Red
O Veneno da Dúvida e o Gelo da Mentira
A umidade do ar em Outer Banks naquela tarde era quase palpável, uma promessa silenciosa de tempestade que combinava perfeitamente com a eletricidade estática entre as paredes da mansão Romano. Dahlia subiu as escadas com passos leves, sentindo o peso do olhar de Rafe ainda queimando em suas costas. Ela sabia que ele era o tipo de homem que, uma vez que sentia o cheiro de sangue, não parava até encontrar a ferida.
O problema era que Dahlia não estava sangrando. Ela era a faca.
Trancada em seu quarto, ela se encostou na porta de carvalho e respirou fundo. A imagem de Rafe Cameron, o noivo perfeito de Figure Eight, beijando a bochecha de Sofia enquanto seus olhos buscavam respostas nela, era uma dicotomia deliciosa e perigosa. Dahlia caminhou até sua penteadeira e encarou o próprio reflexo. A luz do sol que entrava pela janela destacava suas feições suaves, o rosto que todos conheciam como "a doce Dahlia". Ela odiava aquela versão de si mesma tanto quanto admirava a mulher que se tornava sob as luzes neon do *Red*.
— Ele está começando a desmoronar — sussurrou ela para o espelho, um sorriso sarcástico brincando em seus lábios.
Lá embaixo, Rafe Cameron estava longe de estar em paz. Ele tentava ouvir o que Sofia dizia sobre o buffet e a lista de convidados, mas as palavras dela soavam como ruído branco, um zumbido irritante de estática. Sua mente estava presa no bar do *Red*, no cheiro de renda e mistério, e na voz daquela mulher que parecia ler sua alma como se fosse um livro aberto e mal escrito.
E agora, o eco daquela voz parecia ter se materializado em Dahlia Romano.
— Rafe? Você está me ouvindo? — Sofia tocou seu ombro, a expressão preocupada. — Você parece estar em outro planeta.
Rafe piscou, forçando um sorriso que não chegava aos olhos azuis e frios.
— Desculpe, Sof. Muita pressão com o novo carregamento na empresa do meu pai. Onde estávamos?
— Nas flores, Rafe. Nas flores. — Sofia suspirou, sentando-se novamente. — Dahlia disse que rosas brancas são melhores porque aguentam a pressão. Achei uma metáfora estranha.
Rafe sentiu um arrepio na nuca.
— Estranha por quê?
— Não sei. Ela tem estado... diferente. Mais afiada. Acho que o casamento está deixando ela nervosa também. — Sofia deu de ombros, voltando para a revista. — Ela sempre foi a observadora da família, mas ultimamente parece que ela está julgando cada movimento nosso.
— Ela é só uma garota, Sofia — disse Rafe, embora suas próprias palavras soassem falsas para si mesmo. — O que ela poderia saber sobre pressão?
Rafe se levantou, a inquietação o movendo como um animal enjaulado.
— Vou pegar um copo de água. Já volto.
Ele não foi para a cozinha. Seus pés o levaram, quase por instinto, para o corredor onde Dahlia havia desaparecido. Ele precisava de uma prova. Precisava de algo que descartasse aquela ideia absurda de que a irmãzinha de sua noiva era a mesma criatura que o tinha desafiado no clube. Era impossível. Dahlia era protegida, era uma Romano, era... irritante.
Ele subiu as escadas silenciosamente. O andar superior da mansão estava silencioso. Ele sabia qual era o quarto de Dahlia — a porta no fim do corredor, decorada com uma guirlanda de flores secas que parecia inocente demais para a mulher que ele imaginava.
Ele parou diante da porta e hesitou. O que ele estava fazendo? Se fosse pego ali, como explicaria? "Estou procurando uma máscara de renda porque acho que sua irmã é uma dominatrix psicológica"? Ele balançou a cabeça, a mão pairando sobre a maçaneta.
A porta se abriu antes que ele pudesse tocá-la.
