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Red

Entre o Veneno e o Cetim

A luz da manhã na mansão dos Romano tinha um jeito irritante de expor as rachaduras que Dahlia preferia manter nas sombras. O café da manhã estava sendo servido no terraço, onde a brisa do mar tentava, sem sucesso, aliviar a tensão que pairava sobre a mesa. Sofia estava radiante, cercada por suas damas de honra: Sarah Cameron, a irmã de Rafe, que parecia distraída com o próprio celular, e Kiara Carrera, cujos olhos escuros não paravam de vigiar cada movimento de Dahlia.

— Eu estava pensando em um tom de azul-celeste para os vestidos de vocês — dizia Sofia, gesticulando com uma torrada integral. — Rafe disse que o pai dele prefere algo mais sóbrio, mas é o meu casamento, não é?

— Com certeza, Sof — respondeu Sarah, com um sorriso leve, embora seus olhos denunciassem que ela preferiria estar em qualquer lugar, menos ali, discutindo etiquetas de casamento. — O Rafe não sabe a diferença entre azul-celeste e azul-marinho, de qualquer forma.

— Ele sabe o que quer — rebateu Kiara, sua voz saindo mais afiada do que o pretendido. Ela se inclinou para frente, ignorando a xícara de chá. — O problema é que, às vezes, o que ele quer não é o que ele deveria ter.

O olhar de Kiara saltou de Sofia para Dahlia, que estava sentada na ponta da mesa, folheando um livro de poesias como se fosse a pessoa mais desinteressada do mundo.

— Você está muito calada hoje, Lia — continuou Kiara, estreitando os olhos. — Algum pensamento profundo sobre o noivo da sua irmã?

Dahlia levantou os olhos lentamente. Ela sustentou o olhar de Kiara com uma calma que beirava o insulto. Ela sabia que Kiara a via. Kiara tinha aquele instinto de Pogue, uma intuição crua que não se deixava enganar pelas boas maneiras de Figure Eight.

— Eu estava apenas pensando em como o azul-celeste vai ficar pálido sob a luz do altar — disse Dahlia, a voz suave, mas carregada de um sarcasmo que só Kiara pareceu notar. — Mas, se a Sofia quer brilhar, quem sou eu para apagar a luz dela?

Sofia riu, tocando o braço da irmã com carinho.

— Viu, Kie? A Lia está apenas sendo prática. Ela sempre cuida de mim.

Kiara bufou, recostando-se na cadeira.

— É, ela é uma santa, Sofia. Uma santa que olha para o seu noivo como se estivesse dissecando um espécime de laboratório.

Sarah soltou uma risadinha nervosa, sentindo o clima pesar.

— Vamos lá, gente. É um café da manhã, não um interrogatório. O Rafe é... bem, o Rafe. Ele é intenso. Acho que todo mundo olha para ele de um jeito estranho de vez em quando.

Dahlia voltou a atenção para o livro, escondendo o sorriso que ameaçava surgir. Ela adorava como Kiara estava perto da verdade, mas era incapaz de provar qualquer coisa. A frustração da outra garota era o tempero perfeito para sua manhã.

Enquanto isso, no Tarmac, o clima era consideravelmente menos civilizado. Rafe estava cercado por seus "amigos" — ou, como Dahlia os chamaria, seus cúmplices de tédio. Topper, John B, JJ e Pope estavam todos ali, de alguma forma orbitando o caos que Rafe Cameron sempre carregava consigo.

Rafe estava tentando consertar o motor de uma de suas motos, mas suas mãos tremiam levemente. A imagem da mulher de vermelho no *Red* e o confronto com Dahlia no corredor se fundiam em sua mente, criando um curto-circuito em sua racionalidade.

— Cara, você vai acabar quebrando essa peça se continuar apertando assim — disse Pope, observando a cena com uma careta técnica.

— Eu sei o que estou fazendo, Pope! — rosnou Rafe, jogando a chave inglesa no chão. O metal ecoou contra o concreto, um som brusco que fez John B e JJ trocarem olhares cautelosos.

— Calma, princesa — zombou JJ, equilibrando-se em um banco alto com uma cerveja na mão, apesar da hora. — O casamento é só daqui a duas semanas. Guarda essa energia para a lua de mel. Ou para fugir dela, o que vier primeiro.

Rafe se virou para JJ, os olhos injetados.

— Você acha que isso é uma piada?

— Eu acho que você está agindo como se tivesse visto um fantasma — interveio John B, cruzando os braços. — Ou como se estivesse escondendo um. O que está rolando, Rafe? Você está estranho desde ontem.

Rafe passou a mão pelo cabelo, sentindo a pressão aumentar. Ele queria contar. Queria dizer que a irmã da sua noiva era uma manipuladora mascarada que o estava levando à loucura. Mas como ele explicaria que estava em um clube underground onde identidades eram vendidas? Como explicaria que estava fascinado por Dahlia Romano?

