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Quando eu conheci você

O Castelo de Vidro em Estilhaços

O silêncio dentro do banheiro masculino era sufocante, um contraste violento com a batida abafada do techno que ainda vibrava através das paredes. Will sentia o gosto de Mike em seus lábios — uma mistura de ponche de frutas, hortelã e o desespero cru que os levara àquele momento. Suas pernas tremiam tanto que, se não fosse pelo aperto firme de Mike em sua cintura, ele teria desabado no chão frio de cerâmica.

— Mike, a gente precisa sair daqui — sussurrou Will, a voz falhando enquanto ele tentava empurrar o peito do outro. — Agora.

Mike parecia em transe. Seus olhos escuros, geralmente tão calculistas e distantes, estavam dilatados, perdidos entre a euforia do que acabara de acontecer e o pavor do que aquilo significava. Ele soltou Will lentamente, suas mãos deslizando pelos braços do garoto menor como se estivesse perdendo o contato com a realidade.

— Eu não posso voltar lá para fora e fingir, Will — disse Mike, a voz rouca. — Eu não consigo mais olhar para ela e...

— Você tem que conseguir! — Will o cortou, o pânico subindo pela garganta. Ele pegou a máscara dourada no chão e a vestiu com dedos trêmulos. — Pela Jane. Por tudo. Isso... isso foi um erro. Um erro terrível.

— Foi? — Mike perguntou, um lampejo de mágoa cruzando seu rosto pálido.

Will não respondeu. Ele não podia. Se admitisse que aquele "erro" foi o momento mais vivo que sentiu em anos, ele nunca conseguiria sair daquele banheiro. Ele girou a tranca, abriu a porta apenas uma fresta para verificar o corredor e saiu apressado, sem olhar para trás.

Do lado de fora, Chrissy Cunningham sentia que o chão havia sumido sob seus pés. Ela caminhava mecanicamente pelo corredor, a imagem de Mike e Will gravada em sua mente como uma cicatriz. Ela encontrou o grupo perto da mesa de bebidas. Jane estava rindo de algo que Dustin dizia, segurando um copo plástico com as duas mãos, parecendo tão pequena e vulnerável sob as luzes de neon.

Ao ver Chrissy, o sorriso de Jane aumentou.

— Chrissy! Onde você estava? Perdeu a Max tentando ensinar o Steve a dançar "Vogue". Foi hilário!

Chrissy tentou sorrir, mas o resultado foi uma careta contorcida. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.

— Chrissy? O que foi? — Jane deu um passo à frente, sua expressão mudando de alegria para preocupação imediata. — Você está passando mal? Alguém te fez alguma coisa?

— Jane... eu... — Chrissy olhou em volta. Max e Lucas já se aproximavam, percebendo que algo estava errado. — Eu vi uma coisa.

Nesse exato momento, Will apareceu no topo do corredor, tentando parecer casual, seguido alguns segundos depois por Mike. A tensão entre os dois era quase palpável, uma aura de culpa que parecia escurecer o ar ao redor deles. Will tentou se juntar ao grupo, mas parou abruptamente quando viu o estado de Chrissy.

Mike parou logo atrás dele. O olhar de Chrissy saltou de Mike para Will e depois para Jane. A traição era pesada demais para ela carregar sozinha.

— O que aconteceu, Chrissy? — Max perguntou, sua voz firme, mas com um tom de alerta. Ela olhou para Will e Mike, estreitando os olhos ruivos. — Por que vocês dois estão com cara de quem acabou de ver um crime?

— Eu fui ao banheiro — começou Chrissy, a voz trêmula, mas ganhando força. — A porta estava trancada. Eu... eu achei que alguém estava passando mal. Eu olhei pela fresta da porta que está quebrada.

O mundo pareceu parar para Will. Ele sentiu o sangue fugir de seu rosto, deixando-o tão pálido quanto Mike.

— Chrissy, não... — Will tentou intervir, mas era tarde demais.

— Jane — Chrissy disse, segurando as mãos da amiga —, o Mike e o Will... eles estavam se beijando no banheiro.

