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Quem é esse garoto?!

Laços de Sangue, Coroas e o Terror de uma Mãe

O sol mal havia começado a tingir o horizonte das Clareiras Bestiais com tons de laranja e púrpura quando a rotina militar da unidade de Tessia foi novamente interrompida pela complexa teia social que envolvia Arthur Leywin. O acampamento estava em polvorosa. Não por um ataque de bestas de mana, mas porque a cúpula de liderança de Dicathen havia decidido realizar uma reunião estratégica informal ao ar livre, aproveitando o raro clima ameno.

Darvus, Caria e Stannard observavam de uma distância segura, fingindo polir seus equipamentos, enquanto a nata do continente se comportava de maneira... inesperada.

— Eu não consigo decidir se isso é diplomacia de alto nível ou uma briga de taberna muito chique — sussurrou Darvus, limpando a mesma lâmina pela décima vez.

No centro da clareira, Arthur estava sentado em um tronco, parecendo exausto, enquanto Curtis Glayder, o príncipe de Sapin, tentava aplicar um mata-leão brincalhão nele por trás.

— Admita, Art! — exclamou Curtis, rindo enquanto Arthur desviava do braço do príncipe com uma agilidade preguiçosa. — Se eu tivesse usado o Grawder para te cercar ontem, você não teria escapado daquele treino de campo tão fácil!

— Curtis, por favor — Arthur bocejou, empurrando o rosto do príncipe para longe com a palma da mão. — Você e seu leão de classe mundial são ótimos para impressionar as damas da corte, mas para me pegar, você precisaria de pelo menos mais dez anos de treino e, talvez, um cérebro novo.

— Ora, seu... — Curtis tentou avançar novamente, mas foi interrompido por um olhar gélido vindo de duas direções diferentes.

Tessia Eralith e Kathyln Glayder estavam paradas a poucos metros, ambas com os braços cruzados.

— Curtis, Arthur — começou Kathyln, sua voz como um cristal batendo em gelo —, vocês são os rostos da resistência humana e élfica. Poderiam, por favor, parar de se comportar como dois filhotes de lobo disputando um osso?

— Ela tem razão — acrescentou Tessia, embora seus olhos estivessem fixos em Arthur com uma mistura de adoração e irritação. — Arthur, você é um Lanceiro. Curtis, você é o futuro rei. Tenham um pouco de decência.

Arthur olhou para Tessia, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.

— Ouviu, Curtis? A princesa disse que você precisa de decência. Eu, por outro lado, sou apenas um pobre soldado seguindo ordens.

— Pobre soldado? — Curtis bufou, ajeitando a túnica. — Você é o maior causador de problemas que este continente já viu.

A interação deixou a equipe de Tessia boquiaberta. Eles sabiam que Arthur era importante, mas vê-lo tratar o herdeiro do trono humano como um irmão chato — e ser tratado da mesma forma — era uma revelação sobre a profundidade de sua história pessoal.

— Eles cresceram juntos na Academia Xyrus, não foi? — perguntou Caria, fascinada.

— Mais do que isso — respondeu Stannard, ajustando os óculos. — Eles parecem ter uma conexão que transcende títulos. Veja o Rei Blaine.

O Rei de Sapin, Blaine Glayder, aproximou-se do grupo. Ele era um homem imponente, cuja presença costumava silenciar salas inteiras. Ele parou diante de Arthur, que agora estava de pé.

— Leywin — disse o Rei, sua voz profunda ecoando. — Eu estava revisando os relatórios de suprimentos. Você realmente autorizou o uso de cristais de mana de grau superior para o aquecimento das tendas dos soldados comuns?

— Autorizei, Majestade — respondeu Arthur, sem hesitar. — Soldados congelados não seguram espadas muito bem. Achei que um rei tão focado em eficiência entenderia isso.

Blaine estreitou os olhos, um silêncio tenso pairando sobre o grupo.

— Você é um pirralho insolente, sabia disso? Sempre foi, desde o dia em que entrou no meu castelo pela primeira vez.

— É um dos meus muitos talentos, senhor — rebateu Arthur com um sorriso desafiador.

Para a surpresa de Darvus, o Rei Blaine soltou uma gargalhada curta e deu um tapinha pesado no ombro de Arthur.

— Se você não fosse tão útil para a minha filha e para o meu reino, eu já teria te colocado nas masmorras só pelo prazer de ver você tentar fugir.

— Oh, deixe o menino em paz, Blaine — interveio a Rainha Priscilla, aproximando-se e oferecendo um sorriso caloroso a Arthur. — Arthur está certo. Ele sempre coloca as pessoas acima da política, algo que você poderia aprender um pouco mais. Você está bem, Arthur? Tem comido direito? Parece mais magro desde que voltou de Epheotus.

— Estou bem, Majestade, obrigado — Arthur respondeu, sua atitude mudando instantaneamente para um respeito genuíno.

— Ele está ótimo, Rainha Priscilla — Tessia interrompeu, aproximando-se e agarrando o braço de Arthur com uma possessividade que não passou despercebida por ninguém. — Eu estou garantindo que ele não pule nenhuma refeição.

