PULGAR & CARRASCAL
Tinta Vermelha em Pele Alheia
A brisa suave que entrava pela janela do apartamento em Ipanema mal conseguia dissipar o calor preguiçoso daquela terça-feira de folga. Jorge Carrascal estava jogado no sofá retrátil da sala ampla, vestindo apenas uma bermuda leve de algodão e com os pés descalços apoiados na mesa de centro. Como engenheiro civil responsável por alguns dos canteiros de obras mais disputados da Zona Sul, dias sem cronogramas, concreto ou vistorias eram raros e preciosos. Ele rolava o feed do celular sem muito foco, ouvindo o zumbido distante da cidade maravilhosa lá fora.
O silêncio do apartamento, contudo, começou a incomodar. Casados há apenas um ano, mas juntos há cinco — quatro anos de um namoro vulcânico e apaixonado —, Jorge ainda sentia aquela urgência juvenil de estar perto do marido. Erick Pulgar era a sua âncora, o oposto perfeito de sua natureza expansiva. Enquanto Jorge gesticulava, ria alto e desenhava prédios, Erick cravava agulhas na pele com uma precisão cirúrgica e um silêncio concentrado que o tornara um dos tatuadores mais requisitados e respeitados de todo o Rio de Janeiro.
Jorge olhou para o relógio na parede: quase meio-dia. Um sorriso travesso curvou seus lábios cheios. Decidiu que não passaria a tarde sozinho comendo sobras da geladeira; iria até o estúdio do marido, fazer uma surpresa, roubá-lo para um almoço em algum bistrô na Garcia D'Ávila e quem sabe distraí-lo daquela rotina maníaca de trabalho.
Vestiu uma camisa de linho branca de mangas curtas, calçou os tênis e ajeitou o topete com reflexos loiros diante do espelho antes de pegar as chaves do carro.
O estúdio de Erick, localizado em uma das galerias mais exclusivas do Leblon, era o reflexo de sua personalidade: paredes de cimento queimado, iluminação quente e intimista, móveis de couro preto e uma clientela que ia de celebridades a empresários dispostos a esperar meses na fila de espera. Ao empurrar a porta de vidro fumê, o sino suave tocou e o aroma característico de café moído misturado a sabão antisséptico e álcool o recebeu.
— Jorgito! — Camila, a recepcionista ruiva, ergueu os olhos do computador e abriu um sorriso espontâneo. Todos no estúdio adoravam o colombiano; sua ginga e carisma quebravam a pose sisuda que o ambiente às vezes exigia. — Que milagre você por aqui em dia útil!
— Dia de folga, meu bem — Jorge apoiou os antebraços no balcão de madeira escura, exibindo seu melhor sorriso malandro. — As obras não caíram sem mim hoje, graças a Deus. Vim sequestrar o tatuador-chefe pra comer alguma coisa decente. Ele tá muito enrolado?
— Olha, ele acabou de dispensar a primeira cliente da manhã e correu ali no barbeiro da esquina pra aparar o cabelo — Camila explicou, apontando com a caneta para o corredor. — A agenda dele da tarde tá entupida, então era o único tempinho livre que ele tinha. Mas ele disse que voltava em vinte minutos, não demora. Pode entrar e esperar na sala dele, fica à vontade.
— Valeu, Cami. Vou lá deixar minhas coisas.
Jorge piscou para a mulher e caminhou pelo corredor de piso escuro, cumprimentando dois tatuadores residentes que finalizavam desenhos em seus iPads. Chegando à porta de madeira maciça que dava acesso ao estúdio privativo de Erick, Jorge entrou sem bater, sentindo aquele conforto familiar do refúgio do chileno. A sala era enorme, cercada por vidros foscos, com uma maca hidráulica de última geração no centro, armários de inox e uma série de certificados internacionais emoldurados.
Ele jogou a carteira e o celular sobre a mesinha de centro ao lado do sofá de couro e soltou um suspiro, preparando-se para relaxar. Foi no exato momento em que seus olhos desceram até o tapete antiderrapante, próximo à base metálica da maca, que o ar pareceu ser subitamente arrancado de seus pulmões.
Havia algo caído ali. Uma mancha escarlate contra o piso cinzento.
Jorge franziu o cenho, dando dois passos lentos até a maca. Abaixou-se devagar. Os dedos longos, adornados por anéis de prata, tocaram o tecido. Era renda pura, fina, minúscula.
Uma calcinha vermelha.
