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Reader x Dobby o elfo doméstico

O Aroma da Canela e o Brilho de um Olhar Verde

O castelo de Hogwarts era muito maior do que as histórias que seus pais contavam podiam descrever. Para S/N, cada corredor de pedra parecia sussurrar sobre sua própria inadequação. Ela caminhava com os dedos entrelaçados, apertando as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. A ansiedade era uma névoa espessa em seu peito. Ser um aborto em uma família de bruxos era como ser um livro com as páginas em branco em uma biblioteca infinita; você pertencia ao lugar, mas não tinha utilidade.

Ou era o que ela pensava até receber a carta de Alvo Dumbledore.

— Cozinhas... cozinhas... — sussurrou ela, a voz melodiosa falhando pelo nervosismo. — Perto do quadro da fruteira. Preciso fazer cócegas na pera.

S/N parou diante da enorme pintura de uma natureza-morta. Ela olhou para os lados, temendo que algum aluno ou, pior, algum professor como aquele homem alto e severo de vestes pretas que passara por ela mais cedo, a visse ali. Com um movimento hesitante, ela esticou o dedo e acariciou a grande pera verde. O fruto soltou uma risadinha aguda e, num estalo mágico, transformou-se em uma maçaneta de ouro.

Ao abrir a porta, o calor a atingiu primeiro. Era um calor acolhedor, carregado com o cheiro de pão fresco, canela e ensopado de carne. O lugar era vasto, com tetos altos e quatro mesas idênticas às do Salão Principal posicionadas exatamente abaixo delas. E havia centenas de pequenas figuras se movendo com uma velocidade frenética.

S/N deu um passo para dentro, sentindo-se uma gigante desajeitada. Sua força física sempre fora um problema; ela já havia quebrado três maçanetas em casa apenas por estar com pressa. Ela tentou sorrir, aquele sorriso que praticava no espelho para parecer amigável, mas seus lábios tremiam de pura ansiedade.

— Com licença... — começou ela, mas sua voz foi abafada pelo tilintar de centenas de pratos de prata.

— Uma humana! — guinchou um elfo doméstico que passava carregando uma pilha de bandejas maior que ele mesmo. — Uma humana nas cozinhas!

Em questão de segundos, o caos organizado parou. Dezenas de pares de olhos grandes, como pires, voltaram-se para ela. S/N sentiu o rosto arder. Ela queria desaparecer, fundir-se às sombras das panelas de cobre.

— Eu... eu sou a nova funcionária de limpeza — disse ela, as mãos escondidas nos bolsos do avental. — O Diretor Dumbledore me mandou procurar por Dobby.

Um movimento súbito ocorreu perto do fogo. Um elfo que se destacava dos outros — não apenas pelo sorriso largo, mas pelas vestimentas excêntricas que incluíam vários gorros de lã sobrepostos e meias de cores berrantes que não combinavam — correu em sua direção.

— Harry Potter não disse que uma dama viria! — exclamou o elfo, parando diante dela com uma reverência tão profunda que seu nariz comprido quase tocou o chão de pedra. — Dobby está muito honrado! Dobby é o elfo que a senhorita procura!

S/N piscou, encantada. Havia algo na energia daquele pequeno ser que acalmou instantaneamente sua ansiedade.

— Oh, olá, Dobby. Eu sou S/N. É um prazer conhecer você.

— A senhorita disse "prazer"! — Dobby olhou para os outros elfos, que observavam a cena com desconfiança e curiosidade. — Uma humana educada! Dobby ouviu falar que a senhorita ajudará com o trabalho pesado.

— Sim, eu... eu não tenho magia — confessou ela, baixando o tom de voz, esperando o costumeiro olhar de desprezo que recebia dos bruxos lá fora. — Mas sou forte. Posso esfregar o chão, carregar os caldeirões, o que vocês precisarem.

— Dobby é um elfo livre! — proclamou ele, estufando o peito por baixo de um colete minúsculo. — E Dobby sabe o que é ser diferente. Não se preocupe, senhorita S/N. Hogwarts é um lugar para todos que têm o coração bom.

Dobby começou a guiá-la pela cozinha, apresentando-a aos outros. Havia Winky, que parecia estar cochilando perto de uma garrafa de cerveja amanteigada e apenas soltou um soluço em resposta, e outros elfos como Mipsy e diversos nomes que S/N tentava memorizar desesperadamente. A maioria dos elfos domésticos de Hogwarts era tímida e olhava para S/N com uma mistura de medo e surpresa. Eles não estavam acostumados a uma humana que se oferecesse para lavar a louça com as próprias mãos.

— A senhorita pode começar com as mesas de preparação — sugeriu Dobby, apontando para enormes blocos de madeira que precisavam ser raspados e limpos para o lanche da tarde. — Os alunos descem em pouco tempo para buscar guloseimas.

S/N assentiu vigorosamente. Ela pegou um balde de água quente e um escovão. Ao aplicar a primeira força no movimento de limpeza, o estalo da madeira ecoou.

