Que assim seja
Entre Pétalas de Cristal e o Eco do Passado
O brilho do sol matinal em Miami parecia diferente agora. Para Camila, a luz que atravessava as janelas da floricultura "Pétalas de Jasmim" não era mais um lembrete das obrigações sufocantes com Austin ou das expectativas de uma família que nunca a entendeu. Era, finalmente, uma luz de liberdade. Fazia duas semanas que Austin havia partido para o exílio gelado na Dakota do Norte, e duas semanas que o apartamento que dividia com Ester havia se transformado em algo muito mais profundo do que uma simples residência de amigas.
Camila estava debruçada sobre o balcão, organizando um arranjo complexo de orquídeas brancas e lírios, quando sentiu braços conhecidos envolverem sua cintura por trás. O perfume de sândalo de Ester a atingiu instantaneamente, fazendo-a relaxar e encostar a cabeça no ombro da namorada.
— Você está trabalhando demais, pequena — sussurrou Ester, depositando um beijo carinhoso na curva do pescoço de Camila. — Já é quase hora do almoço e eu aposto que você nem parou para tomar água.
— Eu só queria terminar esse pedido para a Sra. Henderson — disse Camila, virando-se nos braços de Ester com um sorriso radiante. — Mas agora que você está aqui, acho que posso me dar ao luxo de uma pausa.
Ester a olhou com uma adoração que ainda fazia o coração de Camila dar saltos. A dinâmica entre elas havia mudado; o cuidado fraternal ainda existia, mas fora preenchido por uma eletricidade nova, uma descoberta constante. Ester, que antes se sentia um tanto "impotente" diante da situação de Camila com o ex, agora exalava uma confiança serena. Ela cuidava de Camila não por obrigação, mas por um desejo genuíno de vê-la florescer.
— A Dinah ligou — comentou Ester, afastando uma mecha de cabelo do rosto de Camila. — Ela disse que tem uma surpresa para nós hoje à noite. Algo sobre "expandir os horizontes culturais e espirituais do grupo".
Camila soltou uma risada cristalina.
— Com a Dinah, isso pode significar qualquer coisa, desde uma leitura de tarô em um beco até uma festa VIP em um iate.
— Seja o que for, estaremos juntas — Ester selou a promessa com um selinho demorado.
O almoço foi tranquilo, mas enquanto caminhavam de volta para a loja, o celular de Camila vibrou. Era um número desconhecido. Por um momento, o trauma de Austin a fez hesitar, mas ela atendeu.
— Alô?
— Camila? É a Lauren. Lauren Jauregui. A pianista do Moonlight.
Camila parou no meio da calçada, os olhos arregalados. Ester parou logo em seguida, observando a expressão da namorada.
— Oh... oi, Lauren. Como você conseguiu meu número?
— Miami é uma cidade pequena para artistas, e a Dinah Jane é uma força da natureza que não aceita "não" como resposta — a voz de Lauren no telefone era tão aveludada quanto sua voz no palco. — Eu liguei porque vou fazer uma apresentação especial em uma galeria de arte hoje à noite. É algo mais intimista. A Dinah disse que vocês adorariam ir. Gostaria de te ver lá, Camila.
Camila olhou para Ester, que apenas assentiu com um sorriso incentivador. Ester não tinha um pingo de ciúmes; ela confiava em Camila e sabia que a conexão que sentiram com Lauren naquela noite fora algo puramente artístico e transcendental.
— Nós adoraríamos, Lauren. Estaremos lá.
Ao desligar, Camila sentiu uma estranha mistura de ansiedade e empolgação.
— Então a surpresa da Dinah era um show da Lauren? — perguntou Ester, voltando a caminhar de mãos dadas com ela.
— Parece que sim. Ela não desiste nunca, não é?
— Ela sabe que aquela música mexeu com você, Mila. E eu fico feliz que você esteja se abrindo para o mundo de novo.
...
A galeria de arte era um espaço minimalista, com paredes brancas altas e esculturas de vidro que refletiam as luzes coloridas. No centro do salão, um piano de cauda preto brilhava sob um refletor solitário. Quando o trio chegou — Dinah usando um vestido neon que desafiava a sobriedade do local, Ester elegante em uma calça de alfaiataria e Camila deslumbrante em um vestido de seda azul — Lauren já estava ao piano.
O ambiente estava silencioso. Lauren começou a tocar, e desta vez a música não era triste. Era uma melodia de descoberta, de passos incertos que se tornavam firmes. Camila sentiu a mão de Ester apertar a sua, e o conforto foi imediato.
Após a apresentação, Lauren desceu do palco e caminhou em direção a elas. De perto, seus olhos verdes eram ainda mais hipnotizantes, carregando uma profundidade que parecia ler a alma de quem olhava.
— Que bom que vieram — disse Lauren, cumprimentando cada uma. Quando chegou a Camila, ela segurou sua mão por um segundo a mais. — Você parece mais... leve do que na primeira vez que te vi.