O silêncio que se seguiu foi mais alto que qualquer música na festa. Dustin deixou o copo cair, o líquido espalhando-se pelo chão sem que ninguém notasse. Lucas arregalou os olhos, alternando o olhar entre o melhor amigo e o namorado da irmã dele.

Jane não se moveu. Por um longo minuto, ela apenas piscou, como se estivesse tentando processar uma língua estrangeira. Ela olhou para Mike.

— Mike? — A voz dela saiu pequena, quase infantil. — O que ela está dizendo? É uma brincadeira, não é?

Mike Wheeler, o garoto que sempre tinha um plano, o garoto que sempre sabia o que dizer, estava mudo. Ele olhava para Jane com uma expressão de agonia pura, mas não negou. Ele não conseguiu mentir. Não desta vez.

— Jane, eu sinto muito — Mike finalmente sussurrou.

Aquelas quatro palavras foram como uma granada. Jane recuou, soltando as mãos de Chrissy como se estivessem queimando. Ela olhou para o irmão, que estava parado como uma estátua de sal, as lágrimas agora rolando livremente por baixo da máscara dourada.

— Will? — Jane perguntou. Não havia raiva na voz dela ainda, apenas uma confusão devastadora. — Meu próprio irmão?

— Jane, por favor, me deixa explicar — Will deu um passo à frente, mas Max se colocou na frente dele, o rosto vermelho de fúria.

— Explicar o quê, Will? — Max disparou. — Que você estava pegando o namorado da sua irmã enquanto ela estava aqui fora esperando por ele? Que você passou semanas agindo como o "irmão perfeito" enquanto desejava o cara dela?

— Não foi assim! — Mike gritou, tentando se aproximar de Jane. — A culpa é minha, Jane. Eu que fui atrás dele, eu que comecei isso na fogueira, eu...

— Na fogueira? — Jane interrompeu, a voz subindo de tom, agora carregada de uma dor aguda. — Isso vem acontecendo desde a fogueira? E você agiu como se estivesse apenas "tentando ser um bom cunhado"?

— Jane, me escuta... — Will tentou novamente, sua voz quebrada pelo choro.

— Não! — Jane gritou, e o som foi tão potente que algumas pessoas ao redor pararam para olhar. — Eu amava você, Mike. Eu confiava em você mais do que em qualquer pessoa. E você... — ela se virou para Will — ...você é meu sangue. Você sabia o quanto eu sofri para me encaixar aqui, o quanto eu estava feliz. Como você pôde?

— Eu não queria sentir isso! — Will explodiu, a dor acumulada de anos finalmente transbordando. — Você acha que eu escolhi isso, Jane? Você acha que eu queria estar apaixonado pelo namorado da minha irmã? Eu tentei me afastar, eu tentei ficar com o Carlton, eu tentei de tudo! Mas dói, Jane. Dói o tempo todo!

Jane deu um tapa no rosto de Will. O som do impacto foi seco e estalado. Will virou o rosto com o impacto, a máscara dourada caindo no chão e se partindo em dois pedaços.

— A sua dor não justifica o que você fez comigo — Jane disse, as lágrimas agora correndo em rios pelo seu rosto. — Nunca mais fale comigo.

Ela se virou e saiu correndo em direção à saída da universidade, empurrando as pessoas no caminho.

— Jane! Espera! — Mike tentou segui-la, mas Lucas o segurou pelo colarinho da camisa, empurrando-o contra uma pilastra.

— Você não vai a lugar nenhum, Wheeler — Lucas disse, a voz fria como gelo. — Você já fez estrago suficiente por uma noite.

— Lucas, me solta! — Mike rosnou, tentando se desvencilhar, mas Dustin se juntou a Lucas, ajudando a segurá-lo.

— Ela tem razão, Mike — Dustin disse, com uma tristeza profunda nos olhos. — Isso foi baixo. Mesmo para você.

Will estava parado no meio do círculo, sentindo-se o centro de um furacão de desprezo. Max o encarava com uma decepção que doía mais do que o tapa de Jane.

— Eu espero que tenha valido a pena, Will — disse Max, antes de se virar e correr atrás de Jane, seguida por Chrissy.

