Quem é esse garoto?!
Ecos de Realeza e Segredos de Inverno
A atmosfera no palácio flutuante de Dicathen era opressiva, não pelo perigo iminente, mas pela opulência sufocante. O grande salão de baile estava decorado com cristais de mana que emitiam uma luz suave e azulada, refletindo-se nas armaduras cerimoniais e nos vestidos de seda fina da nobreza de Sapin e Elenoir. Para Darvus, Caria e Stannard, que haviam passado os últimos meses em tendas úmidas e campos de batalha lamacentos, a transição era quase cômica.
— Eu me sinto como um javali em um jardim de rosas — resmungou Darvus, ajeitando desconfortavelmente a gola de sua túnica formal. — Por que guerreiros precisam usar roupas que impedem a circulação sanguínea?
— Pare de reclamar, Darvus — disse Caria, embora ela mesma parecesse desconfortável em um vestido longo de tons terrosos que, apesar de elegante, limitava seus movimentos de combate. — Estamos aqui como a guarda de honra da Tessia. Tente não parecer que vai sacar uma machadinha a qualquer momento.
— Eu só acho estranho — comentou Stannard, ajustando seus óculos, que brilhavam sob a luz mágica. — Tessia nos trouxe para uma gala de cúpula entre os dois reinos. Mas olhem para a entrada.
O burburinho no salão cessou abruptamente. As portas duplas de carvalho e ouro se abriram, e o arauto anunciou os nomes que fizeram o ar vibrar.
— Princesa Tessia Eralith de Elenoir e o Lanceiro Arthur Leywin!
O trio de companheiros observou, boquiaberto. Tessia estava deslumbrante em um vestido verde-esmeralda que acentuava a cor de seus olhos, mas era a figura ao lado dela que comandava toda a atenção. Arthur vestia o uniforme negro e dourado dos Lanceiros, sua postura era ereta e sua expressão, embora calma, carregava a autoridade de alguém que já havia decidido o destino de nações.
O que mais chocou o grupo, porém, não foi a aparência, mas a recepção. Assim que pisaram no salão, a Rainha Priscilla Glayder e o Rei Blaine Glayder, os governantes dos humanos, caminharam em direção a eles com sorrisos que não pareciam meramente diplomáticos.
— Arthur! — exclamou a Rainha Priscilla, tocando o braço do jovem com uma familiaridade maternal. — Estávamos preocupados com sua demora. O conselho não é o mesmo sem seus comentários sarcásticos.
— Minhas desculpas, Majestade — respondeu Arthur, fazendo uma reverência leve e elegante. — Tive alguns assuntos pendentes com a minha unidade nas Clareiras.
— Assuntos pendentes ou você estava apenas tentando evitar o protocolo? — Uma voz feminina e melodiosa surgiu atrás dos reis.
Kathyln Glayder, a princesa dos humanos, aproximou-se. Ela era a imagem da perfeição gélida, mas, ao olhar para Arthur, seus olhos suavizaram-se de uma maneira que Caria reconheceu instantaneamente.
— Princesa Kathyln — Arthur saudou com um aceno de cabeça.
— É bom ver que você voltou inteiro, Arthur — disse Kathyln. Ela então se virou para Tessia, e houve um momento de silêncio tenso. — E você também, Tessia. Ele parece estar em boas mãos.
Tessia sorriu, um gesto que parecia tanto uma saudação quanto uma marcação de território, enquanto entrelaçava seu braço no de Arthur.
— Ele sempre esteve, Kathyln.
Atrás de uma coluna, Darvus sussurrou para os outros:
— Espera aí... a Princesa Kathyln? A "Princesa de Gelo" de Sapin acabou de olhar para o Arthur como se ele fosse o último copo d'água no deserto?
— Não seja idiota, Darvus — murmurou Stannard, embora estivesse anotando mentalmente a interação. — Claramente há uma história ali. Mas vejam como o Rei Blaine o trata. Eles estão discutindo táticas de fronteira como se Arthur fosse um general de cinquenta anos, e não um adolescente.
A noite prosseguiu, e o choque da equipe de Tessia só aumentava. Eles viram Arthur transitar entre a alta nobreza com uma facilidade desconcertante. Ele conversava com os anciãos elfos em sua língua nativa e, logo em seguida, debatia economia com os barões humanos. O "amigo de infância" de Tessia não era apenas um guerreiro; ele era o tecido que mantinha a aliança Dicathiana unida.
