Punição
O Contrato de Sangue e Aliança
O sol já estava alto quando a dupla da Akatsuki cruzou a fronteira do País do Fogo. O silêncio que se seguira à noite na caverna fora, a princípio, um alívio para Kakuzu, mas conforme as horas passavam, o comportamento de Hidan começou a mudar de uma melancolia silenciosa para uma agitação nervosa. Ele não parava de mexer no amuleto de Jashin em seu pescoço, murmurando palavras rápidas e desconexas, seus olhos violetas varrendo as árvores como se esperasse que um raio caísse do céu a qualquer momento para incinerá-lo.
Kakuzu, por sua vez, mantinha o passo firme, mas seus sentidos estavam em alerta máximo. Ele não se arrependia da força que usara — o arrependimento era um luxo que ele não podia pagar —, mas a imagem de Hidan quebrado no chão da caverna ainda estava gravada no fundo de sua mente, como uma nota promissória não paga.
— Kakuzu — chamou Hidan subitamente, parando no meio da trilha.
O mais velho parou e suspirou, fechando os punhos.
— Se for para reclamar da dor novamente, poupe seu fôlego. Eu já disse que suas feridas vão fechar.
— Não é isso! — Hidan correu para ficar à frente dele, bloqueando o caminho. Seu rosto estava pálido, mas havia uma determinação febril em seu olhar. — Eu estive pensando. Eu passei a manhã inteira consultando as escrituras mentais e tentando ouvir a voz de Jashin-sama através do vazio. Ele está furioso, Kakuzu! Ele está além de furioso! Eu sinto a desonra queimando como ácido nas minhas veias!
— E o que você quer que eu faça? — Kakuzu rosnou, aproximando-se perigosamente. — Quer que eu peça desculpas ao seu deus? Eu não me desculpo por colocar você no seu devido lugar.
— Não! — Hidan gesticulou freneticamente. — Você não entende a gravidade da situação. Eu era um vaso sagrado. Agora, eu sou... eu sou um desertor da pureza. Mas existe uma brecha. Uma única brecha nas leis de sacrifício carnal que pode impedir que Jashin-sama arranque minha imortalidade e jogue minha alma para os cães do inferno.
Kakuzu cruzou os braços, os fios negros sob sua pele agitando-se com a impaciência.
— Desembuche logo. Temos uma recompensa em Tanzaku que não vai se entregar sozinha.
Hidan respirou fundo, endireitando a postura com uma seriedade que beirava o absurdo.
— Você tem que casar comigo.
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que o som de um galho quebrando a metros de distância pareceu uma explosão. Kakuzu piscou, as sobrancelhas escondidas pela máscara subindo em total descrença.
— O quê?
— É a única saída! — Hidan deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Se formos unidos perante o sangue e o ritual, o ato que você cometeu deixa de ser uma profanação aleatória e se torna uma... uma união de servos! Se você se tornar meu companheiro oficial sob o dogma de Jashin, o sexo não é mais um pecado de impureza, mas uma partilha de dor entre escolhidos! Jashin-sama aceita o matrimônio de sangue como uma forma de fortalecer o culto!
Kakuzu soltou uma risada seca e rouca, um som que raramente escapava de sua garganta.
— Você enlouqueceu de vez. Eu não me caso com ninguém, muito menos com um pirralho barulhento que não sabe fechar a boca. Casamento é um contrato, Hidan. E contratos envolvem perdas financeiras, divisões de bens e obrigações que eu não tenho o menor interesse em assumir.
— Não é um casamento civil, seu velho ganancioso! — Hidan gritou, socando o próprio peito. — É um ritual de Jashin! Não tem nada a ver com o seu dinheiro maldito! É sobre a minha alma! Se você não fizer isso, eu vou continuar sendo um pecador aos olhos dele. Você me quebrou, Kakuzu! Você tirou a única coisa que me tornava puro! O mínimo que você pode fazer é me ajudar a consertar isso antes que ele decida que eu não mereço mais ser imortal!
Hidan caiu de joelhos na terra, a foice batendo pesadamente contra o chão. Ele não estava chorando agora, mas o desespero em sua voz era palpável. Ele olhou para Kakuzu com uma vulnerabilidade que o tesoureiro odiava reconhecer.
— Por favor... — sussurrou Hidan. — Você disse que se ele tirasse minha imortalidade, você teria que cuidar de mim. Casar comigo é mais barato do que ter que me proteger de cada ninja de nível C que cruzar nosso caminho porque eu não posso mais me curar.
