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Red

O Efeito Dominó das Sombras

A chuva que caía sobre Outer Banks naquela noite não era uma bênção; era uma borracha tentando apagar os pecados cometidos no pântano. O som da água batendo contra as janelas de vidro duplo do clube *Red* era abafado pela batida ensurdecedora do techno, mas para Dahlia Romano, o ritmo da música parecia sincronizado com as batidas de seu próprio coração — frio, preciso e implacável.

Ela observava Rafe pelo canto do olho. Ele estava sentado ao seu lado no camarote, a mandíbula tensa, os olhos fixos no vazio enquanto girava o líquido âmbar em seu copo. O brilho das luzes neon vermelhas refletia em seu rosto, acentuando as olheiras e a palidez de quem acabara de ver o inferno de perto.

— Você precisa relaxar, Rafe — sussurrou Dahlia, inclinando-se para que seus lábios roçassem o lóbulo da orelha dele. — Se alguém olhar agora, verá um homem culpado. E nós dois sabemos que os Cameron nunca são culpados de nada que não possa ser enterrado.

Rafe deu um gole longo no uísque, sentindo a queimação na garganta.

— Você fala como se tivéssemos acabado de pisar em uma barata, Dahlia. Era a Kiara. Os Pogues vão notar o sumiço dela. O xerife vai encontrar o que sobrou do *Phantom*.

— E o que eles vão encontrar? — Dahlia se afastou, cruzando as pernas com uma elegância letal. — Um barco velho com manutenção precária, um vazamento de combustível e uma garota imprudente que decidiu brincar de detetive no lugar errado, na hora errada. Não há nada que nos ligue àquele fogo. Nossas digitais foram consumidas pelas chamas, e nossas presenças estão registradas aqui, por câmeras e testemunhas que eu pago muito bem.

Rafe olhou para ela, uma mistura de fascinação e horror genuíno.

— Às vezes eu esqueço que você é uma Romano. Você é mais fria que o meu pai.

Dahlia sorriu, e o gesto não tinha nada de caloroso.

— O seu pai é movido pelo ego, Rafe. Eu sou movida pela sobrevivência. Há uma diferença fundamental.

O celular de Dahlia vibrou sobre a mesa de vidro. Ela o pegou, e o sorriso desapareceu, substituído por uma máscara de concentração absoluta.

— É do hospital — disse ela, a voz subindo uma oitava.

Rafe endireitou as costas imediatamente, a mão parando no meio do caminho para o copo.

— A Sofia?

Dahlia leu a mensagem rapidamente. Suas pupilas se dilataram.

— Ela apresentou atividade cerebral reflexa. Os médicos querem que a família compareça. Agora.

— Isso é bom ou ruim? — perguntou Rafe, a voz falhando.

Dahlia levantou-se, pegando sua bolsa de grife.

— Depende do que ela tem a dizer se acordar, Rafe. Vamos. Nosso ato final de luto começa agora.

***

O hospital de Outer Banks parecia um mausoléu àquela hora da madrugada. O corredor da ala VIP estava deserto, exceto pela figura solitária de Ward Cameron, que caminhava de um lado para o outro como um leão enjaulado. Quando viu Dahlia e Rafe se aproximarem, ele parou, os olhos injetados de sono e fúria contida.

— Onde vocês estavam? — perguntou Ward, a voz ríspida. — Liguei para o Rafe dez vezes.

— Estávamos tentando espairecer, Sr. Cameron — respondeu Dahlia, sua voz assumindo instantaneamente o tom suave e vulnerável que ela reservava para o público. — A tensão dos últimos dias... Rafe estava desmoronando. Eu o levei para tomar um ar.

Ward olhou para o filho com desdém, mas não teve tempo de retrucar. O Dr. Aris saiu do quarto de Sofia, retirando a máscara cirúrgica.

— Sr. Romano, Sr. Cameron — cumprimentou o médico, olhando para o pai de Dahlia, que acabara de chegar em sua cadeira de rodas, empurrado por um enfermeiro. — Sofia teve uma série de espasmos e abriu os olhos brevemente. Ela ainda não está consciente no sentido pleno da palavra, mas o coma profundo parece estar cedendo.

— Ela falou alguma coisa? — Dahlia deu um passo à frente, as mãos entrelaçadas em frente ao corpo, a imagem perfeita da irmã preocupada.

— Apenas sons desconexos — explicou o médico. — Mas ela parece reagir a vozes familiares. Sugiro que entrem um de cada vez. A estimulação excessiva pode ser prejudicial agora.

Ward fez menção de entrar, mas o pai de Dahlia, com a voz fraca mas autoritária, o impediu.