Em um momento de pausa, enquanto a música de cordas preenchia o ambiente, a equipe conseguiu se aproximar de Ellie, que estava devorando alguns doces em uma mesa lateral.
— Ellie, você viu aquilo? — Caria perguntou, apontando para onde Kathyln e Arthur conversavam brevemente. — A Princesa Kathyln e seu irmão...
Ellie deu de ombros, limpando o açúcar do canto da boca.
— Ah, a Kathyln gostava do Art. Acho que ela ainda gosta, de um jeito respeitoso. Quase todo mundo que passa cinco minutos com ele acaba desenvolvendo algum tipo de admiração ou paixão platônica. É irritante, na verdade.
— Ela gostava dele? — Darvus perguntou, incrédulo.
— Sim — respondeu Ellie, olhando para o irmão com orgulho. — Mas ela é inteligente. Ela viu como o Art olha para a Tess desde que éramos crianças. Ninguém consegue competir com isso. A Kathyln aceitou que eles foram feitos um para o outro muito antes de a guerra começar.
— Eles são tão próximos assim? — Stannard questionou, curioso sobre a profundidade daquele vínculo.
Ellie soltou uma risadinha travessa, olhando para os lados para garantir que ninguém importante estivesse ouvindo.
— Próximos? Vocês não viram nada. Antes de o Art ir treinar com os Asuras, eles tiveram uma despedida bem... intensa na caverna. O vovô Virion quase teve um ataque cardíaco de alegria quando descobriu que eles finalmente tinham se beijado.
O silêncio que se seguiu no grupo foi absoluto. Darvus engasgou com a própria bebida.
— Eles... eles o quê? — Caria perguntou, os olhos arregalados.
— Se beijaram — repetiu Ellie, divertida com a reação deles. — Foi uma promessa. O Art prometeu que voltaria para ela e que eles ficariam juntos quando tudo isso acabasse. Por que vocês acham que a Tessia fica tão brava quando qualquer outra garota chega perto dele? Não é apenas ciúme de infância, é um compromisso.
Enquanto a equipe processava a informação, Arthur e Tessia se afastaram da multidão, caminhando em direção a uma das varandas que dava para as montanhas cobertas de neve. O ar frio da noite era um contraste bem-vindo ao calor do salão.
Arthur encostou-se no parapeito de pedra, soltando um suspiro pesado.
— Eu odeio essas festas, Tess. Sinto que estou sendo atacado por mil intenções ocultas a cada segundo.
Tessia riu, aproximando-se e colocando as mãos sobre as dele.
— Você é o Lanceiro mais jovem da história e o queridinho de dois reinos, Arthur. O que você esperava?
— Esperava estar em uma floresta com você, longe de coroas e expectativas — admitiu ele, virando as mãos para segurar as dela. Seus olhos azuis brilharam sob a luz do luar. — Às vezes, sinto que o peso de ser "Arthur Leywin" vai acabar me esmagando antes que eu possa cumprir minha promessa.
Tessia suavizou a expressão, dando um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele.
— Você não está carregando isso sozinho. Eu estou aqui. Caria, Darvus e Stannard estão aqui. Minha equipe... eles começaram a te respeitar, sabia?
— O Darvus ainda quer me acertar com uma machadinha — brincou Arthur, embora houvesse um carinho genuíno em sua voz.
— Ele é apenas teimoso — disse Tessia, encurtando a distância entre eles. — Mas ele viu o que eu vejo. Ele viu que você não é apenas um monstro de poder, mas alguém que se importa.
Arthur olhou para ela, e por um momento, o Lanceiro frio e o estrategista calculista desapareceram. Ele era apenas o garoto que havia caído em um reino desconhecido e encontrado seu lar nos olhos verdes de uma princesa elfa.
— Tess... — começou ele, a voz rouca. — O que Ellie disse hoje cedo sobre a promessa... eu não esqueci um único segundo.
Tessia sorriu, seus dedos traçando os contornos do rosto dele.
— Eu sei. Eu também não.
Sem aviso, a porta da varanda se abriu levemente. Darvus, Caria e Stannard estavam espiando, impulsionados por uma curiosidade que superava o bom senso. Eles viram Arthur puxar Tessia pela cintura, e a forma como ela envolveu os braços no pescoço dele com uma naturalidade absoluta.
— Eles vão... — sussurrou Darvus.
— Xiiiiu! — Caria deu uma cotovelada nele.
Na varanda, alheios aos espiões, Arthur inclinou a cabeça, encostando a testa na de Tessia.
