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Quando o silencio encontra você

Sob o Céu de Sucre

— Ótimo. São seis horas da manhã e já tem alguém tentando derrubar a minha porta.

TOC! TOC! TOC!

As pancadas secas contra a madeira desgastada pareciam ecoar diretamente dentro do meu crânio. Eu me revirei no colchão estreito, puxando o lençol desbotado até a cabeça na vã tentativa de fingir que o mundo lá fora não existia. Inútil. A pessoa do outro lado não tinha o menor senso de autopreservação, muito menos de respeito pelo sono alheio.

— Juan! Acorda, menino! O sol já tá batendo na torre da igreja!

Reconheci a voz no mesmo milésimo de segundo. Soltei um grunhido exasperado, joguei os pés descalços para fora da cama e caminhei tropeçando no próprio tapete puído. Meu corpo ainda pesava pelo plantão de dois dias atrás, mas quem dera eu pudesse explicar isso a uma senhora boliviana de setenta anos armada com um pote de comida caseira.

Girei a chave emperrada e abri a porta.

Assim que a fresta se abriu, Dona Mercedes passou por debaixo do meu braço como um raio miúdo de saia rodada e avental florido, entrando sem pedir licença.

— Você esqueceu o café de novo — disse ela com naturalidade, marchando até o balcão e colocando com um estalo firme uma tigela tapada em cima da mesa.

— Dona Mercedes... — Passei a mão pelo rosto, empurrando os cabelos bagunçados para trás e tentando manter os olhos abertos. — A senhora tem chave reserva para emergências médicas, não para arrombar minha casa de madrugada.

— Nem pense em reclamar — retrucou ela sem nem se virar, já abrindo meus armários à procura de uma caneca limpa. — Você está tão magrinho, meu filho. As costelas já estão querendo saltar para fora do peito! Quem te vê na rua vai pensar que essa pobre vila deixa o único quase-médico passar fome.

Ela se virou, plantando as mãos calejadas na cintura e encarando minha cara emburrada com uma expressão de pura indignação. Eu sabia exatamente como estava: olheiras fundas, peito nu, calça de moletom cinza e uma carranca que espantaria qualquer criatura normal.

Mas Dona Mercedes não era uma criatura normal. Era a personificação da teimosia andina.

Em menos de cinco minutos, o cheiro de café passado e de milho cozido tomou conta da minha cozinha apertada. Ela preparou uma porção generosa de *api* quente e empurrou o prato na minha direção com tanta autoridade que puxei a cadeira de madeira e me sentei, engolindo qualquer protesto.

Contrariar aquela velhinha era uma missão fadada ao fracasso absoluto.

Comi em silêncio sob a supervisão implacável dos seus olhinhos escuros. Quando raspei o fundo do prato, me levantei e fui direto até a pia para lavar a louça antes que ela arrumasse mais motivos para me dar sermão.

Dona Mercedes se aproximou devagar, cruzando os braços e me observando atentamente a cada movimento da esponja.

— Lava direito.

— Eu sei lavar prato, Dona Mercedes.

— Não parece. Da última vez você deixou espuma pelo prato inteiro!

— Foi uma vez! — protestei, sentindo a veia da minha testa pulsar de pura revolta. — Uma única vez, e era a borda externa!

— Foram três! — rebateu ela, sem pestanejar. — Na terça, na sexta passada e no aniversário do padre.

Eu bufei, revirando os olhos e enxaguando a louça com o dobro de água só para não ouvir mais reclamações. Pelo canto do olho, vi o sorriso vitorioso despontar em seus lábios enrugados.

— Bom menino — disse ela, dando um tapinha estalado no meu ombro antes de pegar seu xale. — Deixei duas empanadas no forno para o seu almoço. Não ouse esquecer.

Depois que a porta finalmente bateu e o silêncio retornou por breves minutos, suspirei fundo. Fui direto ao banheiro minúsculo, lavei o rosto com água fria para espantar a névoa do sono e escovei os dentes enquanto encarava meu reflexo no espelho rachado. Meus traços eram uma constante lembrança da mistura que corria em minhas veias: os olhos escuros herdados de um pai coreano que eu mal tive tempo de conhecer antes de sua partida precoce, combinados com a pele morena e a alma teimosa de quem cresceu nas ladeiras de Sucre.

