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Quando o silencio encontra você

Entre Ladeiras e Recomeços

São exatamente quatro horas e meia da madrugada quando os olhos azuis de Park Jimin se abrem para a penumbra do quarto desconhecido.

Ele não tenta voltar a dormir. Conhece o próprio corpo e a mente inquieta que carrega há três anos: quando a ansiedade toma conta de seu peito, insistir no repouso é apenas um convite para pensamentos tortuosos.

— Será que eu vou me sair bem...? — murmurou Jimin para o teto de vigas de madeira rústica, a voz ainda rouca de sono.

Ele respirou fundo, puxando o ar rarefeito que parecia exigir um esforço ligeiramente maior de seus pulmões. Sentou-se na beirada da cama estreita, calçou os chinelos com calma e caminhou até a sacada de ferro fundido.

O mundo lá fora ainda estava mergulhado na mais pura escuridão. As ladeiras coloniais de Sucre repousavam em um silêncio quase sagrado, quebrado apenas pelo sopro constante do vento frio que descia das cordilheiras circundantes. A brisa gélida bagunçou suas mechas platinadas, arrepiando a pele fina de seus braços e servindo como um lembrete físico e imediato de que ele não estava mais na Coreia.

Por tempo demais, Jimin havia vivido no piloto automático. Foram trinta e seis meses respirando como uma sombra dentro de ternos caros, cercado por advogados, executivos e cobranças de um legado corporativo que nunca quis para si. Mas ali, naquele pedaço esquecido dos Andes, o seu maior desejo era sentir. Queria viver cada segundo daquela experiência por completo. Queria errar, tropeçar nas pedras, aprender, estender a mão aos necessitados e, acima de tudo, honrar a última frase dita por sua mãe no meio do terror da fuselagem em chamas: *continue vivendo*.

Depois de contemplar o contorno das montanhas sob as estrelas por alguns minutos, tomou uma decisão prática. Entrou no pequeno banheiro e tomou um banho quente, demorado, deixando que a água levasse o cansaço acumulado das viagens e dos remédios. Saiu de lá cheirando a sabonete de frutas vermelhas, vestiu uma calça jeans confortável, uma camisa de mangas compridas e um suéter leve para barrar o frio matinal. Calçou tênis resistentes, pegou a carteira, o celular e as chaves.

Como o apartamento alugado não oferecia café da manhã e sua despensa estava completamente vazia, precisaria encontrar comida na rua antes de se apresentar na ONG.

Ao descer as escadas do prédio e pisar na calçada de pedras irregulares, sentiu uma leve pontada de vertigem na nuca — o famoso *soroche*, o mal da altitude que costumava atingir os estrangeiros desacostumados aos quase três mil metros acima do nível do mar. Jimin balançou a cabeça de leve, ignorando a sensação. Tomaria um bom café, compraria mantimentos básicos para a semana e, se o mal-estar persistisse, passaria em uma farmácia para pedir remédios específicos até seu organismo se aclimatar.

O problema começou quando ele tentou se orientar.

Já caminhava há quase vinte minutos pelas ruas desertas da Vila Esperanza à procura de uma padaria, mas não encontrava nada aberto além de janelas fechadas e fachadas brancas imaculadas. Olhou para a tela do celular, mas o aplicativo de mapas girava em círculos, completamente perdido entre as vielas sinuosas que não constavam nas atualizações de satélite.

— Ótimo... agora eu estou oficialmente perdido — constatou em voz alta, soltando uma risada curta e soprada.

Ele parou em uma esquina e olhou ao redor. A diferença entre aquele lugar e Seul era avassaladora. Não havia arranha-céus de vidro espelhado bloqueando o céu, nem trens subterrâneos rugindo sob os pés, tampouco a maré costumeira de executivos correndo apressados com copos térmicos nas mãos. As casinhas ali eram baixas, com telhas de barro escurecido pelo tempo e trepadeiras floridas descendo pelos muros caiados.

Mais à frente, em uma praça modesta, viu sinais de movimento. Um grupo de senhoras com mantas coloridas e saias amplas ajeitava caixotes de madeira sob tendas de lona, organizando uma feira de frutas e verduras frescas.

Jimin respirou fundo, limpou a garganta e se aproximou timidamente.

— Olá, bom dia — disse ele em espanhol, tentando articular as palavras com a máxima clareza possível. — Com licença, a senhora saberia me informar onde posso tomar café da manhã?