— Eu te amo, Tessia Eralith. E eu vou acabar com essa guerra, nem que seja a última coisa que eu faça, para que possamos ter o tempo que nos foi roubado.
— Você sempre foi dramático, Art — sussurrou ela, antes de fechar a distância e beijá-lo.
Foi um beijo carregado de saudade, urgência e uma promessa silenciosa de sobrevivência. Não era o beijo de dois nobres em uma gala; era o beijo de dois soldados que sabiam que o amanhã não era garantido, mas que lutariam ferozmente por ele.
Do lado de dentro, o grupo recuou rapidamente para as sombras quando Arthur e Tessia começaram a se separar.
— Bom — disse Stannard, limpando o suor da testa —, acho que isso confirma o que a Ellie disse.
— Ele realmente a ama — comentou Caria, com a voz suave. — E ela a ele. É... é assustador e inspirador ao mesmo tempo.
— Assustador é pouco — resmungou Darvus, embora houvesse um brilho de admiração em seus olhos. — Imaginem o que esse cara vai fazer com os Alacryanos se eles tocarem em um fio de cabelo dela. Eu quase sinto pena dos Vritra.
Arthur e Tessia voltaram para o salão momentos depois. A aura de Arthur parecia ainda mais intensa, como se o momento de paz tivesse recarregado suas baterias internas. Ele notou sua equipe parada perto de um pilar, tentando agir de forma natural, e um sorriso conhecedor cruzou seus lábios.
Ele caminhou até eles, com Tessia ainda segurando sua mão com firmeza.
— Então — disse Arthur, olhando diretamente para Darvus —, vocês aproveitaram a vista da varanda?
Darvus engoliu em seco, enquanto Caria e Stannard olhavam para o teto, subitamente interessados na arquitetura do palácio.
— A vista... ah, sim, as montanhas estavam... muito bonitas — gaguejou Darvus.
Tessia soltou uma risadinha, escondendo o rosto no ombro de Arthur.
— Deixe-os, Art. Eles são curiosos por natureza.
Arthur relaxou a postura, e por um momento, a barreira entre o Lanceiro lendário e a equipe de elite desapareceu.
— Ouçam bem — disse Arthur, o tom agora sério, mas amigável. — Eu sei que vocês têm dúvidas sobre mim e sobre o que eu represento nesta guerra. Mas eu confio a vida da Tessia a vocês quando não posso estar presente. Isso faz de vocês as pessoas mais importantes neste salão para mim.
Stannard ajustou os óculos, comovido pela sinceridade do rapaz.
— Nós a protegeremos com tudo o que temos, Arthur. Não porque ela é uma princesa, mas porque ela é nossa líder. E agora... porque sabemos o que ela significa para você.
Arthur acenou com a cabeça, um gesto de respeito mútuo.
— Ótimo. Porque amanhã, as coisas vão ficar difíceis. O conselho decidiu que vamos avançar para as fronteiras do sul. Será perigoso.
— Estamos prontos — afirmou Caria, batendo as manoplas uma na outra, o som metálico ecoando suavemente.
A gala continuou, mas para aquele pequeno grupo, o luxo e a política haviam ficado em segundo plano. Eles agora entendiam a verdade por trás do mito de Arthur Leywin. Ele não era apenas uma arma de Dicathen; ele era um homem movido por um amor tão vasto quanto o continente que ele jurou proteger.
Enquanto Arthur e Tessia eram chamados para uma última dança cerimonial, os companheiros observavam a harmonia perfeita de seus movimentos. Eles eram o coração da resistência, a luz em meio à escuridão crescente da invasão.
— Sabe de uma coisa? — disse Darvus, observando Arthur girar Tessia no centro do salão, sob os olhares de admiração e inveja de todos. — Eu ainda vou ganhar um duelo dele um dia.
— Sonhar não custa nada, Darvus — riu Caria.
— Talvez não um duelo — interveio Stannard —, mas acho que todos nós ganhamos algo muito mais valioso hoje.
— O quê? — perguntou Darvus.
— Um motivo para acreditar que, talvez, a gente realmente tenha uma chance de vencer — respondeu o estrategista, olhando para o casal que representava a união de dois mundos.
A noite terminou com a promessa de fogo e sangue no horizonte, mas para Tessia e Arthur, enquanto suas mãos permaneciam entrelaçadas sob o brilho dos cristais, o futuro não parecia mais uma incerteza sombria, mas um caminho que eles trilhariam juntos, não importa o que o destino — ou os deuses — decidissem colocar em seu caminho.