Jorge estremeceu dos pés à cabeça, um calafrio gélido subindo por sua espinha enquanto o coração martelava de forma descompassada contra as costelas. Ele ergueu a peça íntima à altura dos olhos, incrédulo, sentindo a textura do tecido delicado entre as pontas dos dedos trêmulos. A mente do colombiano começou a girar em uma velocidade vertiginosa. Aquilo não era um pedaço de gaze, não era uma toalha manchada de tinta. Era uma lingerie. Na sala privada do seu marido.
O clique da maçaneta girando cortou o silêncio fúnebre do ambiente.
Erick entrou na sala com passos rápidos, o fade do cabelo milimetricamente alinhado e o pescoço ainda levemente avermelhado da lâmina recente. Ele trazia um copo térmico de café na mão e um sorriso discreto nos lábios ao ver o marido ali — Camila já o havia avisado na recepção.
— Oi, mi amor... Camila disse que você tava aqui e eu...
A voz de Erick morreu na garganta.
O chileno parou a três passos da porta, as tatuagens escuras em seu pescoço parecendo ainda mais nítidas à medida que seu rosto perdia a cor. Seus olhos pretos desceram lentamente da postura rígida de Jorge até a mão erguida do colombiano, onde a calcinha de renda vermelha pendia como uma sentença de morte.
— Que porra é essa, Erick? — A voz de Jorge saiu assustadoramente baixa, cortante como um bisturi, desprovida de qualquer vestígio do homem carinhoso que havia saído de casa uma hora antes.
Erick piscou, visivelmente atordoado, engolindo a seco enquanto tentava processar a imagem do marido segurando a peça.
— Jorge... Calma. Não é nada disso que você tá pensando.
— Não é o que eu tô pensando?! — Jorge deu um passo à frente, a voz elevando-se de forma perigosa, o sotaque colombiano ficando mais carregado pela raiva súbita. — Eu entro na sala do meu marido, no estúdio do meu marido, e encontro uma lingerie vermelha jogada no chão do lado da maca dele! Me explica, caralho! O que é que eu devia tá pensando?!
— Abaixa a voz, por favor — Erick ergueu a mão livre em um gesto conciliador, fechando a porta atrás de si com o calcanhar. Ele colocou o copo de café sobre o balcão com cuidado excessivo, tentando desesperadamente ganhar tempo. — A gente tá no meu local de trabalho. Tem cliente lá fora, tem os outros tatuadores...
— Foda-se o seu trabalho! — explodiu Jorge, dando uma risada amarga, de puro escárnio, os olhos queimando em fúria líquida. — Você tá preocupado com a sua reputaçãozinha de merda enquanto uma das suas clientes deixa a calcinha jogada na sua maca?! Que tipo de serviço você tá prestando aqui, Erick?! Desde quando tatuador recebe puta pra tirar a roupa no estúdio?!
— Cala a boca, Jorge! Respeita a minha profissão! — Erick rebateu, as sobrancelhas franzidas em uma careta de frustração e estresse. — Foi uma cliente da manhã! A tatuagem era na virilha, pegando a lateral do quadril. Ela teve que trocar de roupa, colocar um shorts descartável de procedimento. Provavelmente a peça caiu da bolsa dela na hora de se vestir e ela esqueceu, porra!
— Esqueceu? — Jorge deu mais um passo, encurralando o espaço entre os dois, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas. — E você não viu? Uma calcinha vermelha berrante dessa no meio do chão cinza, e o grande e detalhista Erick Pulgar, que não deixa passar um milímetro de erro no traço de uma agulha, não viu uma calcinha no chão?!
Erick desviou o olhar por uma fração de segundo, a mandíbula travada com tanta força que os músculos saltaram sob a pele coberta de tinta.
Jorge, que conhecia cada respiração, cada microexpressão e cada hesitação do marido com quem dividia a cama há cinco anos, congelou. Uma pontada fria de desconfiança pura atravessou seu peito, muito mais profunda do que o choque inicial.
— Olha pra mim, Erick — ordenou Jorge, a voz agora rouca, trêmula pela decepção crescente. — Você sabe quem foi, não sabe? Você sabe de quem caralhos é essa calcinha.
O silêncio que se abateu sobre a sala foi ensurdecedor. Erick encarou o marido, os lábios entreabertos, os ombros tensos como duas pedras. Havia culpa em seus olhos — não de adultério, mas do pânico de quem se vê encurralado por uma mentira por omissão.
— Sei — murmurou o chileno, a voz saindo com dificuldade. — Eu sei de quem é.