Jimin dominava a gramática e a estrutura do idioma, tendo estudado com afinco antes de embarcar, mas a falta de prática cotidiana cobrava seu preço. De repente, termos básicos pareciam evaporar de sua mente sob a pressão do momento.

A senhora que empilhava laranjas graúdas levantou o tronco, limpou as mãos calejadas no avental e o fitou com um sorriso afável que enrugou os cantos de seus olhos escuros.

— Bom dia, meu jovem. Você está procurando uma *panadería*?

O rosto de Jimin se iluminou com um alívio genuíno.

— Ah, isso! Uma padaria! Me perdoe, a palavra simplesmente sumiu da minha cabeça.

A mulher soltou uma risada calorosa e melodiosa.

— Não precisa pedir perdão. É muito simples: você vai seguir reto por esta rua de pedras e virar na primeira esquina à direita. Vai dar de cara com a padaria do pai do Hoseok. É um rapaz muito simpático e atencioso, fazem os melhores pães doces deste bairro.

— Muito obrigado, de verdade! — Jimin inclinou o tronco em uma reverência respeitosa, o hábito coreano falando mais alto.

Antes que ele pudesse se afastar, a feirante o avaliou dos pés à cabeça, detendo-se nos cabelos platinados e nos olhos azuis que reluziam sob a luz nascente.

— Você não é daqui, não é?

Jimin riu sem jeito, coçando a nuca.

— Ah, não... É o meu primeiro dia na cidade. Confesso que estou um pouco desorientado.

— Eu percebi de longe, meu filho — disse ela, voltando a organizar os mamões com destreza. — Você deve ser o estrangeiro da ONG, acertei?

Jimin arregalou os olhos claros, verdadeiramente surpreso.

— Isso mesmo! A senhora também trabalha lá?

— Eu não. Mas o meu neto, o Namjoon, é fisioterapeuta na clínica e comentou comigo ontem à noite. O bairro todo já está sabendo da sua chegada! Quase nunca recebemos profissionais de outros países para ajudar na nossa comunidade. As pessoas estão muito animadas. Tenho certeza de que você fará um bom trabalho.

O peito de Jimin se aqueceu. Era uma sensação curiosa e reconfortante: mal havia chegado à Bolívia e parecia que uma rede inteira de pessoas já o esperava de braços abertos.

— Fico muito feliz em saber disso. Eu compartilho desse mesmo entusiasmo e prometo que vou dar o meu melhor pelas crianças.

— Eu não duvido, meu filho. Vou falar para o Namjoon pegar o seu número mais tarde para combinarmos de você tomar um café na minha casa no domingo.

A mulher olhou para os caixotes ainda por descarregar e soltou um suspiro conformado.

— Agora preciso terminar de montar a barraca porque os fregueses não demoram a chegar, mas você será sempre bem-vindo.

— Qual é o nome da senhora? — perguntou ele, encantado com a gentileza.

— Pode me chamar de Dona Rosa.

— É um imenso prazer conhecê-la, Dona Rosa. Meu nome é Jimin.

— Vá com Deus, Jimin. Tome um bom café!

— Até mais!

Seguindo as instruções detalhadas da feirante, Jimin desceu a rua indicada e logo encontrou o estabelecimento.

A fachada era humilde, pintada de um amarelo suave que descascava nos cantos. Ao empurrar a porta de vidro, um sino de bronze tilintou no topo, anunciando sua entrada em um ambiente acolhedor, impregnado com o aroma irresistível de pão quente e canela. Havia prateleiras de madeira clara com queijos locais, biscoitos artesanais e uma vitrine reluzente exibindo folhados dourados.

Atrás do balcão, um rapaz jovem, que aparentava ter a mesma idade de Jimin, levantou a cabeça e abriu um sorriso largo e radiante.

— Olá, bom dia! Seja muito bem-vindo!

— Bom dia — respondeu Jimin, aproximando-se do balcão. — Eu gostaria de um café, por favor.

— Café quente ou gelado?

Jimin pegou o pequeno cardápio plastificado apoiado sobre o vidro e correu os olhos pelas opções tradicionais de café com leite, chocolate quente e infusões de ervas andinas.

— Vocês teriam café americano? Não consegui encontrar na lista...

O atendente inclinou o tronco, encarando Jimin por alguns segundos com uma curiosidade divertida antes de notar o sotaque sutil e os traços asiáticos combinados com os olhos azuis.

