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Quando o silencio encontra você

Fios Desencapados e Vozes Caladas

Ajoelhou-se no chão de tábuas para montar quebra-cabeças de madeira com um menino com fissura labiopalatina, chamado Mateo.

O pequeno de cinco anos hesitava em emitir qualquer som, cobrindo a boquinha com a manga do suéter puído sempre que tentava apontar para uma peça. Jimin não forçou a fala. Em vez de pedir que o garoto repetisse palavras difíceis, como muitos terapeutas inexperientes faziam de imediato, o loiro apenas sentou-se de pernas cruzadas, pegou a peça de um barquinho azul e imitou o sopro do vento, inflando as bochechas de forma cômica.

Mateo arregalou os olhos amendoados e, timidamente, soltou uma risadinha anasalada.

— Assim, ó — incentivou Jimin em um espanhol suave, apontando com delicadeza para a própria boca para que o menino observasse a vedação labial. — Faz o vento levar o barquinho, Mateo. Só o ventinho.

O garoto respirou fundo e soprou. Não foi perfeito, o escape de ar nasal ainda era evidente pela anatomia da fenda, mas a sensação de produzir um som sem ser repreendido ou ridicularizado fez a criança bater palmas eufóricas contra o chão de madeira.

No canto da porta entreaberta, Namjoon observava a cena em silêncio, cruzando os braços e sorrindo com genuína admiração.

— Você tem um dom natural com eles, Jimin — comentou o fisioterapeuta quando a mãe do menino entrou para buscá-lo, agradecendo com reverências desajeitadas antes de sair pelo pátio.

Jimin levantou-se com cuidado, espanando a poeira dos joelhos da calça. Suas costas protestaram levemente contra a postura no chão, mas a sensação de utilidade que florescia em seu peito apagava qualquer desconforto físico.

— Eu apenas amo o que estudei para fazer — respondeu o loiro, ajeitando a franja platinada. — A fonoaudiologia não é sobre consertar pessoas como se fossem máquinas quebradas. É sobre encontrar caminhos para que elas consigam expressar a própria alma, mesmo quando o mundo parece querer calá-las.

— Pois prepare o coração — disse a voz grave de Beatriz, que se aproximava pelo corredor segurando uma pasta de capa azul-escuro. — Porque nós temos um caso que tem tirado o sono de toda a nossa equipe. E acho que é o momento de você conhecê-lo.

Jimin endireitou a postura, atento.

— Do que se trata?

A coordenadora abriu a pasta e entregou os formulários preenchidos à mão para o fonoaudiólogo. Na primeira folha, a caligrafia firme e angulosa chamou sua atenção no campo de observações médicas preliminares: *Hipótese diagnóstica: mutismo seletivo / trauma pós-abandono. Paciente não responde a estímulos verbais diretos.*

No rodapé, a assinatura era inconfundível: *Juan Jungkook — Triagem Médica Comunitária*.

— Camila Ramos — leu Jimin em voz baixa, seus olhos azuis absorvendo cada linha do prontuário com rapidez cirúrgica. — Sete anos. Três anos sem vocalizar nenhuma palavra, desde que foi encontrada na feira.

— Exatamente — confirmou Beatriz, suspirando. — Ela veio para a triagem hoje pela manhã. O Juan foi quem fez o primeiro acolhimento clínico, mas ele próprio admitiu que o caso está além da alçada dele. Precisamos de uma abordagem contínua e especializada.

— Onde ela está agora? — perguntou Jimin, sentindo uma urgência profissional que há anos não experimentava.

— A mãe adotiva ficou na sala de espera dos fundos, aguardando para pegar um suplemento vitamínico na farmácia. Se você tiver alguns minutos livres antes do encerramento do turno, poderia tentar uma aproximação?

— Claro. Agora mesmo.

Jimin pegou a pasta, despediu-se de Namjoon e seguiu Beatriz até uma pequena antessala arejada, cujas janelas davam para o jardim interno do casarão.

