Recomeço
O Peso do Silêncio e o Brilho do Aço
O silêncio na cobertura de Erling Haaland era, muitas vezes, interrompido pelo choro agudo do pequeno Leo. Isabela fazia o que podia, mas a tensão entre as paredes de vidro e mármore era quase palpável. Erling, o homem que costumava dominar estádios inteiros com sua presença física, agora parecia encolhido dentro de si mesmo. Ele olhava para o celular, para a foto de perfil do grupo da família que as trigêmeas haviam mudado recentemente. Agora, não era mais uma foto dele com as meninas; era uma foto de Maya, Ingrid e Astrid abraçadas a Patrício Sardelli, todos sujos de pó azul, rindo diante de uma bateria.
Aquela imagem queimava. Não era apenas o fato de Maria estar grávida de outro homem. Era a facilidade com que Patrício parecia ter se infiltrado no coração das suas filhas.
— Elas não param de falar dele — murmurou Erling, sem perceber que Isabela estava na porta da sala.
— De quem, Erling? Do músico? — Isabela perguntou, o tom de voz misturando cansaço e uma pontada de insegurança que vinha crescendo nos últimos meses.
— Do Patrício. "O Patrício nos ensinou esse riff", "O Patrício disse que o bebê vai ser um roqueiro", "O Patrício vai nos levar para o festival" — Erling jogou o celular no sofá com força excessiva. — Ele é o padrasto. Não o pai. Eu sou o pai delas.
— Você é o pai, Erling, mas ele é quem está lá todos os dias agora — Isabela disse, aproximando-se e colocando a mão no ombro dele. — Você fez suas escolhas. Maria fez as dela.
— Eu não escolhi ser substituído — rebateu ele, afastando-se do toque dela. — E esse novo bebê... um menino. Eu sempre quis um menino com a Maria.
Isabela recuou como se tivesse levado um tapa físico. Ela olhou para o berço no canto da sala, onde o filho deles dormia.
— Você tem um filho, Erling. Leo está bem aqui.
Erling fechou os olhos, sentindo o peso da própria ingratidão.
— Eu sei. Eu amo o Leo. Mas você não entende, Isabela. É como se ele estivesse vivendo a vida que deveria ser a minha continuação, só que com a trilha sonora errada.
A oportunidade de confrontar esse sentimento veio mais cedo do que ele esperava. Era o aniversário de 16 anos das trigêmeas, e Maria, em um gesto de civilidade que Erling não sabia se merecia, o convidou para um jantar íntimo na nova casa. "Apenas a família", dizia o convite.
Quando Erling chegou à casa de Maria, o som de uma linha de baixo pulsante vinha da garagem. Ele estacionou o carro e ficou parado por um momento, ouvindo as risadas. Ao entrar, deparou-se com uma cena que o fez parar no lugar. Patrício estava sentado no chão, cercado pelas três meninas. Ele segurava uma guitarra e mostrava a Astrid como posicionar os dedos para um acorde complexo.
— Isso, Astrid! Deixe a nota vibrar — dizia Patrício, com um sorriso largo. — Você tem o ritmo no sangue, garota.
— Pai! Você veio! — Ingrid correu para abraçá-lo, mas Erling notou que ela ainda segurava uma palheta preta com o logotipo da banda de Patrício.
— Claro que vim. São dezesseis anos — Erling tentou sorrir, mas seus olhos foram direto para Patrício, que se levantava com uma agilidade casual.
— Haaland. Bom ver você de novo — disse Patrício, estendendo a mão.
Erling apertou a mão dele, notando os calos nos dedos do músico.
— Vejo que está transformando minhas filhas em uma banda de garagem — comentou Erling, o tom saindo mais ácido do que ele pretendia.
Patrício arqueou uma sobrancelha, mas manteve o sorriso.
— Elas têm talento natural. Só estou dando as ferramentas. Música é expressão, não é?
Maria apareceu na porta que ligava a garagem à cozinha. Ela usava um vestido largo cor de vinho, e a barriga de seis meses estava agora proeminente e linda. Ela parecia ter uma aura de serenidade que Erling nunca conseguira proporcionar a ela nos últimos anos de casamento.
— O jantar está pronto — anunciou ela. — Erling, que bom que chegou.
O jantar foi um exercício de tortura silenciosa para o jogador. Ele se sentia um estrangeiro em um país onde antes era o rei. As meninas falavam animadamente sobre o casamento que aconteceria em dois meses.
— A mamãe vai entrar com uma música que o Patrício escreveu especialmente para ela — contou Maya, os olhos brilhando. — É a coisa mais linda do mundo, pai. Tem uma parte que o baixo faz um som que parece um coração batendo.
Erling apertou o garfo com força.
— Eu sempre achei que você preferisse música clássica para ocasiões assim, Maria — disse ele, olhando para a ex-mulher.
— Eu preferia o que você gostava, Erling — Maria respondeu calmamente, servindo um pouco de água. — Agora, eu descobri o que eu gosto. E eu gosto da intensidade que o Patrício traz.
