PULGAR & CARRASCAL
Depois da Tempestade
A claridade suave do sol de domingo invadiu o quarto pelas frestas da cortina entreaberta, pintando faixas douradas sobre os lençóis desfeitos. O ar na suíte ainda carregava o peso denso e inconfundível da madrugada: o cheiro almiscarado de suor, pele quente e a lubrificação que testemunhou horas de reconciliação visceral. No chão, a minúscula lingerie de renda branca repousava jogada ao lado de uma fronha de cetim amassada.
Jorge despertou lentamente, sentindo o corpo inteiro pesar com uma dor deliciosa. Cada músculo parecia ter sido trabalhado à exaustão; a pele das nádegas ainda ardia pelas palmadas e a curva interna das coxas trazia a memória vívida da força possessiva de Erick. Ele tentou se mexer, mas um braço pesado, completamente coberto por tatuagens que iam dos nós dos dedos até a nuca, o mantinha firmemente ancorado ao colchão.
Erick estava colado às suas costas. O nariz do chileno permanecia afundado na curva do pescoço de Jorge, bem sobre a tatuagem de lábios vermelhos que ele mesmo havia cravado na pele do colombiano anos atrás. A respiração ritmada de Pulgar soprava morna contra a nuca suada de Carrascal, e, mesmo adormecido, o quadril pesado de Erick descansava contra as curvas do moreno, exibindo um volume rígido e intransigente.
Jorge soltou um suspiro dengoso, tentando virar o corpo dentro do aperto para encarar o marido. O movimento fez o chileno grunhir baixo, a voz rouca arranhando o silêncio da manhã.
— Se mexer de novo, Jorge, eu não respondo por mim — resmungou Erick, sem abrir os olhos, apertando os dedos na cintura marcada do engenheiro.
— Buenos días pra você também, meu pitbull rabugento — ronronou Carrascal, abrindo um meio sorriso travesso, virando apenas o suficiente para roçar a ponta do nariz na mandíbula quadrada do marido. — Tô quebrado. Não sei se vou conseguir andar hoje, você quase me partiu no meio.
Erick abriu os olhos devagar. O olhar escuro e penetrante, que costumava intimidar qualquer estranho na rua ou no estúdio, suavizou-se em um segundo ao encontrar o semblante descarado de Jorge.
— Bem feito. Quem mandou pedir tapa e provocar dizendo pra bater como homem? — Erick levou a mão até o rosto do colombiano, os nós dos dedos calejados traçando a linha da bochecha bronzeada. — Você pediu por cada segundo, sua peça rara.
Jorge enterrou o rosto no peito largo de Pulgar, sentindo o compasso firme do coração do chileno sob a tinta negra das tatuagens. Por alguns instantes, o peso daquela semana terrível pareceu distante, mas a lembrança da dor ainda exigia o último ponto de cicatrização. Jorge ergueu os olhos novamente, o brilho divertido dando lugar a uma vulnerabilidade rara e desarmada.
— Erick... — murmurou o colombiano, deslizando os dedos pelas costelas desenhadas do marido. — A gente tá bem mesmo?
Erick suspirou fundo, sustentando o olhar do marido. Ele sabia o quanto custava para o orgulho de Carrascal expor aquela insegurança.
— Vem cá — disse o chileno com firmeza tranquila, puxando Jorge para cima de seu peito até que os rostos estivessem a poucos centímetros de distância. — Olha nos meus olhos, Jorge. Eu sou seu marido. Eu amo você e amo a nossa vida com o Santino. Aquela mulher é o meu passado mais enterrado. O que aconteceu no estúdio não foi escolha minha, mas eu devia ter te contado na hora. Errei feio em omitir. Só que você precisa colocar na sua cabeça de uma vez por todas: ninguém entra no meio da gente. Ninguém.