Will olhou para os amigos, para Mike sendo contido por Lucas e Dustin, e para a máscara quebrada a seus pés. Ele sentiu que sua vida, a segurança que ele construíra, o grupo que era sua família... tudo havia sido incinerado em questão de minutos.

Sem dizer uma palavra, Will se virou e correu na direção oposta à de Jane. Ele precisava sumir.

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A noite estava fria e o campus da universidade parecia estranhamente deserto enquanto Will corria sem rumo. Ele acabou no pequeno bosque perto do lago, o mesmo lugar onde a fogueira havia acontecido semanas atrás. Ele desabou em um banco de madeira, soluçando tão forte que seu peito doía.

— Will?

Ele ergueu a cabeça. Mike estava parado a alguns metros, a camisa amassada e um corte leve no lábio, provavelmente de algum empurrão de Lucas. Ele parecia exausto.

— Vai embora, Mike — Will disse, limpando o rosto com a manga da camisa. — Você já não causou problemas o suficiente?

— Eu fugi deles — Mike admitiu, aproximando-se e sentando-se na outra extremidade do banco. — Eu precisava saber se você estava bem.

— Bem? — Will soltou uma risada amarga e histérica. — Minha irmã me odeia. Meus amigos me olham como se eu fosse um monstro. O segredo que eu guardei por anos destruiu tudo. Não, Mike, eu não estou bem.

— Eu não vou pedir desculpas pelo beijo — Mike disse, olhando para as águas escuras do lago. — Eu sinto muito pela Jane. Sinto muito por como aconteceu. Mas eu não consigo me arrepender de ter finalmente dito a verdade para você.

— A verdade nos destruiu, Mike — Will olhou para ele, os olhos vermelhos e inchados. — O que a gente faz agora? Não tem volta. Não existe um mundo onde a Jane nos perdoa e a gente vive feliz para sempre. Isso não é um filme.

Mike estendeu a mão, hesitando antes de tocar os dedos de Will.

— Eu sei. Mas a gente não pode mais voltar para as máscaras, Will. A gente tentou. Eu tentei ser o namorado perfeito, você tentou ser o irmão perfeito. E olha onde estamos.

— Estamos sozinhos — Will constatou, a voz sumindo.

— Estamos juntos — corrigiu Mike, entrelaçando seus dedos nos de Will. — Pela primeira vez, sem mentiras entre nós. Vai ser um inferno, Will. A faculdade inteira vai saber amanhã. O Steve vai querer me matar, o Jonathan vai vir atrás de mim quando souber... mas eu não vou te deixar sozinho nessa.

Will olhou para as mãos unidas. Ele sentia o peso da culpa, uma âncora pesada em seu coração, mas sentia também o calor da mão de Mike. Era uma troca injusta — o mundo inteiro pelo garoto de cabelos pretos e olhos intensos.

— Ela nunca vai nos perdoar — Will sussurrou.

— Talvez não — Mike concordou, apertando a mão dele. — Mas eu prefiro ser odiado pelo que eu sou do que ser amado por uma máscara que estava me matando por dentro.

Enquanto o som distante da festa continuava a ecoar pelo campus, os dois ficaram ali, sentados no escuro. O castelo de vidro de suas vidas perfeitas havia se estilhaçado completamente, e os cacos eram afiados. Eles sabiam que a manhã traria o julgamento, as brigas e o isolamento. Mas, por aquela noite, no silêncio do bosque, eles não eram mais o namorado e o irmão. Eram apenas Mike e Will, enfrentando o fim do mundo que conheciam, de mãos dadas.

A traição estava feita. O preço seria alto. E enquanto Will encostava a cabeça no ombro de Mike, ele se perguntava se o amor, quando nasce do caos, tem alguma chance de sobreviver às cinzas que deixa para trás.

Do outro lado do campus, no dormitório feminino, os gritos de Jane podiam ser ouvidos pelo corredor, enquanto Max a segurava em meio a um mar de fotos rasgadas e promessas quebradas. A guerra entre a lealdade e o desejo havia começado, e não haveria sobreviventes ilesos.

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