Voltar ao resumo

Quando o silencio encontra você

Chá de Coca e Linhas Tortas

O som ritmado de uma faca cortando vegetais contra uma tábua de madeira vinha do cômodo vizinho.

Park Jimin permaneceu imóvel sobre o sofá estofado em veludo vermelho desbotado, ouvindo o silêncio confortável que aos poucos se assentava na casa de Juan Jungkook. A tontura atroz que quase o fizera beijar as pedras da ladeira começava a retroceder, deixando para trás apenas uma sensação morna de relaxamento muscular proporcionada pelo chá amargo.

Ele olhou ao redor com atenção redobrada.

A sala era minúscula, mas transbordava vida própria. Havia estantes improvisadas com caixotes de madeira lixada, repletas de compêndios grossos de anatomia humana, patologia e farmacologia, todos com as bordas puídas e anotações minuciosas feitas a lápis nas margens. Ao lado de uma janela com cortina de renda amarelada, repousava uma mesa de centro com ferramentas avulsas — um ferro de solda, alicates e fios desencapados —, provando que os boatos da vizinhança sobre os talentos mecânicos do jovem não eram exagero.

O olhar de Jimin, no entanto, foi atraído para uma pequena moldura de madeira escura no canto de uma das prateleiras.

Era uma fotografia antiga, com as bordas desgastadas pelo tempo. Nela, um homem asiático de traços marcantes e olhar doce segurava um garotinho de cerca de três anos nos ombros, diante de uma praia que Jimin reconheceu quase instantaneamente como Haeundae, em Busan. Ao lado deles, uma mulher boliviana de sorriso luminoso e cabelos longos e negros completava a imagem. O menino na foto tinha os mesmos olhos redondos, vivos e curiosos de Jungkook.

— Você está encarando as minhas coisas — disse uma voz grave, quebrando o transe do loiro.

Jimin deu um leve sobressalto, virando a cabeça na direção da porta da cozinha.

Jungkook estava parado ali, segurando dois pratos fundos de cerâmica fumegantes. Ele havia tirado o jaleco branco, revelando os ombros largos sob a camiseta preta simples e uma postura menos rígida do que a costumeira armadura profissional que ostentava no centro comunitário.

— Desculpe — pediu Jimin com a voz suave, ajeitando-se no assento. — Eu não queria ser indiscreto. Apenas reparei na fotografia. É o seu pai, não é?

Jungkook caminhou até a mesa de centro, afastou um alicate para o lado e pousou um dos pratos diante do convidado.

— É. Ele faleceu quando eu tinha sete anos.

— Sinto muito — disse Jimin com sinceridade, o coração apertando em empatia silenciosa. — Eu conheço essa praia. É em Busan. Eu costumava passar as férias de verão lá quando era criança.

Jungkook parou por uma fração de segundo, encarando o loiro com uma expressão que transitava entre a surpresa e a relutância. Sentou-se na outra ponta do sofá, mantendo uma distância segura, e pegou a colher.

— Eu não me lembro de quase nada de lá — admitiu o moreno em tom baixo, fitando o próprio prato. — Minha mãe me trouxe de volta para Sucre logo depois que ele se foi. As poucas coisas que sei da Coreia são as histórias que ele me contava antes de dormir e algumas palavras que ficaram gravadas na minha cabeça.

Jimin olhou para o ensopado que lhe fora oferecido: cubos de batata amarela, legumes tenros e tiras finas de frango cozido em um caldo dourado e perfumado com coentro fresco.

— O seu coreano tem sotaque de Gyeongsangdo? — perguntou Jimin, esboçando um pequeno sorriso ao levar uma colherada à boca.

Jungkook soltou um riso curto pelo nariz, quase inaudível.

— Eu nem sei o que é isso, Park. Quando muito, consigo xingar baixinho quando martelo meu próprio dedo e me lembrar de como ele me chamava.

— Como ele te chamava?

O jovem hesitou, mexendo a comida com a ponta da colher, parecendo ponderar se deveria compartilhar algo tão íntimo com alguém que mal conhecia.

— *Kookie* — murmurou ele, a pronúncia saindo com a cadência andina típica, mas perfeitamente reconhecível. — Era assim que ele dizia quando queria que eu parasse de chorar.

O coração de Jimin deu um baque suave. Ele conhecia bem aquele diminutivo afetuoso, tão comum entre famílias coreanas. Era estranho e reconfortante escutá-lo ali, a milhares de quilômetros de Seul, no meio de uma vila esquecida nas montanhas bolivianas.