— Não é nada — mentiu Rafe, embora sua voz soasse oca. — Só o Ward enchendo o saco com os negócios da família. E os Romano... eles são complicados.

— Complicados? — Topper riu. — A Sofia é um anjo. O único problema daquela família é a irmã mais nova. A Dahlia é estranha, cara. Ela olha para a gente como se soubesse onde todos os corpos estão enterrados.

Rafe sentiu um estalo em sua mente.

— O que você quer dizer com isso, Topper?

— Nada demais. Ela só é... observadora. Silenciosa. O tipo de garota que você nunca sabe se está te odiando ou se está planejando o seu funeral.

Rafe voltou a olhar para a moto, o silêncio de Topper ecoando em seus ouvidos. *Observadora. Silenciosa.* As mesmas palavras que ele usaria para descrever a mulher do *Red*. A obsessão, que antes era apenas uma faísca, agora era um incêndio florestal.

A tarde caiu sobre Outer Banks com uma névoa densa. Dahlia estava no jardim da mansão, colhendo algumas flores, quando ouviu passos atrás de si. Ela não precisou se virar para saber quem era. O peso da presença, a agressividade contida no ritmo dos passos... era ele.

— Você não desiste, não é? — perguntou ela, cortando o caule de uma rosa branca com uma tesoura afiada.

Rafe parou a poucos metros dela. Ele parecia exausto, como se tivesse passado o dia lutando contra si mesmo.

— Eu quero a verdade, Dahlia. Sem jogos. Sem máscaras.

Dahlia finalmente se virou. Ela usava um vestido simples de linho, mas o modo como segurava a tesoura e a rosa branca a fazia parecer uma rainha em um campo de batalha.

— A verdade é um conceito muito subjetivo para um Cameron, Rafe.

— Pare com isso! — Ele deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Eu sei que era você no *Red*. Eu senti. O jeito que você fala, o jeito que você me olha...

— E o que você vai fazer a respeito? — desafiou ela, aproximando-se dele. A ponta da tesoura tocou levemente o peito da camisa polo dele. — Vai contar para a Sofia? Vai dizer a ela que você frequenta clubes noturnos mascarados e que está obcecado pela irmã dela?

Rafe segurou o pulso de Dahlia, a mão dela que segurava a tesoura. O contato elétrico fez ambos pararem por um segundo.

— Por que você está fazendo isso comigo? — perguntou ele, a voz agora um sussurro quebrado. Havia uma vulnerabilidade nele que Dahlia não esperava encontrar tão cedo. — O que eu te fiz para você querer me destruir assim?

Dahlia sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Era poder? Ou era algo mais sombrio?

— Eu não quero te destruir, Rafe — disse ela, aproximando o rosto do dele. — Eu quero que você acorde. Você está vivendo uma mentira. A Sofia não te conhece. O seu pai não te conhece. Ninguém te vê. Mas eu... eu vejo o monstro, e eu não tenho medo dele.

Rafe soltou o pulso dela, mas não se afastou. Ele estava preso no campo gravitacional dela.

— Você é perigosa — disse ele.

— E você adora o perigo — rebateu ela.

Nesse momento, uma voz vinda do terraço quebrou o transe.

— Rafe? Dahlia? O que vocês estão fazendo aí no escuro?

Era Sofia. Ela caminhava em direção a eles, acompanhada por Kiara. O rosto de Kiara estava uma máscara de suspeita, os olhos alternando entre a mão de Rafe, que ainda estava próxima ao braço de Dahlia, e a expressão tensa de ambos.

— Estávamos apenas... discutindo as flores — disse Dahlia rapidamente, sua voz mudando instantaneamente para o tom doce e desinteressado de sempre. Ela levantou a rosa branca. — Rafe acha que as rosas são muito tradicionais. Eu estava tentando convencê-lo do contrário.

Sofia sorriu, abraçando o braço de Rafe.

— Ah, Rafe, não seja bobo. As rosas são clássicas.

Rafe forçou um sorriso, mas seu corpo estava rígido como pedra.

— É... clássicas — repetiu ele, sem olhar para a noiva.

Kiara deu um passo à frente, cruzando os braços.

— Engraçado. Vocês pareciam bem mais intensos do que uma discussão sobre flores. Parecia que alguém estava prestes a ser esfaqueado.

Dahlia olhou para Kiara, um brilho de desafio nos olhos.

— Às vezes, Kiara, a beleza exige um pouco de dor. As rosas têm espinhos, você sabe.

— É, eu sei — disse Kiara, a voz carregada de veneno. — E eu sei que, se alguém se espetar, eu vou ser a primeira a descobrir quem colocou os espinhos lá.

Sofia, alheia à guerra silenciosa, puxou Rafe em direção à casa.

— Venha, Rafe. Sarah e os meninos estão chegando. Vamos abrir um vinho e relaxar um pouco. Você está muito tenso.

