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Recomeço

O Retrato da Nova Harmonia

A manhã de sábado em Manchester estava atipicamente ensolarada, mas o humor de Erling Haaland não acompanhava a previsão do tempo. Ele estacionou seu SUV de luxo em frente à casa de Maria, o motor roncando baixo como um animal inquieto. Aquele endereço, que antes parecia um território neutro, tornara-se um campo minado para o seu ego. Cada vez que ele vinha buscar as trigêmeas para o fim de semana, sentia como se estivesse visitando um país estrangeiro onde ele não falava o idioma local — um idioma feito de acordes de guitarra, risadas espontâneas e uma paz que ele não conseguia replicar em sua própria cobertura.

Ele desceu do carro, ajustando os óculos escuros. Isabela tinha ficado em casa com Leo, reclamando de uma noite mal dormida, e a tensão entre eles parecia uma corda de violão esticada ao limite, pronta para arrebentar ao menor toque. Erling caminhou até a porta e, antes mesmo de tocar a campainha, a porta se abriu.

Não era Maria, nem uma das filhas. Era Patrício.

O músico estava com uma camiseta gasta de uma banda de jazz fusion, o cabelo levemente bagunçado e uma caneca de café na mão. Ele parecia perfeitamente em casa, como se pertencesse àquelas paredes tanto quanto os tijolos.

— Bom dia, Haaland — disse Patrício, encostando-se no batente da porta com uma cordialidade que irritava Erling profundamente. — Entra aí. As meninas estão terminando de arrumar as mochilas. A Ingrid decidiu, de última hora, que precisava levar o pedal de distorção novo.

— Elas vão para a minha casa, Patrício. Não para um estúdio de gravação — rebateu Erling, entrando na sala.

— Música não escolhe lugar, cara — Patrício deu de ombros, dando um gole no café. — Maria está lá em cima ajudando a Maya com o zíper da mala. Fica à vontade.

Erling ficou parado no centro da sala de estar. O ambiente havia mudado drasticamente desde a última vez que ele prestara atenção nos detalhes. Não era apenas a decoração; era a energia. E foi então que ele viu, pendurado na parede principal, logo acima da lareira, o que fez seu estômago dar um solavanco.

Era um quadro grande, emoldurado em madeira escura e elegante. Uma fotografia profissional, mas que transbordava uma intimidade crua. Nela, Maria estava sentada em um banquinho de madeira, rindo abertamente, com a mão repousada sobre a barriga já bem grande da gravidez. Patrício estava atrás dela, com os braços em volta de seus ombros, o queixo apoiado em sua cabeça, olhando para a câmera com um orgulho sereno. Ao redor deles, as trigêmeas — Maya, Ingrid e Astrid — estavam posicionadas de forma espontânea, cada uma segurando um instrumento ou apenas encostada no casal, todas com sorrisos que Erling raramente via quando estavam com ele.

Era o retrato de uma família completa. Uma unidade onde ele, o pai biológico, o ídolo mundial, o homem que lhes dera tudo o que o dinheiro podia comprar, não passava de uma nota de rodapé.

Erling sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. O ciúme, ácido e corrosivo, queimava. Ele se lembrou das fotos de família que tiravam quando eram casados: poses rígidas, roupas coordenadas, a imagem da perfeição nórdica para as revistas. Aquela foto na parede era o oposto. Era vida. Era o que ele tinha jogado fora em troca de uma aventura que se tornara sua própria prisão de ouro.

— Ficou boa, não ficou? — A voz de Maria veio da escada.

Ela descia devagar, segurando o corrimão, vestindo um cardigã bege que a deixava com um ar suave e materno. Ela viu Erling encarando o quadro e não desviou o olhar.

— É uma foto bonita — admitiu Erling, a voz falhando levemente.

— Foi ideia das meninas — comentou Maria, aproximando-se dele. — Elas queriam algo que registrasse o início dessa nova fase. O Luca ainda nem nasceu, mas já faz parte de tudo isso.

— Vejo que o Patrício também faz — disse Erling, incapaz de conter o sarcasmo.

Maria parou a poucos centímetros dele, e Erling pôde ver o brilho de determinação em seus olhos. Ela não tinha mais medo dele, nem da sombra que ele projetava.

— O Patrício é a razão de eu ter conseguido voltar a sorrir daquele jeito, Erling. Ele não está ocupando o seu lugar com as meninas, mas ele ocupa um lugar no coração desta casa que você deixou vazio há muito tempo.

Antes que Erling pudesse responder, as trigêmeas desceram as escadas como um furacão, carregando mochilas e capas de instrumentos.

— Pai! Vamos? — gritou Astrid, dando um beijo rápido no rosto de Maria e depois um "high-five" em Patrício. — Patrício, não esquece de me mandar aquele link da aula de baixo que você prometeu!

— Já está no seu e-mail, pequena rockstar — respondeu Patrício, piscando para ela.