— É um bom apelido — comentou Jimin, mastigando devagar. — Combina com você quando você não está fingindo que quer me morder.

Jungkook ergueu as sobrancelhas escuras, apontando a colher na direção do rosto pálido do fonoaudiólogo.

— Eu não finjo nada. Você que é abusado demais para quem quase morreu desidratado no asfalto há vinte minutos.

— Eu não estava desidratado, foi apenas o ar rarefeito! — protestou Jimin, soltando uma risada cristalina que preencheu a sala modesta com uma vibração luminosa. — E a comida está ótima, aliás. Foi você quem fez?

— Foi a Dona Mercedes que deixou pronta — confessou o boliviano, dando de ombros com fingido desdém. — Se dependesse de mim, você estaria comendo pão seco com água da torneira.

— Duvido muito — rebateu Jimin com tranquilidade, os olhos azuis faiscando de diversão. — Você é muito ranzinza por fora, Juan Jungkook, mas no fundo tem um coração enorme. Eu vi o jeito que você tratou a Camila hoje de manhã. E o jeito que me carregou até aqui.

O moreno pigarreou alto, suas orelhas ganhando uma coloração avermelhada que ele tentou disfarçar baixando o tronco para devorar a comida com pressa exagerada.

— Cala a boca e come logo antes que esfrie.

Jimin apenas sorriu, saboreando a refeição em silêncio.

Pela primeira vez em três anos, ele não precisou engolir remédios tarja preta para aplacar a dor que costumava fechar sua garganta na hora das refeições. O peso da ausência de seus pais continuava ali, uma cicatriz permanente em sua alma, mas a presença daquele rapaz de sobrancelhas franzidas e olhos intensos tornava o ar ao redor um pouco mais fácil de respirar.

Quando os pratos ficaram vazios, Jimin fez menção de se levantar para levá-los até a pia, mas foi imediatamente interrompido por uma mão firme que pousou sobre seu antebraço.

— Fica quieto aí — ordenou Jungkook, recolhendo a louça com uma agilidade prática. — Você ainda não está em condições de bancar o mordomo educado.

— Eu posso pelo menos secar os pratos...

— Se você quebrar uma das minhas vasilhas, eu te cobro em dólares com taxa de turista — ameaçou o mais novo, já abrindo a torneira da cozinha.

Jimin encostou a cabeça no espaldar do sofá, rindo baixinho enquanto escutava o tilintar dos talheres e o barulho da água corrente. A normalidade daquela cena era algo que ele nunca havia experimentado em sua cobertura asséptica em Gangnam, onde empregadas uniformizadas recolhiam tudo sem trocar uma única palavra fora do protocolo. Ali, as relações eram cruas, imperfeitas e infinitamente mais reais.

Minutos depois, Jungkook voltou à sala, secando as mãos em um pano de prato xadrez.

— Vamos. Vou te levar até o seu apartamento.

Jimin franziu a testa, aprumando o corpo.

— Não precisa, Jungkook. Eu já me sinto muito melhor. O chá realmente fez milagres, e a descida é tranquila.

— Não me interessa se você se sente o Super-Homem — retrucou o estudante, pegando sua jaqueta de couro surrada e jogando-a sobre os ombros. — Eu sou responsável por você até que esteja trancado dentro do seu quarto. Se você tiver outro piripaque e quebrar a cara na calçada, a dona Beatriz me arranca o couro e o Namjoon nunca mais para de me alfinetar. Anda logo.

Percebendo que discutir com a teimosia andina daquele rapaz era uma batalha perdida antes mesmo do primeiro golpe, Jimin calçou os sapatos e pegou sua pasta de couro.

Ao saírem para a rua, o impacto do ar gelado da noite foi imediato. Sucre parecia outra cidade sob a penumbra: as lâmpadas coloniais de luz amarela banhavam as fachadas caiadas de um tom dourado e misterioso, e o vento soprava com força das montanhas, fazendo as copas das árvores da praça suspirarem em uníssono.

Eles caminharam lado a lado pelas pedras desgastadas, mantendo um ritmo lento e cadenciado.

— Amanhã temos o plano terapêutico da Camila — comentou Jimin, quebrando o silêncio confortável da caminhada. — Eu estive pensando em começar utilizando materiais sensoriais. Areia, tintas e instrumentos de percussão leve. Se ela não quer usar a voz, podemos ensiná-la a produzir sons com o ambiente primeiro.

