como se você ainda pertencesse a ele. E você deixou. Você sorriu para ele do mesmo jeito que sorria para mim quando a gente se conheceu.

— Ele foi meu passado, Erick! — gritou Jorge, os olhos marejando de raiva e frustração. — Um passado que não significava porra nenhuma comparado com o que eu construí com você! Eu lavei prato de padaria, passei fome, criei meu filho na merda até conseguir me reerguer... E quando eu te conheci, eu te entreguei tudo o que eu tinha! Eu te dei a minha vida, a minha lealdade, a porra do meu coração! E você joga tudo no lixo por causa de um aperto de mão e um beijo na testa?!

— Você disse que o pau dele era o melhor! — berrou Erick de volta, as veias do pescoço saltando, os olhos faiscando de dor. — Você olhou na minha cara e disse aquela merda!

— Porque você me chamou de vadia! — rebateu Jorge aos gritos, avançando e empurrando o peito de Erick com as duas mãos, as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto bronzeado. — Você insinuou que eu estava fechando um acordo de quinze milhões de euros só para poder trepar com ele de novo! O que você queria que eu dissesse?! Você queria me machucar, Erick! E eu te machuquei de volta!

Erick segurou os pulsos de Jorge com força, prendendo as mãos do marido contra o próprio peito. A respiração de ambos estava entrecortada, uma mistura sufocante de raiva, mágoa e um amor doentio que nenhum dos dois conseguia extinguir.

— Era mentira? — perguntou Erick, a voz descendo para um sussurro quebrado, quase suplicante. — Me diz a verdade, Jorge. Por tudo o que a gente tem... Olha nos meus olhos e me diz a porra da verdade.

Jorge encarou as íris negras do marido. Viu ali o homem que havia cuidado de Santino quando o menino queimava em febre alta na infância; o homem que havia comprado uma casa inteira para sua mãe Olga; o homem que mataria qualquer um que ousasse tocar em um único fio de cabelo de Carrascal. A frieza colombiana ruiu por completo.

— Foi uma mentira desgraçada — sussurrou Jorge, a voz embargada, os lábios tremendo levemente. — Eu só queria te destruir do mesmo jeito que você me destruiu. Ele não é nada, Erick. Nunca foi nada perto do que você é pra mim.

Erick fechou os olhos por um instante, soltando um suspiro trêmulo, como se o peso de um edifício inteiro tivesse sido retirado de seus ombros. Mas a dor ainda estava ali, viva e pulsante entre eles.

— Nós quase destruímos tudo, Jorge — murmurou o chileno, a mão machucada subindo lentamente para tocar a bochecha do marido, os dedos manchados de sangue seco acariciando a pele quente. — Por causa de orgulho e veneno.

Jorge encostou o rosto na palma calejada de Erick, fechando os olhos e sentindo o cheiro familiar de tabaco, pólvora e a colônia amadeirada que ele mesmo havia escolhido para o marido.

— Você ultrapassou os limites, Erick — disse o colombiano baixinho, abrindo os olhos escuros e encarando-o com seriedade mortal. — Se você algum dia duvidar da minha fidelidade de novo... Se você desrespeitar o meu nome ou o meu trabalho dessa forma outra vez, eu pego o Santino e desapareço do mapa. E você nunca mais vai me encontrar. Eu prefiro queimar o Rio de Janeiro inteiro a ser rebaixado por você.

Erick puxou Jorge para mais perto, envolvendo a cintura esguia do marido com o braço são e colando os corpos até que não restasse nenhum espaço entre eles. A intensidade nos olhos do chileno era uma promessa sombria.

— Você não vai a lugar nenhum — rosnou Pulgar contra a boca de Jorge, a autoridade misturada ao desespero palpável. — Você é meu, Jorge. Até o dia em que um de nós estiver debaixo de sete palmos de terra. Mas eu nunca mais vou duvidar da sua palavra. Eu juro pelo túmulo do meu pai.

Jorge não respondeu com palavras. Puxou a nuca de Erick com violência, colando os lábios nos dele em um beijo desesperado, áspero e carregado de um gosto metálico de fúria e redenção. O beijo ardia como pólvora; era a colisão de dois homens que viviam cercados pela morte e que sabiam que sua única salvação — e sua maior ruína — era exatamente a criatura que seguravam nos braços.

Erick ergueu Jorge contra a parede descascada, prensando-o com todo o peso de seu corpo tatuado, arrancando a camisa de seda do colombiano enquanto os dois se perdiam na urgência de apagar as marcas daquela guerra. As feridas ainda estavam abertas, a desconfiança ainda deixava cicatrizes invisíveis na madeira quebrada do quarto, mas naquele momento, entre suspiros pesados e a certeza de que pertenciam um ao outro, o império que haviam construído permanecia de pé. Por um fio, manchado de sangue e cinzas, mas inquebrável.

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