REDLINE
O Ruído Branco da Obsessão
O sol de Monza não perdoa. Ele reflete no asfalto da pista com uma agressividade que parece querer cegar qualquer um que ouse desafiar o Templo da Velocidade. Eu estava no pit lane, o fone de ouvido da McLaren pressionado contra as minhas orelhas, filtrando o caos sonoro dos motores V6 turbo-híbridos que rugiam ao passarem pela reta principal. O cheiro de borracha queimada e combustível de alta octanagem era o meu oxigênio.
Pelo monitor, eu observava o ponto amarelo e preto que era o carro da Billie. Ela estava voando. O primeiro treino livre mal havia começado e ela já estava baixando os tempos de volta, forçando os limites das zebras da Variante della Roggia com uma audácia que beirava a imprudência.
— Ela está entrando muito quente na Ascari — comentou Marcus, o engenheiro-chefe, ao meu lado. — Kyra, avise para ela maneirar. Os pneus macios não vão aguentar esse abuso por mais três voltas.
Apertei o botão do rádio. Minha voz saiu firme, apesar do meu coração martelar contra as costelas a cada vez que via o carro dela balançar perigosamente.
— Billie, aqui é a Kyra. Marcus quer que você poupe os pneus na Ascari. Estamos focando em ritmo de corrida agora, não em tempo de classificação. Cópia?
Houve um segundo de estática, o som do motor subindo de marcha ecoando pelo rádio, e então a voz dela, ofegante, carregada daquela adrenalina que a transformava em algo sobre-humano.
— Cópia, Ky. Mas o carro está pedindo, entende? Ele quer correr. Eu quero correr.
— Eu sei que você quer, Billie. Mas eu preciso de um carro inteiro para o TL2. Faz o que eu te pedi. Por favor.
— "Por favor"? — Ela soltou uma risada curta, que vibrou nos meus ouvidos. — Você sabe que eu não consigo dizer não para você quando usa esse tom, Monroe. Entendido. Tirando o pé.
Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Marcus me lançou um olhar de soslaio, metade admirado, metade intrigado. Ninguém conseguia domar a impulsividade de Billie como eu. Era uma dança delicada entre autoridade e uma intimidade que ninguém mais ousava ter com a "garota de ouro" da F1.
Quando o treino terminou e os carros retornaram aos boxes, a garagem da McLaren se tornou um formigueiro. Billie saltou do cockpit com a agilidade de um felino, retirando o capacete e revelando o rosto suado, os fios pretos grudados na testa e os olhos azuis dilatados pela velocidade. Ela era uma visão de poder bruto.
Antes mesmo de falar com os engenheiros, ela veio em minha direção. Valentina não estava por perto — a modelo provavelmente ainda estava dormindo na suíte de luxo, recuperando-se da noite que eu preferia deletar da minha memória.
— E aí, Cérebro? Fui muito mal na economia de borracha? — Billie perguntou, parando a centímetros de mim. Ela exalava calor, um vapor quente que parecia derreter a pouca compostura que me restava.
— Você foi teimosa — respondi, fingindo checar os dados no tablet, embora meus olhos estivessem fixos na gota de suor que escorria pelo pescoço dela, sumindo sob a gola do macacão ignífugo. — Mas os tempos foram consistentes. Só não faça isso de novo.
Billie sorriu, aquele sorriso de lado que sempre indicava que ela estava aprontando algo. Ela se inclinou, apoiando o braço na divisória da bancada onde eu estava, cercando meu espaço.
— Você está muito séria hoje, Ky. Mais do que o normal. O que foi? O café da manhã estava ruim ou você ainda está brava porque eu trouxe a Val?
Meu sangue gelou e depois ferveu. Eu odiava o quanto ela era intuitiva quando se tratava de mim.
— Eu não estou brava, Billie. Eu sou sua assistente e gestora de logística. Se você quer trazer uma modelo italiana para o box, o meu trabalho é garantir que ela tenha o melhor passe VIP. Só isso.
