Quem é esse garoto?!
O Eco de um Poder Antigo e Laços Inquebráveis
O acampamento principal de Dicathen, incrustado nas profundezas das Clareiras Bestiais, nunca estivera tão agitado. A presença de um Lanceiro era, por si só, um evento monumental, mas a chegada de Arthur Leywin trouxe algo diferente de uma simples demonstração de força militar. Havia uma eletricidade no ar, uma mistura de alívio e reverência que Darvus, Caria e Stannard ainda lutavam para processar.
Sentados ao redor de uma mesa de madeira rústica na tenda de suprimentos, os três companheiros de Tessia observavam, através da fresta da lona, a movimentação do lado de fora.
— Eu ainda sinto o impacto no meu peito — resmungou Darvus, esfregando o esterno onde Arthur o havia tocado durante o duelo. — Ele nem sequer usou mana externa. Foi como se o próprio ar tivesse se solidificado e me empurrado.
— Você teve sorte dele estar de bom humor, Darvus — comentou Stannard, folheando um pergaminho sobre flutuações de mana, embora seus olhos estivessem distantes. — A pressão que ele emanou... eu analisei artefatos de nível A que não possuem um décimo daquela densidade. E a forma como ele falou com o Comandante Virion agora há pouco?
— Isso é o que eu não entendo — Caria interveio, limpando suas manoplas com um pano seco. — O Comandante Virion é o homem mais respeitado de Elenoir. Até os reis humanos baixam a cabeça para ele. E aquele garoto...
— Aquele "garoto" chamou o Comandante de "velho rabugento" na frente de todo o estado-maior — completou Darvus, com os olhos arregalados. — E o Comandante? Ele apenas riu e tentou dar um cascudo nele! Que tipo de relação é essa?
A resposta para as perguntas deles veio não na forma de explicações técnicas, mas de uma cena que desafiava a imagem pública de sua líder. Tessia Eralith, a princesa guerreira, a comandante implacável que nunca demonstrava fraqueza, estava caminhando pelo pátio central. Mas ela não estava sozinha.
Arthur caminhava ao lado dela, ouvindo atentamente enquanto Ellie, pendurada em seu braço esquerdo, falava sem parar sobre suas novas habilidades com o arco. A postura de Arthur era relaxada, mas seus olhos azuis nunca paravam de escanear os arredores, um hábito instintivo de um predador veterano.
— Art, você não pode simplesmente ignorar o vovô quando ele fala sobre as novas formações — disse Tessia, com um tom de voz que o grupo nunca tinha ouvido. Não era a voz de uma comandante, mas a de uma jovem preocupada... e estranhamente doce.
— O "vovô" só quer uma desculpa para me fazer trabalhar em relatórios burocráticos, Tess — respondeu Arthur, soltando um suspiro longo. — Eu passei meses treinando com divindades egocêntricas. A última coisa que quero é discutir logística de suprimentos com um elfo que tem idade suficiente para ser uma árvore milenar.
Nesse momento, a figura imponente de Virion Eralith surgiu de uma das tendas maiores. O ex-rei dos elfos e atual comandante das forças aliadas tinha uma expressão severa, mas seus olhos brilhavam com uma diversão mal contida.
— Eu ouvi isso, seu pirralho atrevido! — gritou Virion, aproximando-se com passos rápidos. — Mais respeito com quem te ensinou metade do que você sabe, embora você tenha ficado convencido demais depois de passar um tempo com os Asuras.
Arthur parou e virou-se para o idoso, cruzando os braços com um sorriso desafiador.
— Metade? Velho, se eu dependesse apenas do que você me ensinou, eu ainda estaria tentando entender como não cair da própria sombra.
Os soldados ao redor prenderam a respiração. Darvus, observando da tenda, quase deixou cair sua machadinha. Ninguém falava assim com Virion Eralith. Ninguém.
Virion chegou perto de Arthur e, em vez de uma punição, deu um tapa forte no ombro do rapaz, puxando-o para um abraço rápido e desajeitado.
— É bom ter você de volta, Arthur. Dicathen precisa de você. Mas, mais importante... — Virion baixou o tom, lançando um olhar de soslaio para Tessia — ...minha neta não parava de reclamar da sua ausência. Acho que meus ouvidos vão finalmente ter um descanso.
Tessia ficou instantaneamente vermelha, a cor subindo por seu pescoço até as pontas das orelhas pontiagudas.
— Vovô! Eu não... eu não reclamava!
— Ah, não? — Ellie interrompeu, soltando o braço de Arthur para olhar para a princesa com um sorriso travesso. — E as cartas que você escrevia e não enviava? "Oh, Arthur, espero que você não esteja se esforçando demais", "Oh, Arthur, o céu me lembra seus olhos"...
— Eleanor Leywin! — Tessia exclamou, avançando para tentar cobrir a boca da menina.
