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Red

O Labirinto das Intenções Ocultas

A chuva em Outer Banks não dava trégua, transformando as estradas de Figure Eight em espelhos negros que refletiam a iluminação cara das mansões. No bar privativo do clube de golfe, o ambiente era o oposto do caos lá fora: cheiro de couro, madeira de lei e o tilintar discreto de gelo contra o cristal. Rafe Cameron estava sentado em uma das poltronas de canto, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede, enquanto girava um copo de bourbon puro.

Ele não estava apenas bebendo; ele estava tentando silenciar os gritos que ecoavam em sua mente. A imagem de Sofia na cama do hospital, o calor das chamas no pântano e, acima de tudo, o sorriso gélido de Dahlia Romano.

— Você parece um homem que acabou de ver um fantasma, ou que está prestes a se tornar um — a voz de Topper soou arrastada enquanto ele se acomodava na poltrona à frente de Rafe.

Rafe nem sequer levantou os olhos.

— Não enche, Topper. Não estou a fim de conversa furada hoje.

— Não é conversa furada quando metade da ilha está comentando sobre o "acidente" da sua noiva e a outra metade está se perguntando por que você passa mais tempo com a irmã dela do que com os advogados do seu pai — Topper sinalizou para o barman, pedindo o mesmo que Rafe. — O que está acontecendo, cara? Você está estranho. Mais do que o normal.

Rafe soltou uma risada seca, o som saindo mais como um rosnado.

— A Dahlia... ela é diferente, Topper. Ela não é como a Sofia. Ela vê as coisas. Ela entende o que é preciso ser feito para manter o controle.

Topper arqueou uma sobrancelha, estudando o amigo. Ele conhecia Rafe há tempo suficiente para saber quando a impulsividade do Cameron estava sendo canalizada por outra pessoa. E o nome Romano sempre trazia complicações.

— Ela entende o que é preciso ser feito para *ela* ter o controle, Rafe — corrigiu Topper, inclinando-se para frente. — Eu vi como ela se move. Dahlia Romano não faz nada por caridade ou por amor fraternal. Ela é uma jogadora. E, pelo que estou vendo, você virou a peça favorita dela no tabuleiro.

— Você não a conhece — rebateu Rafe, a voz subindo de tom, a agressividade latente começando a borbulhar. — Ela me entende. Ela sabe o que o meu pai exige de mim, ela sabe o peso do sobrenome. Ela me deu o que a Sofia nunca conseguiria: poder real. Sem julgamentos, sem aquela fachada de "garota perfeita".

— E você acha que esse poder é seu? — Topper riu, um som de puro deboche. — Acorda, Rafe! Dahlia é a mente por trás de tudo isso. Ela te usa como escudo e como arma. Se as coisas ficarem feias — e com o Shoupe farejando aquele incêndio, elas vão ficar —, quem você acha que ela vai sacrificar primeiro?

Rafe apertou o copo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Ela não faria isso. Nós temos um pacto. Estamos juntos nisso até o fim.

— O "fim" para uma Romano é quando ela alcança o topo — disse Topper, a voz agora séria, desprovida de sarcasmo. — Ouça o que estou te dizendo, Rafe. Se você for bobo, se você se deixar levar por esse desejo doentio que tem por ela, a Dahlia vai te trair. Ela vai te vender para o Shoupe ou para o seu próprio pai no momento em que isso garantir a ela a presidência das empresas ou a custódia total dos bens. Para ela, o poder é o único amante fiel.

— Ela me ama — sussurrou Rafe, mas a frase soou oca, até para seus próprios ouvidos.

— Ela ama a utilidade que você tem — Topper finalizou, levantando-se ao ver que seu aviso tinha atingido o alvo. — Apenas tome cuidado. Quando a máscara dela cair de verdade, você pode descobrir que não sobrou nada de você para salvar.

Rafe ficou sozinho no bar, o silêncio agora pesando mais do que o barulho. As palavras de Topper eram como veneno, agindo lentamente, corroendo a confiança frágil que ele depositara em Dahlia. Ele pensou no hospital, no modo como ela manipulou a situação com Sofia, e no modo como ela sugeriu usar Ward como bode expiatório. Se ela era capaz de destruir o próprio pai dele, o que a impediria de destruí-lo?

***

Dahlia estava no escritório da mansão Romano, cercada por documentos e telas de computador que mostravam o fluxo financeiro da *Cameron Development*. Ela usava óculos de leitura, o que lhe conferia um ar de seriedade intelectual que contrastava com a mulher mascarada do *Red*. A luz do abajur criava sombras longas na sala, e o silêncio da casa era absoluto.