— Nós não costumamos servir café americano por aqui — respondeu ele, soltando uma piscadela travessa —, mas como já deu para perceber que você veio de muito longe, eu faço uma xícara especial por conta da casa.

Jimin sorriu com surpresa e gratidão.

— Nossa, muito obrigado mesmo! Não quero dar trabalho a você.

— Trabalho nenhum, homem! — O rapaz pegou uma caneca de cerâmica grande e foi até a máquina manual. — Você deve ser o novo médico da ONG San Gabriel, não é?

Jimin soltou uma risada alta, balançando a cabeça. A eficácia da comunicação daquela vizinhança superava qualquer rede social moderna.

— Isso mesmo. Sou o fonoaudiólogo novo, Park Jimin. E você... deve ser o Hoseok, certo?

O garoto pausou o manuseio do filtro e riu, exibindo uma covinha charmosa.

— Acertou em cheio! Com qual das fofoqueiras da vila você cruzou no caminho até aqui?

— Conheci a Dona Rosa na feira. Ela me indicou este lugar e garantiu que era a melhor padaria do bairro.

Hoseok revirou os olhos em tom de brincadeira, despejando a água fervente sobre o pó moído.

— Você deu uma sorte tremenda por ter encontrado aquela velha durante o horário de trabalho dela. Se ela estivesse de folga, teria te puxado pelo braço de porta em porta até o meio-dia para exibir o coreano para todo mundo ver!

Jimin gargalhou com vontade. Aquele calor humano despretensioso era algo que ele não experimentava há anos; em Seul, as interações eram quase sempre frias, pautadas por conveniências corporativas e etiquetas rígidas.

Enquanto Jimin saboreava a bebida quente — que se provou encorpada e perfeitamente equilibrada para aplacar sua sede crônica por cafeína —, os dois conversaram animadamente sobre o bairro. Hoseok explicou onde ficavam os pontos de ônibus, os mercados mais justos e, antes de Jimin pagar pela porção de pães de queijo que consumiu, os dois trocaram números de telefone. O padeiro prometeu levá-lo para conhecer os mirantes da cidade no final de semana seguinte.

Com um novo amigo conquistado e a mente desperta, Jimin decidiu resolver as pendências domésticas antes de seguir para a clínica. Voltou até a feira da praça para comprar alimentos que pudessem durar alguns dias.

Enquanto selecionava um cacho de bananas amarelas com pontas ainda esverdeadas, sentiu uma presença ao seu lado. Uma mulher idosa, vestindo um xale de lã escura e com uma expressão severa, bateu suavemente na sua mão.

— Essas bananas estão verdes demais, menino. Leve estas aqui — disse a senhora, estendendo um cacho perfeitamente maduro.

Jimin comparou as duas pencas e sorriu com timidez.

— Ah, muito obrigado! Vou levar essas então. Acho que era só isso que eu precisava para a cesta.

A mulher franziu as sobrancelhas grisalhas e espiou o interior da cestinha de plástico dele, que continha apenas três tomates, uma alface e um pote pequeno de iogurte.

— Você só vai levar essa miséria, *niño*?

— Acho que sim... para começar a semana deve ser o bastante.

— Você está parecendo o meu neto, comendo igual a um passarinho doente — ralhou a velha, cruzando os braços com autoridade materna inabalável.

— Eu juro que como bastante! — defendeu-se ele, rindo do tom repreensivo.

— Não parece mesmo! Olhe a finura dessas bochechas. — Ela apontou com o queixo em direção a outra barraca. — Vá até a banca de frutas e compre as mangas que o rapaz do hortifruti colocou em promoção. Depois atravesse a rua, vá até o açougue do senhor Mateo e compre carne vermelha de verdade. O açougue da nossa vila é o mais limpo e barato de Sucre.

— Sim, senhora. Seguirei suas instruções ao pé da letra.

E foi exatamente o que fez. Sob a supervisão implacável dos olhares da vizinhança, Jimin adquiriu mangas doces, legumes frescos e cortes magros de carne. Contudo, ao finalmente colocar as sacolas nos braços e conferir o relógio de pulso, o sangue gelou em suas veias: marcava exatamente oito horas da manhã.

Faltavam apenas trinta minutos para o início oficial de suas atividades na ONG.