Erling observou a interação com o peito apertado. Ele pegou a mochila de Ingrid, sentindo o peso do metal dos pedais de música lá dentro.

— Vamos, meninas. O motorista está esperando e eu tenho um almoço reservado — disse Erling, tentando retomar o controle da situação.

— Tchau, mãe! Tchau, Patrício! — As três se despediram com uma efusividade que parecia um insulto aos ouvidos de Erling.

Durante o trajeto até sua cobertura, o silêncio no carro era preenchido apenas pelo som dos fones de ouvido das meninas, que pareciam estar em seu próprio mundo. Erling olhava pelo retrovisor, tentando puxar assunto.

— E então... como estão os treinos de futebol? — perguntou ele, buscando um terreno onde ele ainda era o mestre.

— Ah, pai... a gente deu um tempo no time da escola — respondeu Maya, sem tirar os olhos do celular. — Estamos focadas na banda agora. O Patrício acha que podemos tocar no festival de verão do bairro.

— O Patrício acha muita coisa, não é? — Erling apertou o volante com força. — Vocês são filhas de um dos melhores atletas do mundo. Deviam focar em algo com mais... estrutura.

Ingrid tirou um dos lados do fone e olhou para o pai.

— Música tem estrutura, pai. Só que é uma estrutura que a gente gosta. O Patrício diz que o esporte é sobre vencer os outros, e a música é sobre encontrar a si mesma. A gente prefere se encontrar agora.

Erling sentiu o golpe. Ele mudou de assunto, mas o fantasma de Patrício parecia estar sentado no banco do passageiro.

Ao chegarem na cobertura, a atmosfera mudou. Isabela estava na sala, tentando fazer Leo parar de chorar enquanto falava ao telefone sobre uma campanha publicitária. O choro do bebê ecoava no ambiente minimalista, tornando tudo um pouco caótico.

— Oi, meninas — disse Isabela, forçando um sorriso enquanto equilibrava o bebê no quadril. — Que bom que chegaram. Leo sentiu falta das irmãs.

As trigêmeas cumprimentaram Isabela com a polidez distante que haviam adotado desde o divórcio. Elas amavam o irmãozinho, mas a presença de Isabela era um lembrete constante da dor que a mãe delas sofrera.

— A gente vai para o quarto, pai — disse Maya. — Temos que ensaiar uma música nova.

— No almoço a gente conversa mais — respondeu Erling, vendo-as desaparecer pelo corredor.

Ele se sentou no sofá de couro italiano, sentindo-se exausto. Isabela aproximou-se, entregando-lhe o bebê.

— Você está com uma cara péssima. Aconteceu algo na casa da Maria? — perguntou ela, sentando-se ao lado dele.

— Ela tem um quadro — começou Erling, a voz baixa. — Um quadro enorme na sala. Ela, o músico, as meninas e o bebê que nem nasceu. Eles parecem... felizes. De verdade.

Isabela suspirou, uma nota de irritação surgindo em sua voz.

— Erling, já falamos sobre isso. Ela seguiu em frente. Ela encontrou alguém que combina com o estilo de vida dela agora. Você tem a mim, tem o Leo, tem a sua carreira.

— Eu sei o que eu tenho, Isabela! — explodiu Erling, levantando-se com cuidado para não assustar o bebê. — Mas eu olho para as minhas filhas e elas não falam de futebol, não falam de mim. Elas falam de acordes, de festivais e de como o Patrício é "legal". Eu sou o pai delas e me sinto um estranho!

— Talvez porque você esteja agindo como um — rebateu Isabela, levantando-se também. — Você está tão obcecado com o que a Maria tem que está esquecendo de construir algo real aqui.

Erling não respondeu. Ele caminhou até a janela imensa que dava vista para a cidade. Lá embaixo, a vida continuava, mas ele sentia que estava estagnado em um ressentimento que não o levava a lugar nenhum.

Mais tarde, durante o almoço, a tensão não diminuiu. Erling tentou levar as meninas para um restaurante refinado, mas elas pareciam deslocadas em suas roupas de estilo "grunge" entre os engravatados de Manchester.

— Então, Maria me disse que o casamento é daqui a dois meses — comentou Erling, cortando seu bife com precisão cirúrgica.

— Sim! Vai ser incrível — disse Astrid, animada. — A gente vai tocar na recepção. O Patrício está nos ajudando a arranjar uma versão rock de "Here Comes the Sun".

— E você vai entrar com ele, Ingrid? — perguntou Erling, a voz carregada de uma esperança amarga de que a resposta fosse negativa.

— A mamãe vai entrar sozinha no começo, e depois o Patrício vai encontrá-la no meio do caminho — explicou Ingrid. — Mas a gente vai estar lá na frente, com ele. Ele disse que nós somos a base da família dele agora.

Erling sentiu um nó na garganta. Ele queria gritar que a base daquelas meninas era ele. Que ele tinha passado anos provendo, protegendo, sendo o herói delas. Mas a verdade nua e crua, estampada no entusiasmo delas, era que o herói agora tinha outra face e carregava uma guitarra, não uma chuteira.

