Que assim seja
Ecos de uma Noite Nublada
A música de Lauren ainda reverberava nos ouvidos de Camila quando elas deixaram o "The Moonlight". O ar fresco da noite de Miami não foi suficiente para dissipar o calor que aquela troca de olhares com a pianista havia provocado. No carro, Dinah não parava de falar sobre como a cantora era "um pecado em forma de mulher", enquanto Ester dirigia em silêncio, mantendo um sorriso suave, mas com os olhos fixos na estrada.
Ao chegarem no apartamento, a energia era de pura euforia misturada ao cansaço dos drinks. Dinah se despediu na porta, alegando que precisava "processar os eventos cósmicos" em sua própria cama, deixando Camila e Ester sozinhas no corredor silencioso.
— Aquela noite foi... intensa — comentou Camila, tirando os sapatos de salto e soltando um suspiro de alívio ao sentir o chão frio sob os pés.
— Foi sim, Mila. Você precisava disso. Precisava ver que o mundo é muito maior do que as grosserias do Austin — Ester respondeu, abrindo a porta e jogando as chaves sobre o aparador.
As luzes do apartamento estavam apagadas, apenas o brilho da cidade entrava pelas grandes janelas da sala. Havia uma tensão residual no ar, algo que não era comum entre as duas. Camila sentia o coração acelerado, a imagem dos olhos verdes de Lauren se misturando com a frustração causada por Austin e a segurança reconfortante que Ester sempre lhe proporcionava.
— Ele me ligou antes de sairmos — confessou Camila, sentando-se no sofá de veludo. — Foi horrível, Estie. Ele falou mal de você, da Dinah... ele me tratou como se eu fosse uma posse que ele esqueceu de guardar na gaveta.
Ester se aproximou, sentando-se ao lado dela. O perfume de Ester, uma mistura de sândalo e algo cítrico, envolveu Camila.
— Eu sinto muito que você passe por isso, Mila. Você sabe o que eu penso. Você é uma joia, e ele é... — Ester hesitou, buscando as palavras — ...ele é alguém que não consegue enxergar a luz que você tem.
Camila olhou para a amiga. Ester era linda. A luz da lua contornava seu rosto, destacando a mandíbula forte e os olhos cheios de uma empatia profunda. Em um impulso movido pela carência, pelo álcool e pelo desejo de ser verdadeiramente vista, Camila se inclinou.
— Por que você é a única que me trata como se eu valesse alguma coisa? — sussurrou Camila, a voz embargada.
— Porque você vale tudo, Camila.
O beijo aconteceu de forma natural, mas avassaladora. Começou como um selinho de conforto, mas rapidamente se transformou em algo carregado de anos de convivência e um carinho que, naquele momento, ultrapassou a fronteira da amizade. Camila sentiu as mãos de Ester em sua cintura, firmes e protetoras.
Diferente da urgência agressiva de Austin, o toque de Ester era uma descoberta. Elas se moveram para o quarto de Ester em um transe de carícias e respirações curtas. Ali, entre os lençóis de algodão egípcio, Camila experimentou uma entrega que nunca conhecera. Não havia exigências vulgares, não havia a sensação de ser um objeto. Ester a tratava com uma reverência quase sagrada, explorando cada curva de seu corpo com uma gentileza que fazia Camila querer chorar e sorrir ao mesmo tempo.
A intimidade fluiu entre elas de uma maneira que as palavras não conseguiriam descrever. Camila sentiu-se plena, conectada a alguém que realmente a conhecia. No entanto, conforme o prazer diminuía e o silêncio da madrugada se instalava, uma sombra começou a rastejar para dentro de sua mente.
*Austin.*
Ela ainda namorava Austin. Mesmo que ele fosse um canalha, mesmo que ele a traísse, a culpa começou a pesar em seu peito como chumbo.
...
Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu o quarto de forma impiedosa. Camila acordou primeiro, com a cabeça latejando levemente. Ela olhou para o lado e viu Ester dormindo profundamente, os cabelos bagunçados sobre o travesseiro. A memória da noite anterior voltou em flashes vívidos: o calor da pele de Ester, a suavidade de seus lábios, a conexão intensa.
O estômago de Camila deu um nó. Ela se levantou silenciosamente, vestiu suas roupas espalhadas pelo chão e saiu do quarto antes que Ester acordasse.