Kakuzu encarou o homem aos seus pés. Sua mente, sempre voltada para o cálculo de custo e benefício, começou a trabalhar. Hidan era irritante, sim. Ele era instável e fanático. Mas ele era o único parceiro que Kakuzu não conseguira matar, o único que aguentava seu temperamento e sua brutalidade. Se o psicológico de Hidan estava tão abalado a ponto de ele acreditar que perderia seus poderes, ele se tornaria um fardo. E, no fundo, em um lugar que Kakuzu raramente visitava, havia aquele desconforto residual pela violência desmedida da noite anterior.
— Como funciona esse... ritual? — perguntou Kakuzu, a voz pesada.
Hidan levantou a cabeça, os olhos brilhando com uma esperança renovada.
— É simples. Precisamos de um círculo de sangue. O seu e o meu. Oramos juntos e fazemos um pacto de dor eterna. Nós nos ligamos um ao outro. O que você fizer comigo a partir daí, Jashin-sama verá como parte da nossa união sagrada. Eu não serei mais um virgem profanado, serei um sacerdote unido a um guardião.
Kakuzu suspirou, massageando as têmporas. Ele não acreditava em uma palavra daquela teologia barata, mas via uma oportunidade de calar Hidan e garantir que ele voltasse a ser a máquina de matar eficiente de sempre.
— Se eu fizer isso, você para de choramingar sobre a sua "pureza" e volta a focar nas missões?
— Sim! Eu juro por Jashin-sama! — Hidan levantou-se rapidamente, limpando a poeira das calças. — Eu serei o parceiro mais dedicado que você já teve!
— Você já é o único parceiro que eu tenho, imbecil — resmungou Kakuzu. — Vamos. Faça logo essa palhaçada antes que eu mude de ideia.
Hidan não perdeu tempo. Ele usou sua foice para desenhar o símbolo de Jashin no chão da floresta — o triângulo dentro do círculo. Com uma adaga menor, ele cortou a palma da própria mão, deixando o sangue pingar no centro do desenho.
— Agora você — disse Hidan, estendendo a mão para Kakuzu.
Kakuzu desembainhou uma pequena lâmina e fez um corte preciso em sua mão. Ele deixou que o sangue escuro e denso se misturasse ao de Hidan. O contato das mãos feridas enviou uma onda de calor estranha pelos braços de ambos.
Hidan começou a entoar as preces em uma língua antiga e gutural. O ar ao redor deles pareceu esfriar, e as sombras das árvores se alongaram, como se o próprio ambiente estivesse prestando atenção. Kakuzu sentia os fios negros sob sua pele pulsarem em um ritmo frenético. Ele olhou para Hidan e viu que o jovem estava em transe, seu rosto transfigurado por um fervor religioso que era, ao mesmo tempo, belo e terrível.
— Com este sangue, eu me ligo ao meu carrasco e protetor — entoou Hidan, as mãos tremendo. — Que a dor dele seja a minha, e que a minha carne seja a sua oferenda. Jashin-sama, aceite este contrato de união. Não sou mais puro, mas sou unido ao ferro e ao fio.
Hidan puxou Kakuzu para mais perto, até que seus rostos estivessem a centímetros de distância.
— Você tem que dizer — sussurrou Hidan. — Diga que aceita o fardo de ser meu senhor perante o sangue.
Kakuzu olhou nos olhos violetas, vendo a loucura e a necessidade ali misturadas. Ele sabia que estava se amarrando a algo que não podia ser contado em notas de dinheiro.
— Eu aceito — disse Kakuzu, a voz como um trovão baixo. — Mas saiba disso, Hidan: se eu sou seu senhor, eu não terei paciência para falhas.
Hidan sorriu, um sorriso selvagem e genuíno, e então puxou Kakuzu para um beijo. Não foi um beijo de afeto, mas um choque de dentes e gosto de ferro. Foi violento, possessivo e selou o compromisso de uma forma que palavras nunca conseguiriam.
Quando se separaram, o círculo de sangue no chão parecia ter sido absorvido pela terra. Hidan soltou um suspiro longo, seus ombros relaxando pela primeira vez em vinte e quatro horas.
— Sinto... eu sinto ele de novo — sussurrou Hidan, tocando o peito. — O vazio se foi. Ele aceitou, Kakuzu. Ele aceitou!
— Ótimo — disse Kakuzu, limpando a mão na roupa e voltando para a trilha. — Agora que você está devidamente "casado", podemos ir atrás do dinheiro? Já perdemos tempo demais com essa superstição.
Hidan riu, correndo para alcançar o parceiro. Ele parecia ter recuperado toda a sua energia maníaca.