Ele planejava cozinhar algo rápido no apartamento para levar como almoço, mas o tempo havia se esgotado nas conversas da feira. Sem outra alternativa, subiu correndo até seu prédio, guardou os perecíveis na geladeira, ajeitou sua pasta profissional com os documentos da universidade e pediu um táxi pelo aplicativo do celular para não correr o risco de se atrasar no primeiro dia.

***

Vinte minutos depois, o carro parou diante da fachada caiada do Centro Comunitário San Gabriel. Jimin pagou o motorista com notas amassadas de bolivianos, ajustou a alça da pasta no ombro e adentrou os portões com passos apressados.

O casarão colonial fervilhava de atividade. Crianças corriam pelo pátio central, voluntários carregavam pastas e o cheiro suave de cera de assoalho pairava pelo ar. Em seu afã de encontrar a coordenação sem perder tempo, Jimin dobrou o corredor lateral com rapidez excessiva e colidiu de frente contra o peito largo de um homem alto.

— Nossa, me desculpe! — exclamou Jimin, recuando dois passos no mesmo instante e ajeitando a camisa com as bochechas coradas. — Eu estava distraído olhando os números das portas. Você se machucou?

O homem, que segurava uma prancheta de madeira e vestia uma camiseta cinza com calça esportiva, abriu um sorriso calmo e acolhedor, exibindo covinhas profundas nas bochechas bronzeadas.

— Fique tranquilo, não foi nada. Eu também estava com a cabeça nas anotações. Você está procurando alguém?

— Sim, sou o novo voluntário, Park Jimin. Preciso me apresentar à coordenação antes de começar.

Os olhos do homem brilharam em reconhecimento imediato, e ele estendeu uma mão grande e firme.

— Muito prazer, Jimin! Eu sou o Namjoon. Venha comigo, vou te levar até a sala da coordenadora.

Jimin soltou uma risada espontânea enquanto apertava a mão dele.

— Então você é o famoso Namjoon!

O fisioterapeuta franziu o cenho, surpreso.

— Ué, nós já nos conhecemos de algum lugar?

— Não diretamente, mas conheci a sua avó hoje de manhã bem cedo, na feira da praça. Ela me disse com muito orgulho que você atuava aqui como voluntário.

Namjoon fechou os olhos por uma fração de segundo, soltando um suspiro longo que misturava resignação e carinho familiar.

— Ah... a *abuela* Rosa.

— Ela falou maravilhas sobre você.

— Tinha que ser ela — disse Namjoon, balançando a cabeça em tom de troça enquanto começavam a andar pelo corredor. — Aquela mulher fala mais que maritaca em dia de chuva! Já deve ter espalhado até a cor das suas meias para metade de Sucre.

Os dois riram juntos, quebrando instantaneamente qualquer resquício de gelo profissional.

Minutos depois, Namjoon bateu na porta do escritório principal e deu passagem para o loiro. Ao cruzar o umbral, Jimin endireitou a coluna, adotando uma postura respeitosa diante da senhora sentada atrás da escrivaninha.

— Prazer, sou Park Jimin. Espero poder contribuir de forma significativa com o trabalho de excelência que vocês realizam aqui. Agradeço imensamente pela confiança depositada na minha inscrição.

A senhora Beatriz ergueu-se de pronto, contornando a mesa com passos decididos para envolver o rapaz em um abraço caloroso e maternal, totalmente alheio à frieza formal com que Jimin estava acostumado nos escritórios de Seul.

— Nós é que somos eternamente gratas por sua vinda, Jimin — disse ela, com a voz embargada por uma sinceridade límpida. — Você foi um anjo que o céu enviou para as nossas crianças.

O estômago de Jimin deu um nó doloroso e súbito.

*Você é o meu anjo, Jimin...*

A voz sussurrada de sua mãe ecoou em seus ouvidos com uma clareza cortante, resgatando a memória das mãos frias que seguravam as suas minutos antes da queda. Ele engoliu em seco, piscando rapidamente para conter as lágrimas que ameaçavam embaçar suas íris azuis, e forçou um sorriso contido para não demonstrar o abalo emocional.

— Dificilmente recebemos especialistas com uma formação acadêmica tão brilhante dispostos a abrir mão do conforto para viver a nossa realidade — continuou a mulher, ignorando a hesitação do loiro. — Eu pedi que todos os membros da nossa equipe se reunissem na recepção principal para que você possa conhecê-los pessoalmente. Vamos?