Jorge engoliu em seco, sentindo um nó na garganta se desfazer. A verdade na voz de Pulgar era sólida como concreto armado, algo que o engenheiro civil dentro dele reconhecia perfeitamente.
— Me desculpa pelas merdas que eu disse — sussurrou Jorge, a voz falhando de leve. — Quando eu vi aquela calcinha vermelha na sua maca... parecia um pesadelo. E quando vi os stories dela, esfregando a tatuagem na bunda e marcando você... meu sangue ferveu. Eu achei que... não sei, achei que ela podia ter algo que eu não tinha.
Erick soltou um estalo de língua impaciente, segurando o queixo de Jorge com força deliberada, obrigando-o a sustentar o olhar.
— Cala essa boca. Ela não tem um terço da sua postura, da sua luz, e muito menos a sua gostosura. E outra coisa... — Erick esticou o braço até a mesinha de cabeceira, pegando o celular. — Pega. Desbloqueia.
Jorge franziu a testa, hesitante.
— Erick, não precisa...
— Pega, Jorge. Abre o Instagram. Abre as mensagens.
Com as mãos ainda trêmulas, Jorge pegou o aparelho. Viu que Manu estava formalmente bloqueada em todas as contas pessoais de Erick. Na conversa de trabalho com a recepcionista Camila, a ordem deixada na sexta-feira era cristalina em texto: *"Camila, a senhora Manuella está proibida de agendar ou comparecer ao estúdio para qualquer procedimento comigo. Caso ela insista, repasse os contatos externos que deixei anotados. O estúdio preza pelo respeito à minha família."*
Jorge mordeu o lábio inferior, devolvendo o aparelho para o peito de Erick. Um sorriso tímido, quase infantil, começou a despontar nos lábios carnudos.
— Satisfeito, doutor engenheiro? — provocou o chileno, arqueando uma sobrancelha tatuada.
— Muito — respondeu Jorge, esticando-se para colar os lábios nos de Erick em um beijo lento, molhado e carregado de carinho. — Mas você ainda me deve uma massagem. Minhas costas tão moídas.
— Vou te dar um banho — decidiu Erick, levantando-se da cama com a postura atlética e colossal que deixava Jorge sempre sem fôlego.
Erick inclinou-se sobre o colchão, enlaçou os braços sob os joelhos e as costas de Jorge, erguendo o colombiano sem esforço algum. Carrascal soltou um gritinho manhoso, enroscando os braços ao redor do pescoço musculoso do chileno enquanto era carregado em direção à banheira da suíte master.
O vapor da água quente logo preencheu o banheiro de mármore escuro. Erick sentou-se na borda, cuidando do marido com uma delicadeza que poucos imaginariam que aquele homem de feições duras pudesse ter. Ensaboou os ombros de Jorge, lavou seus cabelos clareados e massageou os músculos tensos das pernas com calma cirúrgica. Jorge fechou os olhos, entregando-se completamente àquele dengo, permitindo que a água levasse embora todo o veneno e a amargura dos últimos dias.
— Que horas seus pais trazem o Santino? — perguntou Erick, enquanto enxaguava a espuma das costas do marido.
— Meu pai mandou mensagem ontem dizendo que ia trazer ele depois do almoço — respondeu Jorge, rindo fraco ao lembrar da peça. — O moleque deve ter aprontado horrores na casa dos avós. Conhecendo a peste, já desmontou a televisão do meu pai ou tentou ensinar o papagaio a falar palavrão.
— Eu sinto falta daquela correria — confessou Erick com um sorriso raro, os olhos brilhando. — A casa ficou parecendo um velório essa semana. Sem ele correndo e sem você dançando descalço pela cozinha... foi horrível, Jorge. Nunca mais deixa a gente chegar naquele ponto.
— Nunca mais — prometeu Jorge, estendendo a mão molhada para segurar o rosto do chileno. — Da próxima vez que eu surtar, você me cala a boca na porrada de beijo antes que eu fale merda.
