RAVE! ONE SHOTS
O Eco das Estrelas e o Brilho do Compromisso
A imortalidade, ou algo próximo a ela, sempre fora descrita nos livros humanos como um presente divino. Para Liam Peekers, no entanto, a ideia de que sua biologia Arkops o faria viver séculos enquanto Tom e Tord murchariam como flores de outono parecia mais uma maldição cruel. As palavras de Galaczor ainda ecoavam em sua mente, ruidosas como o motor de uma nave espacial: "Eles são distrações temporárias. Eles vão morrer".
Naquela manhã, PK não estava com sua energia caótica habitual. Ele não pulou na cama de Tom para acordá-lo com beijos, nem tentou roubar o charuto de Tord. Ele estava sentado no telhado da casa, abraçado aos próprios joelhos, observando o horizonte de Londres. Seus olhos negros, que outrora brilhavam com a curiosidade de uma criança, agora refletiam uma melancolia profunda.
Lá embaixo, na cozinha, a atmosfera era de pura confusão. Tom encarava a caneca de café sem beber, enquanto Tord limpava seu braço robótico com uma agressividade desnecessária.
— Ele não comeu os donuts que eu trouxe — murmurou Tom, a voz carregada de uma preocupação rara. — Ele nem sequer tentou me morder quando eu passei por ele no corredor. Tem algo muito errado.
— É aquele maldito Galaczor — Tord sibilou, jogando o pano sobre a mesa. — Ele plantou aquela semente de dúvida na cabeça do Liam. A ideia de que somos efêmeros. De que somos... descartáveis.
Tom suspirou, passando a mão pelo cabelo espetado.
— O pior é que, tecnicamente, o alienígena azul não mentiu. Nós vamos envelhecer, Tord. Nós somos humanos. Bem, eu sou um monstro alcoólatra e você é um ditador cibernético, mas ainda temos o prazo de validade de um humano.
Tord parou o que estava fazendo e olhou para Tom. Por um breve momento, a rivalidade e o sarcasmo desapareceram, dando lugar a uma determinação sombria e afetuosa.
— Eu não pretendo ir a lugar nenhum tão cedo — disse Tord —, e você também não. Mas o PK precisa de algo mais do que promessas verbais. Ele precisa de um símbolo. Algo que diga que, não importa quanto tempo dure, nós somos dele.
— Você está sugerindo o que eu acho que está sugerindo? — Tom arqueou uma sobrancelha.
— Casamento, Thomas. Um compromisso oficial. Um trisal reconhecido, pelo menos entre nós.
Tom ficou em silêncio por um longo tempo. Casamento era uma palavra grande. Significava estabilidade, algo que ele sempre evitou. Mas, ao pensar no rosto triste de PK lá no telhado, ele percebeu que não havia nada que ele não faria para ver aquele sorriso neon de volta.
— Está bem. Vamos fazer isso. Mas tem que ser do nosso jeito. Nada de igrejas ou sermões chatos.
— Deixe os detalhes comigo — Tord sorriu, aquele brilho de estrategista voltando aos seus olhos. — Eu conheço um lugar.
O plano foi executado com a precisão de uma invasão militar. Tord usou seus contatos (e uma quantia considerável de dinheiro que ele "pegou emprestado" dos fundos da Armada Vermelha) para reservar a suíte presidencial de um dos hotéis mais exclusivos e tecnológicos de Londres, um edifício que contava com um observatório astronômico privado no topo.
Quando chegaram ao saguão do hotel, a recepção foi exatamente como Tom previu. O recepcionista, um homem de terno impecável e nariz empinado, olhou para o trio com um desdém mal disfarçado. Ele viu Tom com seu moletom azul e olhos negros, Tord com seu moletom vermelho e expressão de poucos amigos, e PK, que usava uma camiseta de banda, calças coloridas e tinha o cabelo mais brilhante que a decoração do hotel.
— Sinto muito — disse o recepcionista, a voz pingando condescendência —, mas a reserva foi feita para dois adultos. Não permitimos... aglomerações desnecessárias nos quartos de luxo. E este é um estabelecimento de prestígio, não um albergue para... pessoas do seu tipo.
Tom deu um passo à frente, os olhos começando a brilhar em roxo, mas Tord colocou a mão metálica em seu peito, parando-o. O norueguês inclinou-se sobre o balcão, o sorriso calmo e predatório.
