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Punição

O Eco do Silêncio e o Sangue nas Mãos

A noite na caverna parecia ter se tornado mais densa, o ar carregado com o cheiro metálico de sangue e o odor acre de sêmen que ainda flutuava no ambiente. O fogo da fogueira, antes vibrante, agora se resumia a brasas moribundas que projetavam uma luz avermelhada e doentia sobre os dois homens. Kakuzu sentia o peso de Hidan contra seu peito, um peso que não era físico, mas moral. Ele, que cruzara décadas colecionando corações e eliminando qualquer vestígio de humanidade, viu-se subitamente confrontado com a fragilidade de um ser que ele acreditava ser inquebrável.

Hidan não era mais o tagarela insolente. Seus soluços haviam parado, substituídos por uma respiração curta e trêmula. Ele estava ali, o corpo marcado pela brutalidade de Kakuzu, os olhos fixos em um ponto invisível na escuridão da caverna. O silêncio dele era mais ensurdecedor do que qualquer um de seus sermões sobre Jashin.

— Hidan — chamou Kakuzu novamente, sua voz saindo mais profunda, quase um rosnado contido. — Você precisa se limpar. O sangue vai secar e vai ser pior para se mover amanhã.

O mais jovem não respondeu de imediato. Ele apenas apertou os dedos no tecido grosso do manto de Kakuzu, as unhas cravando-se na fibra negra.

— Ele não está falando comigo — sussurrou Hidan, a voz tão baixa que Kakuzu teve que se inclinar para ouvir. — Jashin-sama... o silêncio dele é... é frio. Ele sempre estava lá, Kakuzu. No calor do sangue, na dor das feridas... eu sentia o olhar dele. Mas agora, depois do que você fez... só tem vazio.

Kakuzu sentiu um desconforto genuíno subir por sua espinha. Ele não acreditava em deuses, mas acreditava na loucura de Hidan, e aquela loucura era o que mantinha o imortal funcional. Ver Hidan duvidando de sua própria divindade era como ver uma arma se desintegrando nas mãos de seu dono.

— Você é um idiota — disse Kakuzu, embora o insulto não tivesse o veneno de costume. — Se o seu deus é um monstro que exige sacrifícios humanos, ele não se importa com a sua virgindade. Ele se importa com a dor. E eu te dei dor suficiente para dez rituais.

Hidan finalmente levantou o rosto. Seus olhos violetas estavam nublados, desprovidos daquele brilho maníaco que Kakuzu tanto odiava e que agora, estranhamente, sentia falta.

— Você não entende nada — Hidan cuspiu, mas a agressividade era fraca. — A pureza era o meu contrato. Eu era o sacrifício perfeito porque não pertencia a ninguém além dele. E agora... agora eu tenho o seu cheiro em mim. Eu tenho a sua marca. Você me profanou, Kakuzu. Você me tornou... comum.

A raiva de Kakuzu ameaçou voltar, mas ele a suprimiu. Ele olhou para o corpo de Hidan, para os hematomas que começavam a escurecer na pele pálida, e para o rastro de sangue que manchava a parte interna de suas coxas. A violência do ato ainda latejava em seus próprios músculos. Ele sabia que tinha ido longe demais. Não era apenas uma punição; fora uma tentativa de destruir a única coisa que Hidan possuía.

Sem dizer uma palavra, Kakuzu se levantou, fazendo com que a cabeça de Hidan pendesse para o lado. Ele caminhou até sua mochila e pegou um cantil de água e um pedaço de pano limpo. Ao voltar, ajoelhou-se entre as pernas de Hidan.

— O que você está fazendo? — perguntou Hidan, tentando se afastar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios quando o movimento repuxou as feridas internas.

— Fique parado — ordenou Kakuzu, a voz autoritária. — Eu causei o estrago, eu vou limpar.

— Não precisa de sua piedade, seu velho maldito! — Hidan tentou empurrá-lo, mas Kakuzu segurou seus pulsos com uma mão só, prendendo-os acima da cabeça do jovem.

— Eu disse para ficar parado.

Kakuzu começou a limpar o sangue e o sêmen com movimentos surpreendentemente cuidadosos. O contraste entre sua brutalidade anterior e a delicadeza atual era desconcertante. Hidan virou o rosto para o lado, os lábios tremendo enquanto sentia a água fria contra sua pele ferida. Cada toque de Kakuzu era um lembrete do que havia acontecido, mas também era, de uma forma distorcida, um pedido de desculpas silencioso.

— Dói? — perguntou Kakuzu, limpando a entrada agora avermelhada e inchada de Hidan.