Vesti uma calça resistente, botas de caminhada e minha jaqueta preta surrada. Peguei minha velha bicicleta apoiada no corredor de entrada e desci as escadas para a rua.

O ar da manhã era límpido e cortante. Sucre ainda acordava sob a luz dourada do amanhecer, com suas paredes brancas coloniais refletindo o céu de um anil quase inacreditável. Montei na bicicleta e comecei a descer a ladeira de paralelepípedos, sentindo o vento gelado afastar qualquer resquício de cansaço.

Contudo, a paz nas ruelas da Vila Esperanza durava pouco.

Eu não havia pedalado nem duzentos metros quando avistei uma silhueta conhecida se contorcendo sob o peso de quatro sacolas plásticas gigantescas que quase arrastavam no chão.

Dona Rosa parecia prestes a ter um colapso cardiovascular a qualquer momento.

Apertei os freios com um chiar agudo, revirei os olhos para o céu e desmontei, caminhando na direção da mulher.

— Me dê as sacolas. Eu levo até a sua casa.

— Ainda bem que você chegou, meu filho! — exclamou ela, largando o fardo nos meus braços sem a menor cerimônia e massageando as costas curvas. — Já ia pedir a sua ajuda. Acho que dei uma exagerada hoje... O moço do hortifruti estava fazendo promoção daquelas de encher os olhos. Comprei um monte de manga. Vou deixar algumas cortadinhas para você hoje à tarde, bem docinhas.

Equilibrei duas sacolas em cada mão, sentindo os braços pesarem, enquanto empurrava a bicicleta com o quadril.

— Eu não gosto de manga — murmurei, franzindo o cenho. — E já falei para não entrarem na minha casa sem permissão. Invadir o espaço alheio é crime, Dona Rosa. Sabia que existe lei para isso?

— Então aprende a gostar, menino teimoso! — rebateu ela, marchando na minha frente e apontando o dedo indicador no ar. — Onde já se viu um futuro médico não comer fruta fresca? Por isso que você vive pálido e desnutrido. Manga tem vitamina para o sangue. Deixo na sua geladeira sim, e você vai comer tudinho.

Soltei um riso incrédulo diante da audácia inabalável daquela mulher. Era impressionante como todo mundo naquele bairro achava que tinha direito de tutelar a minha vida. Preferi não retrucar; do jeito que as senhoras daquela vila eram perigosas, era capaz de eu levar uma bronca homérica em praça pública e ainda ter que pedir desculpas.

Deixei as sacolas na cozinha dela, recusei três xícaras de chá e voltei para a rua, montando novamente na bicicleta. Se eu apertasse o passo, ainda conseguiria chegar na hora exata do início das atividades.

— Juan! ¡Juancito! — Um grito rouco e desesperado cortou o ar da esquina seguinte.

Travei as rodas mais uma vez. Respirei fundo, contando mentalmente até cinco antes de virar a cabeça.

O senhor André estava na porta de sua casa com as mãos na cabeça, as poucas mechas de cabelo grisalho desgrenhadas pelo desespero, apontando para a penumbra da sala como se um incêndio estivesse consumindo seus bens mais preciosos.

— O que foi agora, senhor André? — perguntei, apoiando um pé no chão de pedras.

— Juan, a minha televisão morreu! — berrou o velho, com os olhos arregalados. — Não sei o que fazer, rapaz! Não dá sinal de vida, nada acende! E logo hoje que o capítulo da novela vai revelar o segredo do colar... Eu não posso perder isso por nada neste mundo!

Olhei para o relógio de pulso. Eu já estava oficialmente sete minutos atrasado.

— Senhor André, assista à televisão na casa de algum vizinho por enquanto — orientei com firmeza, ajeitando a mochila nas costas. — Quando eu voltar da ONG no fim da tarde, eu dou uma olhada e arrumo isso. Estou atrasado agora e os pacientes não esperam.

O idoso suspirou, aliviado como se eu tivesse prometido ressuscitar um ente querido.

— Tá bom, Juan. Obrigado, meu filho! Vai com Deus e bom trabalho!

Balancei a cabeça em um misto de resignação e afeto, voltando a acelerar os pedais. E assim começava, pontualmente, mais uma jornada comum na vida de Juan Jungkook.

