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Reader x Dobby o elfo doméstico

O Despertar das Chaleiras e o Segredo do Coração Élfico

O aroma de pão de abóbora recém-saído do forno misturava-se ao cheiro metálico de poeira e pedra úmida. S/N caminhava pelos corredores que levavam às cozinhas, sentindo o coração martelar contra as costelas como um pássaro aprisionado. Suas mãos, grandes e calejadas pelo trabalho pesado que sempre fora seu refúgio, apertavam as alças do balde de metal vazio. Ela era uma mulher de trinta e quatro anos, um aborto em um mundo de varinhas e feitiços, e Hogwarts era sua última chance de não se sentir um fracasso completo.

Ao chegar diante do quadro da fruteira, ela hesitou. O Diretor Dumbledore fora gentil, seus olhos azuis brilhando por trás dos óculos de meia-lua quando explicou que ela não era "menos" por não ter magia, mas sim "diferente". Ele a instruíra a procurar por Dobby. Um elfo livre, dissera ele. S/N esticou o dedo indicador e, com uma delicadeza que raramente conseguia aplicar devido à sua força descomunal, fez cócegas na pera verde pintada. A fruta soltou uma risadinha aguda e transformou-se em uma maçaneta de ouro.

Ao abrir a porta, o calor das cozinhas a atingiu como um abraço. O lugar era vasto, com tetos altos e mesas que espelhavam as do Salão Principal logo acima. Centenas de pequenas figuras se moviam em uma coreografia frenética. Pratos flutuavam, chaleiras assoviavam e o som de facas picando vegetais criava uma percussão rítmica. S/N deu um passo para dentro, sentindo-se uma gigante desajeitada.

— Com licença... — começou ela, mas sua voz, doce e melodiosa, foi abafada pelo estalo de um elfo que aparatava bem à sua frente.

— Uma humana! — exclamou o pequeno ser. Ele usava várias camadas de roupas excêntricas, incluindo um gorro de lã que parecia prestes a cair sobre seus olhos verdes e enormes. — A senhorita deve ser a nova ajudante que o Diretor Dumbledore prometeu!

S/N sentiu o rosto arder em um tom de carmesim. Ela baixou o olhar, sua timidez crônica agindo como uma âncora.

— Sim... eu sou S/N. Eu vim para ajudar na limpeza. Sou um aborto, senhor... eu não tenho magia, mas posso lavar as louças e o chão. Sou muito forte, prometo não ser um estorvo.

O elfo deu um salto de alegria, suas orelhas de morcego balançando vigorosamente.

— Dobby é o nome deste elfo, senhorita S/N! Dobby é um elfo livre e fica muito feliz em conhecer uma humana tão educada! Os outros elfos são um pouco ariscos com estranhos, mas Dobby vai mostrar tudo à senhorita.

Dobby começou a saltitar pela cozinha, apresentando-a ao caos organizado. Ele explicou sobre os horários dos alunos, como a comida era enviada para cima e como os elfos domésticos de Hogwarts se orgulhavam de seu trabalho invisível. S/N ouvia tudo com atenção, maravilhada. Ela viu Winky, que parecia tristonha em um canto, e outros elfos cujos nomes ela tentava memorizar desesperadamente.

— A senhorita pode começar com as chaleiras de cobre — sugeriu Dobby, apontando para uma pilha de recipientes que pareciam ter servido chá para gerações de bruxos. — Elas estão muito manchadas.

S/N assentiu e arregaçou as mangas de seu vestido simples. Ela pegou uma das chaleiras e, ao aplicar o sabão e o escovão, ouviu um estalo metálico.

— Oh, não! — exclamou ela, olhando para a alça da chaleira que agora estava levemente amassada entre seus dedos. — Desculpe, Dobby! À vezes eu esqueço que sou forte demais. Eu quebrei a alça?

Dobby aproximou-se, examinando a peça. Seus olhos brilharam com uma curiosidade nova.

— A senhorita tem a força de um trasgo das montanhas, mas o toque de uma fada! — disse ele, maravilhado. — Dobby acha que a senhorita não deve se desculpar por ser poderosa. É um dom!

S/N sentiu algo estranho no peito. Em trinta e quatro anos, ninguém jamais chamara sua força de "dom". Para seus pais, era algo a ser escondido; para os vizinhos bruxos, era uma característica física estranha. Ela sorriu para Dobby, um sorriso tão genuíno e calmo que o elfo pareceu vacilar por um momento, as bochechas pálidas ganhando um tom rosado.

As horas passaram e S/N mergulhou no trabalho. Ela lavava as mesas de carvalho com uma energia invejável, carregava sacos de batatas que normalmente exigiriam quatro elfos e, o mais importante, conversava com cada criatura que cruzava seu caminho.