Cerca de uma hora depois, Ester apareceu na cozinha, esfregando os olhos e bocejando. Camila estava de pé diante da cafeteira, as mãos tremendo levemente enquanto segurava uma xícara.
— Bom dia, Mila... — Ester murmurou, sentando-se à mesa. — Nossa, minha cabeça parece que vai explodir. Acho que aquele último drink da Dinah foi um erro.
Camila congelou. Ela se virou lentamente, observando a expressão de Ester. A amiga parecia genuinamente confusa e um pouco pálida.
— Você... você não se lembra de nada de ontem à noite? — perguntou Camila, a voz quase sumindo.
Ester franziu a testa, tentando forçar a memória.
— Eu lembro da gente no clube, lembro daquela cantora incrível... e lembro de chegarmos em casa. Depois disso, é um borrão total. Eu apaguei? — Ester soltou uma risadinha nervosa. — Desculpe se eu te deixei falando sozinha, Mila. Eu realmente perdi o controle ontem.
Camila sentiu um misto de alívio e uma dor aguda no peito. Ester não lembrava. O momento mais significativo da vida íntima de Camila, a noite em que ela finalmente se sentiu amada e desejada por quem era, tinha sido apagado da mente de sua melhor amiga pelo excesso de álcool.
— É... você apagou logo depois que entramos — mentiu Camila, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Eu te ajudei a ir para a cama e fui para o meu quarto.
— Obrigada, Estie. Você é um anjo — Ester disse, levantando-se para pegar um copo de água e um analgésico. — Eu me sinto péssima por ter te dado trabalho.
— Não foi trabalho nenhum — disse Camila, sentindo a mentira queimar em sua garganta.
O silêncio que se seguiu foi torturante para Camila. Cada movimento de Ester, cada gesto casual, a fazia lembrar do toque da amiga na noite anterior. O contraste era insuportável: dentro de Camila, havia um furacão de novas sensações e dúvidas; para Ester, era apenas mais uma manhã de ressaca após uma noite divertida com as amigas.
O celular de Camila vibrou sobre o balcão. Era uma mensagem de Austin.
*Austin: "Meus pais chegam às 14h. Esteja pronta e bem vestida. Não me faça passar vergonha com essa sua cara de choro."*
Camila sentiu uma náusea súbita. Ela olhou para Ester, que agora lavava o copo na pia, agindo com a naturalidade de sempre.
— Eu vou para a floricultura — anunciou Camila abruptamente. — Tenho muitos pedidos para entregar hoje.
— Mas hoje é seu dia de folga, Mila! — Ester se virou, preocupada. — Você está bem? Está pálida.
— Estou bem, só preciso trabalhar. O trabalho me ajuda a pensar — Camila pegou sua bolsa e saiu quase correndo, sem dar tempo para Ester questionar mais nada.
Durante todo o caminho até a loja, a mente de Camila era um caos. Ela se sentia suja por ter "traído" Austin, mesmo odiando a forma como ele a tratava. Mas, acima de tudo, ela se sentia perdida. Como ela poderia continuar morando com Ester? Como poderia olhar para a amiga todos os dias sabendo que haviam compartilhado algo tão profundo, enquanto Ester sequer tinha consciência disso?
Ao chegar na floricultura, o aroma das flores, que geralmente a acalmava, parecia sufocante. Ela começou a organizar alguns lírios de forma mecânica.
— Você parece que viu um fantasma — a voz de Dinah ecoou na loja, fazendo Camila dar um pulo.
— Dinah! O que você está fazendo aqui?
— Vim ver como minha protegida estava após a noite mística. E pelo visto, o horóscopo estava certo, mas você não está sabendo lidar. O que aconteceu?
Camila olhou para os lados, certificando-se de que não havia clientes, e puxou Dinah para o pequeno depósito nos fundos.
— Eu e a Ester... nós... aconteceu, Dinah — sussurrou Camila, escondendo o rosto nas mãos.
Os olhos de Dinah se arregalaram.
— O QUÊ? Noite de núpcias entre as mosqueteiras? Mila, isso é incrível! Eu sempre soube que havia uma tensão ali, uma vibração de "quero te beijar mas sou educada demais".