— Mentirosa — ela sussurrou, a voz caindo uma oitava, tornando-se perigosamente íntima em meio ao barulho das parafusadeiras pneumáticas. — Você está com aquela cara de quem quer me dar um soco ou me trancar em um armário.
— Talvez as duas coisas — murmurei, finalmente levantando os olhos para os dela.
A tensão entre nós era um fio de alta tensão prestes a arrebentar. Eu podia sentir a eletricidade estática no ar. Billie não recuou; pelo contrário, ela se aproximou mais, seu corpo quase encostando no meu. Eu conseguia sentir o volume discreto e familiar entre suas pernas sob o tecido grosso do macacão, uma lembrança constante da sua anatomia única que, em momentos como esse, parecia pulsar com a mesma urgência que a minha própria respiração.
— Billie! — O assessor de imprensa chamou do outro lado da garagem. — Entrevista com a Sky Sports em cinco minutos.
Ela bufou, mas não desviou o olhar de mim por mais alguns segundos.
— Salva pelo gongo, Monroe. Mas a gente não terminou essa conversa.
Ela se afastou, deixando um vácuo gelado onde antes havia seu calor. Eu me forcei a focar no trabalho, mas minhas mãos tremiam levemente sobre a tela do tablet.
O dia se arrastou em uma sucessão de reuniões técnicas, compromissos com patrocinadores e o segundo treino livre, onde Valentina finalmente apareceu, desfilando pelo paddock com óculos escuros enormes e um sorriso de quem sabia que tinha a atenção da pilota mais cobiçada do mundo. Eu a ignorei com uma precisão cirúrgica, focando apenas nos dados e no cronograma.
À noite, a equipe tinha um jantar obrigatório com um dos grandes investidores em um restaurante reservado no centro de Monza. Billie estava impecável, usando uma calça de alfaiataria preta e uma camisa de seda entreaberta, exibindo as correntes de prata que ela tanto gostava. Valentina estava pendurada em seu braço, sussurrando coisas no seu ouvido que faziam Billie rir.
Eu estava sentada na outra ponta da mesa, discutindo contratos de renovação com o diretor esportivo, mas minha visão periférica era uma tortura constante. Eu via as mãos de Billie tocando a coxa de Valentina por baixo da mesa. Via a forma como Valentina se inclinava, deixando claro que o território estava marcado.
O jantar parecia eterno. Cada risada de Valentina era como uma lixa na minha pele. Quando finalmente terminou, Billie se aproximou de mim enquanto esperávamos os carros da equipe na saída do restaurante. Valentina tinha ido ao toalete.
— Você mal falou comigo a noite toda — disse Billie, encostando-se na parede de pedra do edifício antigo. Ela parecia levemente alterada pelo vinho, os olhos mais brilhantes, a postura mais relaxada.
— Você estava ocupada — respondi, cruzando os braços e observando o movimento da rua. — E eu tinha muito o que alinhar com o Zak.
— Puta que pariu, Kyra. Para de ser tão profissional por um segundo, caralho. A gente está na Itália. O ar é diferente, a comida é boa... e você está agindo como se estivesse em um funeral.
— Talvez seja porque eu estou exausta, Billie. Manter a sua vida nos trilhos enquanto você brinca de casinha com a sua nova conquista não é exatamente relaxante.
Billie deu um passo à frente, a expressão suavizando para algo que parecia... dor? Ou talvez fosse apenas a bebida.
— Você acha que é só brincadeira?
— E não é? — Retruquei, sentindo a raiva acumulada transbordar. — É o que você faz, Billie. Você se encanta, você consome, e depois você passa para a próxima. E eu sou a pessoa que tem que limpar a bagunça, conseguir os voos de volta, inventar desculpas. Eu estou cansada de ser o seu "anjo da guarda" enquanto você me usa de escudo emocional.
As palavras saíram mais ácidas do que eu pretendia. Billie ficou em silêncio, os lábios entreabertos, observando-me com uma intensidade que me fez querer recuar.
— É isso que você acha que eu faço? Que eu te uso? — Ela perguntou, a voz baixa e rouca.