— Escute aqui, meu caro — Tord disse em um tom de voz baixo que fez o recepcionista empalidecer. — O dono deste hotel tem uma dívida de gratidão com a minha organização por eu não ter explodido o iate dele no Mediterrâneo no ano passado. Se você disser mais uma palavra sobre "pessoas do nosso tipo", eu vou garantir que sua próxima vaga de emprego seja como alvo de testes de mísseis na Noruega. Estamos entendidos?
O recepcionista engoliu em seco, as mãos tremendo enquanto entregava os cartões magnéticos.
— Quarto 502, senhores. Tenham uma... excelente estadia.
PK, que estivera em silêncio durante todo o trajeto, soltou uma risadinha fraca.
— Você é assustador, Tordie.
— Eu sou eficiente, Liam — Tord piscou para ele.
A noite foi planejada para ser um bálsamo para a alma de PK. O hotel oferecia uma piscina aquecida privativa, onde a água parecia seda contra a pele. Eles pediram o jantar mais caro do cardápio — lagosta, bifes wagyu e sobremesas que pareciam obras de arte. Tom e Tord se desdobraram em carinhos; Tom fazia massagens nos ombros de PK enquanto Tord contava histórias engraçadas sobre as trapalhadas de Paul e Patryk na base.
Aos poucos, a tensão nos ombros de PK começou a ceder. Ele riu quando Tom tentou comer um escargot e quase quebrou o dente na casca, e corou quando Tord o puxou para um beijo longo e profundo na piscina, sob as luzes subaquáticas.
— Vocês estão sendo muito fofos hoje — PK comentou, enquanto eles se secavam e vestiam roupões de seda oferecidos pelo hotel. — O que está acontecendo? É algum feriado humano que eu esqueci?
— É apenas uma noite especial — Tom disse, pegando a mão de PK. — Venha conosco.
Eles subiram ao observatório. Era uma cúpula de vidro no topo do prédio, onde telescópios de alta potência apontavam para o cosmos. O céu de Londres, geralmente poluído, parecia limpo naquela noite, revelando uma tapeçaria de estrelas.
PK caminhou até o vidro, olhando para cima.
— Galaczor disse que o tempo de vocês é como um piscar de olhos para o universo — PK sussurrou, a tristeza voltando a nublar seus olhos. — Eu olho para o espaço e vejo o quanto eu vou ficar sozinho quando vocês se forem. Eu não quero viver mil anos se vocês não estiverem neles.
Tom e Tord se entreolharam. Estava na hora.
Tord deu um passo à frente, segurando a mão direita de PK, enquanto Tom segurava a esquerda.
— Liam — Tord começou, sua voz perdendo toda a aspereza habitual —, o tempo é uma medida humana, e o espaço é uma medida Arkops. Mas o que sentimos por você... isso não cabe em nenhuma dessas escalas.
Tom tirou do bolso do roupão duas caixinhas pequenas. Ao abri-las, revelou dois anéis de titânio negro, um com uma pequena pedra de safira azul e outro com um rubi vermelho. No centro, havia uma pequena incrustação de um material brilhante e neon, que Tord explicou ser um fragmento da nave em que PK caiu na Terra.
— Nós não podemos prometer que seremos imortais — disse Tom, olhando nos olhos de PK com uma sinceridade que o canadense nunca tinha visto antes. — Mas podemos prometer que, enquanto houver um batimento cardíaco em nossos corpos, ele será seu. Queremos que você seja nosso marido, PK. Queremos oficializar que este caos é permanente.
PK olhou para os anéis, e depois para os dois homens que amava. Seu coração disparou, mas, para a surpresa de Tom e Tord, ele não pulou de alegria. Em vez disso, ele deu um passo atrás, as lágrimas começando a rolar livremente pelo rosto.
— Não — PK soluçou, balançando a cabeça. — Eu não posso.
O mundo de Tom e Tord pareceu desmoronar por um segundo.
— Por que, Liam? — Tord perguntou, a voz falhando. — Nós fizemos algo errado? Você não nos ama mais?