Jungkook caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, observando o chão à frente com atenção.

— Acha que vai funcionar?

— Não há garantias na fonoaudiologia, Jungkook. Mas a ciência nos mostra que a expressão não-verbal costuma abrir caminho para a liberação da fala bloqueada pelo medo. Ela precisa sentir que o mundo é um lugar seguro novamente.

O moreno parou de repente, virando-se para o loiro sob a luz fraca de um poste colonial.

— Como você sabe tanto sobre isso?

Jimin piscou, surpreso com a pergunta repentina.

— Eu estudei cinco anos para isso...

— Não estou falando da teoria médica — cortou Jungkook, os olhos escuros fixos nas íris azuis de Jimin com uma intensidade desarmante. — Estou falando de entender o medo. Você olhou para aquela menina hoje como se soubesse exatamente o que ela estava sentindo por dentro. Como se você também estivesse trancado dentro de uma caixa escura há muito tempo.

O ar pareceu faltar nos pulmões de Jimin novamente, e desta vez não tinha absolutamente nada a ver com a altitude da montanha.

Ele engoliu em seco, sentindo o vento gélido chicotear as pontas de seus cabelos platinados. A lembrança do barulho ensurdecedor da fuselagem, do cheiro de combustível queimado e do toque gelado da mão de sua mãe no último segundo de consciência ameaçou invadir sua mente, mas ele sustentou o olhar do rapaz boliviano sem recuar.

— Às vezes — disse Jimin, com a voz embargada por uma serenidade triste —, nós precisamos passar pela tempestade mais escura para aprender como guiar os outros para fora dela.

Jungkook não respondeu. Mas a expressão em seu rosto se suavizou de uma forma que Jimin ainda não tinha visto. Havia um respeito mútuo, silencioso e tácito, que acabara de se consolidar entre eles naquele canto esquecido da cidade.

Eles retomaram o passo e, duas quadras adiante, pararam diante do edifício colonial modesto onde ficava o apartamento alugado.

— Chegamos — avisou Jimin, virando-se na entrada.

— Não esqueça de deixar a janela do quarto entreaberta para circular o ar — instruiu Jungkook, recuperando seu tom prático de quase-médico. — E tome bastante água antes de dormir. Se sentir tontura de novo, não tente levantar rápido da cama.

— Sim, doutor Juan — brincou o loiro, curvando graciosamente o corpo em uma reverência rápida. — Prometo ser um paciente obediente.

Jungkook revirou os olhos, mas não conseguiu conter um meio sorriso involuntário que curvou o canto de seus lábios.

— Idiota. Boa noite, Park.

— Boa noite, Jungkook. E... obrigado por hoje. De verdade.

O moreno apenas acenou com a cabeça antes de girar sobre os calcanhares e descer a ladeira com passos longos e decididos, desaparecendo na curva da rua iluminada pela lua.

Jimin subiu as escadas com calma, sentindo as pernas ainda um pouco pesadas, mas a alma curiosamente leve. Ao entrar em seu apartamento, não foi para a cama de imediato. Caminhou até a sacada, apoiou os braços no parapeito de ferro fundido e olhou para o mar de telhados antigos de Sucre sob o firmamento salpicado de estrelas.

Pela primeira vez em três anos, ele não sentiu o impulso de tomar um calmante para calar a própria mente.

Fechou os olhos e respirou o ar puro da cordilheira.

***

Na manhã seguinte, o Centro Comunitário San Gabriel acordou sob um sol radiante que aquecia os pátios internos com rapidez incomum.

Jimin chegou cedo, vestindo uma camisa de linho azul-marinho e calça escura, trazendo uma sacola cheia de pequenos potes plásticos e tintas atóxicas que havia comprado na papelaria perto da praça.

— Olha só quem sobreviveu à noite nas alturas! — exclamou Hoseok, que havia ido até o centro entregar a encomenda diária de pães doces para o lanche das crianças.

— Vivinho da silva — respondeu Jimin, rindo e abraçando o padeiro de lado. — O chá de coca que tomei ontem me ressuscitou.

— Eu avisei que o *soroche* não perdoa quem tem cara de anjo — brincou Namjoon, saindo da sala de fisioterapia com uma bola suíça nos braços. — Mas me disseram por aí que você teve um enfermeiro particular de primeira linha ontem à noite.