Rafe deixou-se levar, mas antes de entrar, ele olhou por cima do ombro. Dahlia ainda estava lá, parada no meio do jardim, a rosa branca em uma mão e a tesoura na outra. Ela não sorriu. Ela apenas o observou, uma sombra vermelha em um mundo de brancos e azuis.

A noite continuou dentro da mansão, mas o clima era pesado. Sarah tentava manter a conversa fluindo com John B e JJ, que pareciam peixes fora d'água na sala de estar luxuosa dos Romano. Pope tentava conversar com o pai de Sofia sobre economia, enquanto Topper observava a interação entre Rafe e as irmãs com um interesse crescente.

Dahlia servia as bebidas, movendo-se como um fantasma entre os convidados. Toda vez que ela passava por Rafe, o ar parecia sumir. Toda vez que Kiara a seguia com os olhos, Dahlia sentia o cerco se fechar.

— Você está brincando com algo que não entende, Dahlia — sussurrou Kiara, interceptando-a na cozinha enquanto Dahlia buscava mais gelo.

Dahlia parou, de costas para a outra garota.

— E o que eu não entendo, Kiara?

— O Rafe. Ele é instável. Ele não é um brinquedo para você usar para se sentir viva. Se você continuar empurrando ele, ele vai quebrar. E ele vai levar a Sofia junto.

Dahlia se virou, a expressão fria.

— Você acha que eu sou a vilã aqui, não é? A irmã invejosa. É tão clichê, Kiara.

— Eu não acho que você é invejosa — disse Kiara, dando um passo à frente. — Eu acho que você é entediada. E pessoas entediadas e inteligentes como você são as mais perigosas. Deixe a Sofia em paz. Deixe o casamento acontecer.

— E deixá-la casar com um homem que está a um passo de um colapso nervoso? — Dahlia riu, um som seco. — Você deveria me agradecer, Kiara. Eu sou a única que está sendo honesta nesta casa.

— Honesta? — Kiara apontou para a sala. — Você está mentindo para todo mundo agora mesmo!

— Não — corrigiu Dahlia. — Eu estou apenas esperando que eles tirem as próprias máscaras. Eu só dei o primeiro puxão.

Dahlia saiu da cozinha, deixando Kiara fervendo de raiva. Ao voltar para a sala, ela viu Rafe bebendo o terceiro copo de uísque puro. Ele a viu entrar e, por um breve momento, a máscara dele falhou. O desejo, a raiva e o medo brilharam em seus olhos azuis com uma intensidade que fez o coração de Dahlia acelerar.

— Tudo bem por aqui? — perguntou John B, aproximando-se de Rafe.

— Tudo ótimo, cara — disse Rafe, a voz já um pouco arrastada. — Nunca estive melhor.

Mas ele não estava olhando para John B. Ele estava olhando para Dahlia, que acabara de se sentar ao lado de Sofia, colocando uma mão protetora — ou seria possessiva? — sobre o ombro da irmã.

A noite terminou com promessas vazias e sorrisos ensaiados. Quando o último convidado saiu, a mansão Romano mergulhou em um silêncio opressor.

Dahlia estava em seu quarto, prestes a se deitar, quando ouviu uma batida na janela. Seu coração disparou. Ela abriu a cortina e viu Rafe parado no galho da grande carvalho que ficava rente à varanda. Ele estava arfando, o rosto iluminado pela lua.

Ela abriu a janela, o ar frio da noite entrando no quarto.

— Você enlouqueceu? — sussurrou ela.

Rafe saltou para dentro do quarto, movendo-se com uma agilidade desesperada. Ele a prensou contra a parede ao lado da janela, as mãos segurando o rosto dela com uma força que era quase dolorosa.

— Eu não consigo parar de pensar em você — confessou ele, a voz rouca, o hálito cheirando a uísque e obsessão. — Eu fecho os olhos e vejo a máscara. Eu abro e vejo você. O que você fez comigo?

Dahlia sentiu o calor do corpo dele, a urgência de sua respiração. Ela sabia que deveria gritar, que deveria expulsá-lo. Mas ela apenas colocou as mãos sobre o peito dele, sentindo o coração de Rafe bater como um tambor de guerra.

— Eu não fiz nada, Rafe — sussurrou ela, aproximando os lábios dos dele. — Eu apenas mostrei a você quem você realmente é.

— Então me mostre mais — pediu ele, antes de esmagar seus lábios contra os dela em um beijo que era tudo menos doce. Era uma colisão de duas almas quebradas, um segredo que não podia mais ser contido.

Naquele momento, Dahlia soube que não havia mais volta. O casamento de Sofia, a reputação dos Romano, a segurança de Figure Eight... tudo estava prestes a queimar.

E, enquanto Rafe a beijava com a fome de um homem que finalmente encontrou o que procurava, Dahlia sorriu contra os lábios dele.

O jogo tinha acabado. A realidade tinha começado. E a cor daquela realidade era, irremediavelmente, vermelha.

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