***

Assim que cruzei o portão de ferro trabalhado do Centro Comunitário San Gabriel, fui subitamente cercado por um turbilhão barulhento. Uma dúzia de crianças pequenas avançou como uma onda incontrolável, gritando meu nome em coro e se agarrando às minhas pernas e à minha jaqueta.

— Tio Juan! Você demorou!

— Olha o desenho que eu fiz!

— Vocês vão me derrubar! — avisei, erguendo os braços para manter o equilíbrio enquanto ria com a algazarra.

Embora eu fizesse questão de manter uma postura reservada e evitasse toques excessivos na maioria das situações, era simplesmente impossível erguer barreiras contra a ingenuidade daquelas crianças. Baguncei os cabelos de um menininho de muletas, devolvi a bola de pano para outra garotinha e finalmente consegui abrir caminho até o corredor lateral.

Fui direto para a ala dos funcionários. Guardei minha mochila no armário metálico, lavei as mãos meticulosamente na pia coletiva e vesti o jaleco branco sobre a camiseta escura, ajeitando o crachá de voluntário da saúde.

Olhei a ficha do primeiro atendimento do dia. Uma paciente nova. Sete anos.

Senti um leve aperto no peito, uma ponta incômoda de apreensão. Eu sempre me sentia mais seguro lidando com adolescentes ou adultos; com eles, a comunicação era direta, a dor podia ser descrita com clareza racional. Crianças pequenas me desarmavam por completo. Eu nunca sabia se estava sendo gentil o suficiente ou se a minha cara fechada acabava assustando os pequenos mais do que os instrumentos médicos.

Organizei os formulários na bancada simples e fui até a antessala chamá-las.

Na clínica comunitária, os recursos eram escassos e as mãos, poucas. Não tínhamos recepcionistas dedicados, secretários ou seguranças; éramos uma equipe puramente voluntária, o que significava que fazíamos a triagem, atendíamos, organizávamos os arquivos e, no fim do expediente, éramos nós mesmos que passávamos pano no chão de cerâmica fria.

— Camila Ramos? — chamei na porta de madeira.

Uma mulher jovem, de traços indígenas marcados pelo sol e mãos ressequidas pelo trabalho pesado, levantou-se apressada do banco, puxando delicadamente uma garotinha magra com duas trancinhas presas por elásticos vermelhos.

— Por favor, entrem — pedi, dando passagem e fechando a porta atrás delas.

Aproximei duas cadeiras da minha mesa de atendimento e sentei-me do outro lado, apoiando os braços no tampo de fórmica.

— Sejam bem-vindas. Meu nome é Juan Jungkook e eu vou iniciar o atendimento de vocês hoje.

Assim que me inclinei ligeiramente para a frente, a pequena Camila recuou no mesmo instante, enfiando o rosto na lateral do corpo da mulher e agarrando a barra de sua blusa com nós de dedos pálidos de tensão. Os olhos da menina, redondos e assustados, me espiavam com um pavor evidente.

Aquele medo era uma constante dolorosa por ali. Muitas daquelas famílias viviam em comunidades periféricas isoladas, sem acesso básico a saneamento, quanto mais a hospitais. Para uma criança de sete anos, um homem de jaleco branco podia muito bem parecer um carrasco pronto para enfiar agulhas em sua carne.

— O que ela está sentindo? — perguntei à mãe, mantendo o tom o mais brando e pausado possível.

A mulher suspirou pesadamente, acariciando os ombros da filha com ternura desajeitada.

— Ela não fala, doutor. Já tentei de tudo... Levei nas curandeiras, dei chá de várias ervas do campo, fiz promessa com água da primeira chuva de primavera... Mas não adianta. Não sei mais o que fazer. Meu coração aperta de ver ela caladinha desse jeito.

Franzi as sobrancelhas, anotando as palavras no prontuário inicial.

— Ela nunca falou? Nem os sons mais básicos na primeira infância?

— Desde que apareceu no bairro, não.

Pousei a caneta sobre o papel, erguendo o olhar.

— Como assim "desde que apareceu"? Você a conheceu com quantos anos?

— Faz mais ou menos três anos, senhor — explicou a mulher em voz baixa, olhando para o chão como se confessasse uma culpa antiga. — Eu a encontrei perambulando perto da feira central, sozinha, suja e sem documento nenhum. Ninguém procurou por ela. Ninguém reclamou. Eu não tinha filhos, então levei a menina para casa e criei como minha. Mas nesses três anos inteiros... ela nunca soltou uma palavra sequer. Nem choro alto, nem uma sílaba.