Jorge sentiu um soco imaginário atingir seu estômago. O chão pareceu se abrir sob seus pés. Ele encarou a peça de renda vermelha entre seus dedos, o nojo queimando suas entranhas. Sem dizer mais uma única palavra, Carrascal arremessou a calcinha com desprezo contra a bancada de inox, derrubando um frasco de vaselina que rolou até bater na pia.
Ele girou nos calcanhares, abriu a porta com violência e saiu em passos largos pelo corredor.
— Jorge! Espera! — Erick chamou, mas não deu mais do que dois passos. Não podia cruzar a recepção berrando atrás do marido com a galeria movimentada e sua próxima cliente sentada na sala de espera. Ele passou as mãos pelo rosto, puxando o ar entre os dentes, e desferiu um chute seco na lixeira de pedal da sala. — Merda!
Do lado de fora, o sol do Rio de Janeiro parecia ferir os olhos de Jorge. Ele entrou no carro, bateu a porta e apoiou a testa contra o volante, respirando fundo para não permitir que as lágrimas de humilhação e fúria caíssem. O que mais o corroía não era apenas a peça íntima esquecida; era o fato de que Erick sabia exatamente quem era a mulher e, em vez de ser transparente, havia travado como um criminoso pego em flagrante.
Jorge arrancou com o Porsche, voltando para o apartamento em alta velocidade.
Durante as horas seguintes, trancado na sala de casa, a paranoia consumiu cada pensamento seu. Ele andava de um lado para o outro, os punhos cerrados, esperando o celular tocar com uma mensagem explicativa do marido. Mas Erick estava trabalhando. Nada chegou além do silêncio absoluto.
Passava das quatro da tarde quando Jorge, afundado no sofá com o corpo moído pela tensão, abriu o Instagram quase que por impulso mórbido. Enquanto passava os stories distraidamente, um post de um amigo em comum — um promoter conhecido da noite carioca — chamou sua atenção. Era uma repostagem de uma foto com a legenda: *"O homem não erra nunca! Erick Pulgar é outro patamar. Olha essa arte na minha amiga!"*
O coração de Jorge deu um solavanco violento. Seus olhos desceram para a conta marcada: @manuela.v.
Manuela. Manu.
O ar sumiu da sala. Jorge sentiu as mãos gelarem instantaneamente. Manu havia sido a ex-namorada de Erick antes dele assumir sua sexualidade para o mundo e começar o relacionamento com o colombiano. Mas não era apenas uma ex qualquer; tinha sido um relacionamento tóxico, invasivo, de idas e vindas problemáticas, que durante os dois primeiros anos de namoro de Jorge e Erick havia gerado brigas épicas por mensagens desnecessárias e aparições inconvenientes da mulher nos mesmos círculos sociais.
Com os dedos suando frio, Jorge tocou na foto de perfil e entrou nos stories de Manuela.
A sequência era um pesadelo desenhado em postagens públicas.
O primeiro story, gravado às nove da manhã: ela no espelho do carro, na porta do estúdio do Leblon, com a legenda *"Dia de rabiscar com o melhor de todos"*.
O segundo story: ela sentada na sala de atendimento privativa de Erick. Jorge reconheceria aquelas paredes de concreto e aquele sofá de olhos vendados.
O terceiro story fez o sangue de Carrascal ferver com tanta intensidade que sua visão periférica escureceu. Manuela havia postado uma selfie antes de começar o procedimento. Estava com a camisa jeans caída propositalmente sobre os ombros, e por baixo... um sutiã de renda vermelha. O par exato e indiscutível da calcinha que estava jogada na maca.
Mas a humilhação ainda não havia chegado ao ápice.
O último story, postado há menos de uma hora, mostrava o resultado do trabalho. A mulher estava de costas, vestindo apenas a parte de baixo de um biquíni cavado, exibindo uma composição floral monumental que começava no topo da sua nádega esquerda e serpenteava por toda a lateral de sua coxa torneada, desenhada em traços finos e realistas. E a legenda estampada na imagem dizia:
*"Manhã muito produtiva com ele... Obrigada pela paciência e pelas mãos de ouro, você continua impecável em tudo o que faz 😏 @erickpulgar"*
Ela não havia marcado a conta comercial do estúdio, que tinha centenas de milhares de seguidores. Ela havia marcado a conta pessoal de Erick. A conta privada, trancada, com menos de duzentos seguidores, que apenas a família, os amigos íntimos e Jorge tinham acesso.