— Não é incrível, Dinah! — Camila exclamou, desesperada. — A Ester não lembra de nada. Ela acordou com um apagão total. E eu ainda estou com o Austin, e os pais dele chegam hoje, e eu me sinto a pior pessoa do mundo!
Dinah cruzou os braços, sua expressão mudando de empolgação para uma seriedade protetora.
— Primeiro: você não é a pior pessoa do mundo. O Austin é o vilão dessa história, não você. Segundo: se a Ester não lembra, isso é um problema. Mas Mila, você sentiu o que sentiu. Você não pode desver o que viu.
— Eu me senti... viva, Dinah. Pela primeira vez em anos. Com o Austin é sempre sobre ele, sobre o que ele quer, sobre como eu devo me comportar. Com a Ester... foi sobre nós duas.
— Então por que você ainda está com aquele projeto de estrume? — perguntou Dinah, segurando os ombros da amiga.
— Porque eu tenho medo! — confessou Camila, as lágrimas finalmente caindo. — Medo de ficar sozinha, medo do que os meus pais vão dizer, medo de estragar minha amizade com a Ester se eu contar a verdade e ela não sentir o mesmo agora que está sóbria.
— Mila, escuta bem — disse Dinah, limpando uma lágrima do rosto de Camila. — O medo é um péssimo conselheiro. Você está vivendo uma mentira com o Austin e uma meia-verdade com a Ester. Isso vai te destruir.
O resto do dia foi um borrão de cores e cheiros. Camila tentou se concentrar nos arranjos, mas cada vez que o telefone tocava, ela temia que fosse Austin ou, pior, Ester querendo conversar.
Às duas da tarde, Austin parou seu carro esportivo barulhento na frente da floricultura. Ele não desceu; apenas buzinou impacientemente. Camila respirou fundo, despediu-se de Dinah com um olhar suplicante e saiu.
Dentro do carro, o clima era gélido. Austin usava um terno caro e óculos escuros, exalando uma aura de superioridade que fazia Camila se encolher no banco do passageiro.
— Você está com olheiras — ele comentou, sem nem olhar para ela. — Espero que tenha maquiagem suficiente na bolsa. Meus pais não gostam de mulheres que parecem desleixadas.
— Eu tive uma noite difícil, Austin.
— Problema seu. Hoje o assunto é sério. Meu pai quer discutir os termos do contrato pré-nupcial. Ele quer garantir que os herdeiros da família tenham uma linhagem... estável.
Camila olhou pela janela, vendo as ruas de Miami passarem. A palavra "herdeiros" soava como uma sentença de prisão. Ela pensou em Ester, na forma como Ester a ouvia, na forma como Ester respeitava seus sonhos de ter sua própria rede de floriculturas um dia.
O jantar com os pais de Austin foi exatamente como Camila temia. O restaurante era excessivamente caro e silencioso. O Sr. e a Sra. Mahone eram versões mais velhas e amargas de Austin.
— Então, Camila — começou o Sr. Mahone, cortando seu bife com precisão cirúrgica —, Austin nos disse que você ainda insiste naquela lojinha de flores. Esperamos que, após o casamento no próximo verão, você deixe esses passatempos de lado. Uma esposa da nossa família tem responsabilidades sociais. E caritativas, claro.
— Não é um passatempo, Sr. Mahone — Camila tentou dizer, sua voz soando pequena na mesa grande. — É meu trabalho. Eu amo o que faço.
— O amor não paga as contas nem mantém o status, querida — a Sra. Mahone sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos frios. — Você é jovem e bonita. Sua função é ser o suporte do Austin e nos dar netos saudáveis.
Austin colocou a mão sobre a de Camila, mas não foi um gesto de carinho. Ele apertou seus dedos com força, um aviso silencioso para que ela se calasse e concordasse.
— Ela vai entender, pai — disse Austin, com um tom de voz que indicava que o assunto estava encerrado. — Camila só precisa de um pouco mais de disciplina.
Naquele momento, algo dentro de Camila quebrou. A imagem de Ester dormindo pacificamente naquela manhã, a lembrança do toque gentil e da voz rouca de carinho, colidiram com a realidade fria e opressora daquela mesa.
— Eu preciso ir ao banheiro — disse Camila, levantando-se bruscamente.