— Você é tão romântico, Kakuzu-chan! Mal selamos nossa união e você já quer ir trabalhar para sustentar a casa? Que marido exemplar você me saiu!
— Não me chame assim — rosnou Kakuzu, embora não houvesse a intenção assassina de antes. — E se você abrir a boca sobre isso para qualquer outro membro da Akatsuki, eu pessoalmente arranco sua língua e a dou de comer aos corvos.
— Ah, qual é! O Pain ia adorar saber que estamos fortalecendo os laços da organização! E o Deidara ia morrer de inveja! — Hidan saltitava ao lado dele, a foice balançando ritmicamente. — Mas sério, Kakuzu... obrigado. Eu sei que você acha que é tudo bobagem, mas... você salvou minha vida. De novo.
Kakuzu não respondeu. Ele manteve os olhos na estrada, mas por dentro, sentia uma calma estranha. A brutalidade da noite anterior havia sido canalizada, transformada em algo que Hidan podia processar. O "casamento" era apenas uma palavra, um rótulo para a dependência mútua que já existia entre eles.
Horas depois, quando o sol começou a se pôr, eles chegaram a uma pequena estalagem na beira da estrada. Kakuzu pagou por um quarto — apenas um, como sempre, para economizar.
Assim que a porta se fechou, Hidan jogou sua foice no canto e se virou para Kakuzu, seus olhos brilhando com uma nova intensidade.
— Então... — começou Hidan, desfazendo lentamente o zíper de seu manto. — Agora que somos "oficiais" perante Jashin-sama... eu acho que precisamos comemorar nossa união. Sem pecado desta vez. Apenas... devoção.
Kakuzu olhou para ele, o corpo de Hidan ainda exibia as marcas roxas da noite anterior, mas a postura dele era diferente. Não havia medo, apenas um desejo voraz e a aceitação de seu papel.
— Você nunca se cansa, não é? — Kakuzu retirou sua máscara, revelando o rosto marcado e as costuras que o mantinham unido.
— Com você? Nunca — Hidan aproximou-se, envolvendo o pescoço de Kakuzu com os braços, ignorando a diferença de tamanho e força. — Me mostre que você é meu dono, Kakuzu. Me mostre que esse contrato vale o sangue que derramamos.
Desta vez, Kakuzu não foi movido apenas pela raiva. Havia uma possessividade sombria, um reconhecimento de que aquele homem imortal e louco era a única coisa no mundo que ele não podia simplesmente vender ou descartar. Ele empurrou Hidan contra a cama, mas seus movimentos, embora brutos, tinham uma intenção diferente.
— Você pediu por isso, Hidan — murmurou Kakuzu contra a pele do pescoço do outro.
— Eu sempre peço — arfou Hidan, entregando-se ao toque do homem que agora chamava de seu.
A noite na estalagem foi preenchida não por gritos de desespero, mas por gemidos de um prazer distorcido e violento, o tipo de prazer que apenas dois monstros imortais poderiam compartilhar. Hidan sentia cada estocada, cada aperto dos fios de Kakuzu em seus pulsos, como uma oração. Ele não era mais o virgem puro, mas era algo muito mais poderoso: era o consorte de uma lenda, um sacrifício vivo que encontrava êxtase na própria submissão.
E Kakuzu, enquanto mergulhava no calor de Hidan, percebeu que aquele "contrato" de sangue era, de fato, o investimento mais lucrativo que já fizera. Ele não ganhara apenas um parceiro estável; ele ganhara a alma de um homem que nunca morreria, e que agora, por vontade própria, pertencia inteiramente a ele.
Ao amanhecer, enquanto Hidan dormia profundamente, exausto e satisfeito, Kakuzu sentou-se à mesa do quarto, contando suas moedas sob a luz pálida da manhã. Ele olhou para a cama, para o jovem prateado envolto nos lençóis, e sentiu uma satisfação que nenhum tesouro jamais lhe proporcionara.
Jashin podia ter o sangue de Hidan, mas Kakuzu tinha o resto. E, para um homem que vivia de posses, aquilo era mais do que suficiente.
— Vamos logo, Hidan — sussurrou Kakuzu, embora soubesse que o outro não acordaria tão cedo. — Temos um mundo para cobrar.
Ele guardou o dinheiro, vestiu sua máscara e esperou. Afinal, ele agora tinha a eternidade inteira para gastar ao lado de seu parceiro. E pela primeira vez em décadas, o tempo não parecia mais uma perda de dinheiro, mas um ganho de algo que ele ainda não sabia nomear, mas que não pretendia deixar escapar.