— É o que parece do meu lado da cerca.
Nesse momento, Valentina saiu do restaurante, sorrindo e balançando as chaves do quarto do hotel que Billie provavelmente tinha dado a ela.
— Pronta, baby? — Valentina perguntou, ignorando-me completamente.
Billie olhou para ela, depois voltou para mim. Havia um conflito claro em seus olhos azuis, uma tempestade de ansiedade e desejo que eu conhecia tão bem.
— Vai na frente, Val — disse Billie, sem desviar os olhos de mim. — Eu preciso terminar de alinhar umas coisas do cronograma de amanhã com a Kyra. Pega o primeiro carro.
Valentina franziu a testa, a insatisfação clara em seu rosto perfeito.
— Mas Billie...
— Vai, Valentina. Eu te encontro lá em vinte minutos.
A modelo bufou, lançando-me um olhar de puro ódio antes de entrar no SUV que aguardava. Quando o carro se afastou, o silêncio da rua de Monza caiu sobre nós, quebrado apenas pelo som distante de algum bar.
Billie se aproximou. Desta vez, ela não parou na zona de conforto. Ela invadiu meu espaço até que minhas costas batessem na parede fria. Suas mãos subiram, apoiando-se na pedra de cada lado da minha cabeça, prendendo-me.
— Você acha que eu não percebo? — Ela sussurrou, o hálito com cheiro de vinho tinto e hortelã roçando meu rosto. — Você acha que eu sou cega para o jeito que você me olha? Para o jeito que você fica quando eu toco em outra pessoa?
Meu coração parou. Literalmente parou por um segundo antes de disparar como um motor a doze mil rotações.
— Eu não sei do que você está falando — menti, minha voz saindo um sussurro trêmulo.
— Sabe sim. Você sabe exatamente. — Billie inclinou a cabeça, o nariz roçando o meu. — Você é o meu cérebro, Kyra. Você é a única pessoa que realmente me conhece. Que conhece cada parte de mim. E você está me olhando com esse desejo sufocado há meses. Talvez anos.
— Billie, você está bêbada. Para com isso.
— Eu não estou bêbada o suficiente para não sentir a sua pulsação daqui — ela disse, baixando uma das mãos e pressionando a palma contra o meu peito, logo acima do meu coração. — Ele está querendo sair pela boca. Por quê?
Eu tentei empurrá-la, mas Billie era mais forte. A constituição física dela, aquela mistura única de delicadeza feminina e uma força masculina subjacente, era esmagadora. Suas pernas se encaixaram entre as minhas, e eu pude sentir a pressão firme e inconfundível de sua excitação contra a minha coxa. O contato elétrico me fez soltar um gemido involuntário que eu tentei disfarçar como um suspiro de irritação.
— Porra, Kyra... — Billie murmurou, fechando os olhos por um momento, a testa encostada na minha. — Você me deixa louca. Você é tão perfeita, tão centrada, tão... intocável. E tudo o que eu quero é ver você perder esse controle todo.
— Então por que a Valentina? Por que todas as outras? — Perguntei, a mágoa finalmente vencendo o medo.
Billie abriu os olhos, e a vulnerabilidade ali era crua.
— Porque elas são fáceis. Porque com elas eu não tenho nada a perder. Se eu estragar tudo com a Valentina, eu só preciso de outra modelo. Mas se eu estragar tudo com você... eu perco o meu mundo. Eu não sei quem eu sou sem você, Kyra. E isso me assusta pra caralho.
A confissão foi como um soco. Eu não tive tempo de processar, porque Billie não me deu tempo. Ela avançou, eliminando a distância final.
O beijo não foi suave. Não foi o início de um romance de cinema. Foi uma colisão. Foi desesperado, faminto, carregado de anos de palavras não ditas e desejo reprimido. A língua dela invadiu minha boca com uma possessividade que me fez perder o chão. Minhas mãos, que antes tentavam afastá-la, subiram para o seu pescoço, enterrando os dedos nos cabelos curtos da sua nuca, puxando-a para mais perto, se é que isso era possível.
