Que assim seja
Sombras de Cristal e Renascimento
O café da manhã com os pais de Austin foi a última gota de um cálice que já transbordava veneno. Camila sentou-se à mesa, as costas eretas, suportando as críticas veladas à sua aparência, à sua "falta de ambição" e aos planos de um futuro que ela nunca escolheu. Quando o Sr. e a Sra. Mahone finalmente partiram para o aeroporto, o silêncio que se seguiu no carro de Austin não era de paz, mas de uma tempestade iminente.
— Você foi patética hoje — cuspiu Austin, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. — Meus pais saíram daqui achando que eu estou namorando uma boneca de pano sem cérebro.
— Eu só não concordo com o que eles querem para mim, Austin — Camila respondeu, a voz trêmula, mas firme. — Eu não quero ser apenas uma dona de casa. Eu amo a floricultura.
Austin soltou uma gargalhada seca e cruel, parando o carro bruscamente em frente ao prédio dela.
— Floricultura? Acorda, Camila! Você é um acessório. E quer saber? Eu cansei. Cansei da sua resistência, dessa sua pureza de fachada. Eu não preciso de você. Tem uma fila de mulheres na rua que fariam qualquer coisa para estar no seu lugar, mulheres que sabem como satisfazer um homem de verdade e que não ficam choramingando por causa de flores.
Camila sentiu o impacto das palavras como se fossem bofetadas físicas. Ela abriu a porta do carro, as lágrimas já embaçando sua visão.
— Então vá ficar com elas, Austin. Acabou.
— Ótimo! — gritou ele enquanto ela batia a porta. — Não ouse me procurar quando perceber o lixo de vida que vai ter sem o meu dinheiro e o meu nome!
O motor roncou e ele arrancou, deixando Camila sozinha na calçada, sentindo o mundo desmoronar sob seus pés. Ela subiu o elevador em um transe de dor e alívio, e assim que atravessou a porta do apartamento, desabou.
Ester e Dinah já estavam lá. Dinah, que havia passado o dia com Ester, correu para amparar a amiga. Ester, cujos olhos brilhavam com uma fúria protetora, ajudou a levá-la para o sofá.
— Ele... ele disse coisas horríveis — soluçou Camila, o rosto escondido no ombro de Dinah. — Ele disse que eu não sou nada.
— Aquele verme! — Dinah exclamou, acariciando os cabelos de Camila. — Ele é quem não é nada sem esse ego inflado. Você é tudo, Mila.
Ester permanecia em silêncio, mas suas mãos tremiam levemente. Dinah já havia contado a ela, em termos bem claros, o que havia acontecido na noite anterior. Ester ainda não conseguia processar a ideia de que tinha tido Camila em seus braços e não guardava a memória disso, mas a dor de Camila agora era sua prioridade absoluta.
— Shhh, pequena... — Ester sussurrou, ajoelhando-se na frente de Camila e segurando suas mãos. — Ele nunca mais vai encostar em você. Nunca mais vai dizer uma palavra que te fira. Eu prometo.
Camila chorou até que não houvesse mais lágrimas, até que o cansaço físico superasse a agonia emocional. Com a ajuda das duas, ela foi levada para o quarto, onde adormeceu quase instantaneamente, exausta pelo peso de meses de abusos psicológicos que finalmente haviam cessado.
Na sala, o clima era pesado. Dinah estava de pé junto à janela, observando as luzes de Miami, enquanto Ester estava sentada na poltrona, com a cabeça entre as mãos.
— Ela precisa saber, Ester — disse Dinah, quebrando o silêncio.
— Saber o quê, Dinah? Que eu tive a noite mais importante da minha vida com ela e meu cérebro resolveu apagar? — Ester levantou os olhos, carregados de frustração. — Ela já está despedaçada por causa do Austin. Se eu disser que lembrei de flashes agora, ela vai achar que eu estou brincando com ela.
— Você lembrou? — Dinah se virou, surpresa.
— Sim. Estão voltando. O cheiro dela, o jeito que ela me olhava... — Ester suspirou, sentindo um aperto no peito. — Mas ela mentiu para mim de manhã. Ela disse que eu apaguei antes de qualquer coisa acontecer. Ela está com medo, Dinah.