O peso daquele relato assentou sobre a sala como uma névoa espessa. Três anos de mutismo completo após um abandono traumático não eram uma simples alteração mecânica das cordas vocais. Era uma muralha erguida pela dor.

Pensei nas hipóteses diagnósticas por longos segundos antes de falar:

— Nós vamos precisar investigar a fundo. Podemos marcar alguns exames audiológicos e neurológicos para começar. Precisamos descobrir se há algum dano físico no aparelho auditivo ou se o que causou isso tem raízes emocionais mais profundas.

Ao ouvir a palavra "exames", a menina começou a tremer visivelmente. Seus olhinhos se encheram de lágrimas grossas e ela se encolheu ainda mais contra o tecido da blusa materna, arfando baixinho em desespero puro.

Compreendi na hora: para ela, a palavra soava como ameaça, agulha, dor e confinamento.

Empurrei a cadeira devagar para trás para não fazer barulho metálico. Levantei-me, dei a volta na mesa e me agachei diante da garotinha, diminuindo minha estatura até que meus olhos ficassem exatamente na mesma altura dos dela.

Meti a mão no bolso do jaleco e puxei uma folha de adesivos coloridos que eu costumava guardar para os dias difíceis. Destaquei um pequeno leão dourado com juba redonda e estendi na palma aberta.

— Tome isso, Camila — sussurrei em espanhol, suavizando cada aresta da minha voz áspera.

A menina hesitou, o peito subindo e descendo com rapidez, os dedos ainda presos na roupa da mãe.

— Estou aqui para o seu bem, prometo — continuei, encarando suas íris escuras com toda a sinceridade que eu conseguia transmitir. — Não precisa ter medo de mim. Nada aqui vai doer, nem hoje nem nos outros dias. Ninguém vai te machucar. Você vai brincar bastante aqui com a gente e nós vamos cuidar de você, tá bom?

Pouco a pouco, a respiração de Camila foi desacelerando. Ela esticou uma mãozinha miúda e tímida, pegou o adesivo da minha palma e colou no dorso da própria mão, passando o polegar por cima do desenho do leão. Em seguida, assentiu duas vezes com a cabeça, ainda sem emitir som algum, mas o pânico em seu olhar havia cedido espaço a uma fagulha tênue de confiança.

Levantei-me devagar, sentindo os joelhos estalarem.

— Por hoje é só isso, Dona Lúcia. Vou preencher a solicitação dos exames na coordenação e nós entraremos em contato para informar as datas exatas.

Acompanhei as duas até o corredor central, observando a menina olhar para trás uma última vez antes de cruzar o portão. Respirei fundo, sentindo um gosto amargo na garganta. Aquela criança precisava urgentemente de reabilitação da fala e apoio psicológico integrado, coisas que eu, como mero estudante de medicina em formação geral, não dominava com a profundidade necessária.

Eu já estava retornando para o meu consultório improvisado quando uma voz decidida me chamou da metade do corredor:

— Jungkook! Quando estiver disponível, venha até a minha sala um instante, por favor.

Era a senhora Beatriz, a coordenadora-geral do projeto San Gabriel. Caminhei até a porta entreaberta de seu escritório e bati duas vezes antes de colocar a cabeça para dentro.

— Sobre o que quer falar comigo? — perguntei, entrando e cruzando os braços.

Beatriz levantou os olhos de uma pilha imensa de formulários e abriu um sorriso largo, empurrando um tablet sobre a mesa de mogno desgastada.

— Amanhã chega um voluntário novo.

Não me movi. Apenas fiquei parado, escutando com meu habitual silêncio defensivo. Voluntários vinham e iam naquela ONG o tempo todo; a maioria desistia na terceira semana, incapaz de tolerar a falta de ar-condicionado, os recursos precários e a poeira das ladeiras de Sucre.

— Ele veio da Coreia — continuou ela com evidente entusiasmo, girando a tela do aparelho na minha direção.

— Tá.

— Igual a você — acrescentou ela, semicerrando os olhos castanhos como se quisesse pescar alguma reação minha.