Uma risada rouca, carregada de ódio puro, escapou da garganta de Jorge. As peças se encaixaram com a precisão de um quebra-cabeça doentio. Erick havia passado a manhã inteira tocando na bunda e na coxa da ex-namorada, havia visto aquela mulher sem calcinha em sua maca particular, havia escondido a sessão inteira do marido e, quando confrontado com a prova do crime, teve a audácia de fingir demência.
Jorge jogou o celular na poltrona e levantou-se. Ele não chorou. A dor se transformou em uma raiva lúcida, calculada e perigosa.
Ele esperou.
Às sete e meia da noite, o barulho da fechadura eletrônica da porta principal quebrou o silêncio mortal do apartamento.
Erick entrou devagar, parecendo carregar o peso do mundo nas costas largas. Havia tomado um banho rápido no estúdio para tirar o cheiro de tinta e sangue das mãos após encerrar o último cliente, mas o cansaço físico era nítido em suas feições. Ele sabia que a tempestade o aguardava, só não imaginava a dimensão do estrago.
Ao pisar na sala na penumbra, viu Jorge. O colombiano estava sentado no sofá, com os braços cruzados, a postura ereta e um sorriso amargo desenhado nos lábios.
— Boa noite, artista — soltou Jorge, a voz pingando veneno puro. — E aí? Matou a saudade do corpo da vagabunda da sua ex-mulher?
Erick parou no meio da sala, fechando os olhos por um segundo e respirando fundo. Ele já sabia que Jorge havia descoberto. A cidade era pequena demais, a internet era rápida demais.
— Jorge, por favor... Me escuta antes de começar a gritar — pediu Erick, a voz rouca e exausta, largando a mochila pesada no chão perto da porta. — Eu passei o dia inteiro trabalhando, em pé, exausto. Eu não matei saudade de ninguém.
— Trabalhando! — Jorge se colocou de pé em um salto, aproximando-se com passos firmes até parar a um metro do chileno. Seus olhos castanhos cuspiam fogo. — Você tem a cara de pau de olhar na minha cara e dizer que tava trabalhando?! Você passou quatro horas com a mão na bunda da Manuela, Erick! Na bunda dela!
— Foi uma tatuagem, caralho! — Erick elevou a voz, perdendo a paciência inicial enquanto tirava a jaqueta jeans e a jogava sobre a poltrona. — É o meu trabalho! Eu passo a mão na pele de homem, de mulher, de velho, de jovem todos os dias há mais de dez anos! Eu sou profissional!
— Profissional?! — Jorge gargalhou alto, um som histérico e cortante. — Se você é tão profissional, por que caralhos você não me contou que ela ia no estúdio hoje?! Hein?! Por que escondeu essa merda de mim se não tinha nada demais?!
Erick gesticulou com as mãos tatuadas, frustrado, tentando se defender da acusação óbvia.
— Porque eu não sabia que era ela, porra! Ela marcou a porra do horário no nome de uma amiga! Usou o WhatsApp de outra pessoa! Eu só bati o olho na ficha quando a Camila me entregou a prancheta de manhã e achei o sobrenome familiar, mas não dei atenção! Quando a porta abriu e eu vi que era ela, ela já tava dentro da minha sala, com a autorização assinada e o sinal pago!
— Ah, me poupa dessa historinha pra boi dormir, Erick! — atacou Jorge, gesticulando descontroladamente, apontando o dedo no rosto maciço do marido. — Você é o dono daquela porra toda! Você podia ter cancelado! Podia ter dito: "Não atendo você, sai da minha sala"! Mas não... Você adorou a surpresinha, não adorou? Ficou todo animadinho pra passar a agulha na pele da loirinha!
— Você tá distorcendo tudo! — rebateu Erick, as veias de seu pescoço saltando pela pressão da discussão. — Eu fiz o meu trabalho pra me livrar dela o mais rápido possível! Eu fui frio com ela a sessão inteira, quase não abri a boca! Eu não cancelei porque ia ser uma cena ridícula no estúdio, ela ia fazer escândalo e eu preferi agir como homem e profissional!
— Homem?! Homem de verdade não esconde as coisas do marido! — berrou Carrascal, as lágrimas de raiva finalmente queimando nos cantos dos olhos. — E quando eu cheguei lá com a calcinha na mão, Erick? Hein?! Por que você não abriu a porra da boca e disse: "Jorge, a Manuela veio aqui e esqueceu essa merda"? Por que você gaguejou feito um moleque culpado?!