Sentada em um banco rústico de ripas verdes, uma garotinha magra de tranças apertadas balançava os pezinhos descalços calçados em sandálias de couro velho. Ao lado dela, de pé e conversando em voz baixa com a mãe adotiva da menina, estava Juan Jungkook.

O moreno ainda vestia o jaleco branco sobre a camiseta escura. Ele entregava uma caixa de comprimidos e duas ampolas de ferro para a mulher, explicando a posologia com uma paciência e uma doçura que Jimin jamais esperaria ver depois do embate ríspido que tiveram durante o almoço. Os traços endurecidos do jovem boliviano pareciam amolecer por completo diante da fragilidade daquelas pessoas humildes.

Ao escutar o rangido suave do piso sob os sapatos de Jimin, Jungkook calou-se no mesmo instante. Seus olhos castanhos ergueram-se, endurecendo quase que por puro reflexo protetor.

— Juan — chamou Beatriz, aproximando-se. — O Jimin vai assumir a avaliação de fala da Camila.

Jungkook olhou para a prancheta nas mãos do loiro e depois encarou o rosto de Jimin com uma intensidade desconfiada.

— Ela não gosta de barulho alto — avisou o moreno com a voz rouca, sem rodeios. — E não responde a perguntas forçadas. Se você entrar com termos técnicos e tentar fazer testes padronizados logo de cara, vai traumatizar a menina ainda mais.

Jimin não se irritou. Pelo contrário: sustentou o olhar denso do rapaz mais novo com serenidade absoluta.

— Eu não trabalho com fórmulas prontas, Jungkook. Trabalho com seres humanos.

O moreno semicerrou os olhos, mas não rebateu. Apenas deu um passo para trás, cruzando os braços fortes e apoiando-se contra a parede de adobe para observar a cena, como um cão de guarda que desconfia das intenções do visitante.

Jimin respirou fundo, puxando o ar rarefeito de Sucre para acalmar a própria ansiedade, e caminhou devagar até o banco. Ele não se sentou ao lado da menina de imediato. Em vez disso, sentou-se no chão frio, a uma distância respeitosa de dois metros, colocando-se deliberadamente em uma posição mais baixa do que ela para eliminar qualquer resquício de autoridade visual.

A pequena Camila encolheu os ombros, tensa. Seus dedinhos apertavam com força o tecido da saia escura.

Jimin não falou. Não fez perguntas sobre a escola, não pediu para ela sorrir, nem tentou tocá-la. Apenas abriu sua pasta de couro, retirou um bloco de folhas brancas e um estojo de gizes de cera coloridos e começou a desenhar silenciosamente sobre o papel apoiado no chão.

O silêncio na sala era tão denso que apenas o repicar dos pássaros no telhado e o som suave do giz raspando a celulose podiam ser ouvidos.

Jungkook, da penumbra do canto, acompanhava cada movimento com a respiração suspensa. Esperava que o loiro de Seul puxasse algum aparelho estrangeiro ou fizesse testes fonéticos invasivos, mas o que viu foi uma postura de absoluta paciência zen.

Depois de três minutos, Jimin ergueu o papel. Havia desenhado uma cordilheira de montanhas sob um céu azul, e, no topo de uma das pedras, um leão com juba redonda e dourada.

Os olhos de Camila desceram do desenho até o dorso de sua própria mãozinha, onde o adesivo que Jungkook lhe dera horas antes ainda brilhava, firme e colado.

Pela primeira vez naquele dia, um brilho de curiosidade infantil rasgou a barreira de medo nos olhos da garotinha.

Jimin deslizou a folha e um giz amarelo pelo piso liso na direção dela, parando o material a poucos centímetros de suas sandálias.

— O meu leão está um pouco sozinho na montanha — disse Jimin, com a voz tão baixa e aveludada que parecia o sussurro do vento andino. — Ele precisa de uma flor para fazer companhia, mas eu não sei desenhar flores tão bem quanto as meninas daqui.

Camila olhou para a mãe adotiva, que assentiu com um sorriso encorajador. Em seguida, a garota olhou furtivamente para Jungkook, como se buscasse a aprovação final do jovem que a acolhera pela manhã.