— Eu não sou coreano, dona Beatriz — rebati na hora, sentindo a irritação costumeira subir pela nuca. — Eu nasci e cresci neste país. Sou boliviano. Meu pai era coreano, só isso. Não tenho nada a ver com o outro lado do mundo.

Ela ignorou meu resmungo com a paciência infinita de quem me conhecia desde garoto.

— Ele é fonoaudiólogo, Juan. Finalmente teremos um profissional especializado nessa área para cobrir a lacuna que nos preocupa há meses.

Pensei imediatamente na pequena Camila e na falta de suporte vocal adequado. Aquilo, de fato, era uma notícia crucial.

— Espero que ele saiba trabalhar de verdade — soltei, mantendo a guarda alta. — Porque teoria de livro não resolve a miséria que a gente vê entrando por aquela porta todo dia.

— Não se preocupe. Ele estudou em uma das melhores universidades de Seul, formou-se com honras máximas e tem um currículo impecável.

— Legal. Mas por que a senhora está me contando a biografia desse cara com tantos detalhes? Não tenho nada a ver com a contratação de ninguém.

Beatriz suspirou, apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas e me fitando com uma insistência maternal que me dava calafrios.

— Será que você pode ajudá-lo na adaptação? Mostrar o bairro, os costumes, o funcionamento do centro... Ele acabou de cruzar o planeta sozinho e não conhece uma alma viva aqui em Sucre.

Dei meio passo para trás, já segurando a maçaneta da porta.

— Se ele for o profissional brilhante que esse diploma chique diz que é, vai saber se virar perfeitamente sem precisar de babá. Agora, se a senhora me der licença, tenho uma fila de pacientes para atender até as cinco da tarde.

Girei nos calcanhares e saí do escritório antes que ela pudesse retrucar.

Atrás de mim, ainda pude escutar o resmungo abafado da mulher:

— Pirralho insolente...

***

O restante do dia passou como uma tempestade de atendimentos contínuos: vacinas aplicadas, curativos trocados em joelhos esfolados, aferição de pressão de idosos teimosos e orientações alimentares básicas. Quando o relógio finalmente marcou dezessete horas e o último paciente cruzou o portão de saída, meu corpo inteiro parecia pesar uma tonelada.

Tirei o jaleco, lavei as mãos pela vigésima vez, arrumei meus pertences na mochila e montei na bicicleta.

Eu tinha uma dívida pendente. Se eu não consertasse a bendita televisão do senhor André hoje mesmo, ele mandaria metade dos velhos do bairro fazer vigília na minha calçada até que a tela acendesse.

Pedalei pelas ruas em declive até a Vila Esperanza, contornando as pedras soltas sob o crepúsculo que começava a tingir as paredes caiadas de um rosa-alaranjado intenso. Parei diante da casinha modesta com reboco aparente e bati três vezes na madeira frágil.

— Pode entrar, meu filho! A porta tá aberta! — gritou a voz rouca do idoso do lado de dentro.

Assim que empurrei a porta, uma onda de calor humano e conversa alta me atingiu em cheio.

Parei no vão de entrada, estupefato. Eu poderia arriscar, sem medo de errar, que metade daquele quarteirão estava enfurnada na minúscula sala de estar. Havia senhoras espremidas no sofá de chenile, dois homens idosos sentados em bancos de plástico e crianças brincando de roda no tapete puído.

— Boa noite, *niño*. Como foi o dia com as crianças da clínica? — perguntou Dona Ana, erguendo o rosto enrugado e sorridente do meio das almofadas.

— Estou bem, Dona Ana — respondi com um suspiro conformado, fechando a porta atrás de mim. — As crianças também estão bem. Mas... o que é tudo isso aqui?

— Que bom, meu filho! — interveio outra vizinha, ajeitando a manta no colo. — Nós viemos esperar você consertar o aparelho para assistirmos ao capítulo decisivo da novela juntos. Nada melhor do que ver a queda da vilã em comunidade!

Fiquei mudo por três segundos, completamente indignado. De todas as televisões funcionais existentes naquele raio de duzentos metros, eles tinham escolhido deliberadamente se amontoar diante da única que estava estragada só para me obrigar a consertá-la.

Inacreditável.