Ela se trancou em uma das cabines luxuosas do toalete e desabou. O choro veio silencioso, mas profundo. Ela pegou o celular e viu uma mensagem de Ester enviada há dez minutos.
*Ester: "Mila, fiz aquele risoto que você gosta para o jantar. Sei que o dia com os pais dele deve ser difícil. Vem logo para casa, tá? Sinto sua falta aqui."*
"Sinto sua falta". Três palavras que pesavam mais do que todo o ouro da família Mahone.
Camila lavou o rosto, retocou a maquiagem como Austin queria, mas seu coração já não estava mais ali. Ela voltou para a mesa e suportou o restante do jantar como uma estátua de gelo.
Quando Austin finalmente a deixou em casa, já passava das onze da noite. Ele nem sequer desceu do carro.
— Esteja pronta amanhã às oito. Vamos tomar café com eles antes de irem para o aeroporto — ordenou ele.
— Boa noite, Austin — foi tudo o que ela disse antes de bater a porta do carro.
Ao entrar no apartamento, o cheiro do risoto de Ester ainda pairava no ar. Ester estava sentada no sofá, lendo um relatório do trabalho, mas fechou o laptop assim que viu Camila.
— Ei... você parece exausta — Ester se levantou e caminhou até ela.
Camila não aguentou. Ela se jogou nos braços de Ester, escondendo o rosto em seu pescoço. Ester a segurou firmemente, acariciando seus cabelos.
— O que aconteceu, pequena? Eles foram muito ruins com você?
— Eles querem me apagar, Estie — soluçou Camila. — Eles querem que eu seja uma boneca. Eu não aguento mais.
Ester a conduziu até o sofá, sentando-se com ela.
— Então não seja. Você é Camila Cabello. Você é a mulher que faz as flores falarem. Você não precisa deles. E certamente não precisa do Austin.
Camila olhou para Ester. A vontade de contar tudo, de gritar que a noite anterior tinha sido a coisa mais real que já sentira, queimava em sua garganta. Mas ela viu nos olhos de Ester apenas uma preocupação fraternal, a mesma de sempre. O "apagão" de Ester era uma barreira que Camila não sabia se tinha coragem de derrubar.
— Estie... — Camila começou, a voz trêmula — ...você realmente não lembra de nada de ontem à noite? Nada mesmo?
Ester suspirou, parecendo um pouco envergonhada.
— Mila, eu juro que tentei lembrar o dia todo. Eu lembro de rirmos no carro, lembro de você estar linda sob as luzes do clube... e depois disso, é como se alguém tivesse desligado a luz. Eu fiz algo errado? Eu te tratei mal?
Camila sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela acariciou o rosto de Ester, os dedos traçando a mesma linha que haviam traçado horas atrás, quando o mundo era apenas pele e entrega.
— Não — sussurrou Camila. — Você me tratou da melhor maneira que alguém já me tratou em toda a minha vida.
Ester sorriu, embora parecesse confusa com a intensidade daquelas palavras.
— Bem, então fico feliz. Mesmo que eu seja uma idiota por ter esquecido.
Camila deitou a cabeça no colo de Ester, sentindo as mãos da amiga em seu cabelo. Ela sabia que precisava tomar uma decisão. A confusão dentro dela era um labirinto, mas pela primeira vez, ela tinha uma bússcola: a sensação de que, em algum lugar entre as notas de jazz e o silêncio do quarto de Ester, ela tinha descoberto quem realmente era.
E o que ela queria não usava terno, não tinha pais prepotentes e, definitivamente, não se chamava Austin.
— Eu amo muito ele, Estie... — Camila murmurou, mas desta vez, a frase soou como uma pergunta, uma dúvida que ela não conseguia mais ignorar.
— Eu sei que você acha que ama, Mila — Ester respondeu suavemente, sem saber que estava acariciando a mulher que, poucas horas antes, tinha sido sua em todos os sentidos. — Mas o amor não deveria doer tanto.
Camila fechou os olhos, deixando-se levar pelo cansaço, enquanto em sua mente, os olhos verdes de Lauren e o toque esquecido de Ester criavam uma nova melodia para o seu futuro. Uma melodia que ela teria que aprender a cantar sozinha, antes de decidir com quem dividiria o palco de sua vida.