— Olá, pequena — disse ela a uma elfa chamada Mipsy, que tentava alcançar uma prateleira alta. — Deixe que eu pego isso para você.

S/N alcançou o frasco de canela com facilidade e o entregou com uma reverência tímida. Mipsy olhou para ela com olhos arregalados de surpresa.

— A humana ajudou Mipsy? — sussurrou a elfa. — Sem dar ordens?

— Eu estou aqui para trabalhar com vocês, não sobre vocês — respondeu S/N, sua voz soando como uma canção de ninar.

Dobby, que polia os talheres de prata por perto, não conseguia desviar o olhar. Ele nunca vira um humano agir assim. Harry Potter era seu herói, sim, mas S/N era... diferente. Ela tinha um cheiro de flores silvestres e sabão, e o modo como ela se movia, apesar de sua força bruta, tinha uma graça que o encantava.

Quando o sino do intervalo ecoou pelo castelo, a cozinha tornou-se um turbilhão. Centenas de bandejas de sanduíches e jarras de suco de abóbora precisavam ser preparadas. S/N trabalhava em silêncio, mas seu apetite voraz começou a dar sinais. Seu estômago soltou um ronco tão alto que parecia o rugido de um dragão faminto.

Ela sentiu uma vergonha profunda, escondendo o rosto atrás de uma pilha de pratos.

— A senhorita S/N está com fome? — perguntou Dobby, surgindo ao seu lado com a agilidade característica de sua espécie.

— Eu... eu gasto muita energia — confessou ela, a voz sumindo. — Eu como muito, Dobby. É vergonhoso. As pessoas dizem que eu pareço um trasgo comendo.

Dobby negou com a cabeça tão forte que seu gorro caiu.

— Dobby gosta de ver a senhorita saudável! Dobby vai preparar o melhor banquete para a senhorita após o turno!

Ele se afastou para atender a um pedido urgente de tortinhas de rins, mas seu coração batia de um jeito novo. Ele sentia uma vontade imensa de proteger aquela humana que, apesar de poder derrubar uma parede com um soco, parecia ter a alma feita de vidro.

À noite, quando a maioria dos elfos já estava se recolhendo para seus cestos ou preparando o café da manhã do dia seguinte, S/N sentou-se em um canto escuro da cozinha, perto da lareira. Ela retirou de sua bolsa um pequeno pedaço de madeira e uma faca de entalhe. Era seu hobby secreto: fazer pequenos animais de madeira para dar de presente.

Dobby aproximou-se silenciosamente. Ele trazia uma caneca de chocolate quente e um prato empilhado com coxas de frango assadas e pudim de Yorkshire.

— Para a senhorita — disse ele, colocando a comida ao lado dela.

— Oh, Dobby, você é um anjo. — S/N começou a comer com uma satisfação que não escondia. Ela não percebeu que Dobby a observava com uma admiração crescente.

— O que a senhorita está fazendo com essa madeira? — perguntou ele, curioso.

— É um pequeno elfo — disse ela, mostrando a peça inacabada. — É para você, Dobby. Para agradecer por ter sido meu primeiro amigo em Hogwarts.

Dobby sentiu as lágrimas inundarem seus olhos. Ele, que passara anos sendo maltratado pelos Malfoy, que fora chutado e ameaçado, agora recebia um presente feito à mão por uma humana que o tratava como um igual.

— S/N fez um presente para Dobby? — ele soluçou, limpando o nariz na manga de sua túnica improvisada. — Dobby nunca recebeu algo tão bonito!

— Ora, não chore, meu querido — disse ela, esticando a mão para acariciar a orelha dele. O toque foi suave, mas a força latente de S/N era perceptível na firmeza de seus dedos. — Você é especial, Dobby. Um elfo livre e corajoso.

Naquela noite, algo mudou nas cozinhas de Hogwarts. Não era apenas a limpeza impecável ou a organização das despensas. Era a presença de S/N. Ela começou a morar em um pequeno quarto anexo à cozinha, que Dumbledore gentilmente cedera. Ela decorou o lugar com artesanatos e livros de romance que escondia sob o travesseiro.

Certa noite, enquanto a lua brilhava através das janelas altas, S/N pensou estar sozinha. Ela começou a dançar. Era uma dança lenta, rodopiando com um esfregão imaginário, seus pés descalços fazendo pouco barulho nas pedras frias. Ela cantava baixinho uma música que aprendera na infância, sua voz divina ecoando suavemente pelas chaleiras de cobre.