Não gastei saliva protestando. Simplesmente caminhei até o móvel surrado onde repousava o aparelho de tubo antigo, respirei fundo e me ajoelhei no chão para averiguar a parte traseira em meio à poeira acumulada.

Olhei os conectores. Passei a mão pelos fios emaranhados.

Era apenas o cabo principal de força que havia se soltado da tomada frouxa na parede.

Empurrei o plugue com firmeza até o fim. O chiado característico do tubo de imagem ecoou pela sala, a luz azulada inundou a penumbra e a imagem melodramática dos atores apareceu com nitidez perfeita.

— Pronto — avisei, batendo a poeira das mãos e me erguendo para ir embora. — Já podem assistir à novela em paz.

Eu mal havia dado o primeiro passo em direção à saída quando a sala inteira explodiu em um coro ensurdecedor de palmas e vivas. As senhoras se levantaram, os idosos bateram os pés no assoalho e os gritos ecoaram como se eu tivesse vencido uma final de campeonato mundial:

— Eu não falei que era só esperar o Juan?!

— Nosso melhor engenheiro!

— O médico mais inteligente da Bolívia!

— O mecânico de ouro do nosso bairro!

Fiquei estático diante daquela plateia efusiva, cobrindo o rosto com uma das mãos em pura vergonha.

— Eu não sou nenhum dos três... — murmurei, sentando-me por pura exaustão no único banquinho vazio e negando com a cabeça.

A realidade nua e crua era que eu já sabia, desde o momento em que pus os pés ali dentro, que não conseguiria escapar ileso. Dona Mercedes e Dona Ana já haviam armado uma mesa improvisada no chão da cozinha, e panelas fumegantes de ensopado de carne com batatas foram trazidas para o centro da roda.

Fizeram-me sentar, empurraram um prato fundo nos meus braços e me obrigaram a assistir à novela.

Pouco depois, os netos pequenos dos vizinhos invadiram a sala após terminarem suas brincadeiras na rua. E, obviamente, o alvo favorito daquela molecada desgovernada tinha nome e sobrenome.

— Não mexe no meu cabelo, Joaquina — reclamei pela décima vez, fazendo um bico enorme enquanto tentava mastigar uma garfada do ensopado sem derrubar caldo na calça.

— Fica quieto, Kookie! — ordenou a menina de cinco anos, de pé atrás do meu banco, puxando minhas mechas castanhas com os dedinhos pegajosos. — Esse penteado vai ficar perfeito em você! Você vai parecer um príncipe das flores!

— Eu não sou um brinquedo, garota. Me deixa em paz.

— Só mais um lacinho cor-de-rosa, Juju. Por favorzinho! — Ela deu a volta no banco, plantando-se na minha frente com as mãos juntas sob o queixo e fazendo um biquinho infantil absolutamente irresistível.

Fechei os olhos e soltei um suspiro derrotado.

— É o último. Se insistir em colocar mais um grampo nessa cabeça, eu te expulso do jantar e fico com a sua sobremesa.

No mesmíssimo instante em que terminei a frase, uma mão pesada e certeira acertou a curva da minha orelha em um puxão estalado.

— Aiii! Dona Ana! Ficou maluca?!

— Pare de implicar com a menina, seu moleque cabeçudo! — ralhou a idosa, agitando a colher de pau no ar. — Deixa a Joaquina brincar. Não vai cair nenhum pedaço dessa sua cabeça dura por causa de dois laços de fita!

Revirei os olhos com tanta força que doeu, enquanto a pequena Joaquina dava gargalhadas vitoriosas às minhas costas.

Quando o jantar finalmente terminou e todos nós nos acomodamos no chão para raspar os pratos, minha situação era deplorável: eu me encontrava com quatro maria-chiquinhas tortas amarradas com elásticos coloridos e vários laços de cetim amarelo e rosa espalhados desordenadamente pelo cabelo.

A sala inteira ria às minhas custas. Se alguém ali tivesse um celular moderno com câmera fotográfica, com certeza minha dignidade estaria arruinada para sempre em algum porta-retratos comunitário.

— Fiquei sabendo que vai chegar um estrangeiro novo na ONG amanhã, Juan... — comentou Dona Mercedes casualmente, limpando os cantos da boca com o guardanapo de pano.

— É. Eu sei — respondi entre dentes, mastigando o último pedaço de batata.