— Eu vou primeiro. É minha filha.

Dahlia observou o pai entrar no quarto. Ela sentiu a mão de Rafe tocar a sua, e o suor frio na palma dele denunciava seu pânico. Ela apertou os dedos dele com força, um aviso silencioso para que ele mantivesse a compostura.

— Se ela se lembrar da escada... — sussurrou Rafe, tão baixo que apenas Dahlia ouviu.

— Ela não vai — Dahlia respondeu entre dentes, mantendo o olhar fixo na porta. — O trauma craniano causa amnésia retrógrada. É a ciência a nosso favor, Rafe. Acalme-se.

Minutos depois, o pai de Dahlia saiu, visivelmente emocionado.

— Ela apertou minha mão — disse ele, as lágrimas correndo pelo rosto sulcado. — Ela não abriu os olhos, mas ela sabe que eu estou lá. Dahlia, querida, vá você. Ela sempre foi tão ligada a você.

Dahlia assentiu, respirando fundo. Ela caminhou em direção à porta, sentindo o peso do olhar de Ward e Rafe em suas costas. Ao entrar no quarto, o cheiro de antisséptico pareceu sufocá-la. Sofia estava cercada por máquinas, o rosto ainda marcado por hematomas que começavam a amarelar.

Dahlia aproximou-se da cama. Ela não sentia pena. Sentia apenas o perigo iminente que aquela mulher representava para tudo o que ela construíra nas últimas horas.

— Oi, Sof — sussurrou Dahlia, inclinando-se sobre a irmã. — Você é realmente persistente, não é?

Sofia não se moveu, mas o monitor cardíaco acelerou levemente. Dahlia notou o movimento das pálpebras da irmã, uma luta frenética para romper o véu do inconsciente.

— Você deveria ter ficado onde estava — continuou Dahlia, sua voz agora fria e desprovida de qualquer fingimento. — O mundo é um lugar muito feio aqui fora agora. A Kiara se foi, sabia? Um acidente trágico no pântano. E o Rafe... bem, o Rafe finalmente encontrou alguém que o entende de verdade.

Os dedos de Sofia tremeram sobre o lençol branco. Dahlia segurou a mão da irmã, não com carinho, mas com uma pressão firme, quase punitiva.

— Se você acordar, Sofia, você vai ser uma estranha na sua própria vida. O papai entregou os negócios para mim. Os Cameron estão sob meu controle. Não há lugar para a "noiva perfeita" nesta nova ordem. Então, faça um favor a si mesma... e continue dormindo.

De repente, os olhos de Sofia se abriram.

Não foi um despertar suave. Foi um choque. As pupilas estavam dilatadas, focando com dificuldade no rosto de Dahlia. A boca de Sofia se abriu, um som rouco e seco saindo de sua garganta.

— D... Dah... — a voz era um sussurro quebrado.

Dahlia sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas não recuou.

— Sim, sou eu, Lia. Estou aqui, irmãzinha.

Sofia tentou puxar a mão, mas Dahlia a segurou com mais força. Os olhos de Sofia começaram a se encher de lágrimas, e o terror que emanava delas era palpável. Ela se lembrava. Talvez não de tudo, mas se lembrava do rosto de Dahlia acima dela antes da queda.

— Em... purrou... — a palavra saiu como um suspiro de agonia.

Dahlia inclinou-se ainda mais, seu rosto a centímetros do de Sofia.

— Ninguém vai acreditar em você, Sofia. Você está confusa, traumatizada. Os médicos dirão que são memórias falsas criadas pelo choque. Se você tentar me derrubar, eu destruo o que restou desta família. O papai não aguentaria outro escândalo. Você quer matar o nosso pai?

Sofia fechou os olhos com força, um soluço mudo sacudindo seu peito. O monitor cardíaco começou a apitar freneticamente, alertando a equipe médica.

Dahlia soltou a mão da irmã e recuou, transformando sua expressão em uma de horror absoluto no exato momento em que o Dr. Aris e os enfermeiros entraram no quarto.

— Ela acordou! — gritou Dahlia, levando as mãos ao rosto. — Ela tentou falar e começou a passar mal! Ajudem-na, por favor!

Os médicos cercaram a cama, e Dahlia foi gentilmente conduzida para fora. No corredor, ela desabou nos braços de Rafe, fingindo um choro compulsivo que convenceu a todos, exceto ao próprio Rafe, que sentiu o corpo dela rígido como uma estátua.

— O que aconteceu lá dentro? — perguntou Ward, aproximando-se, sua voz carregada de suspeita.