Dahlia estava ali, já trocada. Ela usava um short jeans curto e uma camiseta larga, o cabelo agora preso em um rabo de cavalo alto. Ela não parecia surpresa em vê-lo.
— Perdeu o caminho para o banheiro, Rafe? — perguntou ela, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta. A postura era a mesma da mulher no bar: relaxada, desafiadora, sem um pingo de medo.
Rafe se recuperou rapidamente, vestindo sua máscara de arrogância Cameron.
— Só queria ver se você estava bem. Você saiu da mesa de um jeito meio... dramático.
Dahlia soltou uma risada curta, um som que fez o estômago de Rafe dar um solavanco.
— Dramático? Eu só fui pegar café. Talvez você esteja projetando o seu próprio drama em mim, Rafe. Ouvi dizer que noivos costumam ter crises de ansiedade antes do grande dia.
Rafe deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele era muito mais alto, uma presença física imponente que costumava calar a maioria das pessoas em Outer Banks. Dahlia, no entanto, não recuou um centímetro.
— Você tem a língua muito afiada para alguém da sua idade, Dahlia — disse ele, a voz baixando para aquele tom perigoso que costumava preceder suas explosões.
— E você tem muito pouco controle sobre suas emoções para alguém da sua posição — rebateu ela, os olhos fixos nos dele. — O que foi, Rafe? O que está te incomodando tanto? É o casamento? O seu pai? Ou é o fato de que você encontrou alguém que não consegue comprar com o dinheiro dos Cameron?
O silêncio no corredor tornou-se pesado. Rafe sentiu a pulsação na base do seu pescoço. Era ela. Tinha que ser ela. O tom, o ritmo das palavras, a maneira como ela parecia se divertir com a raiva dele.
— Onde você estava ontem à noite? — perguntou ele, a voz rouca.
Dahlia arqueou uma sobrancelha, uma expressão de pura inocência fingida.
— Eu já disse. Caminhando. O ar noturno ajuda a pensar. Por quê? Sentiu minha falta?
Rafe estendeu a mão e segurou o braço dela. Não era um aperto forte o suficiente para machucar, mas era possessivo, uma tentativa de ancorá-la, de forçá-la a admitir a verdade.
— Eu fui a um lugar ontem — começou ele, os olhos vasculhando o rosto dela em busca de qualquer sinal de hesitação. — Um lugar onde as pessoas usam máscaras.
— Soa como o tipo de lugar onde você se encaixaria perfeitamente — interrompeu Dahlia, olhando para a mão dele em seu braço e depois voltando para seus olhos. — Você vive usando uma, não é? O bom filho, o namorado atencioso... Deve ser exaustivo manter a fachada o tempo todo.
— Eu vi uma mulher lá — continuou Rafe, ignorando a provocação, embora suas entranhas estivessem queimando. — Ela falava exatamente como você. Ela tinha a mesma audácia irritante.
Dahlia deu um passo para mais perto dele, reduzindo a distância a quase nada. O cheiro dela — lavanda e algo mais cítrico, diferente do perfume pesado do clube — encheu os sentidos de Rafe.
— E o que aconteceu com essa mulher, Rafe? — sussurrou ela. — Ela te deu o que você queria? Ou ela te mostrou que você não passa de um garoto perdido brincando de ser homem?
Rafe soltou o braço dela como se tivesse se queimado. A fúria borbulhava sob sua pele, mas misturada a ela havia uma atração tóxica, um desejo de calar aquela boca com um beijo ou com um grito.
— Você está brincando com fogo, Dahlia.
— Eu não brinco com fogo, Rafe — disse ela, sua voz voltando ao tom normal, calmo e cortante. — Eu sou o incêndio. E se eu fosse você, voltaria para a sala. Sofia está esperando, e você sabe como ela fica quando não recebe a atenção que acha que merece.
Ela não esperou por uma resposta. Dahlia simplesmente fechou a porta na cara dele, deixando Rafe sozinho no corredor, com o coração martelando contra as costelas e a certeza absoluta de que sua vida estava prestes a se tornar um inferno muito mais interessante.