— Pode deixar. E se não resolver com beijo, a gente resolve do jeito que resolveu na cama hoje de madrugada — ameaçou Erick com a voz rouca, fazendo um arrepio gostoso percorrer a espinha do colombiano.
Depois do banho, Jorge vestiu apenas um moletom cinza largo de Erick — que cobria até a metade de suas coxas — e desceu as escadas com um caminhar cuidadoso, amparado pelo corrimão. Na cozinha ampla e moderna, o aroma do café colombiano passado na hora começou a tomar conta do ambiente. Jorge preparava uma porção caprichada de arepas com queijo derretido, requebrando levemente o quadril ao som de uma salsa baixa que tocava na caixa de som inteligente.
Erick desceu em seguida, vestindo uma bermuda preta, o peito e as costas nuas exibindo os 90% de pele tatuada que contavam sua história: as homenagens à sua mãe, seus irmãos, a data de nascimento de Santino nas costelas e o nome de Jorge discretamente gravado sobre o lado esquerdo do peito. Ele caminhou silencioso até a bancada e abraçou Jorge por trás, repousando as mãos pesadas nos quadris do colombiano, encaixando o queixo em seu ombro.
— Já tá dançando, carajo? — murmurou Pulgar, mordiscando a orelha de Carrascal. — Pensei que estivesse aleijado.
— A música tá no sangue, amor — zombou Jorge, jogando a cabeça para trás no ombro do marido e enfiando um pedaço de queijo na boca dele. — Come logo que daqui a pouco o pequeno furacão chega e a nossa paz acaba.
Como se houvessem invocado uma entidade, o interfone tocou menos de quarenta minutos depois.
A porta principal foi aberta e, antes mesmo que os avós pudessem atravessar a soleira com a mochila pequena nas mãos, um vulto pequeno e veloz invadiu a sala com um grito estridente.
— PAPI! PAPÁ ERICK!
Santino, com seus sete anos de pura eletricidade, cabelos castanhos bagunçados e joelhos ralados, voou na direção dos pais. O menino ignorou completamente a pose imponente de Erick e se jogou de cabeça nas pernas compridas do chileno.
A transformação de Erick Pulgar foi instantânea. O pitbull autoritário, que poucos dias atrás quase congelava a alma da ex-mulher apenas com a voz, abaixou-se com agilidade impressionante, agarrando o menino nos braços e o jogando para cima com facilidade colossal, arrancando uma gargalhada escandalosa da criança.
— Ei, moleque doido! — rugiu Erick em tom de brincadeira, apertando Santino contra o peito tatuado e enchendo o rosto do garoto de beijos estalados enquanto a criança tentava empurrar seu cavanhaque rindo. — Aprontou muito com o vovô?
— Ele botou fogo no guardanapo de papel, Erick! — reclamou o pai de Jorge entrando na sala, rindo enquanto abraçava o filho e cumprimentava o genro com um aperto de mão afetuoso. — Esse menino puxou a pilha do Jorge quando era criança, ninguém aguenta.
— Não foi fogo de verdade, vovô, foi só uma faísca do fósforo pra fazer magia! — defendeu-se Santino com a cara mais lavada do mundo, virando-se imediatamente para os braços de Jorge. — Papi! Olha o que eu desenhei!
Jorge pegou o filho no colo, enchendo o pescoço do menino de cócegas e cheiros demorados, respirando o cheiro de infância que trazia uma paz reconfortante para o seu coração.
— Magia nada, senhor Santino. Você quase virou carvão, isso sim. E você sabe que não pode mexer com fogo sem o papá Erick por perto!
— Mas o papá Erick é corajoso, ele tem dragão no braço — retrucou o menino com seriedade absoluta, apontando para o antebraço tatuado do chileno, fazendo todos na sala caírem na risada.