Erick engoliu em seco, recuando meio passo. Aquele era o seu ponto mais frágil, e ele sabia disso.
— Porque eu sabia que você ia reagir exatamente desse jeito! — gritou Pulgar de volta, os punhos cerrados. — Você é louco de ciúme com ela desde que a gente começou a namorar! Eu travei porque sabia que, se dissesse que a porra da calcinha era dela, você ia criar esse inferno todo que tá criando agora sem me dar chance de me explicar!
— Eu crio o inferno porque você me dá motivos, seu desgraçado! — Jorge empurrou o peito de Erick com força, fazendo o chileno dar um passo em falso para trás. A dor da insegurança, tão rara no colombiano altivo, rasgou sua voz ao meio. — Ela postou foto de biquíni marcando o seu perfil pessoal! Aquele que só eu e os seus amigos íntimos têm! Ela colocou carinha de maldade dizendo que a manhã foi gostosa! E você acha que eu sou palhaço?! Você sentiu falta daquele corpo, Erick?! Ficou com saudades da loirinha peituda que você comia antes de mim?!
A acusação atingiu Erick como uma bofetada suja. O chileno abriu a boca, chocado com o nível da ofensa, os olhos faiscando em fúria pura.
— Olha as merdas que você tá falando, Jorge... Olha o lixo que você tá jogando no nosso casamento!
— Eu tô jogando lixo?! — Jorge deu mais um passo, aproximando o rosto a centímetros do de Erick, destilando todo o veneno que corroía seu peito. — Você guardou a calcinha pra cheirar depois, Erick?! Ou você devolveu pra ela numa próxima sessãozinha particular?! Porque você é doido por calcinha vermelha, né? Você delira quando eu coloco lingerie de renda vermelha pra você me foder na cama! E olha que coincidência do caralho: a sua exzinha foi pro seu estúdio usando exatamente o conjunto da sua cor favorita! Ela sabe muito bem o que você gosta, não sabe?!
— Já chega! — rugiu Erick, a voz trovejando pelas paredes da sala como um disparo de fuzil.
O silêncio que se seguiu ao grito do chileno foi pesado, sufocante. O peito de ambos subia e descia em um ritmo violento, as respirações misturando-se no ar denso do apartamento. Erick encarou o marido com uma expressão de desgosto e dor que Jorge raramente vira nos olhos escuros daquele homem.
— Em cinco anos que a gente tá junto... — começou Erick, a voz descendo para um tom grave, cortante e perigosamente calmo. — Um ano de casado e quatro de namoro... Eu nunca, em nenhum segundo da minha vida, olhei pro lado. Eu nunca dei um único motivo pra você duvidar do quanto eu te amo, do quanto eu te desejo e do quanto eu sou fiel a essa aliança no meu dedo. Eu construí a minha vida com você, Jorge. Eu dei a chave de tudo o que eu sou pra você.
Jorge piscou, a mandíbula tremendo de leve, mas seu orgulho ferido não permitiu que ele recuasse.
— Mas você preferiu acreditar numa foto de Instagram — continuou o chileno, o olhar endurecendo como pedra. — Preferiu acreditar na provocação barata de uma mulher desequilibrada do que na porra da minha história do seu lado. Você me acusou de traição, me chamou de mentiroso e reduziu o meu amor a uma fantasia doentia de fetiche.
Erick balançou a cabeça devagar, dando dois passos para trás, afastando-se do marido como se o contato físico ali fosse veneno puro.
— Eu não vou continuar nessa discussão — sentenciou o tatuador, com a voz gélida. — Do jeito que nós dois estamos de cabeça quente, a gente só vai destruir o resto de respeito que sobrou com palavras imperdoáveis. Eu não vou deixar você me fazer odiar o homem com quem eu me casei.
— Vai fugir, Erick?! É isso?! — Jorge gritou, a voz falhando em um misto de ódio e desespero ao ver o marido se afastar. — Covarde!
Erick não respondeu. Pegou sua mochila do chão, deu as costas para a sala iluminada e caminhou pelo corredor em direção ao quarto de hóspedes. A porta de madeira bateu com um estalo seco e definitivo, seguido pelo barulho da tranca sendo girada por dentro.
Jorge ficou sozinho no centro da sala fria. O silêncio do apartamento voltou a engoli-lo, mas agora não havia nenhuma calmaria; havia apenas o eco ensurdecedor dos insultos proferidos, o peso esmagador da desconfiança e a certeza amarga de que a primeira grande rachadura na história dos recém-casados acabara de ser aberta.