Dahlia levantou os olhos marejados.

— Ela está delirando, Sr. Cameron. Ela disse coisas sem sentido... falou sobre fogo, sobre ser empurrada. O médico disse que é normal, mas é tão doloroso ver a mente dela assim.

Rafe empalideceu ao ouvir a palavra "fogo". Ele olhou para Dahlia, e o entendimento mútuo passou entre eles como uma corrente elétrica. Eles estavam em um terreno perigoso.

— O fogo? — Ward franziu a testa. — Por que ela falaria de fogo?

— Talvez ela tenha ouvido as notícias no rádio do hospital sobre o incêndio no pântano enquanto estava em estado de semiconsciência — sugeriu Dahlia rapidamente. — O cérebro absorve essas coisas, não é, doutor?

O Dr. Aris, que saía do quarto após estabilizar Sofia com um sedativo, assentiu.

— É uma teoria válida, Srta. Romano. O cérebro em coma é um mistério. Ela foi sedada novamente. Precisamos que ela descanse. O surto de estresse quase causou uma parada respiratória.

Ward bufou, frustrado.

— Então estamos de volta ao início.

— Não exatamente — disse Dahlia, limpando as lágrimas e assumindo uma postura de liderança. — Isso prova que ela precisa de proteção constante. Rafe e eu decidimos que, dada a instabilidade dela, as visitas devem ser restritas. Apenas a família imediata. Nada de amigos, nada de Pogues curiosos tentando tirar proveito da situação.

— Concordo — disse o pai de Dahlia, sua voz cansada. — Lia, você assume a responsabilidade pelas decisões médicas da sua irmã. Eu não tenho forças para isso.

Dahlia olhou para Ward, um pequeno sorriso de triunfo escondido nos cantos de sua boca. Ela acabara de isolar Sofia do mundo exterior.

***

Naquela manhã, enquanto o sol nascia preguiçosamente sobre Figure Eight, Dahlia e Rafe estavam no terraço da mansão Romano. O café estava servido, mas nenhum dos dois tocou na comida.

— Ela sabe, Dahlia — disse Rafe, olhando para a piscina azul-turquesa. — Ela tentou falar seu nome. Ela sabe que foi você.

— Ela sabe, mas não pode provar — Dahlia respondeu, servindo-se de suco de laranja. — E enquanto ela estiver sob sedação e sob minha custódia, a verdade dela é apenas o delírio de uma mulher ferida.

— E a Kiara? O xerife vai encontrar o corpo.

— O fogo foi intenso, Rafe. Se encontrarem algo, será impossível de identificar sem exames de DNA que levarão semanas. E até lá, nós já teremos consolidado o controle sobre as empresas. O mundo segue em frente.

Rafe levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.

— Eu sinto que estamos em uma corda bamba, e você está cortando os fios um por um.

Dahlia levantou-se também e caminhou até ele, segurando-o pelos ombros.

— Eu estou construindo uma ponte, Rafe. Mas para construí-la, precisamos queimar os barcos antigos. — Ela o puxou para perto, olhando no fundo de seus olhos. — Você quer voltar a ser o filho problemático do Ward? Quer ver a Sofia casar com você apenas por dever e te controlar pelo resto da vida?

— Não — sussurrou ele.

— Então confie em mim. Nós somos os donos desta história agora. A Sofia é o passado. A Kiara é uma cinza no vento. O futuro é vermelho, Rafe. Vermelho como o clube, vermelho como o poder.

Rafe a beijou, um beijo que tinha gosto de medo e adrenalina. Ele estava perdido nela, e Dahlia sabia disso. Ela o manobrara perfeitamente, transformando-o em seu cúmplice mais leal.

No entanto, enquanto o abraçava, Dahlia olhou para o horizonte. Ela sabia que o efeito dominó começara. A queda de Sofia derrubara a primeira peça, e o incêndio no pântano a segunda. Mas dominós têm uma tendência irritante de cair em direções inesperadas.

Lá embaixo, na entrada da mansão, um carro de polícia estacionou. O xerife Shoupe desceu, ajustando o chapéu, com uma expressão que não augurava nada de bom.

— Parece que temos visitas — disse Dahlia, soltando-se de Rafe e ajeitando o vestido. — Mantenha a calma, Rafe. Lembre-se: nós estávamos no *Red* a noite toda.

Eles desceram as escadas juntos, a imagem da perfeição de Figure Eight. Shoupe os esperava no hall, segurando um saco de evidências plástico.

— Bom dia, Xerife — cumprimentou Dahlia, com um sorriso educado. — A que devemos a visita tão cedo? Alguma notícia sobre o acidente da minha irmã?