Jimin assentiu silenciosamente. No curto trajeto até a sala central, observou com atenção redobrada cada canto daquele casarão. Não havia nada do luxo asséptico dos hospitais privados da Coreia. As paredes de adobe tinham rachaduras discretas, o piso de tábuas antigas rangia sob as solas e os móveis eram visivelmente doados e consertados à mão. Mas havia algo ali que o dinheiro nunca pôde comprar em sua vida pregressa: cada parede estava coberta por murais vibrantes pintados pelas crianças, fotografias de formaturas simples, recortes de jornais antigos e cartinhas coloridas repletas de erros ortográficos, mas transbordando amor puro.

Dinheiro não era o que mantinha aquele lugar de pé. Era o propósito humano.

— Pessoal, atenção por um momento — anunciou Beatriz ao entrarem na sala ampla onde médicos, psicólogos e enfermeiros organizavam pastas e materiais. — Este é Park Jimin. Ele veio de Seul e passará os próximos três meses conosco como fonoaudiólogo residente do projeto.

A acolhida foi imediata e calorosa. Palmas entusiasmadas soaram pelo recinto, seguidas por cumprimentos entusiasmados e perguntas curiosas:

— Você fala espanhol fluentemente?

— Falo razoavelmente bem — respondeu Jimin, sentindo as bochechas esquentarem com a atenção coletiva. — Ainda cometo alguns tropeços no vocabulário, mas consigo me comunicar com facilidade.

— Já conhecia a América do Sul antes?

— É a minha primeira vez deste lado do globo.

— E o que fez você escolher a nossa clínica no meio de tantas outras opções?

Jimin hesitou por dois segundos. Não diria que estava fugindo de uma cobertura cinzenta e do fantasma de um acidente aéreo que destruíra sua família.

— Eu me formei em fonoaudiologia porque desejava ajudar as pessoas a encontrarem a própria voz — explicou ele, com a voz firme e límpida. — Por circunstâncias difíceis da vida, nunca tive a oportunidade de exercer minha vocação na prática. Quando li sobre o projeto San Gabriel, soube no mesmo instante que era aqui que eu deveria dar o meu primeiro passo profissional.

O peso que costumava fechar sua garganta ao falar sobre seu curso não surgiu. Pela primeira vez em três anos, falar sobre seu sonho soou libertador.

Beatriz sorriu com orgulho e voltou o olhar em direção ao canto da porta, onde uma figura solitária permanecia encostada contra o batente de madeira.

— Jungkook.

O jovem moreno ergueu os olhos escuros, desprendendo os braços cruzados sobre o peito com lentidão calculada. Ele vestia uma calça jeans preta surrada, botas gastas e o jaleco branco desabotoado sobre a camiseta escura. Sua expressão facial era uma máscara rígida de indiferença, como se aquela apresentação não passasse de uma interrupção incômoda em sua rotina matinal.

Jimin o fitou com atenção. Era o mesmo rapaz da tarde anterior, com a mesma aura intensa e impenetrável.

— Sim? — respondeu o jovem, a voz grave ressoando baixa pelo espaço.

— Você poderia acompanhar o Jimin e apresentar a estrutura física da nossa clínica a ele?

Jungkook desviou as orbes escuras para a mulher, moveu-as lentamente até Jimin — avaliando seus cabelos claros, a camisa alinhada e a postura aristocrática — e retornou para Beatriz com uma expressão quase incrédula.

— Eu?

— Você conhece cada canto deste casarão melhor do que qualquer um aqui, Juan.

O moreno soltou um suspiro audível pelo nariz, como se estivesse avaliando se valia a pena despender energia em uma discussão pública contra a diretora.

— Tá.

Jimin abriu um sorriso cortês, curvando levemente a cabeça.

— Muito obrigado pela gentileza.

Jungkook não sorriu de volta. Limitou-se a fazer um sinal curto e impaciente com a mão.

— Vem.

Deu meia-volta e marchou em direção aos corredores dos fundos, sem se preocupar em checar se o outro conseguia acompanhar suas passadas largas e decididas. Jimin precisou apertar o passo para não ficar para trás.

— Você atua aqui há muito tempo? — indagou Jimin, tentando romper o silêncio desconfortável que se instalara entre eles.

— O suficiente — respondeu o moreno, mantendo o olhar cravado no final do corredor.