Jungkook apenas piscou os olhos devagar, inclinando a cabeça em um gesto mudo de consentimento.

A menina deslizou para fora do banco, ajoelhou-se diante do papel, pegou o giz amarelo entre os dedos pequenos e desenhou um círculo tosco. Depois, pegou o giz vermelho e puxou pétalas compridas ao redor do centro.

Ela não disse uma única sílaba. Mas seus ombrinhos relaxaram por completo.

Jimin não aplaudiu nem fez escândalo festivo. Apenas colocou a mão sobre o próprio coração, curvou a cabeça em sinal de respeito e sussurrou:

— Ficou linda. Obrigado, Camila.

A menina soltou um suspiro profundo e apoiou a mãozinha no papel ao lado do leão, deixando escapar um som quase imperceptível de respiração aliviada. Não era a cura do mutismo, mas era a primeira fresta aberta em uma muralha de três anos de silêncio sepulcral.

A mãe adotiva enxugou uma lágrima silenciosa no avental, pegou a filha pela mão e despediu-se com gratidão calorosa antes de cruzar o portão rumo à vila.

Quando a sala ficou vazia, restando apenas os dois rapazes, Jimin recolheu os gizes com dedos calmos.

— Ela vai precisar de meses de acompanhamento — comentou Jimin, erguendo o rosto para encarar o moreno. — O trauma do abandono trancou a voz dela por medo de rejeição. Não há lesão neurológica aparente, é uma paralisia puramente emocional.

Jungkook continuou encostado na parede por longos segundos, com as mãos enfiadas nos bolsos do jaleco. Pela primeira vez desde que se conheceram, a hostilidade explícita havia desaparecido de seu olhar, substituída por uma perplexidade inquieta.

— Você não tentou fazer ela falar — disse o mais novo, a voz grave soando como uma admissão forçada de surpresa.

— Quem não se sente seguro não fala, Jungkook — respondeu Jimin com simplicidade, levantando-se e fechando a pasta. — Exigir palavras de alguém que foi quebrado pela vida é o mesmo que exigir que um pássaro com a asa fraturada cruze a montanha voando. Primeiro, você ensina o pássaro a confiar na mão que o acolhe. O voo vem depois.

As palavras do fonoaudiólogo ecoaram no ar frio do corredor com um peso que parecia carregar dores muito mais antigas do que aquele prontuário médico.

Jungkook franziu a testa, desconcertado pela profundidade daquela resposta. Ele abriu a boca para dizer algo, mas fechou-a logo em seguida, engolindo o próprio orgulho.

— O expediente acabou — avisou o boliviano, virando as costas com passadas rápidas. — Não tranque a porta de saída. O zelador ainda está lá fora.

Jimin observou a figura larga do rapaz desaparecer na penumbra do pátio e soltou um suspiro pesado, sentindo uma pontada fina de dor pulsar em suas têmporas. O dia havia sido exaustivo além de qualquer limite imaginável.

***

Às dezoito horas, o sol já havia mergulhado quase por completo atrás das cristas avermelhadas dos Andes, deixando no horizonte apenas uma faixa estreita de fogo alaranjado e violeta.

Jimin saiu pelos portões de ferro do Centro Comunitário San Gabriel com a alça da pasta pesando sobre o ombro. O ar estava consideravelmente mais frio agora; o vento que varria as ladeiras da Vila Esperanza parecia cortar através do tecido de seu suéter leve como se fosse papel.

Ele começou a subir a rua de pedras irregulares em direção ao seu apartamento alugado.

Foi no meio da terceira ladeira que o corpo cobrou o tributo.

O ar sumiu de repente. Uma tontura súbita fez o chão inclinado parecer girar sob seus pés, acompanhada por uma queimação áspera no fundo da garganta e uma dor de cabeça latejante que se concentrava atrás de seus olhos azuis. Suas pernas fraquejaram, pesadas como se estivessem amarradas a blocos de concreto.

O choque da altitude, somado a trinta horas de voo dopado por sedativos, à caminhada da madrugada e à falta de uma rotina regular de repouso, finalmente cobrava seu preço sem aviso prévio.

