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Quem é ele?

O Despertar dos Cães de Ferro e o Caos da Linhagem

A manhã na Academia Colosso nasceu sob um céu de um azul límpido, mas para Vikir, o clima estava longe de ser tranquilo. O espelho do banheiro refletia um homem que parecia ter sobrevivido a um encontro com uma fera selvagem — o que, tecnicamente, não era mentira. Suas costas exibiam longos arranhões avermelhados, marcas das unhas de Camus que haviam encontrado resistência em sua pele endurecida pelo treinamento.

No quarto ao lado, Camus Morg não estava em situação melhor. Ela tentava, sem sucesso, aplicar uma camada extra de pó mágico para esconder os hematomas arroxeados em seu pescoço e as marcas de dedos que adornavam seus ombros.

— Aquele maldito Baskerville... — resmungou ela, sorrindo para o reflexo enquanto sentia a ardência familiar. — Ele realmente não sabe brincar.

Quando Vikir saiu para o pátio principal para encontrar seu grupo de amigos, a desordem em sua aparência era sutil para olhos comuns, mas gritante para quem o conhecia. O colarinho estava ligeiramente torto e havia um cansaço nos olhos vermelhos que não vinha dos livros.

— Vikir! — Piggy o chamou, correndo em sua direção, mas parou abruptamente a dois metros de distância. — O que... o que aconteceu com o seu pescoço? E por que você está andando como se tivesse lutado com um urso?

— Treinamento noturno — respondeu Vikir, a voz mais rouca que o normal.

— Treinamento noturno com quem? Com uma pantera? — Tudor se aproximou, semicerrando os olhos. — E, por falar em coisas estranhas... Sinclair e eu passamos pelo seu quarto para te chamar e a porta estava encostada. Vikir, por que diabos tinha um sutiã de renda preta pendurado na sua luminária de cabeceira?

Vikir congelou por um milésimo de segundo. Ele havia esquecido aquele detalhe. Camus, em sua pressa de sair antes do amanhecer, tinha sido deliberadamente descuidada.

— É um... amuleto de sorte — mentiu Vikir, a face permanecendo gélida como uma geleira. — Um costume antigo da minha terra natal para afastar maus espíritos durante o sono.

— Um amuleto de renda com fecho de metal? — Sinclair arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Vikir, você é um mentiroso terrível.

Antes que o interrogatório pudesse prosseguir, um estrondo ecoou nos portões da academia. O som não era de carruagens comuns, mas de cascos pesados e o tilintar de armaduras negras. A atmosfera mudou instantaneamente. O ar ficou pesado, carregado com uma sede de sangue que fez os alunos mais fracos tremerem.

— Eles chegaram — sussurrou Vikir, fechando os olhos por um momento, preparando-se para o desastre iminente.

Os Baskerville não entraram na academia; eles a invadiram. À frente do grupo, Hugo van Baskerville caminhava com a imponência de um monarca absolutista. Seus olhos varriam a multidão com uma frieza que fazia os professores recuarem. Ao seu lado, Osíris, o herdeiro, mantinha uma expressão de superioridade arrogante, seus olhos procurando freneticamente por uma única figura.

— Onde está o meu irmãozinho? — a voz de Osíris ecoou, poderosa e exigente.

No meio da comitiva, duas figuras destoavam do terror militar. Peri, uma menina de cinco anos com cabelos loiros trançados e olhos azuis que brilhavam como safiras, segurava a mão de Hugo. Ela usava um vestido azul claro, parecendo um anjo perdido em um ninho de lobos. Ao seu lado, Pomeria, de dez anos, era o oposto: cabelos pretos rebeldes, olhos vermelhos provocativos e um vestido de renda preta e vermelha. Ela já segurava uma adaga de treino, girando-a nos dedos com uma habilidade assustadora.

— Tio Vikir! — Pomeria gritou, sua voz cortando o silêncio atônito. — Eu sinto o cheiro dele! Ele cheira a sangue e... e a perfume de mulher barata!

Vikir sentiu um desejo súbito de se fundir com o chão. Seus amigos estavam em estado de choque.

— "Tio"? "Baskerville"? — Piggy gaguejou, olhando de Vikir para Hugo. — Vikir... aquele homem ali é o Patriarca Hugo? O "Cão de Ferro"?

— Vikir van Baskerville! — O rugido de Hugo fez as janelas do prédio principal vibrarem.

O Patriarca caminhou em direção ao grupo de plebeus, ignorando completamente os nobres de outras linhagens que tentavam cumprimentá-lo. Quando ele parou diante de Vikir, a diferença de altura e presença era esmagadora. Hugo olhou para o filho, seus olhos brilhando com uma saudade que ele tentava desesperadamente esconder sob a máscara de ferro.