Dobby estava escondido atrás de um saco de farinha, paralisado. Ele nunca vira nada tão belo. Para ele, S/N não era apenas uma humana; ela era uma divindade de gentileza e força. Ele sentiu uma pontada de algo que não compreendia bem — um desejo de estar sempre perto dela, de ouvir sua voz e garantir que ninguém jamais a fizesse chorar novamente.

No entanto, a paz de Hogwarts era sempre tênue.

Semanas depois, enquanto S/N polia as mesas para o grande banquete, um grupo de alunos da Sonserina entrou na cozinha. Eles estavam rindo, liderados por um rapaz loiro de expressão arrogante que S/N reconheceu pelas descrições: Draco Malfoy.

— Vejam só — disse Malfoy, apontando para S/N. — A nova atração de Dumbledore. Uma faxineira sem magia. Um aborto limpando o chão dos bruxos. Que visão apropriada.

S/N sentiu a ansiedade subir por sua garganta. Ela apertou o pano de limpeza com tanta força que o tecido começou a rasgar.

— Por favor, senhor... eu só estou fazendo meu trabalho — disse ela, a voz trêmula.

— Seu trabalho é ser uma aberração — retrucou Malfoy, aproximando-se. — Meu pai disse que Hogwarts está caindo aos pedaços, aceitando qualquer lixo para limpar as mesas.

Dobby apareceu em um estalo entre Malfoy e S/N. Seu rosto estava retorcido em uma fúria que S/N nunca imaginou que ele possuísse.

— O jovem mestre Malfoy não deve falar assim com a senhorita S/N! — gritou Dobby, seus dedos estalando com uma magia latente. — A senhorita S/N é mil vezes mais nobre que qualquer Malfoy!

— Saia da frente, seu traidor imundo! — Malfoy ergueu a varinha. — *Locomotor Mortis!*

O feitiço passou raspando por Dobby, mas S/N, vendo seu amigo em perigo, agiu por instinto. Ela não tinha magia, mas tinha algo que Malfoy não esperava. Ela deu um passo à frente e, com um movimento rápido, agarrou a ponta da varinha de Malfoy antes que ele pudesse conjurar o próximo feitiço.

Com um movimento seco, a varinha de espinheiro quebrou-se como um graveto seco nas mãos de S/N.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os outros alunos da Sonserina recuaram, os olhos arregalados. Malfoy olhou para os restos de sua varinha em choque.

— Saia da minha cozinha — disse S/N. Sua voz não era mais doce; era profunda e carregada de uma autoridade que vinha de séculos de ancestrais bruxos, mesmo que ela não tivesse o poder deles. — Agora.

Malfoy e seus amigos fugiram, tropeçando uns nos outros. S/N caiu de joelhos logo em seguida, a respiração ofegante, as mãos tremendo violentamente. A adrenalina estava sendo substituída por um terror absoluto do que ela acabara de fazer.

— Eu quebrei a varinha dele... — soluçou ela. — Eu vou ser presa. Eu sou uma aberração, Dobby. Eu sou perigosa.

Dobby aproximou-se e, pela primeira vez, ele a abraçou. Seus braços pequenos mal rodeavam a cintura dela, mas ele a apertou com toda a força que tinha.

— A senhorita salvou Dobby — sussurrou ele. — A senhorita foi a guerreira mais linda que Dobby já viu. Ninguém vai prender a senhorita. Dobby vai contar ao Diretor Dumbledore que Malfoy atacou primeiro.

S/N chorou no ombro do elfo, sentindo-se pequena apesar de seu tamanho. Naquela noite, ela percebeu que não era apenas uma faxineira. Ela era a protetora daquelas pequenas criaturas. E Dobby, observando-a adormecer horas depois em seu pequeno quarto, sentiu que seu coração de elfo livre finalmente encontrara um novo propósito — não por escravidão, mas por amor.

Ele sentou-se ao pé da cama dela, segurando o pequeno elfo de madeira que ela lhe dera. Ele sabia que o caminho seria difícil. Ela era uma humana boba que não percebia os próprios encantos, e ele era um elfo doméstico. Mas em Hogwarts, onde estátuas ganhavam vida e escadas mudavam de lugar, Dobby acreditava que até o amor mais improvável poderia florescer entre as chaleiras de cobre e o brilho do luar.

Ele inclinou-se e beijou suavemente a mão de S/N, prometendo a si mesmo que, enquanto ele respirasse, nenhuma sombra tocaria a mulher que lhe dera uma meia, um sorriso e um motivo para acreditar que ele era mais do que um servo. Ele era Dobby, um elfo livre, e ele estava perdidamente apaixonado pela humana que limpava o chão com a força de um gigante e o coração de um anjo.