— Droga... — murmurou ele em coreano, apoiando uma das mãos na parede áspera caiada de branco para não cair.

O peito de Jimin arfava em um esforço desesperado para extrair oxigênio daquele ar rarefeito. Ele fechou os olhos com força, sentindo gotas de suor frio escorrerem por suas têmporas enquanto o mundo ao redor começava a perder o foco em borrões acinzentados.

No meio da vertigem, um chiado metálico de freios soou a poucos metros de distância.

— Ei! O que você está fazendo jogado aí no meio da calçada?

Jimin mal teve forças para virar a cabeça. Pela visão periférica, viu uma bicicleta preta velha sendo jogada sem qualquer cuidado contra o meio-fio e passos rápidos de botas se aproximando pelas pedras.

— Jimin?

Uma mão grande, calejada e surpreendentemente quente segurou com firmeza o seu braço direito, impedindo que o loiro desabasse de joelhos no chão de terra e pedregulhos.

— Eu... estou bem — tentou articular Jimin, a voz saindo como um sussurro quebrado e falhado. — Só um pouco... sem fôlego.

— Você não está nada bem, seu idiota — retrucou Jungkook, segurando o ombro do outro com mais firmeza e puxando o braço de Jimin por cima do próprio pescoço para distribuir o peso. — Olha a sua cor. Você está branco como um cadáver de necrotério. É o *soroche*.

— Eu só preciso... subir as escadas do apartamento...

— Você não aguenta subir nem mais três degraus desse morro sem desmaiar — cortou o moreno com autoridade médica incontestável. — Fique quieto e não tente falar. Respirar já está sendo difícil o bastante para essa sua cabeça oca.

Apesar da aspereza verbal de sempre, a forma como Jungkook o sustentava era impecavelmente segura. Ele não demonstrou a menor hesitação ao passar o braço forte pela cintura do loiro, guiando seus passos trôpegos para longe da ladeira íngreme e entrando por um beco lateral estreito, ladeado por muros baixos de pedra e vasos de barro com gerânios secos.

— Onde estamos... indo? — murmurou Jimin, sentindo o calor do corpo de Jungkook contrastar violentamente com o frio gélido que arrepiava seus próprios ossos.

— Para a minha casa — respondeu o mais novo, bufando pelo esforço de carregar o peso morto do outro ladeira acima. — É aqui na esquina. Meu prédio é baixo e eu não vou carregar você por dez quadras até o seu quarto só para satisfazer o seu orgulho estrangeiro.

Poucos segundos depois, Jungkook empurrou com o ombro a porta de madeira desgastada de uma casinha colonial de entrada independente. O ambiente estava em penumbra, cheirando a ervas secas, madeira antiga e chá.

Sem perder tempo, o moreno conduziu o loiro até um sofá estofado em tecido grosso e vermelho, ajudando-o a sentar-se e deitando sua cabeça contra uma almofada firme.

— Fique aí. Não tente se mover.

Jimin fechou os olhos, respirando com a boca entreaberta, o peito subindo e descendo em espasmos irregulares. Ele escutava os passos rápidos de Jungkook se movendo pela cozinha adjacente, o barulho metálico de uma chaleira batendo contra as grades de ferro do fogão a gás e o fósforo riscando com um estalo seco.

Dois minutos depois, o jovem retornou à sala com uma caneca de cerâmica fumegante nas mãos. Sentou-se na beirada do sofá, bem ao lado das pernas de Jimin, e colocou a mão na nuca do loiro, erguendo sua cabeça com um cuidado quase cirúrgico.

— Beba isso — ordenou em tom baixo.

Jimin piscou, encarando o líquido amarelado de aroma terroso e amargo que soltava vapor aromático. Havia folhas verdes inteiras boiando na superfície.

— O que é isso?

— *Mate de coca* — respondeu Jungkook, mantendo a borda da caneca encostada nos lábios pálidos do outro. — É um remédio tradicional dos Andes. Dilata os brônquios e ajuda o sangue a carregar oxigênio nessa altitude maldita. Para de fazer perguntas e bebe logo. Não é veneno.