— E vocês... gostam dele? — Erling fez a pergunta que temia há meses.

As três irmãs se entreolharam. Foi Maya quem respondeu, com uma seriedade que não condizia com seus dezesseis anos.

— A gente gosta de ver a mamãe feliz, pai. E o Patrício... ele ouve a gente. Ele não pergunta se a gente ganhou o jogo ou se estamos em primeiro lugar na liga. Ele pergunta como a gente se sente em relação à música que estamos compondo. Ele nos vê, pai. De um jeito que... bem, de um jeito que você andava muito ocupado para ver.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Erling sentiu como se tivesse levado um carrinho por trás em pleno campo, perdendo o equilíbrio e a dignidade. Ele olhou para as filhas e, pela primeira vez, viu as mulheres jovens que estavam se tornando, e percebeu o quanto daquela transformação ele havia perdido por estar focado em si mesmo e em sua nova vida com Isabela.

— Eu também vejo vocês — sussurrou ele, mas a frase soou oca até para os seus próprios ouvidos.

— A gente sabe que você tenta, pai — disse Ingrid, tocando a mão dele sobre a mesa. — Mas você não precisa competir com o Patrício. Ele é uma coisa, você é outra. Só que... a vida na casa da mamãe agora tem mais música. E a gente gosta de música.

O restante do fim de semana foi marcado por esse distanciamento educado. Erling tentou se interessar pelos termos técnicos que elas usavam, tentou ouvir as demos que elas tinham no celular, mas a cada comentário que ele fazia, sentia que estava forçando uma entrada em um clube onde ele não tinha a carteirinha.

No domingo à tarde, quando ele as levou de volta, Maria estava no jardim, regando as flores. Luca parecia estar pesando mais, pois ela se movia com uma lentidão graciosa. Patrício estava sentado em um banco de madeira, lendo um livro, mas levantou-se assim que viu o carro de Erling.

As meninas saltaram do veículo, correndo para abraçar a mãe. Erling desceu para entregar as mochilas, e seus olhos novamente foram atraídos para a janela da sala, onde, através do vidro, o quadro da nova família parecia brilhar sob a luz do entardecer.

— Elas se comportaram? — perguntou Maria, aproximando-se com um sorriso leve.

— Sim. Elas só falam desse casamento e dessa banda — disse Erling, entregando a última mochila a Patrício, que a recebeu com um aceno de agradecimento.

— É o mundo delas agora, Erling — disse Maria suavemente. — Você deveria tentar ouvir um pouco da música que elas estão fazendo. É realmente boa.

— Eu ouvi — mentiu ele, sentindo o peso da falsidade.

Ele olhou para Patrício, que estava agora com o braço em volta dos ombros de Ingrid, ouvindo algo que ela contava sobre o fim de semana. O ciúme de Erling não era mais apenas uma raiva explosiva; era uma melancolia profunda. Ele percebeu que, por mais que tentasse, ele nunca faria parte daquela moldura. Ele era o passado, um capítulo encerrado em uma biografia que agora ganhava novos e vibrantes parágrafos.

— A gente se vê no treino de quarta? — perguntou Erling para as meninas.

— O treino foi cancelado, pai! — lembrou Astrid. — A gente tem ensaio geral na garagem. O Patrício vai montar o sistema de som novo.

Erling forçou um aceno, sentindo-se descartável.

— Certo. O ensaio. Divirtam-se.

Ele caminhou de volta para o carro, sentindo o olhar de Patrício em suas costas — não um olhar de triunfo, mas de uma piedade silenciosa que era ainda pior.

Enquanto dirigia de volta para sua vida perfeitamente planejada e emocionalmente árida, Erling Haaland não conseguia tirar da cabeça a imagem do quadro na parede de Maria. Ele percebeu que a traição dele não tinha apenas destruído seu casamento; tinha aberto as portas para que outro homem entrasse e plantasse um jardim onde ele só tinha deixado grama sintética.

Ele ligou o rádio do carro. Uma música de rock clássico começou a tocar. Erling pensou em mudar de estação, em procurar algo mais calmo, mas, pela primeira vez, ele aumentou o volume. Ele tentou entender o que aquelas notas significavam para suas filhas, o que aquele ritmo fazia Maria sentir. Mas, por mais que o som preenchesse o carro, o vazio dentro dele continuava sendo o único acorde que ele conseguia ouvir com clareza.

O ciúme ainda estava lá, latente, queimando sob a pele. Mas, misturado a ele, havia a dolorosa consciência de que, no grande concerto da vida de Maria, ele não era mais o vocalista principal. Ele era apenas um espectador na última fila, assistindo ao show de uma mulher que finalmente tinha encontrado a sua própria voz. E essa voz, para o tormento de Erling, cantava em harmonia perfeita com o homem que ele agora mais detestava, e que, secretamente, mais invejava.