Jimin franziu ligeiramente o cenho, achando graça daquela teimosia defensiva.

— E isso equivaleria a quanto tempo, exatamente?

Jungkook virou apenas metade do rosto, fitando-o pelo canto dos olhos amendoados.

— Alguns anos.

— Compreendo...

Caminharam por mais alguns metros em silêncio. Jimin, que nunca fora homem de se intimidar com frieza gratuita, deu uma risadinha discreta.

— Você costuma conversar sempre dessa maneira com todo mundo?

Jungkook parou diante de uma porta de madeira compensada, apoiou a mão na maçaneta e arqueou uma sobrancelha escura.

— Dessa maneira como?

— Economizando cada sílaba como se cobrassem imposto por palavra dita.

O jovem estudante de medicina encarou o loiro por três longos segundos. Não havia escárnio no semblante de Jimin; seus olhos azuis brilhavam com uma curiosidade genuína e pacífica que desarmava qualquer tentativa de grosseria calculada.

— Você faz perguntas demais — retrucou Jungkook, empurrando a porta da sala de avaliação sensorial.

— E você responde de menos.

Jungkook respirou fundo, balançando a cabeça em um gesto de quase irritação.

— Já estou começando a me arrepender amargamente de não ter fingido dor de barriga para fugir dessa tarefa.

Jimin soltou uma risada baixa, espontânea e cristalina.

— Isso quer dizer que estamos construindo uma excelente relação profissional.

Jungkook não proferiu resposta, mas, quando virou as costas para puxar o interruptor da lâmpada amarelada, Jimin pôde jurar ter visto o canto superior de seus lábios desenhar um tremor involuntário.

Ao longo da meia hora seguinte, Jungkook conduziu o loiro pelas salas de atendimento, pelos arquivos manuais e pelo pátio de fisioterapia motora. Jimin examinava cada detalhe com um rigor profissional nato. Quando adentraram o consultório destinado às sessões de fonoaudiologia e estimulação vocal, o coreano aproximou-se de uma bancada metálica onde repousava um audiômetro volumoso e desgastado pelo uso de décadas.

— Esses aparelhos para teste auditivo são bastante antigos — observou Jimin, tocando os cabos com cuidado quase cirúrgico.

Jungkook encostou-se no batente da porta e cruzou os braços fortes.

— São.

— Acredito que seria de extrema importância providenciarmos a troca de alguns deles em breve.

O moreno endireitou a postura, encarando-o com uma intensidade cortante.

— Trocar?

— Sim. Equipamentos mais modernos, com calibragem digital e suporte a frequências mais amplas, aumentariam a precisão diagnóstica e facilitariam muito o nosso trabalho com as crianças com perda neurossensorial.

Jungkook soltou uma risada anasalada, carregada de uma acidez contida.

— Você faz ideia de quanto custa um aparelho desses, Park?

Jimin piscou os olhos claros, desarmado pela pergunta direta.

— Para falar a verdade... não com exatidão no mercado local.

— Imaginei.

O silêncio que se seguiu não continha raiva vulgar, mas sim o choque inevitável entre duas realidades abissais.

— Na faculdade em Seul, os centros em que eu estagiava tinham parcerias hospitalares... — começou Jimin, tentando contextualizar seu pensamento.

— Você já trabalhou em um hospital público de verdade? — cortou Jungkook, a voz baixa e sem rodeios.

— Bom... durante a minha graduação, eu acompanhava atendimentos em clínicas-escola de grande porte.

— É totalmente diferente daqui — sentenciou o boliviano, dando meia-volta em direção ao corredor. — Aqui nós consertamos o mesmo fio cinco vezes antes de pensar em jogar fora. Não existe dinheiro sobrando para modernidades.

Jimin assentiu lentamente, sem demonstrar a menor ofensa diante da reprimenda ríspida. Ele compreendia a lógica do rapaz: em sua vida de herdeiro corporativo em Seul, a falta de verba nunca fora uma variável real. Quebrou? Compra-se o modelo mais recente do catálogo. Ali, no entanto, a luta diária era contra a escassez absoluta. Guardou a lição para si.

As horas seguintes passaram em um ritmo acelerado. Quando o relógio de parede do refeitório comunitário apontou meio-dia, voluntários e terapeutas começaram a puxar cadeiras para uma mesa comprida de madeira maciça.

Uma voluntária mais velha, responsável pelos curativos, olhou amigavelmente para Jimin.

