REDLINE
O Rugido do Silêncio
A porta do quarto não era apenas uma barreira de madeira; naquele momento, era a fronteira entre a sanidade que eu mantive por anos e o caos absoluto que Billie representava. O som da tranca eletrônica ecoou no corredor vazio de Monza como um veredito. Eu estava encurralada entre a porta e o corpo da mulher que era, simultaneamente, minha maior conquista profissional e minha ruína pessoal.
Billie não perdeu tempo com delicadezas. Ela nunca foi de esperar a bandeira quadriculada para acelerar. Suas mãos, calejadas pelo atrito constante com o volante de fibra de carbono, subiram pelo meu rosto, segurando minha mandíbula com uma firmeza que me obrigava a encarar o azul elétrico de seus olhos.
— Você não tem ideia — sussurrou ela, a voz falhando, carregada de uma urgência que eu nunca tinha visto, nem mesmo antes de uma largada em Mônaco — do quanto eu precisei me segurar para não fazer isso na frente de todo mundo.
— Billie, a Valentina... — tentei dizer, mas o nome morreu na minha garganta quando ela pressionou o quadril contra o meu.
— Esquece ela. Esquece a McLaren. Esquece o mundo lá fora, Kyra. Agora é só o meu cérebro e o meu corpo. E eu preciso que eles entrem em sintonia.
Ela me beijou de novo, mas desta vez não havia hesitação. Era um beijo de posse, profundo e faminto. Minhas costas arderam contra o frio da porta, mas o calor que emanava dela compensava qualquer desconforto. Eu sentia o cheiro dela — o perfume caro misturado com o suor residual do dia de treinos e o toque metálico do champanhe. Era inebriante. Minhas mãos, agindo por conta própria, puxaram a camisa de seda dela para fora da calça, buscando o contato direto com a pele.
Billie soltou um suspiro pesado quando meus dedos tocaram a curva de sua cintura. Ela se afastou apenas o suficiente para arrancar a camisa, jogando-a em algum lugar do carpete escuro. Sob a luz fraca do abajur, ela era uma obra-prima de contradições. A pele pálida, as tatuagens escondidas e a força latente em seus ombros. Ela se sentou na beirada da cama, desfazendo o cinto com uma agilidade febril.
Eu fiquei parada por um segundo, o ar fugindo dos meus pulmões. Ver Billie assim, desarmada de sua aura de superestrela, era um privilégio que eu desejava há tanto tempo que a realidade parecia um sonho lúcido. Quando ela terminou de se livrar da calça, a verdade de sua anatomia se revelou com a naturalidade de quem nunca teve nada a esconder de mim.
A intersexualidade de Billie era algo que eu conhecia teoricamente, mas vê-la ali, pronta para mim, com aquela masculinidade sutil mesclada à sua feminilidade avassaladora, fez meu sangue pulsar em lugares que eu tinha esquecido que existiam. O volume entre suas pernas era uma promessa de preenchimento, uma extensão de seu poder e de sua vontade.
— Vem aqui — comandou ela, estendendo a mão.
Eu caminhei até ela, minhas pernas tremendo. Billie segurou minha cintura e me puxou para o espaço entre suas coxas abertas. Ela começou a desabotoar minha blusa, um por um, seus olhos fixos nos meus, desafiando-me a desviar o olhar. Eu não desviei. Eu queria que ela visse tudo. Queria que ela visse o quanto ela me destruía e me reconstruía a cada toque.
— Você é tão linda, Kyra — murmurou ela, enquanto minha blusa caía no chão. — Eu sempre me perguntei se a sua pele seria tão macia quanto parece quando você está concentrada nos dados da telemetria.
— E é? — perguntei, minha voz mal passando de um sopro.
— É melhor. É como seda e fogo.
Billie desceu as mãos para a minha saia, deslizando o zíper com uma lentidão torturante. Quando a peça caiu, restando apenas minha lingerie de renda preta, ela soltou um ruído gutural, uma mistura de aprovação e impaciência. Ela me puxou para cima dela, fazendo-me sentar em seu colo. O contato direto da minha intimidade, protegida apenas pela renda fina, contra a rigidez dela foi como um choque elétrico que percorreu minha espinha.
Eu joguei a cabeça para trás quando ela enterrou o rosto no meu pescoço, sua língua traçando o caminho da minha pulsação acelerada.
— Billie... por favor — eu implorei, sem saber exatamente pelo que estava pedindo, apenas sabendo que precisava de mais.
— Eu vou te dar tudo, Kyra. Tudo o que você guardou para mim todos esses anos — ela disse, sua mão descendo para o elástico da minha calcinha.
Ela a removeu com uma facilidade irritante e, em seguida, suas mãos estavam em todos os lugares. Ela explorava meu corpo com a mesma precisão com que explorava uma pista nova, encontrando cada ponto de prazer, cada centímetro que me fazia arquear as costas e clamar por ela. Quando seus dedos finalmente me encontraram, eu soltei um grito abafado contra o ombro dela.
— Você está tão pronta — ela provocou, os dedos movendo-se com uma maestria que me fazia perder o sentido da realidade. — Tão molhada para mim.