— O que você acha? — Hidan riu, uma risada seca e sem vida. — Você me rasgou ao meio. Mas a dor física... eu consigo lidar com ela. É o resto que eu não sei o que fazer.

Kakuzu parou por um momento, olhando para o rosto de Hidan. A luz das brasas destacava as linhas de seu rosto jovem, a beleza que Kakuzu sempre ignorara em favor de sua utilidade em combate.

— Por que você nunca contou? — Kakuzu perguntou, sua voz baixa. — Sobre ser virgem. Sobre essa... regra de Jashin.

— Eu contei! — Hidan exclamou, voltando a olhar para ele com um lampejo de sua antiga indignação. — Eu falo sobre os preceitos de Jashin-sama todo santo dia! Você é quem nunca escuta! Você só pensa em dinheiro, em recompensas, em corações... você nunca me viu como uma pessoa, Kakuzu. Apenas como uma ferramenta que não morre.

Kakuzu sentiu um golpe em seu ego. Era verdade. Ele via Hidan como um fardo necessário, uma peça de artilharia imortal que ele podia usar e abusar. Mas ele nunca parou para considerar que a imortalidade de Hidan vinha com um custo mental que ele mesmo, com seus cinco corações e décadas de cinismo, talvez não conseguisse suportar.

— Eu ouvi você — admitiu Kakuzu, voltando à tarefa de limpeza. — Eu apenas achei que era mais uma de suas mentiras para se sentir superior. Não achei que você realmente acreditasse nessa pureza.

— É a única coisa que eu tinha — sussurrou Hidan, fechando os olhos enquanto Kakuzu terminava de limpá-lo. — O mundo é um lugar de merda, Kakuzu. As pessoas são gananciosas, cruéis e morrem por nada. Jashin-sama me deu um propósito. Ele me deu a eternidade em troca da minha devoção. E agora eu sinto que quebrei minha parte do trato.

Kakuzu jogou o pano sujo de lado e soltou os pulsos de Hidan. Ele se sentou novamente, mas desta vez não puxou o outro para o colo. Ele apenas ficou ali, observando o parceiro tentar se recompor, puxando o manto rasgado para cobrir sua nudez.

— Se o seu deus te abandonar por causa disso — disse Kakuzu, olhando para as sombras no teto da caverna —, então ele não é digno da sua adoração. Um deus que não entende a dor da traição e da força não é um deus de sangue.

Hidan olhou para ele, surpreso com a profundidade inesperada das palavras do tesoureiro.

— Você está tentando me consolar? — Hidan perguntou, um pequeno sorriso cínico surgindo no canto da boca. — O grande Kakuzu, o caçador de recompensas sem coração, está se sentindo culpado?

— Não abuse da minha paciência, Hidan — rosnou Kakuzu, embora sem convicção. — Eu só não quero ter que carregar um cadáver emocional nas nossas missões. Você é inútil para mim se não conseguir lutar.

Hidan suspirou e se arrastou para mais perto de Kakuzu, sentindo a necessidade de calor humano, mesmo que viesse do homem que o havia ferido. Ele encostou o ombro no braço robusto de Kakuzu.

— Eu ainda sinto dor — disse Hidan. — E não é a dor boa. É uma dor... suja.

Kakuzu hesitou, mas então passou o braço pelos ombros de Hidan, puxando-o para perto de forma protetora.

— Amanhã você vai realizar um ritual — declarou Kakuzu. — Vamos encontrar um grupo de bandidos ou algum alvo de recompensa menor. Você vai oferecer o sangue deles para Jashin. Você vai gritar o nome dele até sua garganta sangrar. E se ele não responder... então você vai ter que aceitar que, a partir de agora, você pertence a este mundo. E a mim.

Hidan estremeceu com a possessividade na voz de Kakuzu. Havia algo de aterrorizante e, ao mesmo tempo, estranhamente reconfortante naquilo. Pela primeira vez em sua vida, ele não era apenas um servo de uma divindade invisível; ele era algo real para alguém de carne e osso, por mais frio que esse alguém fosse.

— Você é um monstro, Kakuzu — murmurou Hidan, fechando os olhos e permitindo que o cansaço finalmente o dominasse.

— Eu sei — respondeu o mais velho.

O silêncio voltou à caverna, mas desta vez não era tão pesado. Hidan acabou pegando no sono, exausto pela dor e pelo turbilhão emocional. Kakuzu, no entanto, permaneceu acordado. Ele observava a respiração rítmica de Hidan, sentindo o calor do corpo do jovem contra o seu.

Ele pensou na agressão, na forma como havia ignorado os gritos e as súplicas. Ele pensou no sangue que havia limpado. Em seus quase cem anos, Kakuzu raramente se arrependia de algo, mas ali, na quietude da noite, ele percebeu que havia cruzado uma linha que não podia ser desfeita. Ele não apenas punira Hidan; ele o havia reivindicado de uma forma que nenhum contrato ou parceria poderia igualar.

