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Rapidinha

Predação e Pinos Caídos

O ar condicionado do boliche parecia insuficiente no momento em que a porta do banheiro masculino se abriu. Stiles saiu primeiro, tentando desesperadamente recompor não apenas suas roupas, mas sua dignidade e sua capacidade pulmonar. Sua camisa estava levemente desalinhada e ele tinha a nítida sensação de que suas pernas tinham a consistência de gelatina deixada ao sol.

Logo atrás dele, Angel Hale caminhava com a graça de uma pantera que acabara de se banquetear. Ela passou a mão pelos cabelos, jogando as mechas escuras para trás dos ombros com uma casualidade que beirava o insulto. Não havia um pingo de suor nela, nem um sinal de hesitação. Ela parecia revigorada, seus olhos castanhos brilhando com uma satisfação predatória que fazia o estômago de Stiles dar voltas.

— Tenta não tropeçar nos próprios pés, Stilinski — ela murmurou, passando por ele e dando um tapinha atrevido em sua retaguarda. — Você tem uma imagem de "garoto comum" a manter, lembra?

— Imagem? Angel, eu acho que perdi a capacidade de processar imagens. Eu estou vendo pixels. Minha visão está em 144p — Stiles sussurrou de volta, a voz ainda uma oitava acima do normal.

Eles voltaram para a área das pistas, onde o caos adolescente continuava como se o mundo não tivesse mudado de eixo nos últimos quinze minutos. Scott estava sentado no banco, observando Allison arremessar uma bola. Ele franziu a testa assim que os dois se aproximaram. O olfato apurado de um lobisomem recém-transformado era uma maldição para momentos como aquele.

Scott olhou de Stiles para Angel, e depois de volta para Stiles. Seus olhos se arregalaram levemente.

— Stiles? — Scott perguntou, levantando-se. — O que... por que você está cheirando a... baunilha e...

— História! — Stiles interrompeu, quase gritando. — Muita história. A Angel estava me explicando sobre a Revolução Francesa. Maria Antonieta, guilhotinas, cabeças rolando... uma coisa muito gráfica, sabe? Fiquei até suado de tanto conhecimento histórico.

Angel soltou uma risadinha baixa, sentando-se ao lado de uma Lydia Martin que parecia ocupada demais retocando o batom para notar o estado deplorável de Stiles.

— Ele é um aluno muito aplicado, Scott — Angel disse, cruzando as pernas e lançando um olhar de soslaio para Stiles. — Mas precisa praticar mais a resistência. Ele se cansa rápido.

Jackson Whittemore soltou um bufo de desdém, pegando sua bola personalizada.

— Se terminaram a sessão de reforço escolar, talvez o Stilinski possa finalmente errar o próximo lance para podermos ir embora. Esse lugar está ficando entediante.

Stiles ignorou Jackson. Ele estava focado em não desabar no chão. Ele sentia o peso do olhar de Scott sobre ele, um olhar que misturava confusão, choque e uma ponta de "eu não precisava saber disso".

— Cara, você está bem? — Scott sussurrou, aproximando-se de Stiles enquanto os outros se distraíam com o jogo de Jackson. — Seu coração está batendo tão rápido que eu acho que você vai ter um infarto. E você está... você está irradiando calor.

— Eu estou ótimo, Scott. Nunca estive melhor. Eu sou como uma fênix renascendo das cinzas do banheiro masculino — Stiles respondeu, pegando a primeira bola de boliche que viu pela frente.

Ele caminhou até a pista. Seus dedos ainda tremiam um pouco, mas havia uma nova energia correndo em suas veias. Ele olhou para o final da pista, para os pinos brancos que pareciam zombar dele. Então, sentiu o olhar dela. Angel estava encostada na mesa, com o queixo apoiado na mão, observando-o com aquele sorriso que dizia que ela sabia exatamente o que ele estava sentindo.

Stiles respirou fundo. Ele não pensou na técnica, não pensou no sarcasmo, não pensou no pai ou nos lobisomens. Ele apenas soltou a bola.

Strike.

O som dos pinos sendo derrubados foi satisfatório, mas não tanto quanto o silêncio que se seguiu na mesa deles.

— Sorte de principiante — Jackson resmungou, embora estivesse visivelmente irritado.

— Bom trabalho, Stiles — Allison disse, sorrindo gentilmente. — Viu? Angel disse que você só precisava relaxar.

Stiles voltou para o banco, sentindo-se estranhamente vitorioso. Ele se sentou ao lado de Angel, que se inclinou em sua direção, o calor do corpo dela enviando choques elétricos por seu braço.

— Viu o que um pouco de motivação faz? — ela sussurrou, a voz apenas para ele.

— Você é perigosa, sabia? — Stiles respondeu, tentando manter a compostura. — O seu pai deveria colocar um aviso de "Cuidado: Predadora" na sua testa.

— E você adoraria ler o aviso de perto, não adoraria? — Angel rebateu, aproximando o rosto do dele. — Admite, Stilinski. Você gosta do perigo. Você gosta que eu não seja como as outras garotas que ficam esperando você tomar uma atitude.