Jimin sentiu as bochechas arderem ligeiramente, fingindo arrumar os potes de tinta sobre o balcão da recepção.

— O Jungkook apenas me ajudou a não desmaiar no meio da rua.

— Sei, sei... — provocou Namjoon, trocando um olhar travesso com Hoseok. — O Juan nunca levou voluntário nenhum para a casa dele. Geralmente ele deixa as pessoas aprenderem na marra! Você deve ter feito alguma mágica naquele menino teimoso.

Antes que Jimin pudesse formular qualquer protesto para se defender, passos firmes ecoaram no corredor e Jungkook surgiu dobrando a esquina, segurando sua costumeira prancheta de atendimento. Seus cabelos escuros estavam levemente úmidos do banho matinal e ele usava o jaleco branco impeccavelmente abotoado.

— Vocês dois não têm trabalho para fazer em vez de ficarem fofocando igual a duas lavadeiras? — disparou o moreno com voz cortante, embora seus olhos tenham procurado os de Jimin no mesmo segundo, avaliando discretamente a coloração de seu rosto para garantir que o rapaz estava recuperado.

— Já estamos indo, senhor general da saúde comunitária! — zombou Hoseok, dando uma piscadela para Jimin antes de marchar em direção à cozinha.

Namjoon apenas riu baixo e seguiu para sua sala, deixando os dois a sós na recepção.

— Bom dia — cumprimentou Jimin, oferecendo um sorriso calmo.

— Bom dia — respondeu Jungkook, parando a um metro de distância. Ele olhou para a sacola sobre o balcão. — O que é tudo isso?

— Nossos instrumentos de trabalho para hoje. A Camila chega em vinte minutos. Você... gostaria de participar da sessão comigo?

Jungkook franziu a testa, surpreso pelo convite.

— Eu sou da triagem clínica geral, Jimin. Não sou especialista em fonoaudiologia.

— Eu sei — explicou o loiro com paciência. — Mas ela confia em você. O primeiro vínculo de segurança que ela criou aqui dentro foi quando você se agachou e deu aquele adesivo para ela. Ter você na sala vai diminuir a ansiedade dela e acelerar o processo.

O moreno encarou a prancheta em suas mãos por longos segundos, visivelmente relutante em sair de sua zona de conforto técnico. No entanto, a lembrança dos olhos aterrorizados daquela menininha no dia anterior pesou mais alto do que qualquer insegurança profissional.

— Tá — concordou ele com um suspiro conformado. — Mas se ela começar a chorar, a culpa é totalmente sua.

— Combinado — riu Jimin.

Vinte minutos depois, Dona Lúcia cruzou o portão da clínica trazendo a pequena Camila pela mão. A garotinha vestia um vestido florido simples e ainda mantinha o adesivo do leão dourado colado no dorso da mão, já um pouco gasto nas pontas pelo uso contínuo.

Ao avistar Jungkook e Jimin esperando por ela na antessala ampla, os olhos escuros da menina brilharam com um lampejo tênue de reconhecimento.

Jimin não a levou para o consultório fechado. Em vez disso, organizou uma lona plástica grande no centro do pátio interno, sob a sombra agradável de uma amendoeira frondosa. No meio da lona, havia bacias rasas com água colorida, potes de areia fina e pequenos tambores feitos com latas de leite recicladas.

— Hoje nós não vamos falar sobre palavras, Camila — anunciou Jimin em um tom caloroso e descontraído, descalçando os sapatos e sentando-se de pernas cruzadas na lona. — Hoje nós vamos fazer barulho com as mãos.

A menina olhou hesitante para a mãe, que se sentou em um banco próximo com um sorriso encorajador, e depois olhou para Jungkook.

O estudante de medicina pigarreou, tirou as próprias botas pesadas e sentou-se desajeitadamente na lona ao lado de Jimin, arregaçando as mangas do jaleco até os cotovelos.

— Vem cá, Camila — chamou o moreno, estendendo a mão grande para a garota. — Vamos ver quem consegue fazer o tambor soar mais alto.

A menina deu passos miúdos, sentando-se entre os dois rapazes.

Durante a primeira meia hora, Jimin conduziu a sessão com uma sutileza artística admirável. Ele mergulhava as mãos na tinta azul e batia palmas ritmadas contra a lona, incentivando Camila a imitá-lo. Cada vez que a menininha acertava a superfície com força, o som seco da palma ecoava pelo pátio, seguido pelo riso tímido da garota ao ver os respingos coloridos mancharem o plástico.