— Oh, céus! — exclamou ela, vendo que quase arrancara uma lasca do carvalho. — Desculpe, Dobby, eu... às vezes eu não controlo minha força. Eu morro de medo de estragar as coisas.

Dobby, que estava polindo um bule de chá por perto, olhou para a marca na mesa e depois para os braços de S/N. Seus olhos verdes brilharam com algo que não era apenas surpresa, mas uma admiração genuína.

— A senhorita é muito poderosa! — disse ele, maravilhado. — Dobby nunca viu uma humana tão forte sem usar varinha. É um dom, senhorita S/N!

Ela sentiu o coração aquecer. Ninguém nunca chamara sua força de "dom"; era sempre um "problema" ou uma "grosseria" em sua casa.

As horas passaram e o trabalho era exaustivo, mas S/N sentia-se útil pela primeira vez em anos. Ela limpava com uma velocidade que deixava os outros elfos boquiabertos. Quando a fome finalmente bateu — aquela fome voraz que sempre vinha após o esforço físico —, ela tentou ignorar, mas seu estômago soltou um ronco que pareceu o rugido de um dragão faminto.

— A senhorita precisa comer! — Dobby apareceu como se tivesse aparatado. Ele trazia um prato empilhado com tortinhas de rins, fatias de pão com mel e uma caneca de suco de abóbora.

— Oh, Dobby, eu não posso parar agora, ainda falta aquela pilha de panelas...

— Dobby insiste! — Ele colocou o prato em um canto limpo da bancada. — Um trabalhador feliz é um trabalhador alimentado. Dobby também gosta de comer enquanto trabalha.

S/N sentou-se e começou a comer com uma vontade que faria Rony Weasley parecer um amador. Dobby ficou por perto, fingindo organizar uns panos de prato, mas seus olhos não saíam dela. Ele observava a maneira como ela sorria ao saborear o mel, e como seus olhos brilhavam quando um dos gatos de Hogwarts, um felino cinzento e peludo, se aproximou dela.

S/N, sem perceber que estava sendo observada, começou a cantarolar baixinho enquanto acariciava o gato com uma mão e comia com a outra. Era uma melodia antiga, uma canção de ninar que sua mãe cantava para ela quando a solidão de ser um aborto pesava demais. Sua voz era doce, divina, como o som de harpas ao longe.

Dobby parou o que estava fazendo. Ele nunca ouvira nada tão bonito. Para um elfo que passara a maior parte da vida ouvindo gritos e ordens cruéis dos Malfoy, aquela voz era como um bálsamo. Ele sentiu algo estranho em seu peito, um calor que não vinha dos fogões da cozinha.

— A senhorita canta como um anjo — sussurrou Dobby, as orelhas pontudas tremendo.

S/N deu um pulo, quase derrubando a caneca de suco. O rosto dela ficou instantaneamente vermelho como um tomate.

— Você ouviu? — perguntou ela, escondendo o rosto atrás das mãos. — Por favor, Dobby, não conte a ninguém! Eu morro de vergonha. Eu não quero que achem que sou uma aberração cantora.

— Dobby guardará o segredo — prometeu ele, aproximando-se e colocando uma mão pequena e trêmula sobre o braço dela. — Mas a senhorita não deveria ter vergonha de algo tão maravilhoso. Dobby acha que a senhorita brilha mais que os lustres do Salão Principal!

A semana passou e uma rotina se estabeleceu. S/N tornou-se a "gigante gentil" das cozinhas. Ela trazia pequenos presentes para os elfos: pedaços de fitas coloridas que achava pelo castelo, flores prensadas para Winky, e para Dobby, ela fizera algo especial.

— Para mim? — perguntou Dobby, olhando para o pequeno objeto nas mãos de S/N.

Era uma meia tricotada à mão. Não era perfeita; alguns pontos estavam frouxos por causa da força de S/N, e ela era de um tom de amarelo canário com pequenas flores bordadas na borda.

— Eu sei que você gosta de meias — disse ela, timidamente, sem olhar nos olhos dele. — E eu fiz este pequeno artesanato para agradecer por ser tão paciente comigo. Você é meu melhor amigo aqui, Dobby.

Dobby pegou a meia como se fosse feita de ouro puro. Seus grandes olhos verdes encheram-se de lágrimas que brilhavam como esmeraldas.

— S/N deu uma meia para Dobby... — ele soluçou, limpando o nariz na própria túnica. — Mas Dobby já é livre! Dobby não precisa de meias para ser livre agora... mas Dobby quer esta meia mais do que qualquer coisa no mundo!

Ele a vestiu imediatamente por cima de outra meia listrada, ignorando que o tamanho não combinava.

— Ficou... bem colorida — disse ela, sorrindo e esticando a mão para limpar uma lágrima do rosto do elfo.

O toque dela foi suave, apesar da força bruta que ela possuía. Dobby fechou os olhos, sentindo a pele quente contra a sua. Ele era um elfo, e ela era uma humana. No mundo dos bruxos, havia barreiras, leis e preconceitos. Mas ali, sob a luz das tochas e o cheiro de alecrim, Dobby sentia que morreria por ela. Ele não entendia bem o que era o amor dos humanos — aquele que ele via Hermione Granger e Ron Weasley trocarem em olhares furtivos —, mas ele sabia que queria estar perto de S/N para sempre.