— Eu estou — admitiu Camila, lançando um olhar cúmplice para Ester. — Muita coisa mudou.
— Eu sei — Lauren sorriu de canto. — Dinah me manteve atualizada. Fico feliz que o "espinho" tenha sido removido do jardim.
— Ei! Eu sou uma excelente informante — interrompeu Dinah, aproximando-se com taças de champanhe. — E agora que estamos todas aqui, Lauren, você precisa ouvir a ideia que eu tive para a nova campanha da floricultura da Mila.
Enquanto Dinah arrastava Lauren e Ester para uma conversa animada sobre marketing e arte, Camila se afastou um pouco para observar uma escultura de cristal. A peça representava uma fênix saindo das cinzas, mas as cinzas eram feitas de cacos de vidro escuro.
— É bonita, não é? — a voz de Lauren surgiu ao seu lado. Ela havia escapado momentaneamente do entusiasmo de Dinah.
— É profunda — respondeu Camila. — Parece que a dor nunca some de verdade, ela apenas se torna a base para algo novo.
— Exatamente — concordou Lauren, encostando-se na parede ao lado de Camila. — Sabe, Camila, eu escrevi aquela música da outra noite pensando em alguém que se sentia presa. Eu não sabia que era você, mas quando nossos olhos se cruzaram, eu tive certeza.
Camila sentiu um frio na barriga, mas não era o medo que sentia com Austin. Era a sensação de ser compreendida.
— Eu estava presa. Mas a Ester... ela me salvou. Mesmo sem saber que estava fazendo isso.
Lauren olhou para Ester, que estava rindo de algo que Dinah dizia do outro lado do salão.
— Ela é uma mulher incrível. Dá para ver o modo como ela te protege com o olhar. Vocês têm algo raro, Camila. Não deixe que as sombras do passado te façam duvidar do que você tem agora.
— Eu não vou — afirmou Camila com convicção. — Eu amo a Ester. Ela é minha casa.
— Bom — Lauren sorriu, uma expressão de paz genuína. — Então minha missão como "musa do destino" da Dinah está cumprida.
A noite prosseguiu com risadas e conversas que fluíam sem esforço. Camila sentia que estava construindo uma nova rede de apoio, longe da toxicidade de Austin e de sua família. No entanto, o destino ainda tinha uma pequena peça para pregar.
Enquanto se dirigiam para a saída, o grupo deu de cara com uma figura que Camila esperava nunca mais ver: a Sra. Mahone, mãe de Austin. Ela estava acompanhada de algumas amigas da alta sociedade, todas usando pérolas e expressões de desdém.
O ar pareceu congelar. Camila sentiu um aperto instintivo no estômago, mas antes que pudesse recuar, sentiu a presença sólida de Ester ao seu lado.
— Ora, ora — disse a Sra. Mahone, medindo Camila de cima a baixo com o olhar. — Se não é a pequena florista. Soube que você e meu filho terminaram. Uma pena, você teria uma vida tão confortável se tivesse aprendido a se comportar.
Camila respirou fundo. Ela olhou para a mulher que um dia a fez sentir-se minúscula e percebeu que a Sra. Mahone não tinha mais poder sobre ela.
— Conforto não vale a minha alma, Sra. Mahone — respondeu Camila, sua voz clara e firme, ecoando pela galeria. — Eu prefiro a minha "lojinha de flores" e a minha liberdade do que uma vida de aparências ao lado de alguém que não sabe o que é respeito.
As amigas da Sra. Mahone murmuraram, chocadas com a audácia.
— Você é uma ingrata — sibilou a mulher mais velha. — E vejo que continua andando com... companhias peculiares.
Ela lançou um olhar carregado de preconceito para Ester. Ester deu um passo à frente, sua postura impecável e sua expressão de uma calma absoluta que era muito mais intimidadora do que qualquer grito.
— A senhora deve estar se referindo a mim — disse Ester, com uma voz aveludada, mas cortante como navalha. — Meu nome é Ester, sou executiva em uma multinacional e a mulher que ama a Camila. E se a senhora tiver mais algum comentário sobre a vida dela ou sobre as pessoas com quem ela anda, sugiro que guarde para si. Miami é grande, mas o mundo dos negócios é muito pequeno, e eu odiaria que a reputação da família Mahone sofresse por causa de fofocas desnecessárias.
A Sra. Mahone empalideceu. Ela sabia que Ester não estava blefando; a influência da multinacional onde Ester trabalhava era vasta. Sem dizer mais uma palavra, a mulher se virou e saiu apressada, seguida por seu séquito.
Dinah começou a aplaudir, sem se importar com os olhares dos outros convidados.
— ISSO! É disso que eu estou falando! — gritou Dinah. — Ester, você foi uma deusa! "O mundo dos negócios é pequeno", eu vou tatuar isso na testa!