Jungkook entrou no ritmo com uma dedicação surpreendente. Ele pegou uma das latinhas recicladas e começou a marcar um compasso cadenciado com uma baqueta de madeira, fingindo expressões de espanto engraçadas toda vez que Camila batia palmas fora do tempo.

— Agora — sussurrou Jimin, inclinando-se para a frente e pegando uma tigela rasa de água com sabão —, nós vamos usar o ar. Sem falar nada. Apenas soprando para criar pequenos mundos flutuantes.

O fonoaudiólogo mergulhou um pequeno aro de arame no líquido espumoso e soprou suavemente. Uma bolha de sabão translúcida, reluzindo com todas as cores do arco-íris sob a luz solar andina, desprendeu-se do aro e flutuou no ar fresco, subindo em direção aos galhos da árvore.

Os olhos de Camila se arregalaram em puro fascínio infantil.

Jimin entregou um segundo aro para a menina.

— A sua vez. Puxe o ar bem fundo pelo nariz... e solte devagar pela boca, como se estivesse soprando uma velinha de aniversário que não quer apagar rápido.

A garotinha levou o aro aos lábios. Ela hesitou por um segundo, seus ombrinhos tensos, o medo ancestral do bloqueio vocal ameaçando paralisar seus movimentos.

Jungkook inclinou-se suavemente ao lado dela.

— Você consegue, leoa — murmurou o moreno em espanhol, a voz incrivelmente mansa. — Mostra para o Jimin o tamanho do seu fôlego.

Camila fechou os olhos com força, inflou as bochechas pequenas e soprou.

Uma corrente de pequenas bolhas brilhantes irrompeu do arame, subindo em disparada pelo ar do pátio, girando ao sabor da brisa suave.

No meio do encanto daquele momento, a menina abriu os olhos, viu as esferas brilhantes ganharem o céu e, sem perceber, soltou um som audível:

— *¡Ah!*

Não foi uma palavra articulada. Não foi uma frase completa. Foi apenas uma vogal limpa, espontânea e carregada de pura alegria infantil que rompeu a barreira do mutismo que a aprisionara por três longos anos.

Do banco de madeira, Dona Lúcia levou as mãos trêmulas à boca, as lágrimas transbordando silenciosas por suas bochechas sulcadas.

Jungkook paralisou no mesmo instante, o coração martelando nas têmporas, encarando a menina com uma emoção tão crua e desarmada que ele parecia incapaz de respirar.

Jimin, por sua vez, não fez nenhum movimento brusco para não quebrar a magia daquele instante. Apenas sorriu, um sorriso luminoso e desprovido de qualquer vaidade profissional, e levou as pontas dos dedos aos próprios lábios em sinal de admiração.

— O seu ar tem uma voz linda, Camila — sussurrou o loiro, com os olhos azuis marejados sob a claridade da manhã.

A garotinha olhou para Jimin, olhou para Jungkook e, pela primeira vez desde que pisara naquela clínica, abriu um sorriso largo e desdentado, batendo as mãozinhas sujas de tinta contra os joelhos antes de assoprar o aro mais uma vez.

Ao lado deles, Jungkook virou o rosto devagar para encarar Park Jimin.

O moreno observou o perfil delicado do loiro, a forma como os fios dourados brilhavam contra o fundo das paredes coloniais e a serenidade infinita com que ele acolhia a dor daquela criança. Toda a desconfiança que Jungkook nutrira nos dias anteriores — todo o preconceito contra o garoto rico de Seul, contra os diplomas reluzentes e a ingenuidade de quem vinha de fora — ruiu como um castelo de areia diante da maré alta.

Jimin não era um turista brincando de caridade. Ele era alguém que trazia dentro do peito as mesmas feridas profundas da perda, mas que escolhera usar sua própria reconstrução para curar os outros.

Sentindo o peso daquele olhar silencioso, Jimin virou a cabeça e encontrou as íris escuras e profundas de Jungkook fixas nas suas.

Por alguns segundos, o barulho das crianças no pátio e o murmúrio da cidade lá fora desapareceram por completo. Havia apenas o som suave das bolhas de sabão estourando no ar e a certeza incontestável de que, sob aquele céu límpido de Sucre, as linhas tortas do destino haviam acabado de entrelaçar a história daqueles dois rapazes para sempre.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.