Billie soltou um rosnado baixo contra meus lábios, prensando seu corpo contra o meu com mais força. A pressão entre as minhas pernas era agora uma necessidade urgente. Eu podia sentir a rigidez dela através das roupas, um lembrete físico da sua natureza que me fascinava e me aterrorizava ao mesmo tempo.
Ela desceu os beijos para o meu pescoço, mordiscando a pele sensível logo abaixo da orelha.
— Eu quero você — ela sussurrou, a voz vibrando nos meus ossos. — Eu quero você agora, Kyra. Não a Valentina, não o cronograma, não a porra da McLaren. Só você.
— Billie... a gente não pode... aqui... — eu tentei dizer, mas minha cabeça estava jogada para trás, meus olhos fechados enquanto eu me perdia no toque dela.
— Para o inferno com o "não pode" — ela disse, afastando-se apenas o suficiente para me olhar nos olhos. O azul estava escuro, quase preto, as pupilas totalmente dilatadas. — Vamos para o hotel. Agora.
— E a Valentina? — Perguntei, a realidade tentando se infiltrar na névoa de luxúria.
Billie tirou o celular do bolso, digitou algo rapidamente e o guardou de volta.
— Acabei de mandar uma mensagem dizendo que tive uma emergência com a equipe e que ela deve dormir. Eu não dou a mínima para ela, Kyra. Eu nunca dei.
Ela pegou minha mão, seus dedos entrelaçando-se nos meus com uma força que dizia que ela nunca mais pretendia soltar. Caminhamos até o carro de apoio que nos esperava, o silêncio entre nós agora carregado de uma promessa que fazia meu corpo inteiro tremer.
O trajeto até o hotel foi um borrão. No elevador, a tensão era tão espessa que parecia que o oxigênio ia acabar. Billie me encurralou contra o espelho, suas mãos explorando meu corpo por cima da roupa, mapeando minhas curvas com uma urgência predatória.
Quando as portas se abriram no nosso andar, ela me puxou pelo corredor. Mas não paramos no quarto dela, onde Valentina provavelmente estava esperando ou dormindo. Ela me levou para o meu quarto.
Assim que a porta se fechou e a tranca eletrônica clickou, o mundo exterior deixou de existir. Billie me jogou contra a porta, reiniciando o beijo com uma intensidade ainda maior. Suas mãos desceram para o meu quadril, levantando minha saia, os dedos subindo pela minha coxa até encontrarem a seda da minha calcinha, que já estava encharcada.
— Você está tão molhada para mim, Cérebro — ela provocou, roçando os dedos na minha intimidade, fazendo minhas pernas fraquejarem. — Diz que você me quer. Diz que você quer que eu acabe com essa tortura.
— Eu quero você, Billie — confessei, minha voz um gemido de pura entrega. — Por favor, eu quero você.
Billie sorriu, um sorriso que não tinha nada de amigável e tudo de perigoso. Ela começou a abrir os botões da própria camisa, revelando a pele pálida e as curvas suaves dos seus seios, antes de descer as mãos para o cinto da calça.
Eu sabia que, a partir daquele momento, nada na minha vida seria igual. O profissionalismo, a segurança da friendzone, a ordem que eu tanto prezava... tudo estava prestes a ser consumido pelo incêndio que era Billie O’Connell.
E, enquanto ela se despia diante de mim, revelando a complexidade magnífica do seu corpo, eu percebi que não queria ser salva. Eu queria queimar.
— Então vem pegar o que é seu, Kyra — ela disse, a voz rouca, desafiadora, enquanto se sentava na beirada da cama, abrindo as pernas e me convidando para o abismo.
Eu não hesitei. Avancei em direção a ela, deixando para trás a Kyra Monroe que resolvia problemas e abraçando a mulher que, finalmente, ia se permitir ser o problema de Billie.
O GP de Monza estava apenas começando, mas a corrida mais perigosa da minha vida estava acontecendo ali, entre quatro paredes, onde a velocidade não era medida em quilômetros por hora, mas em batimentos cardíacos por segundo.