— E o bebê? — Erling mudou de assunto, a voz carregada de uma curiosidade dolorosa. — Já decidiram o nome?
Patrício olhou para Maria, um entendimento silencioso passando entre eles.
— Vai se chamar Luca — disse Patrício. — Luca Sardelli.
— Luca — repetiu Erling. — Um nome forte.
— Quer sentir? — perguntou Maria, surpreendendo a todos. Ela apontou para a barriga. — Ele está bem agitado hoje. Acho que é a vibração do baixo da Astrid.
Erling hesitou. Ele olhou para Patrício, esperando ver algum sinal de ciúme ou desconforto, mas o músico apenas acenou com a cabeça, encorajando-o. Erling levantou-se e caminhou até Maria. Quando ele colocou a mão sobre a saliência da barriga dela, sentiu um chute firme.
Por um segundo, o tempo parou. Aquele era o filho da mulher que ele amara por 15 anos. Mas não era o seu filho. Era o filho do homem que agora ocupava o seu lugar à mesa, o homem que fazia suas filhas rirem de um jeito que ele não via há muito tempo. O ciúme não era apenas por Maria; era pela vida completa e vibrante que eles haviam construído sobre os escombros da traição dele.
— Ele é forte — sussurrou Erling, retirando a mão rapidamente, como se tivesse se queimado.
— Ele vai ser um gigante — disse Patrício, levantando-se para colocar a mão exatamente onde a de Erling estivera um segundo antes. — Mas com a alma de um artista.
Erling voltou para o seu lugar, sentindo-se pequeno. O resto da noite foi um borrão. Ele via Patrício ajudar as meninas com os pratos, via como ele brincava com elas, como se conhecessem há décadas. Havia uma intimidade ali que não era baseada em protocolos ou na imagem pública, mas em convivência real.
Quando o jantar terminou e as meninas foram para o andar de cima testar os novos fones de ouvido que Erling lhes dera, ele ficou sozinho na sala com Maria e Patrício por alguns instantes.
— Você parece feliz, Maria — disse Erling, parado junto à porta.
— Eu estou, Erling. Pela primeira vez, eu não sou a sombra de ninguém. Eu sou a parceira de alguém.
Erling olhou para Patrício.
— Cuide bem delas. E do menino.
— Eu cuido delas como se fossem minhas, Haaland — Patrício respondeu, a voz profunda e séria. — Mas nunca vou tentar apagar o fato de que você é o pai. Só espero que você consiga aceitar que a nossa família agora tem mais espaço e mais cores.
Erling assentiu, embora a aceitação parecesse uma montanha impossível de escalar. Ele saiu da casa sob a luz do luar, ouvindo o som de uma risada de Maria vinda de dentro.
Ao entrar em seu carro, ele não ligou o motor imediatamente. Ele ficou ali, no escuro, olhando para a casa iluminada. O ciúme que ele sentia não era o ciúme possessivo de um amante, mas o ciúme de um homem que percebeu tarde demais que trocou um diamante por vidro colorido. Patrício Sardelli não tinha os títulos de Erling, nem sua fortuna, nem sua fama mundial. Mas ele tinha o que Erling jogara fora: o respeito de Maria, a admiração genuína das filhas e o direito de ver o pequeno Luca nascer em um lar construído sobre a verdade.
Ele pegou o celular e viu uma mensagem de Isabela perguntando se ele demoraria.
— Já estou indo — digitou ele, mas seus dedos hesitaram.
Ele olhou para a sacola no banco do passageiro. Era um presente que ele não tivera coragem de dar: um pequeno par de chuteiras personalizadas para o bebê Luca. Ele percebeu que, se desse as chuteiras, estaria tentando impor sua vontade ao filho de outro homem. Ele guardou o presente no porta-luvas.
Naquela noite, Erling Haaland entendeu que o amor de Patrício pelas meninas e por Maria não era uma ameaça ao seu papel de pai, mas era um espelho cruel que refletia tudo o que ele deixara de ser.
Dentro da casa, Patrício abraçava Maria por trás, as mãos espalmadas sobre Luca.
— Ele ficou abalado — comentou Patrício baixinho.
— Ele precisava ver — Maria suspirou, encostando a cabeça no peito do noivo. — Ele precisava entender que o nosso mundo não gira mais em torno do eixo dele.
— Você está bem com isso? Com o ciúme dele?
Maria se virou nos braços de Patrício, olhando-o nos olhos.
— O ciúme dele é o eco de um passado que não tem mais voz aqui, Patrício. O que importa é que, quando o Luca nascer e quando trocarmos nossos votos, a única música que eu vou ouvir é a nossa.
Patrício a beijou, um beijo que selava promessas e silenciava fantasmas. No andar de cima, o som das trigêmeas afinando as guitarras ecoava pela casa, uma promessa barulhenta e feliz de que a nova vida de Maria estava apenas começando o seu melhor solo. E Erling, do lado de fora, finalmente deu a partida no carro, deixando para trás o jardim onde as guitarras quebradas haviam dado lugar a uma harmonia que ele, apesar de todo o seu poder, nunca seria capaz de reger.