— É claro que ela está com medo! — Dinah caminhou até a amiga. — Ela passou anos sendo moldada por um idiota que a fazia se sentir pequena. Quando ela acordar, nós vamos ter a conversa que vai mudar tudo. Sem mentiras. Sem Austin. Só a verdade.
Horas se passaram. O relógio marcava três da manhã quando Camila apareceu na porta da sala, vestindo um pijama largo, os olhos inchados, mas a expressão mais calma. Ela viu as duas amigas ali, esperando por ela, e sentiu uma onda de gratidão.
— Vocês não foram dormir? — perguntou Camila com a voz rouca.
— Não sairíamos daqui por nada — respondeu Ester, levantando-se e indicando o lugar ao seu lado no sofá. — Vem aqui, Mila.
Camila sentou-se, e Dinah sentou no chão, de frente para elas, criando um círculo de intimidade e segurança.
— Mila — começou Dinah, séria como poucas vezes era —, o Austin se foi. Para sempre. Bloqueamos o número dele no seu celular enquanto você dormia, e se ele aparecer na floricultura, eu mesma vou garantir que ele saia de lá em uma maca.
Camila deu um sorriso triste.
— Obrigada, DJ. Eu sei que demorei para ver quem ele era.
— O problema não é o tempo que você levou, mas o que você deixou ele tirar de você — disse Ester, pegando a mão de Camila. — Mas agora precisamos falar sobre a verdade. Sobre toda a verdade.
Camila sentiu o coração falhar uma batida. Ela olhou para Ester, buscando algum sinal de julgamento.
— Eu menti para você hoje de manhã, Estie — confessou Camila, as lágrimas ameaçando voltar. — Sobre ontem à noite.
— Eu sei — Ester disse suavemente. — E eu menti para você hoje à tarde quando disse que ainda não lembrava de nada.
O silêncio que se seguiu foi denso. Camila arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar.
— Você... você lembra?
— Lembro do essencial — Ester aproximou-se mais, sua voz tornando-se um sussurro profundo. — Lembro de como você se sentia nos meus braços. Lembro que, pela primeira vez, eu não me senti "impotente" ou incompleta. Você me fez sentir como se eu fosse exatamente quem eu deveria ser. Por que você mentiu, Mila?
— Porque eu achei que você só tinha feito aquilo por causa da bebida! — Camila exclamou, as palavras saindo em um fluxo desesperado. — Eu achei que, se você lembrasse, ficaria arrependida ou com nojo de mim por eu ter deixado acontecer enquanto eu ainda estava com ele. Eu não queria perder sua amizade, Ester. Você é a única coisa boa e estável na minha vida.
Ester segurou o rosto de Camila com as duas mãos, obrigando-a a olhar em seus olhos.
— Nojo? Camila, eu amo você desde o primeiro dia em que dividimos este apartamento. Eu odiei cada segundo que você passou ao lado daquele homem. Eu me senti impotente porque não podia te forçar a ver a verdade, e quando te beijei... não foi o álcool. Foi o meu coração finalmente assumindo o controle.
Dinah, observando a cena, limpou uma lágrima discreta.
— Viu só? Eu disse que o horóscopo não errava. Jasmim e tempestade verde, ou no caso, jasmim e a segurança de um porto seguro.
Camila soltou um soluço, mas desta vez era de alívio. Ela se inclinou e encostou a testa na de Ester.
— Eu tive tanto medo, Estie. O Austin me fazia sentir como se eu fosse difícil de amar, como se eu fosse um fardo.
— Ele é um cego, Mila — Ester disse, beijando a ponta do nariz dela. — Você é a luz desta casa. E se você me permitir... eu quero passar o resto da vida te provando o quanto é fácil e maravilhoso te amar.
— Mas e agora? — perguntou Camila, olhando de Ester para Dinah. — O que eu faço com tudo o que aconteceu?
— Agora — Dinah interveio, levantando-se e esticando os braços —, você vai florescer. Literalmente. Vamos transformar aquela floricultura no império que você sempre sonhou. E quanto ao resto... bem, acho que a Ester tem alguns planos para "relembrar" as partes da noite que ainda estão um pouco nebulosas.
Ester corou, mas não desviou o olhar de Camila.