— Você emagreceu — disse Hugo, sua mão pesada pousando no ombro de Vikir, quase o enterrando no solo. — Eles não te alimentam direito nesta escola de papel? Eu deveria queimar este lugar.

— Eu estou bem, pai — respondeu Vikir, tentando manter a compostura enquanto sentia os ossos do ombro protestarem.

— Irmãozinho! — Osíris se jogou sobre Vikir, envolvendo-o em um abraço de urso que tirou o fôlego do rapaz. — Senti tanta saudade! Olhe para você, fingindo ser um rato de biblioteca. Eu trouxe suas espadas favoritas e a cabeça de um monstro de classe S que cacei ontem para decorar seu quarto!

Peri, a pequena muda, soltou a mão de Hugo e correu para Vikir, agarrando-se à sua perna e escondendo o rosto em suas calças. Ela não disse uma palavra, mas seu aperto era firme, comunicando todo o carinho que não podia expressar em sons.

— Vikir — Pomeria se aproximou, cheirando o ar perto do pescoço dele com uma expressão de nojo. — Essa marca no seu pescoço... foi a bruxa Morg, não foi? O vovô está furioso. Ele disse que se pegasse vocês dois se pegando pelos cantos de novo, ele ia transformar o território Morg em um estacionamento.

— Pomeria, cale a boca — ordenou Vikir, sentindo o rosto esquentar.

Nesse momento, Camus reapareceu. Ela vinha correndo da direção das carruagens dos Morg, parecendo exausta.

— Vikir! Eu tentei segurar meu tio, mas ele descobriu sobre... — Ela parou bruscamente ao ver a família Baskerville reunida. — Ah. Olá, sogro. Olá, Osíris.

— "Sogro"? — Tudor quase desmaiou. — Vikir, você é um Baskerville? O filho do Patriarca?

— Ele é o meu sucessor — disse Hugo, olhando para os amigos de Vikir com um desdém mal disfarçado. — E quem são esses filhotes de ovelha que o rodeiam? Eles são seus servos?

— São meus amigos, pai — corrigiu Vikir.

— Amigos? — Osíris riu, bagunçando o cabelo de Vikir. — Sabiam que o Vikir, quando tinha sete anos, chorou porque eu não deixei ele dormir com a sua espada de estimação? Ele era tão fofo! Ele costumava me seguir por todo o castelo pedindo para eu contar histórias sobre como decapitar orcs.

— Osíris, eu vou te matar — sussurrou Vikir, a aura assassina começando a vazar.

— Oh, ele está bravo! — Pomeria saltitou. — Tio Vikir fica tão bonitinho quando tenta ser assustador. Sabiam que ele tem uma coleção de pedras que parecem corações de monstros no quarto dele em casa?

O choque dos alunos da Academia Colosso era palpável. O "plebeu mediano" era, na verdade, o herdeiro da família mais violenta e poderosa do império. E a relação dele com a herdeira Morg não era apenas um flerte, era um escândalo dinástico de proporções épicas.

— Atenção, todos os alunos! — A voz do diretor da academia soou pelos alto-falantes mágicos. — O treinamento de demonstração começará em dez minutos na arena principal. Famílias, por favor, ocupem seus lugares.

Hugo sentou-se na primeira fila, com Peri no colo e Pomeria afiando sua adaga ao lado. Osíris ficou de pé, cruzando os braços, observando cada movimento de Vikir na arena.

O treinamento consistia em enfrentar ondas de golens de pedra e feras mágicas capturadas. Quando chegou a vez de Vikir, o silêncio caiu sobre a arena. Seus amigos o observavam com novos olhos, esperando ver o "Cão de Ferro" em ação.

Vikir desembainhou uma espada simples de treino. No momento em que o primeiro golem avançou, ele se moveu. Não era a dança elegante de um nobre, era a eficiência brutal de um carniceiro. Em um segundo, o golem estava reduzido a cascalho.

— Isso mesmo, Vikir! — Hugo gritou da arquibancada, sua voz abafando o som da batalha. — Corte os tendões primeiro! Não tenha piedade! Se ele não sangrar, você não está fazendo certo!

— Arranca a cabeça dele, irmãozinho! — Osíris berrava, pulando no lugar. — Use aquele movimento que eu te ensinei, aquele que espalha as tripas por cinco metros!