— Jimin, você trouxe marmita de casa?

O loiro parou no meio do caminho, os olhos arregalando-se ligeiramente ao se dar conta do detalhe que havia esquecido na correria da manhã.

— Ah... não... acabei não trazendo.

— Não trouxe? — indagou ela, surpresa.

— Não deu tempo de cozinhar, então pensei em pedir alguma coisa rápida pelo celular para entregar aqui.

— Pedir onde, meu jovem?

Jimin respondeu com a mais absoluta naturalidade do mundo:

— No McDonald's.

O ambiente congelou.

A conversa alta cessou instantaneamente. Quatro pessoas pararam as colheres a meio caminho da boca, encarando o estrangeiro com uma expressão que oscilava entre a confusão e a incredulidade cômica.

Jimin olhou ao redor, desconcertado.

— O que houve? Falei algo errado?

Namjoon abaixou a cabeça sobre a mesa, os ombros chacoalhando enquanto tentava abafar uma gargalhada sonora com as mãos.

— Jimin... pelo amor de Deus...

— Sim?

— Não existe McDonald's aqui na Bolívia.

O loiro piscou, confuso.

— Como assim não existe?

— Fechou as portas no país inteiro há mais de vinte anos — explicou o fisioterapeuta, enxugando uma lágrima imaginária de tanto rir. — Ninguém comprava hambúrguer de plástico quando a nossa comida de rua custa três moedas e é mil vezes mais saborosa. A empresa faliu e foi embora.

Jimin sacou o celular do bolso em um impulso quase instintivo, digitando furiosamente na barra de pesquisa. Seus olhos corriam pelas manchetes históricas do encerramento das operações da rede de fast-food no território boliviano.

— Céus... realmente não existe...

— Eu acabei de te dizer!

— Tudo bem, não tem problema — disse Jimin, recuperando a compostura com um suspiro conformado. — Eu peço por qualquer outro aplicativo de entrega de restaurantes.

Namjoon coçou a nuca, trocando um olhar penalizado com as outras voluntárias.

— Então, meu amigo... também não funciona exatamente dessa maneira por estas bandas.

— O que você quer dizer?

— Não existem entregadores de aplicativo subindo as ladeiras da Vila Esperanza. Esse tipo de serviço mal opera no centro rico da capital, quanto mais na periferia onde nós estamos.

Jimin permaneceu estático no meio da sala, segurando o aparelho eletrônico como se ele tivesse acabado de se transformar em um pedaço inútil de metal e vidro.

Foi nesse instante que Jungkook, que até então permanecia sentado em uma cadeira isolada no canto da sala com seu prato sobre os joelhos, ergueu o rosto. Ele vinha acompanhando o diálogo em silêncio absoluto, mas a tensão visível em seus maxilares denunciava a irritação crescente.

— Você não teve a decência de pesquisar absolutamente nada antes de cruzar o mundo para vir parar aqui?

A pergunta não carregava o tom bem-humorado de Namjoon. Era puro julgamento, afiado como uma lâmina fria.

Jimin virou-se devagar para encarar o moreno.

— Eu pesquisei...

— Pesquisou o quê? — retrucou Jungkook, levantando-se e colocando o prato sobre a bancada lateral com um ruído seco.

O ambiente tornou-se pesado. O desconforto era palpável entre os presentes.

— Eu pesquisei sobre o histórico da ONG, sobre a documentação necessária para a validação profissional temporária, procurei moradia perto do centro comunitário...

Jungkook soltou uma risada curta, desprovida de qualquer humor, os olhos escuros cravados com dureza nas íris claras do outro.

— E esqueceu de pesquisar o básico sobre como as pessoas sobrevivem na cidade onde você vai morar por três meses.

Jimin sentiu a garganta secar. A repreensão ardia, mas ele não permitiu que o orgulho ferido o levasse a uma discussão infantil. Ele poderia justificar que sua vida inteira fora orquestrada por secretários particulares, motoristas e assistentes executivos contratados por seu tio. Poderia argumentar que a ausência de infraestrutura digital não era óbvia para quem cresceu no coração hiperconectado de Seul.

Em vez disso, abaixou o celular lentamente, sustentando o olhar severo de Jungkook sem vacilar.

— Esqueci. Foi um erro meu.

Jungkook continuou fitando-o, esperando uma desculpa esfarrapada, uma resposta mimada ou um rompante de arrogância burguesa que justificasse a aversão que começara a nutrir pelo rapaz. Mas a justificativa não veio.