Depois das despedidas rápidas e dos agradecimentos aos avós, a casa finalmente voltou à sua rotina habitual. Santino esparramou brinquedos, desenhos e carrinhos pelo tapete felpudo da sala — o mesquíssimo tapete onde, horas antes, Jorge estivera de joelhos implorando pelo prazer do marido. Ao lembrar disso, Jorge lançou um olhar enviesado para o sofá, sentindo o rosto esquentar. Erick percebeu o rubor repentino do marido, piscou um olho com malícia descarada e voltou a ajudar Santino a montar uma pista de corrida de carrinhos.
No início da tarde, o celular de Jorge apitou com mensagens no grupo de amigos. Giorgian De Arrascaeta mandara fotos da festa do dia anterior, e Guillermo Varela aproveitara para enviar uma mensagem no privado de Jorge:
*"E aí, cabeça dura? Ainda tá casado ou o Erick te expulsou de casa?"*
Jorge sorriu sozinho, digitando rápido com os polegares:
*"Mais casado do que nunca, uruguaio metido. O pitbull é meu e de mais ninguém."*
Varela respondeu com uma figurinha debochada rindo: *"Sabia. O chileno é frouxo por você. Mas da próxima vez, usa a cabeça antes de fazer escândalo por bobagem."*
Jorge largou o celular sobre a bancada, concordando em silêncio. Aquele quase rompimento fora o susto que precisavam para lembrar que um casamento não se sustenta apenas pela química incandescente que compartilhavam entre quatro paredes, mas pela transparência crua e pela confiança inabalável.
Ao voltar para a sala, Jorge encontrou uma cena que fez seu peito aquecer como se estivesse sob o sol de Cartagena. Santino havia subido nas costas largas de Erick, puxando as orelhas do chileno enquanto Erick engatinhava pelo tapete fingindo ser um touro bravo, soltando bufos teatrais que faziam o menino gritar de alegria.
Jorge encostou no batente da porta, cruzando os braços e admirando sua família. Aquele homem tatuado, que dominava a arte das agulhas como poucos e que o despia com a crueza dos mais baixos desejos na cama, era o mesmo que se desmanchava em quatro apoios para fazer uma criança de sete anos rir.
— Papi! — gritou Santino, avistando Jorge. — Monta também! O touro tá bravo!
— Nem pensar — disse Jorge com uma risada cheia de duplo sentido, mordendo o lábio ao encontrar o olhar faiscante de Erick fixado nele. — O lombo desse touro é perigoso demais pra mim hoje. Já andei nele tempo suficiente pra ficar dolorido a semana toda.
Erick soltou uma gargalhada rouca e profunda, deixando Santino escorregar com cuidado para o tapete antes de se levantar. Ele caminhou na direção de Jorge, a imponência física voltando à tona a cada passo compassado. Quando alcançou o colombiano no batente da porta, prensou-o levemente contra a madeira, apoiando uma das mãos acima da cabeça do marido e baixando a voz para um sussurro que apenas os dois pudessem ouvir.
— Não reclama, Carrascal — murmurou Erick, a voz arrastada, o hálito quente batendo no queixo de Jorge. — Hoje o menino dorme cedo. E eu vi que você comprou mais lingeries daquela loja no shopping. A gente ainda nem começou a testar o restante.
Jorge engoliu em seco, sentindo o abdômen contrair e o calor voltar a ferver entre as pernas em uma fração de segundo. O sorriso arteiro e malandro, que era sua maior marca registrada, dançou nos lábios com a insolência habitual.
— Se você acha que aguenta o ritmo, meu amor... — sussurrou o colombiano, passando a ponta da língua no lábio inferior. — Eu tô pronto pro próximo round.
Erick deu um sorriso de canto, beijando com firmeza a marca de lábios cravada no pescoço bronzeado de Jorge, selando ali o pacto de que a tempestade havia finalmente ficado para trás. Naquela casa, o amor era selado a ferro, fogo e tinta permanente.