Peri levantou um pequeno cartaz que ela mesma havia desenhado. Nele, havia um desenho de Vikir segurando uma cabeça decepada e muitos corações ao redor. Ela sorria docemente enquanto balançava o desenho para os lados.

— Tio Vikir! — Pomeria gritou. — Se você não torturar o próximo monstro por pelo menos três minutos, eu vou contar para todo mundo que você ainda dorme com aquele travesseiro de penas de fênix que eu te dei!

Vikir sentiu o rosto queimar de vergonha. Ele executou um golpe perfeito, partindo uma fera mágica ao meio, mas tudo o que conseguia pensar era em como sua família estava destruindo sua reputação de "pessoa fria e estratégica".

— Ele é incrível... — sussurrou Sinclair, observando a destruição na arena. — Mas a família dele é... aterrorizante.

Camus, sentada na ala dos Morg, assistia a tudo com um sorriso vitorioso. Ela se levantou e gritou para que todos ouvissem:

— Esse é o meu noivo! Olhem bem, porque ele é o único que consegue me domar e o único que eu deixo me marcar!

Vikir quase tropeçou no próprio pé ao ouvir aquilo. Ele finalizou o último monstro com uma violência desnecessária, apenas para descontar a frustração. Ao sair da arena, ele foi imediatamente cercado por sua família.

— Bom trabalho — disse Hugo, tentando parecer severo, mas seus olhos brilhavam. Ele enfiou a mão em um saco pesado que carregava e tirou uma joia do tamanho de um punho. — Aqui, um presente. É o núcleo de um dragão de terra. Achei que você poderia querer usar como peso de papel.

— E aqui — Osíris entregou-lhe uma capa feita de pele de lobo invernal. — Para você não passar frio enquanto estuda essas coisas inúteis de plebeu.

Peri puxou a manga da camisa de Vikir e entregou-lhe um pequeno doce embrulhado em papel dourado. Vikir suspirou, a expressão suavizando por um breve momento. Ele pegou o doce e o colocou na boca.

— Obrigado, Peri.

— Agora — Hugo se virou para Camus, que se aproximava com um ar de desafio —, sobre esse sutiã no quarto do meu filho...

— Pai, não — implorou Vikir.

— Eu exijo uma explicação técnica! — Hugo cruzou os braços. — Como um Baskerville permite que uma Morg deixe evidências tão desleixadas? Se você vai invadir o território dele, deve fazê-lo sem deixar rastros!

— Oh, eu deixei de propósito — Camus piscou para o Patriarca. — Queria que todos soubessem que o seu lobinho já tem dona.

Osíris soltou uma gargalhada estrondosa.

— Eu gosto dela! Ela tem o espírito de um guerreiro... ou de uma psicopata. Combina com a gente.

Vikir olhou para seus amigos, que ainda pareciam ter visto um fantasma. Piggy estava anotando tudo em um caderninho, Tudor parecia estar calculando suas chances de sobrevivência por ter provocado Vikir no passado, e Sinclair apenas sorria, achando a situação toda bizarramente cômica.

— Vikir — disse Sinclair, aproximando-se —, acho que seu disfarce de plebeu oficialmente morreu e foi enterrado hoje.

— Ele não morreu — respondeu Vikir, ajustando a capa de pele de lobo sobre o uniforme da academia. — Ele foi assassinado pela minha própria linhagem.

— Não seja dramático — Camus disse, abraçando-o por trás e depositando um beijo em sua bochecha na frente de Hugo e Osíris. — Agora que todos sabem quem você é, podemos finalmente parar de nos esconder nos armários, não acha?

Vikir olhou para o pai, que parecia estar lutando contra o impulso de abraçá-lo novamente, para o irmão que já estava desafiando Tudor para um duelo, e para as meninas que tentavam ensinar Peri a usar uma adaga.

— Talvez — murmurou Vikir, permitindo-se um pequeno e quase imperceptível sorriso. — Mas se o Osíris contar mais uma história da minha infância, eu juro que volto para o território dos monstros e não retorno nunca mais.

— Ah, mas eu ainda não contei sobre a vez que você tentou caçar um coelho e acabou destruindo o celeiro! — gritou Osíris, já arrastando os amigos de Vikir para uma mesa próxima.

O dia na Academia Colosso continuou, mas nada mais seria o mesmo. O Cão de Ferro havia sido revelado, e com ele, todo o caos, a paixão e a violência de uma família que não sabia o que significava a palavra "normalidade". E no centro de tudo, Vikir van Baskerville apenas aceitava seu destino, enquanto sua noiva Morg planejava a próxima forma de deixá-lo completamente envergonhado — e perdidamente apaixonado.