— Eu só quero que você se sinta segura, Mila. No seu tempo. No seu ritmo.
— Meu ritmo é estar com você — Camila respondeu, sentindo uma coragem que nunca teve antes. — Eu não quero mais me esconder. Nem de mim mesma, nem do que eu sinto por você.
Naquela madrugada, o apartamento que antes parecia apenas um refúgio contra o mundo externo, tornou-se o berço de algo novo. Camila finalmente entendeu que o "amor" que sentia por Austin era apenas um hábito ditado pelo medo e pela pressão social. O que ela sentia por Ester... aquilo era vida. Era a liberdade de ser vulnerável sem ser quebrada.
Nos dias que se seguiram, a mudança foi drástica. Austin tentou ligar de números diferentes, mas Dinah, com sua eficiência implacável, interceptou cada tentativa, chegando a ir pessoalmente ao escritório dele para entregar uma ordem de restrição e um aviso bem claro de que, se ele se aproximasse de Camila, sua reputação impecável em Miami seria destruída por certas fotos que Dinah "casualmente" possuía de suas traições.
Na floricultura, Camila parecia outra pessoa. Ela não usava mais os vestidos que Austin escolhia; agora, vestia-se para si mesma, com cores vibrantes e um sorriso que iluminava o ambiente.
Uma tarde, enquanto Camila organizava um carregamento de jasmins, o sino da porta tocou. Ela esperava uma cliente, mas parou ao ver Ester, vestindo seu terno de trabalho, carregando uma única rosa vermelha de seda.
— Essas não morrem — disse Ester, caminhando até o balcão. — Para combinar com o que eu sinto.
Camila sorriu, dando a volta no balcão para abraçá-la.
— Você é muito brega, sabia?
— Sou uma mulher apaixonada, Camila. Temos licença poética para a cafonice — Ester riu, puxando-a para um beijo calmo e cheio de promessas.
Enquanto estavam ali, o rádio da loja começou a tocar uma melodia familiar. Era a voz de Lauren, a pianista do clube. A música falava sobre encontrar a luz após a tempestade.
— Você lembra dela? — perguntou Camila, encostando a cabeça no peito de Ester.
— Lembro. Dinah diz que ela foi o catalisador de tudo.
— De certa forma, foi. Ela me fez ver que havia beleza no mistério, e você me fez ver que havia beleza na verdade.
Ester afastou-se um pouco, olhando para Camila com uma seriedade doce.
— Mila, eu sei que ainda há cicatrizes. O que os pais dele disseram, o que ele te fez acreditar... isso não some do dia para a noite. Mas eu prometo que vou estar aqui para cada passo do caminho. Mesmo que eu tenha alguns "apagões" de vez em quando.
Camila riu, sentindo-se mais leve do que nunca.
— Se você esquecer, eu te lembro todos os dias. Vou saltar na sua cama todas as manhãs, te encher de beijinhos e te contar exatamente o quanto você é importante.
— É um trato — disse Ester.
A porta da floricultura abriu-se novamente, e Dinah entrou carregando três caixas de pizza e um espumante.
— Celebração! — gritou Dinah. — Acabei de saber que o Austin foi enviado pelo pai para uma filial na Dakota do Norte. Ele vai passar o inverno no gelo, que é exatamente onde o coração dele pertence.
As três riram, um som que preencheu a loja, misturando-se ao perfume das flores. Camila olhou para suas amigas — sua família escolhida — e depois para a mulher que agora segurava sua mão.
O jasmim não estava mais sufocado pelos espinhos. Ele havia encontrado o sol, e desta vez, suas pétalas nunca mais se fechariam por medo. Camila Cabello estava livre, amada e, pela primeira vez em vinte anos, verdadeiramente dona de seu próprio destino.
— Ao nosso futuro — disse Camila, levantando uma taça improvisada de plástico que Dinah acabara de servir.
— Ao amor que não dói — completou Ester, selando o brinde com um olhar que dizia tudo o que as palavras ainda estavam aprendendo a expressar.
A noite em Miami caiu suavemente, mas dentro daquela pequena loja de flores, a primavera havia chegado para ficar. E Lauren, em algum lugar da cidade, continuava a tocar seu piano, como se soubesse que sua música tinha sido o prelúdio de uma história que estava apenas começando.