Arthur soltou uma risada baixa, um som rico e genuíno que pareceu desarmar toda a tensão do acampamento. Ele estendeu a mão e puxou Tessia para perto pelo ombro. O gesto foi natural, carregado de uma intimidade que anos de separação não conseguiram apagar.
— Está tudo bem, Tess — disse ele, sua voz suavizando drasticamente. — Eu também senti sua falta. Mais do que as palavras em qualquer carta poderiam dizer.
A mudança na atitude de Tessia foi o que mais chocou sua equipe. A princesa, que sempre mantinha uma distância profissional e uma postura ereta, simplesmente relaxou contra o lado de Arthur. Ela inclinou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos por um segundo, parecendo encontrar ali o único lugar no mundo onde não precisava ser a esperança de um povo.
— Você é um idiota, Arthur Leywin — murmurou ela, mas sua mão buscou a dele, entrelaçando seus dedos com uma possessividade carente que ela nunca mostraria a mais ninguém.
Dentro da tenda, Stannard limpou os óculos, perplexo.
— Ela é... carinhosa? A nossa Comandante Eralith?
— Carente é a palavra que eu usaria — observou Caria, com um sorriso suave. — Olhem para ela. Ela parece ter tirado um peso de dez toneladas das costas. Ela confia nele cegamente.
— E por que não confiaria? — disse Darvus, sua voz agora tingida de um respeito relutante. — O rei humano, Blaine Glayder, enviou uma escolta pessoal para ele assim que soube que ele cruzou a fronteira. E o Comandante Virion o trata como um sucessor. Aquele cara não é apenas um soldado. Ele é o eixo central de tudo isso.
Enquanto observavam, um mensageiro real, vestindo as cores da casa Glayder, aproximou-se com urgência. Ele se ajoelhou não diante de Virion, mas diante de Arthur.
— Mestre Leywin, o Rei Glayder solicita sua presença no conselho de guerra amanhã ao amanhecer. Ele ressaltou que sua opinião sobre as defesas de Sapin é... indispensável.
Arthur suspirou, passando a mão pelos cabelos castanho-avermelhados.
— Diga ao rei que estarei lá. Mas diga a ele que, se ele tentar me prender em outra reunião de cinco horas sobre impostos de guerra, eu vou deixar a Sylvie assustar os guardas dele de novo.
O mensageiro empalideceu, fez uma reverência apressada e saiu.
— Você não tem jeito — disse Tessia, embora estivesse sorrindo. — Você trata reis e divindades como se fossem vizinhos incômodos.
— Porque, no fim das contas, Tess, eles são apenas pessoas — Arthur respondeu, voltando sua atenção total para ela. — E nenhuma delas importa tanto quanto o que eu prometi a você.
Ele se inclinou, sussurrando algo no ouvido dela que a fez rir e lhe dar um tapinha leve no peito. O nível de intimidade era quase desconcertante para quem estava acostumado com a "Princesa de Gelo" das Clareiras Bestiais.
Horas depois, quando a noite caiu e as fogueiras foram acesas, a equipe de Tessia finalmente teve a chance de se aproximar. Arthur estava sentado em um tronco, afiando sua espada com uma pedra de amolar, enquanto Sylvie, em sua forma de raposa branca, descansava em seu colo. Tessia estava sentada ao lado dele, quase colada, com a cabeça descansando em seu braço enquanto lia alguns relatórios.
— Com licença... Arthur? — Stannard foi o primeiro a falar, aproximando-se com cautela.
Arthur levantou o olhar. A frieza que ele demonstrara no duelo com Darvus não estava lá, mas a intensidade de seus olhos azuis ainda era intimidadora.
— Stannard, certo? O estrategista. Tessia me falou bem de você. Disse que sua mente para artefatos é brilhante.
Stannard corou levemente, surpreso pelo elogio indireto.
— Obrigado. Eu só... queria perguntar. Ouvimos dizer que você conheceu os Asuras. É verdade que eles são tão poderosos quanto as lendas dizem?
Arthur parou de afiar a espada, seu olhar perdendo-se nas chamas da fogueira por um momento.
— Eles são mais poderosos do que as lendas sugerem, mas menos divinos do que gostariam que pensássemos. Eles têm as mesmas falhas que nós: orgulho, ganância, medo. A diferença é que o erro de um Asura pode apagar uma cidade do mapa.
— E você treinou com eles — disse Caria, sentando-se do outro lado. — Como um humano consegue sobreviver a isso?
Arthur deu um sorriso de canto, um tanto melancólico.
— Com muita dor e uma teimosia que meu avô adotivo — ele gesticulou em direção à tenda de Virion — me ajudou a cultivar. Mas eu não fiz isso por poder, Caria. Fiz porque o mundo está mudando, e se eu não fosse forte o suficiente, não poderia proteger o que é importante.