***
A noite no *Red* era sempre mais vibrante do que o dia em Figure Eight. Enquanto as luzes da cidade se apagavam, o clube ganhava vida com uma batida surda que parecia o pulsar de um coração mecânico.
Dahlia terminou de ajustar a máscara. Desta vez, ela escolhera um vestido de seda vermelha, da cor do sangue arterial, que se destacava contra a penumbra do clube. Ela sabia que ele viria. Rafe Cameron era previsível em sua obsessão. Ele era um homem que precisava conquistar o que o desafiava.
Ela se sentou em uma mesa reservada no fundo, em uma área onde as sombras eram mais profundas. O garçom, que já a conhecia apenas como "A Dama de Vermelho", trouxe seu drink habitual sem que ela precisasse pedir.
Não demorou muito.
Rafe entrou no clube com a mesma energia caótica de um furacão contido. Ele não estava de terno hoje; usava uma jaqueta de couro preta e jeans, a máscara veneziana escondendo parte de sua expressão, mas não a determinação predatória em seu andar. Ele não olhou para o bar. Ele não olhou para a pista de dança. Seus olhos escanearam as sombras até pararem nela.
Ele caminhou em sua direção com passos largos e decididos.
— Você voltou — disse ela, quando ele parou diante da mesa.
— Você disse que eu voltaria — respondeu Rafe, sentando-se na cadeira oposta sem ser convidado. — E eu não gosto que as pessoas pensem que me conhecem tão bem.
— Mas eu conheço, não conheço? — Dahlia inclinou-se para a frente, a luz neon vermelha refletindo nos fios de renda de sua máscara. — Você passou o dia inteiro pensando em mim. Pensando se o que viu no corredor daquela mansão era real ou se sua mente está pregando peças em você.
Rafe travou o maxilar. O fato de ela ter mencionado a mansão — mesmo que de forma codificada — era a confirmação que ele buscava, mas ao mesmo tempo, ele se recusava a acreditar. Era perverso demais. Era perigoso demais.
— Por que você faz isso? — perguntou ele, a voz baixa e tensa. — Por que se esconder atrás dessa máscara e vir aqui provocar estranhos?
— Eu não provoco estranhos, Rafe. Eu provoco você. Há uma diferença. — Ela pegou o copo e bebeu um gole, seus olhos nunca deixando os dele. — E eu não me escondo atrás da máscara. A máscara é a única coisa que me permite ser quem eu realmente sou. Quem se esconde é você, todas as manhãs, quando coloca aquele sorriso falso para a minha irmã.
Rafe inclinou-se sobre a mesa, a mão agarrando a borda da madeira com força.
— Não fale da Sofia. Você não tem o direito.
— Eu tenho todo o direito — disse Dahlia, sua voz ficando fria como gelo. — Ela é minha irmã. E eu vejo o que você está fazendo com ela. Você está usando-a como um escudo, um troféu para provar ao seu pai que você pode ser o herdeiro perfeito. Mas nós dois sabemos que, por dentro, você está gritando para quebrar tudo.
— Você não sabe nada sobre mim! — explodiu Rafe, embora tenha mantido o volume baixo para não atrair atenção.
— Eu sei que você está aqui agora, comigo, em vez de estar com ela — disse Dahlia, com um sorriso de vitória. — Eu sei que você está mais vivo nesta sala escura, falando com uma mulher que você nem deveria conhecer, do que em qualquer jantar beneficente em Figure Eight. Você me deseja, Rafe. E o que te mata não é o desejo... é o fato de que você não sabe se deseja a mulher da máscara ou a garota que mora no quarto ao lado da sua noiva.
Rafe sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. A precisão do golpe o deixou sem ar. Ele queria odiá-la. Queria levantar-se e sair, nunca mais olhar para trás. Mas ele estava hipnotizado. Aquela mulher — Dahlia, sua mente agora gritava o nome dela — era o veneno e o antídoto.