Ao amanhecer, os primeiros raios de sol penetraram na entrada da caverna. Hidan acordou com um gemido, seu corpo protestando contra cada movimento. Ele sentiu a presença de Kakuzu ainda ao seu lado, o braço do mais velho ainda em volta dele.

— Acorde — disse Kakuzu, sua voz voltando ao tom áspero e impaciente de sempre. — Temos trabalho a fazer.

Hidan sentou-se lentamente, segurando o manto contra o peito. Ele olhou para Kakuzu, procurando algum sinal do homem que o havia confortado na noite anterior, mas a máscara estava de volta, escondendo qualquer emoção.

— Eu... eu não sei se consigo andar direito — admitiu Hidan, a voz rouca.

Kakuzu bufou, levantando-se e começando a organizar seus equipamentos.

— Você é imortal. Suas células já devem ter começado a curar o estrago. Pare de reclamar e se vista.

Hidan obedeceu, seus movimentos lentos e desajeitados. Enquanto se vestia, ele notou que Kakuzu havia deixado uma porção extra de comida perto de suas coisas, algo que o tesoureiro raramente fazia, já que era extremamente controlado com os suprimentos.

— Kakuzu — chamou Hidan, enquanto prendia sua foice nas costas.

O homem mais velho parou, mas não se virou.

— Se Jashin-sama me punir... se ele tirar minha imortalidade por causa disso... o que você vai fazer?

Kakuzu ficou em silêncio por um longo momento. Ele pensou em todas as vezes que Hidan o irritara, em todas as vezes que ele desejara matá-lo. Mas então ele pensou na noite anterior, na vulnerabilidade absoluta de Hidan e na forma como ele se agarrou a Kakuzu em busca de segurança.

— Se ele tirar sua imortalidade — disse Kakuzu, finalmente virando-se para encarar Hidan —, então eu terei que tomar mais cuidado para que ninguém te mate. Afinal, você ainda me deve muito tempo de serviço por todas as despesas que me causou.

Hidan piscou, processando a resposta. Não era uma declaração de amor, longe disso. Era a versão de Kakuzu de dizer que não o deixaria para trás. Um pequeno sorriso, o primeiro sorriso real em muito tempo, surgiu no rosto de Hidan.

— Você é mesmo um velho pão-duro — provocou Hidan, sua voz recuperando um pouco do tom vibrante. — Mas acho que posso viver com isso. Só não espere que eu pare de rezar. Jashin-sama pode estar bravo, mas ele ainda é meu senhor.

— Apenas cale a boca e ande — retrucou Kakuzu, saindo da caverna.

Hidan o seguiu, mancando levemente, mas com a cabeça erguida. A profanação havia ocorrido, a pureza havia sido perdida, e o medo da punição divina ainda pairava sobre ele como uma nuvem negra. No entanto, enquanto olhava para as costas largas de Kakuzu, Hidan sentiu que, talvez, o inferno não fosse tão solitário quanto ele imaginava.

Eles caminharam pela floresta em silêncio por algum tempo, até que Hidan não conseguiu mais se conter.

— Sabe, Kakuzu... para um velho, você até que tem bastante energia. Mas da próxima vez, se você tentar me "punir" assim de novo, eu juro que corto sua cabeça enquanto você dorme!

Kakuzu soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve segundo. O Hidan irritante estava de volta.

— Eu deveria ter deixado você mudo — resmungou Kakuzu.

— Ah, admita! Você adora minha voz! — Hidan riu, e embora houvesse uma sombra de dor em seus olhos, o som era familiar e, de certa forma, reconfortante para os ouvidos de Kakuzu.

A dinâmica entre eles havia mudado para sempre. Onde antes havia apenas intolerância, agora havia uma tensão sombria e uma compreensão tácita de que pertenciam um ao outro nas trevas. O preço da imortalidade era alto, e o preço da pureza fora ainda maior, mas no mundo sangrento da Akatsuki, eles haviam encontrado uma forma distorcida de equilíbrio.

Enquanto avançavam em direção ao próximo alvo, Kakuzu manteve um olho em Hidan, certificando-se de que o parceiro não ficasse para trás. Ele não admitiria, mas o silêncio da noite anterior o assustara mais do que qualquer inimigo. Ele preferia o Hidan pecador e barulhento ao Hidan puro e quebrado. E, se para manter Hidan inteiro ele tivesse que ser o monstro que o profanou, Kakuzu aceitaria esse papel com a mesma frieza com que contava suas moedas.