— Eu amo vocês mais que tudo! — PK gritou, abraçando o próprio corpo. — É por isso que eu não posso aceitar! Se eu aceitar, se nos casarmos, isso torna tudo mais real. Torna a perda mais real. Eu vou ser o "Viúvo de Saturno". Eu vou carregar essas alianças por oitocentos anos depois que vocês virarem poeira! Eu não quero um contrato que termine com a morte de vocês!
Tom caminhou até ele, envolvendo-o em um abraço de urso, apertando-o contra o peito.
— Escuta aqui, seu alienígena teimoso — Tom murmurou contra o cabelo neon. — Você está preocupado com o final da história quando ainda estamos no meio do melhor capítulo. Sim, nós vamos morrer um dia. Mas você prefere ter tido cinquenta anos de felicidade total conosco ou mil anos de nada?
Tord aproximou-se, colocando a mão nas costas de PK.
— Além disso — Tord disse com um sorriso de canto —, eu sou um gênio da tecnologia, PK. Quem disse que eu não vou encontrar um jeito de transferir minha consciência para um robô? Ou que o Tom não vai se tornar um espírito de puro álcool que vai assombrar você para sempre? Nós somos difíceis de matar, Liam.
PK soltou uma risada entre os soluços, limpando o nariz na seda do roupão.
— Vocês são idiotas.
— Somos os seus idiotas — Tom reforçou, afastando-se um pouco para olhar o rosto de PK. — O casamento não é sobre o tempo que nos resta, PK. É sobre o fato de que, neste exato momento, em toda a imensidão do universo, não há nenhum outro lugar onde preferiríamos estar. Nós escolhemos você. Hoje, amanhã e em cada segundo que nos for permitido.
PK olhou para as estrelas lá fora e depois para os rostos de Tom e Tord. Ele percebeu que a eternidade era um conceito vazio se não houvesse alguém para compartilhar o café da manhã, as brigas bobas e o calor sob as cobertas.
— Vocês prometem... que vão lutar para ficar o máximo de tempo possível? — PK perguntou, a voz ainda trêmula.
— Eu pretendo viver até os cento e dez anos só para te irritar, PK — Tom brincou.
— Eu já tenho planos para a minha imortalidade cibernética, mas prometo priorizar você — Tord completou.
PK sorriu, um sorriso que iluminou o observatório mais do que qualquer estrela distante.
— Então... perguntem de novo.
Tom e Tord se ajoelharam ao mesmo tempo, em uma sincronia perfeita que eles provavelmente tinham ensaiado escondidos.
— Liam Peekers — disseram em uníssono —, você aceita ser nosso marido e o centro do nosso universo caótico?
— Sim! — PK exclamou, jogando-se sobre os dois, derrubando-os no chão do observatório. — Mil vezes sim!
Eles riram e se beijaram ali mesmo, um emaranhado de roupões de seda, anéis de titânio e promessas que desafiavam a lógica da mortalidade. Tom colocou o anel de safira no dedo de PK, e Tord colocou o de rubi. PK, por sua vez, pegou as alianças que Tom e Tord já usavam — simples faixas de prata que eles tinham comprado anteriormente — e as beijou, selando o pacto.
O restante da noite foi uma celebração silenciosa e fofa. Eles voltaram para a suíte e se amontoaram na cama king-size, que era grande o suficiente para acomodar o trisal sem que ninguém caísse. PK ficou no meio, com a cabeça no peito de Tom e as pernas entrelaçadas nas de Tord.
— Sabe — PK murmurou, já quase dormindo —, o Galaczor estava errado sobre uma coisa.
— O quê? — perguntou Tord, acariciando o braço de PK.
— Vocês não são distrações temporárias. Vocês são a minha casa. E a casa de um Arkops é onde o coração dele está ancorado.
Tom deu um beijo no topo da cabeça de PK, fechando os olhos.
— Durma, pequeno alien. Amanhã temos que explicar pro Edd por que você está usando joias caras e por que o Tord ameaçou o recepcionista.
— Deixe isso para o futuro — Tord bocejou. — O presente está bom demais.
E ali, no silêncio luxuoso do hotel, sob o eco das estrelas que um dia veriam o fim de tudo, o trisal adormeceu. Eles não tinham vencido o tempo, mas tinham feito algo muito mais difícil: tinham vencido o medo. E para Liam Peekers, isso valia mais do que toda a eternidade de Saturno.