Shoupe olhou para os dois, seus olhos experientes avaliando cada detalhe da linguagem corporal deles.

— Na verdade, Srta. Romano, estou aqui por causa de outro incidente. Houve uma explosão no pântano ontem à noite. O barco *Phantom*, da família Cameron.

Rafe sentiu um suor frio escorrer por suas costas, mas permaneceu em silêncio.

— Que terrível — disse Dahlia, fingindo surpresa. — Rafe me contou que aquele barco estava abandonado há meses. Houve feridos?

Shoupe hesitou, olhando para o saco de evidências. Dentro dele, havia um pequeno objeto carbonizado, mas ainda reconhecível: um anel de amizade Pogue, do tipo que Kiara Carrera nunca tirava do dedo.

— Ainda estamos investigando — disse o xerife. — Mas encontramos algo interessante nos arredores do cais antes do incêndio. Uma câmera de segurança de uma propriedade vizinha captou um carro esporte saindo da área minutos antes da explosão. Um carro que se parece muito com o seu, Srta. Romano.

O silêncio que se seguiu foi denso. Dahlia não vacilou.

— Muitos carros em Figure Eight se parecem com o meu, Xerife. É o modelo do ano. E, como eu disse, Rafe e eu passamos a noite no *Red*. O gerente pode confirmar, assim como os registros de entrada.

— Eu vou verificar isso — disse Shoupe, guardando o saco. — Mas há outra coisa. Recebemos uma denúncia anônima de que a Srta. Carrera foi vista indo em direção ao pântano ontem à noite. E ela não voltou para casa.

— A Kiara sempre foi impulsiva — comentou Dahlia, com um tom de falsa lamentação. — Espero que ela esteja bem. Mas não vejo como isso nos envolve.

Shoupe deu um passo à frente, sua voz baixando.

— O anel que encontramos... ele não estava no barco. Estava no cais. E havia marcas de luta. Se eu descobrir que vocês dois têm algo a ver com isso, não haverá sobrenome no mundo que os proteja.

— Isso soa como uma acusação infundada, Xerife — disse Dahlia, sua voz tornando-se fria como gelo. — E eu sugeriria que você tivesse provas sólidas antes de vir à minha casa insultar a mim e ao meu futuro cunhado, especialmente enquanto minha irmã luta pela vida em um hospital.

Shoupe a encarou por um longo tempo antes de se virar.

— Isso não acabou, Romano.

Quando a porta se fechou, Rafe desabou em uma poltrona.

— A câmera... você disse que não havia câmeras!

— Eu disse que não havia câmeras no cais do *Phantom* — corrigiu Dahlia, seus olhos brilhando com uma inteligência furiosa. — Eu não contei com os vizinhos paranoicos. Mas não importa. O vídeo será granulado, impossível de identificar a placa ou os rostos. É apenas uma coincidência.

— Uma coincidência que o Shoupe não vai engolir — disse Rafe.

Dahlia caminhou até a janela, observando o carro da polícia se afastar.

— Então teremos que dar a ele algo mais interessante para mastigar. — Ela se virou para Rafe, um plano já se formando em sua mente. — Ward.

— O quê?

— O seu pai. Ele tem os mesmos motivos que nós para querer a fusão. Ele odeia os Pogues. E ele tem um histórico de violência e negligência. Se precisarmos de um bode expiatório, Rafe... quem melhor do que o homem que já é um vilão aos olhos de todos?

Rafe olhou para ela, chocado.

— Você quer culpar o meu pai pelo que fizemos com a Kiara?

— Eu quero sobreviver, Rafe — disse Dahlia, aproximando-se dele e segurando seu rosto. — E para nós sobrevivermos, alguém tem que cair. E eu garanto que não serei eu. E, se você for esperto, não será você.

Naquele momento, Rafe percebeu que Dahlia Romano não era apenas a mulher que ele desejava. Ela era a força da natureza que o destruiria se ele não seguisse o seu ritmo. E ele, em sua fraqueza e obsessão, aceitou o destino.

O jogo em Outer Banks mudara de patamar. Não era mais apenas sobre um casamento ou uma herança. Era uma guerra de eliminação. E enquanto Sofia Romano lutava para recuperar sua voz no hospital, Dahlia já estava escrevendo o roteiro do silêncio final.

A máscara de Dahlia estava mais firme do que nunca. Mas, nas sombras de seus olhos, o vermelho do *Red* brilhava como um aviso: a escuridão estava apenas começando a cobrar seu preço, e a próxima peça a cair poderia ser a mais cara de todas.

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