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Recomeço

O Eco do Passado e o Ritmo do Agora

A adrenalina do chá revelação ainda corria pelas veias de Maria, misturada com uma paz que ela não sentia há décadas. O azul da fumaça já havia se dissipado no ar, mas a alegria de saber que esperava um menino — um pequeno Sardelli que já era amado pelas irmãs — permanecia vibrante. Enquanto os convidados se dispersavam pelos cantos do jardim, aproveitando o buffet de comidas rústicas e a playlist de rock clássico que Patrício selecionara com tanto esmero, Maria sentou-se por um momento em uma poltrona de vime, observando a cena.

As trigêmeas eram um espetáculo à parte. Maya, Ingrid e Astrid, agora com 15 anos, pareciam ter florescido sob a influência de Patrício. Não que ele tentasse substituir Erling; ele nunca cometeria esse erro. Mas Patrício trouxe cores, sons e uma leveza que a austeridade da vida com um atleta de elite muitas vezes sufocava. Ele as tratava como indivíduos, não apenas como "as filhas do Haaland".

— Um centavo pelos seus pensamentos — disse Patrício, aproximando-se com um prato de pequenas bruschettas. Ele se ajoelhou ao lado dela, ignorando o fato de que suas calças jeans escuras estavam manchadas de pó azul.

— Eu estava apenas pensando em como a vida é irônica — Maria sorriu, pegando uma das bruschettas. — Se você me dissesse há três anos que eu estaria grávida, noiva de um músico e quebrando guitarras em um jardim, eu diria que você estava louco.

Patrício riu, aquele som rouco e caloroso que sempre a fazia sentir-se segura.

— O destino tem um senso de humor peculiar. Mas admita, quebrar aquela Telecaster foi terapêutico.

— Foi maravilhoso — Maria suspirou, sentindo o bebê chutar levemente. — Mas acho que a Ingrid ligou para o Erling. Eu vi a expressão dela.

O rosto de Patrício suavizou-se, perdendo um pouco daquela faísca brincalhona. Ele sabia que a sombra de Haaland nunca desapareceria completamente, dada a existência das meninas e o peso da história deles.

— Ela precisava contar, Maria. No fundo, elas ainda querem a aprovação dele, mesmo que ele tenha falhado com vocês. Como ele reagiu?

— Eu não falei com ele. Mas conhecendo Erling... ele deve estar processando o fato de que a vida não parou enquanto ele estava ocupado com a Isabela.

A conversa foi interrompida por Maya, que se aproximou com o celular na mão e uma expressão levemente culpada.

— Mãe? O pai mandou uma mensagem. Ele... ele quer saber se pode passar aqui mais tarde. Para deixar um presente para o bebê e falar com a gente.

Maria sentiu um nó súbito no estômago. O dia estava tão perfeito, tão "deles". A presença física de Erling ali parecia uma intrusão em um santuário que ela levara quase dois anos para construir. Ela olhou para Patrício, buscando apoio silencioso.

— É a sua casa, Maria — disse Patrício, sua voz calma e sem um pingo de ciúme. — E ele é o pai delas. Se você não se sentir confortável, eu posso lidar com isso. Mas se você quiser que ele venha, eu estarei aqui ao seu lado.

Maria respirou fundo, sentindo a mão de Patrício apertar a sua.

— Diga a ele que pode vir, Maya. Mas avise que é uma comemoração rápida. Ainda temos muito o que organizar para o jantar.

Duas horas depois, o sol começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos que combinavam com as flores silvestres do jardim. A maioria dos convidados já havia partido, restando apenas alguns amigos íntimos da banda de Patrício e a família. Quando o som do motor de um carro potente ecoou na rua, o silêncio caiu sobre o grupo.

Erling Haaland entrou no jardim com a hesitação de um homem que sabe que não pertence mais àquele espaço. Ele vestia roupas casuais de grife, mas parecia desconfortável, como se sua estatura física — que o tornava um gigante nos campos — fosse grande demais para a intimidade daquele lar. Em seus braços, ele carregava um urso de pelúcia enorme e uma sacola de uma loja de bebês caríssima.

Isabela não estava com ele. Maria agradeceu internamente por isso; não sabia se conseguiria manter a civilidade se visse a mulher que fora o pivô do fim de seu casamento em seu novo refúgio.

— Oi, meninas — disse Erling, a voz um pouco rouca.

As trigêmeas correram para abraçá-lo. Apesar de tudo, ele era o pai delas. Maria observou a cena de longe, sentindo uma mistura de tristeza e desapego. Patrício levantou-se e ficou ao lado dela, uma âncora sólida.

Após alguns minutos conversando com as filhas, Erling caminhou em direção a Maria e Patrício. Seus olhos caíram imediatamente para a barriga de Maria, que o vestido preto não tentava mais esconder. Houve um lampejo de algo indescritível em seu olhar — arrependimento, choque, talvez uma percepção tardia da perda.

— Maria — ele cumprimentou, a cabeça inclinada. — Você está... você parece bem.

— Eu estou bem, Erling. Muito bem — respondeu ela, mantendo a voz firme e educada. — Este é o Patrício, meu noivo. Mas acredito que você já saiba quem ele é.

Erling estendeu a mão, e Patrício a apertou com firmeza. O contraste entre os dois era fascinante: o atleta loiro e metódico contra o músico de cabelos escuros e alma artística.

— Prazer, Haaland — disse Patrício, curto e direto.

— Eu trouxe isso para o... para o menino — Erling entregou a sacola, o gesto parecendo estranhamente desajeitado para alguém tão coordenado. — Fiquei sabendo pela Ingrid. Parabéns.