Ele olhou para Tessia, que havia parado de ler e o observava com uma expressão de adoração e tristeza misturadas. Ela sabia melhor do que ninguém o preço que ele pagara por aquele poder.
— Você sempre carrega o mundo nos ombros, Art — sussurrou Tessia, estendendo a mão para acariciar o rosto dele.
Arthur fechou os olhos por um breve momento sob o toque dela, uma vulnerabilidade rara transparecendo.
— Só porque você faz parte desse mundo, Tess.
Darvus, que estava encostado em uma árvore próxima, finalmente soltou o que estava pensando.
— Olha, Leywin... eu peço desculpas pelo meu comportamento mais cedo. Eu não sabia quem você era. E, honestamente, eu ainda não entendo metade das coisas que dizem sobre você. Mas eu vi como você olha para a Tessia. E vi como ela olha para você.
Arthur encarou o guerreiro, sua aura se expandindo apenas o suficiente para que Darvus soubesse que ele estava prestando atenção total.
— Eu não preciso que você entenda quem eu sou, Darvus. Mas Tessia é minha família. Ela é meu futuro. Se você é leal a ela, então você é meu aliado. Se você a proteger no campo de batalha, eu serei seu maior devedor. Mas se algum dia você a colocar em perigo por negligência ou arrogância...
A temperatura ao redor da fogueira pareceu cair vários graus. A mana no ar vibrou com uma intenção assassina tão pura que até os grilos na floresta silenciaram.
— ...nem mesmo os Asuras poderão te esconder de mim — concluiu Arthur, sua voz baixa e mortalmente calma.
Darvus engoliu em seco e acenou com a cabeça vigorosamente.
— Entendido. Mensagem recebida, alto e claro.
Tessia suspirou, quebrando a tensão ao puxar a orelha de Arthur de leve.
— Pare de assustar meus amigos, Arthur! Eu sei me cuidar.
— Eu sei que sabe, Tess — disse ele, a aura fria desaparecendo instantaneamente, substituída por um sorriso travesso. — Mas é meu trabalho ser o irmão irritante e o... bem, você sabe.
— O namorado superprotetor? — provocou Ellie, surgindo do nada com um prato de comida.
Arthur e Tessia falaram ao mesmo tempo:
— Ellie!
A garota riu, sentando-se com eles. O resto da noite passou com histórias — algumas contadas por Ellie sobre a infância de Arthur, o que rendeu muitas risadas e um Arthur visivelmente constrangido, e outras contadas por Tessia sobre suas missões com a equipe.
Pela primeira vez em muito tempo, o grupo de Tessia não se sentia apenas como uma unidade militar. Com a chegada de Arthur, eles pareciam ter sido integrados a algo maior, algo que parecia uma família estendida e complicada, ligada por laços que iam desde a realeza até os campos de treinamento mais brutais.
Stannard observava Arthur e Tessia conversando em voz baixa, alheios ao resto do mundo por alguns instantes. Ele percebeu que, embora Arthur Leywin fosse uma arma de guerra, um Lanceiro e um prodígio, ali, sob a luz da lua, ele era apenas um jovem que amava uma garota com toda a intensidade de sua alma.
— Eles realmente vão construir esse futuro, não vão? — perguntou Caria baixinho para Stannard.
— Se alguém pode fazer isso em meio a este caos — respondeu o estrategista —, é o homem que chama o Comandante de velho e faz a nossa princesa sorrir como se a guerra nem existisse.
Enquanto a noite avançava, Arthur olhou para o céu estrelado, sentindo o peso da promessa que fizera a Tessia. A guerra contra Alacrya seria longa e sangrenta. Os Vritra eram poderosos, e o destino de Dicathen estava por um fio. Mas, sentindo o calor de Tessia ao seu lado e a lealdade de seus novos companheiros, ele sentiu uma determinação renovada.
Ele não era apenas um rei reencarnado ou um Lanceiro. Ele era Arthur Leywin. E ele protegeria seu lar, mesmo que tivesse que queimar o mundo para isso.
— Vamos entrar, Art — disse Tessia, levantando-se e estendendo a mão para ele. — Amanhã será um dia longo.
Arthur pegou a mão dela, levantando-se com uma graça letal.
— Amanhã e todos os dias depois dele, Tess. Eu não vou a lugar nenhum.
E, enquanto caminhavam para a tenda principal, a equipe de Tessia finalmente entendeu: Arthur Leywin não era apenas um mito ou um guerreiro. Ele era a âncora de Tessia Eralith, e a razão pela qual ela continuava lutando com tanta ferocidade. Com ele de volta, a esperança não era mais apenas um conceito abstrato; ela tinha um rosto, uma espada e um poder que faria o próprio continente tremer.