A porta se abriu com um estrondo. Rafe entrou, ainda cheirando a bourbon e chuva. Ele não parecia o parceiro triunfante daquela manhã; ele parecia um animal encurralado.

— Onde você estava? — perguntou Dahlia, sem tirar os olhos do balanço patrimonial.

— Bebendo com o Topper — respondeu Rafe, caminhando até a mesa dela e apoiando as mãos na madeira polida. — Ele me disse umas coisas interessantes sobre você, Dahlia.

Dahlia finalmente levantou o olhar. Ela retirou os óculos lentamente, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.

— O Topper? O mesmo Topper que passa a vida tentando ser você e falhando miseravelmente? E o que o nosso pequeno príncipe do tênis tinha a dizer?

— Ele disse que você vai me trair — Rafe cuspiu as palavras, observando a reação dela. — Disse que você está me usando para chegar ao topo e que, quando o Shoupe apertar o cerco, você vai me entregar de bandeja.

Dahlia não se abalou. Ela se recostou na cadeira de couro, observando Rafe com uma calma que o irritava profundamente.

— E você acredita nele, Rafe? — perguntou ela, a voz suave. — Você acredita no homem que não teve coragem de manter a própria namorada, ou acredita na mulher que queimou um barco e arriscou a própria liberdade para garantir que você nunca mais tivesse que obedecer ao Ward?

— Eu não sei no que acreditar! — gritou Rafe, socando a mesa. — Tudo o que fazemos é baseado em mentiras e sombras. Você isolou a minha noiva, você matou a Kiara... ou pelo menos tentou... e agora está aqui, contando o dinheiro como se nada tivesse acontecido!

Dahlia levantou-se e caminhou em volta da mesa. Ela parou na frente de Rafe, reduzindo a distância entre eles. Ela podia sentir o calor que emanava dele, a instabilidade que o tornava tão perigoso e, ao mesmo tempo, tão fácil de manusear.

— O Topper está certo em uma coisa, Rafe — disse ela, tocando o rosto dele com a ponta dos dedos. — Eu amo o poder. Eu amo a sensação de ter as rédeas da minha vida. Mas ele erra no resto. Eu não preciso te trair para ter o que eu quero. Eu já tenho você. E ter você é ter a chave para o império Cameron.

— E se o Shoupe vier atrás de mim? — perguntou Rafe, sua voz vacilando, a vulnerabilidade transparecendo. — Se ele provar que eu estava no pântano?

— Ele não vai provar — afirmou Dahlia, segurando o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. — Porque se ele chegar perto demais, nós daremos a ele o Ward. Seu pai já cometeu crimes suficientes para dez vidas, Rafe. Só precisamos de um empurrãozinho na direção certa. Nós somos uma equipe. O que o Topper sente é inveja, porque ele nunca terá uma mulher que o desafie a ser mais do que um herdeiro mimado.

Rafe fechou os olhos, deixando-se envolver pelo perfume dela. A dúvida ainda estava lá, uma semente plantada por Topper, mas o desejo e a dependência que ele sentia por Dahlia eram raízes muito mais profundas.

— Se você me trair, Dahlia... eu juro que te levo comigo para o inferno — sussurrou ele.

Dahlia sorriu, um beijo rápido e gelado selando a promessa.

— O inferno seria um lugar muito entediante sem você, Rafe.

***

Na manhã seguinte, a atmosfera em Outer Banks mudou. O desaparecimento de Kiara Carrera tornou-se a notícia principal, e o xerife Shoupe não estava mais apenas fazendo perguntas; ele estava executando mandados.

Dahlia recebeu a notícia enquanto tomava café com seu pai no terraço. O velho Romano parecia uma sombra do que fora, a saúde declinando rapidamente após o choque com Sofia.

— Dahlia, o xerife está aqui de novo — disse o pai, a voz trêmula. — Ele quer falar sobre o anel que encontraram.

— Deixe que ele entre, papai — respondeu Dahlia, mantendo a calma. — Não temos nada a esconder.

Shoupe entrou no terraço acompanhado por dois policiais. Ele não parecia interessado em cortesias.

— Srta. Romano, recebemos os registros do clube *Red*. A senhora e o Sr. Cameron entraram às dez da noite e não saíram até as duas da manhã.

— Como eu lhe disse, Xerife — Dahlia tomou um gole de café.