Lauren soltou uma gargalhada, impressionada.
— Eu disse que vocês eram uma força a ser reconhecida.
Camila, no entanto, só conseguia olhar para Ester. Seus olhos brilhavam com lágrimas de orgulho e amor.
— Você me defendeu — sussurrou Camila.
— Eu sempre vou te defender, Mila — Ester respondeu, puxando-a para um abraço apertado. — Ninguém mais vai te fazer sentir pequena.
...
De volta ao apartamento, o silêncio era acolhedor. Dinah havia ido para sua própria casa, prometendo que o "próximo passo do plano de dominação mundial" começaria na manhã seguinte.
Camila e Ester estavam sentadas na varanda, observando as luzes da cidade. O calor da noite de Miami era suavizado por uma brisa leve.
— Estie? — chamou Camila, deitando a cabeça no colo da namorada.
— Sim, pequena?
— Obrigada por hoje. E por ontem. E por ter esquecido aquela noite... porque isso me deu a chance de te conquistar de novo, todos os dias.
Ester sorriu, acariciando os cabelos de Camila.
— Eu nunca vou esquecer de novo, Mila. Mesmo que eu não lembre de cada detalhe com a mente, meu corpo e meu coração lembram de como é estar com você.
— Eu estava pensando... — Camila hesitou por um momento — ...sobre o que a Lauren disse. Que o passado é a base para algo novo. Eu quero expandir a floricultura. Quero criar um espaço onde as pessoas possam não só comprar flores, mas sentir a arte, como na galeria.
— É uma ideia maravilhosa, Mila. E eu vou te ajudar em cada detalhe. Podemos usar parte das minhas economias para o investimento inicial e...
— Não — interrompeu Camila, sentando-se e olhando nos olhos de Ester. — Eu quero fazer isso com o meu esforço. Quero que você esteja ao meu lado como minha parceira, minha consultora, meu amor. Mas eu preciso provar para mim mesma que eu posso construir algo grande sem depender do dinheiro de ninguém que queira me controlar.
Ester sentiu um orgulho imenso transbordar. A Camila manhosa e dependente ainda estava ali, mas agora havia uma mulher de negócios decidida nascendo.
— Então assim será. Minha pequena grande empresária.
Elas ficaram ali por muito tempo, traçando planos e sonhando acordadas. A sombra de Austin era agora apenas uma mancha distante no retrovisor da vida de Camila. Ela entendeu que o amor de Ester não era uma âncora que a prendia, mas as asas que permitiam que ela voasse mais alto.
Quando finalmente foram para o quarto, o clima era de uma ternura profunda. No escuro, entre lençóis que cheiravam a jasmim e a pele de Ester, Camila sentiu-se completa.
— Eu te amo, Ester — sussurrou Camila antes de pegar no sono.
— Eu te amo mais do que as palavras podem dizer, Camila — respondeu Ester, segurando-a como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo.
A manhã seguinte trouxe um novo desafio. Camila acordou cedo, mas desta vez não pulou na cama de Ester. Em vez disso, preparou um café da manhã caprichado e levou uma bandeja para o quarto.
— Acorda, meu amor — disse Camila, imitando o tom que usava semanas atrás, mas com uma doçura nova.
Ester abriu os olhos e sorriu ao ver a cena.
— O que é isso? Café na cama?
— Um agradecimento — disse Camila, sentando-se ao lado dela. — E um aviso. Hoje eu vou começar a procurar o novo ponto para a "Pétalas e Arte". E eu quero que você venha comigo depois do trabalho.
— Estarei lá — prometeu Ester, pegando uma torrada. — Mas antes, tem algo que eu preciso te dar.
Ester esticou o braço e pegou uma pequena caixa na gaveta da mesa de cabeceira. Camila sentiu o coração disparar.
— Ester... o que é isso?
— Não é um pedido de casamento, ainda — brincou Ester, vendo o nervosismo da namorada. — É um símbolo.
Dentro da caixa, havia um colar com um pingente de ouro em formato de uma pequena semente de jasmim.
— Para você nunca esquecer que, não importa o quão pequena você se sinta às vezes, dentro de você existe o potencial para criar um jardim inteiro — disse Ester, colocando o colar no pescoço de Camila.
Camila tocou o pingente, as lágrimas de felicidade molhando seu rosto. Ela beijou Ester com todo o fervor de sua alma.
A vida de Camila Cabello não era mais um roteiro escrito por outros. Era uma sucessão de momentos escolhidos por ela, regados pelo amor incondicional de Ester e pela amizade caótica de Dinah. Entre espinhos e pétalas, ela havia encontrado seu caminho. E enquanto as flores de Miami desabrochavam sob o sol, Camila sabia que sua própria primavera estava apenas começando, mais vibrante e eterna do que qualquer arranjo que ela pudesse criar.