— E se eu tirar essa máscara agora? — desafiou ele, sua mão movendo-se lentamente em direção ao rosto dela. — E se eu acabar com esse joguinho aqui mesmo?
Dahlia não se moveu. Ela não desviou o rosto.
— Você pode tentar — disse ela. — Mas se você tirar a minha máscara, terá que tirar a sua também. E eu não acho que você esteja pronto para o que vai ver no espelho quando a verdade aparecer.
Rafe hesitou. Seus dedos estavam a centímetros da renda preta. Ele podia sentir o calor da pele dela. A música ao redor parecia ter desaparecido, deixando apenas o som da respiração pesada dele e o olhar inabalável dela.
— Você é louca — sussurrou ele.
— E você está viciado nisso — rebateu ela.
Rafe fechou a mão em um punho, recuando. Ele não tirou a máscara. Não naquela noite. O medo da verdade ainda era um pouco maior do que a fome pela descoberta.
— O que você quer de mim, Dahlia? — perguntou ele, usando o nome dela pela primeira vez naquele ambiente. O som do nome dela em seus lábios, naquele lugar, pareceu uma profanação e uma promessa.
Dahlia sorriu, um gesto lento e perigoso.
— Eu não quero nada que você já não esteja disposto a perder, Rafe.
Ela se levantou, a seda vermelha deslizando pelo seu corpo como uma carícia.
— O casamento é em duas semanas — lembrou ela, caminhando ao redor da mesa até parar atrás dele. Ela inclinou-se, seus lábios roçando a orelha de Rafe. — Vamos ver quantas máscaras ainda estarão inteiras até lá.
Ela se afastou antes que ele pudesse responder, misturando-se à multidão e deixando Rafe Cameron sozinho com o vazio de sua própria arrogância.
Ele ficou ali por um longo tempo, observando o lugar onde ela estivera. Ele sabia que deveria contar a Sofia. Sabia que deveria se afastar da família Romano antes que o escândalo destruísse tudo. Mas, enquanto saía do clube e sentia o ar frio da noite de Outer Banks, Rafe só conseguia pensar em uma coisa.
Ele mal podia esperar pela próxima noite.
Dahlia, por sua vez, dirigia de volta para casa com as janelas abertas. O vento bagunçava seu cabelo, e ela sentia uma euforia que nunca havia experimentado antes. Ela sabia que estava brincando com um monstro. Rafe era instável, era violento e era capaz de coisas terríveis quando se sentia encurralado.
Mas, enquanto estacionava o carro silenciosamente na garagem da mansão e via a luz do quarto de Sofia ainda acesa, Dahlia sentiu apenas uma clareza absoluta.
O mundo de Figure Eight era construído sobre mentiras bonitas. Ela estava apenas começando a pintar a verdade de vermelho. E Rafe Cameron, o homem que todos temiam, era agora apenas uma peça em seu tabuleiro.
Ela entrou em casa, passou pelo quarto da irmã e parou por um segundo diante da porta de Sofia.
— Sinto muito, Sof — sussurrou ela, embora não houvesse arrependimento em sua voz. — Mas ele nunca foi realmente seu.
Dahlia entrou em seu próprio quarto e trancou a porta. Ela tirou a máscara e a colocou sobre a penteadeira. No espelho, a "doce Dahlia" não existia mais. Havia apenas uma mulher que tinha o fogo nas mãos e não tinha medo de se queimar.
A tempestade que Outer Banks prometia finalmente começou a cair lá fora, o som do trovão ecoando como o início de uma guerra que ninguém, exceto Dahlia, sabia que já havia começado. E Rafe, em sua própria casa, encarava o teto, sentindo o veneno da dúvida se espalhar por suas veias, sabendo que, a partir daquele momento, sua vida nunca mais seria a mesma.
A máscara tinha caído, mesmo que ainda estivesse no rosto. E o que restava era apenas o desejo perigoso de ver o mundo queimar.