— Eu sempre estive pronta para você — confessei, as lágrimas de alívio e desejo ameaçando cair. — Sempre foi você, Billie.
Ela parou por um segundo, seus olhos azuis encontrando os meus com uma seriedade avassaladora. Por um breve momento, a tensão sexual foi substituída por algo muito mais profundo, algo que ambas tínhamos medo de nomear. Mas a urgência do corpo falou mais alto.
Billie se posicionou, guiando a si mesma para a minha entrada. Quando ela começou a entrar, devagar, preenchendo o vazio que eu carregava no peito e no corpo, eu senti que finalmente estava em casa. Era uma sensação de completude que nenhuma lógica ou plano de carreira poderia explicar. Ela era firme, quente e incrivelmente presente.
— Olha para mim — ela exigiu, a voz embargada.
Eu olhei. Vi a pilota que desafiava a morte a trezentos quilômetros por hora, mas também vi a menina que sofria de ansiedade e que só confiava em mim para segurar sua mão no escuro.
Ela começou a se mover. No início, eram estocadas lentas, deliberadas, que me faziam sentir cada milímetro da sua invasão. Depois, o ritmo acelerou. Billie era agressiva na cama da mesma forma que era na pista; ela não pedia permissão, ela tomava o que queria. E eu queria que ela tomasse tudo.
Minhas unhas cravaram-se em seus ombros, deixando marcas vermelhas que seriam escondidas pelo macacão da McLaren no dia seguinte, mas que agora eram troféus da minha entrega. O som dos nossos corpos colidindo era a única música no quarto, um ritmo frenético de desejo e desespero.
— Kyra... porra, Kyra — ela gemia, o rosto contraído em uma máscara de prazer puro.
Eu estava no limite. A tensão acumulada por anos, as noites em claro, o ciúme sufocado... tudo estava convergindo para aquele ponto de singularidade. Quando o orgasmo veio, foi como uma explosão de motor, um colapso total do sistema. Eu me agarrei a ela como se minha vida dependesse disso, sentindo as ondas de prazer me levarem para longe de Monza, para longe da F1, para um lugar onde éramos apenas duas pessoas perdidas uma na outra.
Billie me seguiu logo em seguida. Eu senti o corpo dela retesar, o calor dela jorrando dentro de mim enquanto ela soltava um grito rouco, enterrando o rosto no meu cabelo. Ficamos assim por um longo tempo, nossas respirações se acalmando, o suor colando nossos corpos.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas era pesado. Era o silêncio de quem sabe que cruzou uma linha da qual não há retorno.
Billie foi a primeira a se mover. Ela se deitou na cama, puxando-me para o seu lado. Eu apoiei a cabeça em seu peito, ouvindo o ritmo ainda errático do seu coração.
— O que a gente fez, Ky? — perguntou ela, a voz baixa, quase um sussurro para si mesma.
— O que a gente deveria ter feito há muito tempo — respondi, fechando os olhos.
— Amanhã vai ser um inferno — ela comentou, passando a mão pelo meu braço. — A Valentina, a classificação, os fotógrafos...
— Eu resolvo — eu disse, por instinto profissional, mas depois parei e ri baixinho, uma risada amarga. — Eu sempre resolvo, não é?
Billie se inclinou e beijou minha testa.
— Não hoje. Hoje você não resolve nada. Hoje você só fica aqui comigo.
Mas, apesar de suas palavras carinhosas, eu sentia a sombra do mundo corporativo pairando sobre nós. O "slow burn" que tínhamos vivido até ali tinha acabado em uma explosão, mas as cinzas ainda podiam nos queimar. Billie era impulsiva; ela vivia o momento. E eu, o cérebro, sabia que momentos como esse custavam caro no paddock da Fórmula 1.
— Billie? — chamei, após alguns minutos de silêncio.
— Hum?
— Isso não muda o fato de que você ainda tem uma convidada no quarto ao lado.
Ela soltou um suspiro pesado, a frustração voltando à sua voz.
— Eu sei. Eu vou dar um jeito. Eu juro.
— Você não precisa jurar nada. Apenas... não me peça para organizar o café da manhã dela amanhã.
Billie riu, uma risada verdadeira que vibrou contra minhas costelas.
— Prometido. Amanhã, a única pessoa que eu quero ver tomando café é você.
Eu queria acreditar nela. Queria acreditar que o desejo que acabamos de saciar seria suficiente para mantê-la focada em mim, e não na próxima distração que a vida de estrela lhe ofereceria. Mas eu conhecia Billie Eilish O’Connell. Ela era viciada em adrenalina, em novidade, em velocidade.
E eu era a constante. A segurança. O porto seguro.
Será que um porto seguro era suficiente para alguém que nasceu para correr?
Ficamos ali, abraçadas, enquanto as luzes de Monza brilhavam lá fora. O capítulo profissional da nossa vida continuaria em poucas horas, com toda a sua frieza e exigência. Mas, por aquela noite, o rugido do silêncio entre nós era mais alto do que qualquer motor. E, pela primeira vez na vida, eu não tinha um plano de contingência. Eu estava apenas correndo, sem freios, direto para o coração da tempestade.