— Dizem lá na praça que veio direto da Coreia do Sul.

— Parece que sim.

— Quem sabe vocês dois não viram amigos? — sugeriu ela com uma piscadela cúmplice. — Você podia conversar na língua do seu pai com ele, passear pelo centro histórico, aprender coisas novas...

Larguei o prato vazio no chão e apoiei os cotovelos nos joelhos, a voz endurecendo de repente:

— Eu já tenho trabalho demais para perder tempo fazendo amizade com playboy mimado.

— Juan, você nem conhece o rapaz ainda! — repreendeu Dona Ana, franzindo a testa grisalha. — Não julgue o livro pela capa, menino.

— Todos esses voluntários ricos que cruzam o oceano são iguaizinhos, Dona Ana — disparei com uma amargura seca que não me dei ao trabalho de esconder. — Eles vêm de Seul, de Londres ou de Nova York só para tirar fotos bonitas com as crianças pobres do nosso bairro, postam na internet para parecerem santos para os amigos da alta sociedade e brincam de fazer caridade por dois meses antes de voltarem para as suas vidas perfeitas e cheias de dinheiro. Eu conheço o tipo.

O silêncio caiu pesado sobre a sala de estar. As mulheres trocaram olhares rápidos e compreensivos, conhecendo as feridas antigas que me faziam erguer muros tão altos diante de qualquer um que viesse de fora com roupas limpas demais e promessas vazias de salvação.

Ninguém insistiu no assunto. A novela continuou rodando na tela antiga até os créditos finais subirem.

***

Já passava das dez da noite quando a reunião finalmente se dispersou. Quase todos os vizinhos já haviam retornado para suas respectivas casas. Na penumbra da sala, restavam apenas eu, o senhor André — que recolhia os pratos com lentidão — e Dona Mercedes, que havia adormecido profundamente no canto do sofá gasto, vencida pelo cansaço do dia.

O clima na montanha havia virado depressa; o vento que descia das cordilheiras começava a soprar gélido pelas frestas das janelas de madeira.

Fui em silêncio até o quarto do senhor André, peguei uma colcha grossa de lã de lhama no guarda-roupa e voltei para a sala. Cobri o corpo miúdo de Dona Mercedes com cuidado extremo para não acordá-la, ajeitando a barra da manta sob seus pés.

Tirei os elásticos e os lacinhos do cabelo com puxões rápidos, joguei-os sobre a mesinha de centro e me despedi do velho com um aceno curto de cabeça.

Peguei minha bicicleta do lado de fora e montei nela, iniciando o caminho de volta pelas ruelas desertas da Vila Esperanza.

O silêncio da noite andina era quase sagrado. O ar fresco entrava cortante em meus pulmões a cada pedalada, carregando os aromas residuais de pão de milho assado, terra úmida e fumaça de lenha que ainda escapavam pelas chaminés baixas das casas humildes. Olhei para cima: as constelações brilhavam com uma nitidez avassaladora no céu limpo de Sucre, tão claras que pareciam ao alcance dos dedos.

Pelas janelas que ainda mantinham as luzes acesas, vultos se moviam.

— Boa noite, Juan! — gritou uma voz feminina de uma sacada baixa, quando passei sob um poste amarelado.

Levantei uma das mãos do guidom, devolvendo o cumprimento com um aceno rápido e um sorriso discreto que se perdeu na escuridão. Aquela vila era caótica, teimosa e intrometida até o limite da minha paciência, mas era a minha casa. O meu povo. E eu faria qualquer coisa para protegê-los de qualquer decepção.

Cheguei ao meu prédio velho, tranquei a bicicleta no pequeno vão debaixo da escada e subi os degraus até o apartamento.

Não acendi as luzes da sala. Arranquei a jaqueta, joguei as botas em um canto e me deitei na cama estreita, encarando os ponteiros fosforescentes do pequeno despertador sobre o criado-mudo.

As palavras da coordenadora e a ficha da menina Camila insistiam em ecoar no fundo da minha mente. Um fonoaudiólogo de Seul. Um rapaz com diplomas reluzentes que provavelmente nunca havia sentido o cheiro da poeira da montanha nem lavado a própria louça na vida.

Fechei os olhos pesados, puxando o cobertor até os ombros enquanto o vento uivava fraco lá fora.

Amanhã seria um dia longo.

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