Arthur olhou para Tessia, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, é? Ontem você tentou me dar aquela sopa de ervas élficas que tem gosto de grama molhada. Eu chamo isso de tortura, não de cuidado.

Tessia fez um biquinho, apertando o braço dele com mais força.

— Aquela sopa é medicinal, seu idiota! Melhora a circulação de mana.

— Melhora a vontade de desmaiar, isso sim — provocou Arthur, rindo quando Tessia lhe deu um soco leve no ombro.

A cena foi interrompida pela chegada de Alduin Eralith, o pai de Tessia e Rei dos Elfos. Alduin sempre tivera uma relação complicada com Arthur, principalmente devido ao vínculo óbvio entre o humano e sua filha única.

— Arthur — cumprimentou Alduin, sua voz carregada de uma formalidade que escondia uma ponta de ciúme. — Vejo que você continua ocupando o tempo da minha filha.

Arthur, percebendo a chance de implicar, passou o braço pelos ombros de Tessia e a puxou para mais perto, fazendo-a corar violentamente.

— Ah, olá, Rei Alduin. Estávamos apenas discutindo como a Tessia se tornou uma líder incrível. Mas, sabe, ela ainda me pede conselhos o tempo todo. Acho que ela simplesmente não consegue ficar longe de mim.

Tessia arregalou os olhos, tentando se soltar, enquanto Alduin ficava visivelmente vermelho.

— Ela é a Princesa de Elenoir! Ela não precisa de conselhos de um humano atrevido para liderar seu próprio povo!

— Pai, ele está brincando! — exclamou Tessia, embora não estivesse fazendo um grande esforço para se afastar do abraço de Arthur.

— Brincando? — Arthur continuou, olhando para Alduin com um brilho travesso. — Eu até pensei em pedir ao Comandante Virion para oficializar alguns treinos extras noturnos. A Tessia tem muita dificuldade com... certas posições de combate.

O Rei Alduin parecia prestes a ter um surto, mas foi interrompido por uma risada rouca. Virion Eralith, o avô de Tessia, aproximou-se, batendo as mãos nas costas.

— Deixe-o em paz, Alduin! O garoto sabe como te irritar porque você é um alvo fácil. E Arthur, pare de provocar seu futuro sogro antes que ele proíba você de entrar em Elenoir permanentemente.

— Futuro o quê?! — Alduin e Tessia gritaram ao mesmo tempo, embora Tessia estivesse sorrindo por trás do choque.

— Vovô! — Tessia protestou, escondendo o rosto no peito de Arthur.

— O quê? Eu estou velho, quero ver bisnetos antes que os Vritra decidam que o mundo já durou demais — disse Virion, piscando para Arthur. — E então, pirralho, como está o núcleo de mana? Ouvi dizer que você teve problemas para estabilizar a rotação ontem.

— O senhor ouve demais para alguém que deveria estar aposentado, velho — rebateu Arthur, embora houvesse um respeito profundo em seu tom.

— Aposentado? Eu vou enterrar você e metade desses Lanceiros antes de me aposentar! — Virion riu, puxando Arthur para um lado para discutir assuntos mais sérios, deixando um Alduin resmungando e uma Tessia suspirando para trás.

Darvus, observando tudo, balançou a cabeça.

— Ele simplesmente... ele brinca com reis. Ele faz piada com o pai da namorada, que por acaso é o Rei dos Elfos. Ele trata o Comandante Supremo como um colega de quarto irritante. Onde esse cara aprendeu a não ter medo da morte?

— Acho que quando você enfrenta deuses, reis humanos parecem apenas vizinhos barulhentos — comentou Stannard.

No entanto, a atmosfera de leveza e implicância mudou drasticamente quando uma figura feminina, vestindo roupas simples, mas carregando uma aura de autoridade inquestionável, aproximou-se do grupo central. Alice Leywin, a mãe de Arthur, caminhava com Ellie ao seu lado.

Arthur, que até um segundo atrás estava desafiando o Rei Alduin e brincando com Virion, endireitou a postura instantaneamente. Seus ombros relaxaram, mas seus olhos ficaram atentos, quase cautelosos.

— Arthur Leywin — disse Alice, sua voz doce, mas com um subtom que fez os pelos da nuca de Arthur se arrepiarem.

— Mãe — Arthur respondeu, com uma inclinação de cabeça que era mais profunda do que qualquer uma que ele tivesse feito para os reis.

— Eu ouvi, através da Ellie, que você foi um pouco... rude com a Princesa Kathyln durante o café da manhã. E que você tratou a Tessia como se ela fosse uma recruta de treinamento agora há pouco.

Arthur engoliu em seco. O Lanceiro que poderia enfrentar exércitos parecia ter encolhido alguns centímetros.

— Mãe, não foi rudeza, foi... uma divergência estratégica. E com a Tess, estávamos apenas brincando. Não é, Tess?

Tessia, percebendo a vantagem, deu um passo atrás e cruzou os braços, olhando para Arthur com um sorriso maldoso.