— O problema — continuou Shoupe, colocando uma foto granulada sobre a mesa — é que a câmera dos fundos do clube mostra uma mulher saindo por uma porta de serviço às dez e quinze, entrando em um carro esporte e voltando apenas uma hora depois. A mulher usava um capuz, mas o carro... o carro é o seu.

Dahlia sentiu um leve tremor no estômago, mas sua expressão permaneceu impassível.

— Isso é ridículo. Qualquer um poderia ter pego meu carro. Eu deixo as chaves no camarote.

— E o Rafe Cameron? — perguntou Shoupe. — Ele também saiu por aquela porta?

— O Rafe estava comigo o tempo todo — mentiu Dahlia, a voz firme. — Ele estava... indisposto. Ficamos no camarote privativo.

— Estranho — disse Shoupe, inclinando-se. — Porque encontramos uma testemunha. Um dos seguranças que você demitiu na semana passada, Dahlia. Ele diz que viu você e o Rafe saírem juntos. E ele diz que você parecia muito interessada em saber onde a Srta. Carrera guardava os registros da empresa do pai dela.

Dahlia percebeu que o cerco estava se fechando. O erro não fora a câmera, fora a ponta solta que ela deixara ao demitir o pessoal antigo para colocar seus próprios homens.

— Testemunhas compradas e ex-funcionários rancorosos não fazem um caso, Xerife — disse ela, levantando-se. — Agora, se me der licença, tenho uma irmã no hospital para visitar.

Shoupe não a impediu de sair, mas seu olhar dizia que ele estava apenas esperando o próximo dominó cair.

Ao chegar ao hospital, Dahlia encontrou Rafe no corredor. Ele estava pálido, o celular na mão.

— A Kiara... — começou ele, a voz em um fio.

— O que tem ela? — perguntou Dahlia, puxando-o para um canto reservado.

— Ela não morreu, Dahlia. O Shoupe acabou de receber um chamado. Encontraram uma sobrevivente no pântano, perto da margem oposta. Ela está sendo trazida para cá agora.

O mundo de Dahlia oscilou por um milésimo de segundo. Kiara Carrera estava viva. O plano perfeito tinha uma rachadura, e essa rachadura poderia destruir tudo.

— Ela viu a gente, Rafe? — perguntou Dahlia, a mente trabalhando a mil por hora.

— Eu não sei! O fogo foi rápido, talvez ela só tenha visto vultos. Mas se ela falar...

Dahlia segurou o braço de Rafe com força, as unhas cravando na pele dele.

— Ouça bem. Se a Kiara falar, a nossa única saída é o Ward. Nós vamos dizer que ele nos chantageou. Que ele incendiou o barco para se livrar das provas de corrupção e que nós estávamos apenas tentando ajudá-la.

— Você quer culpar o meu pai por uma tentativa de assassinato? — Rafe estava em choque.

— É ele ou nós, Rafe! — sibilou Dahlia. — Escolha agora. Você quer a lealdade de um pai que te odeia ou o futuro comigo?

Rafe olhou para a porta da emergência, onde uma maca entrava coberta de mantas térmicas, cercada por médicos. Ele viu a vida que ele conhecia desmoronando e a única mão estendida era a da mulher que Topper dissera que o trairia.

— Eu escolho você — disse ele, a voz carregada de uma resignação fatalista.

Dahlia sorriu, mas desta vez, havia uma sombra de dúvida em seu próprio coração. Ela olhou para Sofia, que continuava dormindo no quarto ao lado, e para Kiara, que acabara de retornar dos mortos. O labirinto que ela construíra estava se tornando apertado demais, e as sombras estavam começando a cobrar o preço em sangue.

— Então vamos nos preparar — disse Dahlia, ajeitando a máscara invisível. — A guerra de Figure Eight está apenas começando, e desta vez, não haverá sobreviventes entre os nossos inimigos.

Enquanto caminhavam pelo corredor, Dahlia pensou no alerta de Topper. Ela sabia que, se precisasse, sacrificaria Rafe. Mas, por enquanto, ele ainda era a sua melhor peça. E no jogo do poder, você nunca descarta uma peça útil até que o xeque-mate seja inevitável.

O silêncio do hospital foi quebrado pelo som de uma sirene distante, um eco do caos que Dahlia Romano invocara e que agora, finalmente, batia à sua porta. O vermelho do *Red* nunca pareceu tão premonitório quanto naquele amanhecer cinzento. A máscara não era mais apenas uma escolha; era a única coisa que a mantinha viva. E Dahlia estava pronta para usá-la até o fim, mesmo que o fim fosse o abismo que ela mesma cavara.

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