No entanto, a paz em Hogwarts era sempre frágil.

Uma noite, enquanto S/N terminava de polir as grandes chaleiras de prata, um estrondo ecoou nos corredores acima. Não era o som de passos de alunos, mas algo pesado e carregado de malícia.

— O que foi isso, Dobby? — perguntou S/N, largando o pano, o corpo tremendo de ansiedade.

Dobby ficou tenso, suas orelhas pontudas girando em direção à porta.

— Algo está errado, senhorita S/N. Muito errado. Kreacher disse que sentiu cheiro de magia das trevas perto das masmorras.

A porta da cozinha foi escancarada. Não era um elfo, mas um vulto alto, usando uma máscara de prata que brilhava sob a luz do fogo. Um Comensal da Morte. Ele parecia ter entrado pelas passagens secretas, talvez buscando sabotar o jantar ou encontrar Harry Potter.

— Ora, ora... o que temos aqui? — a voz do homem era arrastada e cruel. — Uma trouxa imunda escondida nas cozinhas? E um elfo traidor?

S/N sentiu o medo paralisá-la por um segundo. Sua ansiedade gritava em sua mente para correr, para se esconder sob as mesas. Mas então ela olhou para baixo e viu Dobby. O pequeno elfo estava na frente dela, os braços abertos, tentando protegê-la com seu pequeno corpo, mesmo que o bruxo já estivesse erguendo a varinha.

— O senhor não vai tocar na senhorita S/N! — gritou Dobby, os dedos estalando com faíscas de magia.

O bruxo riu e ergueu a varinha.

— *Crucio!*

Dobby foi atingido e caiu no chão, contorcendo-se em dor. O grito dele rasgou o silêncio da cozinha e atingiu o coração de S/N como uma lâmina incandescente.

Algo dentro de S/N quebrou. Não foi uma maçaneta ou uma mesa de madeira. Foi a barreira da sua timidez e do seu medo. O amor que ela sentia por aquele pequeno ser, a única criatura que a fizera se sentir especial e útil em trinta e quatro anos, transformou sua ansiedade em uma fúria bruta e descomunal.

— Deixe... ele... em paz! — rugiu ela, sua voz perdendo a doçura e ganhando o peso de uma tempestade.

S/N avançou. Ela não tinha varinha, não tinha feitiços. Mas ela tinha a força de dez cavalos e um coração transbordando compaixão. Antes que o Comensal da Morte pudesse reagir ou conjurar outro feitiço, ela agarrou o braço dele. O som do osso quebrando foi nítido no silêncio da cozinha. Com um grito de dor, o homem deixou a varinha cair. S/N não parou; ela o levantou pelo colarinho e o arremessou contra a parede de pedra com tanta força que o reboco rachou e o homem desabou inconsciente.

S/N caiu de joelhos ao lado de Dobby, tremendo violentamente, as lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Dobby! Dobby, fale comigo! Por favor, não me deixe!

O elfo abriu os olhos devagar. A dor do feitiço estava passando, substituída por um espanto absoluto e uma adoração que beirava o sagrado.

— A senhorita... a senhorita salvou Dobby — sussurrou ele, esticando a mão pequena para tocar a de S/N. — A senhorita enfrentou um bruxo das trevas por Dobby. Nenhum humano nunca fez isso...

— Eu nunca deixaria ninguém machucar você — disse ela, soluçando e puxando-o para um abraço apertado, tomando o cuidado para não esmagá-lo. — Você é meu amigo, Dobby. Meu melhor amigo.

Dobby enterrou o rosto no avental dela, sentindo o cheiro de sabão e canela. Ele percebeu, naquele momento, que S/N não era apenas uma humana desajeitada. Ela era sua heroína.

— Dobby acha... — começou ele, a voz abafada — que Dobby gostaria de ficar com a senhorita para sempre. Se a senhorita aceitar um elfo como seu... seu companheiro.

S/N sorriu entre as lágrimas, beijando o topo da cabeça dele, logo acima dos vários gorros de lã.

— Eu adoraria, Dobby. Mais do que tudo.

Ela ainda era ingênua demais para perceber que, nos olhos verdes do elfo, não havia apenas gratidão, mas uma paixão romântica que desafiava as leis da natureza bruxa. E Dobby, por sua vez, estava perfeitamente feliz em esperar o tempo que fosse necessário para que sua "grande dama" percebesse que o coração de um elfo livre batia inteiramente por ela.

Enquanto os outros elfos, liderados por um Kreacher resmungão mas eficiente, saíam de seus esconderijos para amarrar o intruso, S/N e Dobby permaneceram ali, sentados no chão da cozinha. Eles sabiam que o amanhã traria perguntas e talvez mais perigos, mas no brilho das brasas do fogão, eles encontraram a coragem que sempre lhes faltou. S/N não era mais uma inútil, e Dobby não era apenas um servo. Eles eram, um para o outro, o começo de uma história que nenhum livro de Hogwarts poderia jamais conter.