— Bem, Arthur, você foi um pouco mandão sobre a formação das arqueiras...

— Arthur Isaac Leywin — a voz de Alice subiu apenas um tom, mas foi o suficiente para o Rei Blaine e o Rei Alduin trocarem olhares de puro terror solidário. — Eu não criei um Lanceiro para que ele esquecesse as boas maneiras com as damas. Não me importa se você é o salvador do continente ou se treinou com os Asuras. Neste acampamento, você é meu filho. E se eu ouvir novamente que você foi desrespeitoso, Lanceiro ou não, você vai descobrir que minhas mãos são mais rápidas que sua magia de raio.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Darvus estava paralisado. Caria tinha a mão sobre a boca para não rir.

Arthur baixou a cabeça, a imagem da submissão.

— Sim, senhora. Peço desculpas, mãe. Não vai acontecer de novo.

— Ótimo — disse Alice, suavizando o rosto e dando um beijo na bochecha do filho. — Agora, venha comer. Preparei algo que não tem gosto de grama.

Enquanto Alice se afastava, levando Ellie consigo, Arthur soltou um suspiro de alívio tão longo que parecia ter esvaziado seus pulmões.

— Aquela mulher... — murmurou Arthur, limpando o suor invisível da testa — ...ela é a pessoa mais perigosa de Dicathen.

— Eu avisei — sussurrou Ellie, passando por ele com um sorriso vitorioso. — A mamãe é a rainha absoluta, Art. Aceite isso.

Tessia aproximou-se de Arthur, rindo baixinho da expressão de derrota dele.

— O grande Arthur Leywin, o terror dos Vritra, derrotado por uma bronca da mãe. Quem diria?

Arthur a puxou pela cintura, recuperando um pouco de sua confiança, embora ainda olhasse de soslaio para garantir que Alice não estava vendo.

— Ria enquanto pode, Tess. Mas lembre-se, se nos casarmos, ela será sua sogra. E eu duvido que ela vá ficar do seu lado o tempo todo.

Tessia corou, mas não recuou.

— Eu gosto dela. Ela é a única pessoa que consegue te colocar no seu lugar.

A equipe de Tessia finalmente se aproximou, vendo que a reunião informal estava se dispersando. Darvus olhou para Arthur com uma nova forma de compreensão.

— Leywin — disse o guerreiro humano —, eu costumava achar que você era um tipo de deus ou um monstro sem emoções. Mas depois de ver você fugindo da sua mãe... agora eu sei que você é apenas um de nós. Um de nós que, por acaso, pode explodir uma montanha, mas ainda teme o chinelo da mãe.

Arthur soltou uma risada curta e genuína.

— Acredite, Darvus, o chinelo da minha mãe tem mais poder de parada do que qualquer feitiço de nível S.

— Arthur! — a voz de Alice ecoou novamente da tenda de refeições.

— Já estou indo! — gritou ele, soltando Tessia apressadamente. — Vejo vocês depois. Tenho uma "Rainha Absoluta" para obedecer.

Enquanto Arthur corria em direção à tenda, Tessia ficou observando-o, seu olhar suavizando. Ela se virou para sua equipe, que ainda parecia processar a manhã caótica.

— Então — começou Stannard —, ele é o irmão do príncipe, o neto do comandante, o pesadelo do rei, o amor da princesa e o filho obediente da dona Alice.

— É um currículo e tanto — concordou Caria.

— Ele é o nosso trunfo — disse Tessia, sua voz cheia de uma determinação calma. — Não apenas pelo poder dele, mas porque ele tem tudo isso para proteger. E enquanto ele tiver esses laços, ele nunca vai desistir.

Darvus olhou para as próprias mãos e depois para a direção onde Arthur desaparecera.

— Bem, se o destino do mundo está nas mãos de um cara que respeita tanto a família quanto respeita a própria magia... acho que estamos em boas mãos. Mas eu ainda não vou comer aquela sopa de grama da Tessia.

— Nem eu — concordou Stannard, rindo.

O acampamento voltou à sua rotina, mas a sensação de isolamento que a guerra trazia parecia ter diminuído. Arthur Leywin trouxera consigo não apenas a força de um Lanceiro, mas a humanidade de um filho, um irmão e um amante. E em um mundo prestes a ser consumido pelas sombras, aqueles laços eram a única luz que realmente importava.

Tessia caminhou em direção à tenda de Alice, sentindo-se mais leve do que em meses. Ela sabia que os dias sombrios viriam, que o sangue seria derramado e que as coroas poderiam cair. Mas enquanto Arthur estivesse ali, implicando com seu pai, abraçando sua irmã e temendo sua mãe, ela sabia que havia um futuro pelo qual valia a pena lutar.

— Art! — gritou ela, correndo para alcançá-lo. — Espere por mim! Eu quero ver você pedir desculpas para a Kathyln!

— Nem em um milhão de anos, Tess! — a voz de Arthur ecoou de volta, cheia de vida.

E ali, entre as árvores antigas das Clareiras Bestiais, a esperança de Dicathen não parecia um fardo, mas uma promessa viva e vibrante.

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