— Eu não gosto, eu sou aterrorizado por isso. Há uma diferença fundamental, cientificamente comprovada — ele retrucou, mas não se afastou.

A tensão entre eles era quase palpável, uma eletricidade que parecia ignorar o resto do grupo. Para Angel, Stiles era uma anomalia fascinante. Ele era humano, frágil e sarcástico, mas possuía uma resiliência que ela raramente via, mesmo entre os de sua espécie. E o cheiro dele... o cheiro de Stiles, agora misturado ao dela, era a coisa mais viciante que ela já havia experimentado.

— Vamos sair daqui — Angel disse de repente, levantando-se.

— O quê? Agora? — Lydia perguntou, finalmente desviando os olhos do espelho. — O jogo nem acabou.

— Stiles e eu temos mais... lições para revisar — Angel declarou, pegando a jaqueta de couro. — E eu não sou muito fã de lugares com luzes fluorescentes e cheiro de meia chulé.

— Mas a gente veio no jipe do Stiles — Scott lembrou, olhando para o amigo com uma expressão de súplica.

Stiles olhou para Scott, depois para Angel, que já estava caminhando em direção à saída sem nem olhar para trás, certa de que ele a seguiria.

— Desculpa, Scott. Dever de casa chama. A Revolução Francesa não vai se explicar sozinha — Stiles disse, jogando as chaves do jipe para o amigo. — Leva a Allison para casa. Eu... eu dou um jeito.

— Stiles, você mora do outro lado da cidade! — Scott gritou, mas Stiles já estava correndo para alcançar a garota de jaqueta de couro.

O ar da noite de Beacon Hills estava frio, mas Stiles mal sentiu. Angel o esperava encostada em um Camaro preto fosco estacionado nas sombras, longe das luzes do boliche. O carro de Peter Hale.

— Você roubou o carro do seu pai? — Stiles perguntou, parando a alguns metros de distância.

— Ele não está usando. Está ocupado demais sendo... o Peter — ela respondeu, abrindo a porta do motorista. — Entra.

Stiles obedeceu, sentindo o cheiro de couro novo e o poder que o motor do carro emanava. Angel assumiu o volante e, antes de dar a partida, ela se virou para ele. A luz da lua filtrava-se pelo para-brisa, iluminando suas feições perfeitas e perigosas.

— O que aconteceu lá dentro... — ela começou, sua voz perdendo um pouco da provocação e ganhando uma nota de intensidade séria. — Não foi porque eu estava entediada, Stiles.

Stiles engoliu em seco. O sarcasmo morreu em sua garganta.

— Não foi?

— Eu queria você desde o momento em que te vi naquele estacionamento. Você parecia tão deslocado, tão... humano. E eu sabia que queria quebrar essa sua casca de piadinhas — ela estendeu a mão, tocando o rosto dele com a ponta dos dedos. — Mas eu não sou uma pessoa de sentimentos fofos e flores, Stiles. Eu sou o que sou.

— Uma loba híbrida com tendências dominantes e um gosto questionável para garotos magricelas? — Stiles arriscou, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

Angel sorriu de volta, mas desta vez foi diferente. Foi um sorriso que alcançou seus olhos.

— Exatamente.

Ela se inclinou e o beijou. Não foi como no banheiro; não houve urgência desesperada ou necessidade de posse imediata. Foi um beijo lento, profundo, que parecia selar um pacto silencioso entre o humano e a criatura. Stiles sentiu o gosto dela, sentiu a promessa de que aquela noite seria apenas o começo de algo que provavelmente o destruiria — e ele nunca esteve tão ansioso para ser destruído.

Ela se afastou, ligando o motor que rugiu como um animal selvagem.

— Para onde estamos indo? — Stiles perguntou, prendendo o cinto de segurança.

Angel engatou a marcha e olhou para ele com um brilho malicioso.

— Para um lugar onde ninguém vai nos interromper. Eu ainda não terminei de te ensinar sobre a "história", Stiles. E acredito que temos alguns capítulos bem intensos pela frente.

O carro arrancou, deixando para trás o boliche e a segurança da normalidade. Stiles olhou pela janela, vendo as luzes de Beacon Hills passarem como borrões. Ele sabia que sua vida, que já era complicada o suficiente com lobisomens e caçadores, tinha acabado de entrar em um território muito mais perigoso.

Ele olhou para Angel, que dirigia com uma confiança absoluta, os olhos fixos na estrada escura. Ela era o seu caos pessoal, sua ruína e sua salvação, tudo embrulhado em um rosto de anjo e presas de loba.

— Sabe — Stiles disse, encostando a cabeça no banco —, eu sempre achei que morreria de tédio nesta cidade.

Angel soltou uma gargalhada curta e acelerou ainda mais.

— Comigo por perto, Stiles, o tédio é a única coisa que você nunca vai precisar temer.

Enquanto o Camaro desaparecia na escuridão da floresta, Stiles percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, ele não estava tentando fugir do monstro. Ele estava sentado bem ao lado dele, e não queria estar em nenhum outro lugar do mundo. O jogo do predador tinha mudado, e Stiles descobriu que ser a presa de Angel Hale era, de longe, a coisa mais emocionante que já lhe acontecera.