— Obrigada — Maria aceitou o presente, colocando-o na mesa ao lado. — Foi uma surpresa para todos nós.

— Imagino que sim — Erling olhou em volta, vendo as guitarras quebradas no canto do jardim. — Uma celebração barulhenta. Bem diferente das que costumávamos ter.

— As coisas mudam, Erling — Maria disse suavemente, mas com um peso de finalidade. — Eu mudei. A casa é diferente, a música é diferente. E a felicidade também tem um som novo agora.

Erling pareceu engolir em seco. Ele olhou para Patrício, que mantinha o braço em volta da cintura de Maria, um gesto de posse gentil e proteção.

— O casamento é em três meses? — perguntou Erling.

— Sim — confirmou Patrício. — Queremos que tudo esteja pronto antes do pequeno chegar. As meninas estão ajudando com a trilha sonora. Vai ser uma cerimônia pequena, mas cheia de significado.

Houve um silêncio desconfortável. Erling parecia querer dizer algo mais, talvez pedir desculpas, talvez perguntar como Maria conseguira seguir em frente com tanta rapidez e graça, enquanto ele ainda se sentia preso em uma rotina que o satisfazia apenas superficialmente. Mas as palavras não vieram.

— Eu não quero atrapalhar — disse Erling, finalmente. — Só queria passar para dar os parabéns. Meninas, vejo vocês no próximo fim de semana?

— Sim, pai! — responderam elas em coro.

Enquanto Erling se retirava, Maria sentiu um peso saindo de seus ombros. Ela esperava que aquele encontro fosse doloroso, mas, em vez disso, sentiu apenas uma confirmação. A confirmação de que o homem que ela amara por 15 anos era agora um estranho que compartilhava o DNA de suas filhas, e nada mais.

— Você está bem? — perguntou Patrício, checando o rosto dela assim que o carro de Erling se afastou.

— Estou maravilhosa — Maria sorriu, virando-se para ele e enlaçando o pescoço do noivo com os braços. — Na verdade, estou com fome. Aquele duelo de guitarras me deixou exausta.

— O jantar está quase pronto — Patrício a beijou no nariz. — Mas antes, eu tenho uma coisa para você.

Ele a conduziu para dentro de casa, longe dos olhos curiosos das meninas que agora brincavam com o urso de pelúcia gigante que Erling deixara. No estúdio de música improvisado na sala de estar, Patrício pegou um estojo de veludo sobre o piano.

— Eu sei que já temos as alianças, mas isso aqui... isso é para o nosso futuro — ele abriu o estojo, revelando um colar com um pequeno pingente de palheta de guitarra feito de ônix, com a letra "M" de Maria e um pequeno espaço onde, ele explicou, seria gravado o nome do bebê assim que nascesse.

— Patrício... é lindo — Maria sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos.

— Maria, eu sei que o mundo lá fora ainda te vê como a mulher que foi traída pelo grande Haaland. Eu sei que as notícias ainda tentam te definir pelo passado. Mas aqui dentro, nestas quatro paredes e neste jardim, você é a minha rainha do rock. Você é a mulher que teve a coragem de quebrar o silêncio e compor uma nova melodia. Eu mal posso esperar para te ver entrar naquele altar.

Maria o abraçou com força, escondendo o rosto em seu pescoço, sentindo o cheiro de couro e perfume amadeirado que agora era o seu cheiro favorito no mundo.

— Eu te amo tanto — sussurrou ela.

— Eu te amo mais do que um solo de guitarra perfeito — ele brincou, fazendo-a rir entre as lágrimas.

Enquanto isso, em seu carro, Erling Haaland dirigia em silêncio. O rádio estava desligado. Ele pensava na imagem de Maria no jardim — a pele radiante, o sorriso que ele não via há anos, e a forma como ela olhava para Patrício. Ele lembrou-se de Isabela esperando por ele em casa com o bebê deles. Ele amava seu filho, mas a traição deixara uma marca que nem mesmo o nascimento de uma nova vida conseguira apagar completamente. Ele percebeu, com uma pontada de inveja, que Maria não tinha apenas sobrevivido à traição dele; ela havia prosperado.

Ela não era mais um acessório em sua carreira meteórica. Ela era a protagonista de sua própria história, uma ópera rock vibrante e autêntica.

De volta à casa, a noite caiu completamente. As luzes de corda no jardim brilhavam como estrelas terrestres. Patrício pegou seu violão acústico e sentou-se no degrau da varanda, começando a dedilhar uma melodia suave que ele estava compondo para o casamento. As trigêmeas se aproximaram, sentando-se ao redor dele, cada uma tentando acompanhar o ritmo ou sugerir uma letra.

Maria observava da porta, com a mão pousada na barriga, sentindo o movimento rítmico do filho. Ela percebeu que a felicidade não era a ausência de dor, mas a habilidade de transformar essa dor em algo novo. A traição de Erling fora o fim de um capítulo, mas Patrício Sardelli era a música inteira que ela ainda tinha para cantar.

— Mãe, vem aqui! — chamou Ingrid. — O Patrício está tentando rimar "fralda" com "guitarra" e está ficando horrível!

Maria riu e caminhou em direção à sua família. O passado era apenas um eco distante agora, abafado pelo som doce e barulhento do presente.

— Deixem-me ver isso — disse Maria, juntando-se a eles no chão. — Acho que sei exatamente o que essa música precisa.

E, sob o céu de uma noite de verão, a nova família Sardelli-Haaland continuou a compor sua própria trilha sonora, nota por nota, com a certeza de que o melhor ainda estava por vir. O casamento em três meses não seria apenas uma cerimônia; seria a celebração final da libertação de Maria. E o pequeno menino que crescia dentro dela seria o maior solo que ela já executara na vida.