Jimin obedeceu. O primeiro gole foi quente, levemente amargo e desceu raspando pela garganta ressecada, mas a sensação térmica que se espalhou por seu estômago trouxe um alívio quase instantâneo à queimação que sufocava seu peito. Tomou metade da caneca sob a supervisão atenta dos olhos escuros de Jungkook.

O moreno esperou pacientemente até que Jimin conseguisse apoiar as costas sozinho contra os encostos do estofado.

— Melhor? — perguntou o mais novo, ajeitando a caneca na mesinha de centro.

— Muito melhor... — sussurrou Jimin, passando as pontas dos dedos frios pelas próprias bochechas, sentindo o sangue começar a circular com mais dignidade. — Obrigado, Jungkook. De verdade.

Jungkook desviou o olhar para o chão de tábuas, passando a mão pelos cabelos castanhos desgrenhados em um gesto desconfortável. Ele parecia visivelmente incomodado por estar recebendo agradecimentos sinceros.

— Você é muito irresponsável — disparou o moreno, cruzando os braços e tentando restabelecer sua costumeira postura defensiva. — Quem viaja para uma cidade a quase três mil metros de altitude e sai andando pelas ladeiras no primeiro dia como se estivesse no shopping de Seul?

Jimin soltou uma risada fraca e nasalada, encostando a nuca na almofada.

— Eu não sabia que o ar pesava tanto assim por aqui.

— O ar não pesa. O ar falta. É diferente — corrigiu o boliviano com precisão técnica. — Amanhã você vai comprar folhas de coca na feira da Dona Rosa e vai deixar na sua bolsa o tempo todo. Se começar a sentir essa tontura de novo, masca duas folhas com bicarbonato e senta no chão até passar. Não quero ter que recolher você desmaiado na sarjeta de novo.

— Você não precisava ter me ajudado — apontou Jimin em tom calmo, fitando as íris escuras do rapaz com uma brandura desarmante. — Pelo jeito que falou comigo no almoço, achei que preferisse me ver bem longe de você.

Jungkook permaneceu em silêncio por longos instantes.

A penumbra da sala começava a ser invadida pela luz amarelada dos postes coloniais que se acendiam do lado de fora da janela. Naquela meia-luz, o rosto jovem de Juan Jungkook parecia dividido entre a dureza das responsabilidades pesadas que carregava tão cedo e a humanidade vibrante que ele tentava esconder sob a carcaça de menino rebelde.

— Eu sou quase médico, Park — respondeu ele por fim, com a voz mais mansa do que de costume. — Não deixo ninguém agonizando na rua, nem mesmo um playboy coreano que não sabe que fast-food não nasce em árvore.

Jimin deu um sorriso suave, que fez seus olhos azuis se estreitarem em duas pequenas luas crescentes.

— Então você ainda acha que eu sou um playboy mimado?

Jungkook olhou para a camisa de linho do loiro, para os sapatos caros sujos de poeira andina e, finalmente, para a expressão aberta e desprovida de qualquer malícia daquele rosto pálido. Lembrou-se da forma paciente como Jimin havia se ajoelhado no chão sujo para desenhar com a pequena Camila, sem se importar com a poeira, respeitando cada segundo de dor daquela criança abandonada.

— Eu acho que você não sabe onde amarrou o seu burro — murmurou o moreno, levantando-se do sofá e caminhando em direção à cozinha. — Mas... pelo menos você sabe desenhar leões decentes.

Jimin riu baixo, sentindo o calor do chá e a sensação de segurança finalmente afastarem as sombras frias que o perseguiam há três anos.

Pela primeira vez desde a queda daquele avião cinzento em Seul, Park Jimin não se sentiu completamente sozinho no mundo. E, naquele pequeno casarão antigo no alto das montanhas de Sucre, o silêncio que se instalou entre os dois rapazes não soava mais como uma muralha, mas sim como a primeira nota desafinada de uma canção que começava a ser escrita.

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