Jimin apenas guardou o aparelho no bolso e ofereceu um meio sorriso resignado.

— Eu resolvo isso mais tarde. Não se preocupe.

Jungkook franziu o cenho, claramente incomodado com a serenidade inabalável do loiro. Balançou a cabeça em desaprovação e murmurou, antes de desviar o olhar:

— Inacreditável...

Quebrando o clima tenso, Namjoon puxou uma cadeira vazia ao seu lado e deu duas palmadas no assento acolchoado.

— Deixe de bobagem, Jimin. Sente-se aqui e almoce comigo.

O fonoaudiólogo hesitou, olhando para a marmita de alumínio fumegante do amigo.

— Não precisa, Namjoon. Eu espero o fim do expediente para comer alguma coisa em casa. É a sua refeição.

— A minha avó colocou comida suficiente nesta vasilha para alimentar um batalhão inteiro do exército — insistiu o fisioterapeuta, já destampando um segundo recipiente de plástico e dividindo uma porção farta de carne desfiada com batatas andinas e arroz temperado. — Se eu não comer tudo, ela me deserda; se eu comer tudo sozinho, eu tenho um ataque do coração antes dos trinta. Você estará prestando um serviço humanitário à minha saúde!

Jimin sorriu diante do calor daquela oferta despretensiosa.

— Tem certeza de que não vai fazer falta?

— Absoluta. Pegue um garfo e coma logo antes que esfrie.

O cheiro que subiu da comida caseira fez o estômago de Jimin roncar audivelmente, arrancando risos discretos das mulheres ao redor. Ele aceitou o prato improvisado, levou a primeira garfada à boca e mastigou devagar.

Seus olhos azuis se fecharam quase que por reflexo. O tempero era rico, rústico, impregnado com especiarias locais e com aquele sabor inconfundível de afeto que comida de restaurante de luxo nenhum era capaz de reproduzir.

— Nossa... isso é maravilhoso.

Namjoon gargalhou, satisfeito com o elogio culinário da família.

— Gostou?

— É simplesmente incrível. Eu nunca comi nada parecido na Coreia.

Do outro lado do cômodo, encostado na pia com os braços cruzados, Juan Jungkook assistia àquela cena em silêncio impenetrável. Ele reconhecia aquele ensopado com perfeição absoluta: era o mesmo prato tradicional que Dona Rosa preparava aos domingos para a comunidade. E ele sabia, com a precisão de quem conhecia a velha feirante há anos, que a generosidade daquela porção gigantesca tinha sido calculada pensando justamente nele, o neto postiço que vivia sem tempo para almoçar.

— Se você raspar o prato até o fim — brincou Namjoon, dando uma cotovelada amigável no braço do loiro —, a minha avó vai declarar você o novo neto favorito e me deserdar oficialmente do testamento das mangas!

Jimin riu com os olhos brilhantes.

— Diga a ela que aceito a proposta com muita honra.

Jungkook apenas revirou os olhos castanhos, empurrando o corpo para longe da parede e saindo do refeitório em passadas mudas. Ele não conseguia entender o que o irritava com mais força naquele recém-chegado: se era a ingenuidade absurda de quem parecia ter aterrissado de um planeta de contos de fadas, ou o fato de que, mesmo sendo tratado com frieza explícita, o loiro continuava respondendo a tudo com um sorriso doce e educado nos lábios.

Jungkook detestava gente daquele tipo. Não pertencia ao seu mundo, não entendia a dureza daquelas ruas e certamente abandonaria a ONG assim que o primeiro choque real de realidade atingisse seus sapatos de grife.

Era isso o que dizia para si mesmo.

***

A tarde de trabalho transcorreu com uma energia completamente diferente.

Alimentado e acolhido pelos colegas, Jimin dedicou-se integralmente a absorver o funcionamento dos atendimentos. Sentou-se nos fundos da sala durante as sessões de fisioterapia de Namjoon, observando como o rapaz lidava com a rigidez muscular de pacientes com paralisia cerebral por meio de brincadeiras lúdicas e canções infantis tradicionais.

Depois, foi convidado a conhecer algumas das crianças que faziam parte da lista de espera para reabilitação vocal. Ajoelhou-se no chão de tábuas para montar quebra-cabeças de madeira com um menino com fissura

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