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Rintama high

O Delírio de Morango e a Dança no Banheiro Feminino

A Escola Secundária Anaktos não era o lugar mais calmo do mundo às oito da manhã, mas o que aconteceu naquela sexta-feira superou qualquer expectativa de caos. O sol mal tinha batido nos portões de ferro quando Mizi atravessou a entrada principal. Ela não estava apenas caminhando; ela estava flutuando em uma órbita própria, tropeçando nos próprios pés com uma elegância desastrosa. Seus cabelos rosa e azul estavam desgrenhados, a gravata preta pendia como um cadáver de seda em volta do pescoço e o cheiro de destilado barato emanava dela como um perfume de má qualidade.

Mizi estava bêbada. Não era aquele tipo de embriaguez alegre e contida; era o tipo de bebedeira que transformava seu sarcasmo em uma arma química e sua impulsividade em um furacão sem rumo.

No corredor principal, um grupo de garotos da gangue "Vipera", ainda ressentidos pela derrota humilhante da semana anterior, viu a oportunidade perfeita. O líder deles, um sujeito com cara de rato chamado Leo, sinalizou para os outros.

— Olha só — sibilou Leo —, a rainha está sem coroa e sem equilíbrio. Vamos dar as boas-vindas que ela merece.

Eles se fecharam em volta dela, bloqueando o caminho para os armários. Mizi parou, balançando levemente, um sorriso torto e vidrado surgindo em seus lábios. Ela olhou para Leo como se ele fosse uma piada mal contada.

— Opa... — Mizi soltou um risinho agudo, a voz arrastada e carregada de um sarcasmo que faria um santo perder a paciência. — O ratinho saiu da toca... Que fofo.

Leo avançou com um soco direto, aproveitando que ela parecia mal conseguir ficar de pé. No entanto, o instinto de luta de Mizi era algo visceral, algo que nem o álcool conseguia apagar totalmente. No último milésimo de segundo, ela se abaixou bruscamente, quase caindo sentada no chão do corredor, rindo de forma maníaca.

— Errou! — Ela exclamou, olhando para cima enquanto ainda estava agachada.

Antes que Leo pudesse reagir, Mizi disparou para cima como uma mola, desferindo um soco de baixo para cima que pegou em cheio no queixo do garoto. O som foi seco, e Leo cambaleou para trás, caindo por cima de uma lixeira. Mizi nem esperou os outros reagirem; ela apenas saiu saltitando, literalmente pulando pelo corredor enquanto cantarolava uma melodia sem nexo.

— Tchauzinho, ratinhos! — Ela gritou por cima do ombro, sem olhar para trás.

Lá na frente, perto da escadaria, o grupo de sempre estava reunido. Ivan, Till, Hyuna e Luka observavam a cena com expressões que variavam entre o horror e o puro entretenimento. Ao lado deles, Sua estava encostada na parede, os braços cruzados e uma expressão tão fria que poderia congelar o inferno.

Mizi, ao avistar Sua, parou de pular instantaneamente. Seus olhos dourados brilharam, mas o brilho foi rapidamente substituído por uma sombra de insegurança bêbada. Ela se aproximou de Sua com a cautela de um filhote que sabe que fez merda.

— Sua... — Mizi murmurou, tentando manter o equilíbrio. — Você tá... você tá com aquela cara. A cara de "Mizi, você é uma idiota".

Sua não disse uma palavra. Ela apenas olhou para Mizi, de cima a baixo, com um desprezo silencioso que cortava mais do que qualquer faca. O silêncio durou uma eternidade para Mizi, que sentiu o peito apertar. Na sua lógica distorcida pelo álcool, aquele olhar era o fim do mundo.

— Ai, não... não olha assim pra mim — Mizi choramingou, os olhos começando a lacrimejar de forma dramática. — Eu só... eu só queria me divertir um pouco. Por que você é tão brava? Por que você não gosta de mim?

— Mizi, você está cheirando a lixo e mal consegue falar — disse Sua, a voz gélida e monótona. — Saia da minha frente antes que eu mesma te leve para a diretoria.

Mizi recuou, como se tivesse levado um tapa físico. Seu rosto se transformou em uma máscara de mágoa profunda. Ela olhou para Ivan, que apenas deu de ombros, e depois para Till, que estava ocupado demais tentando não rir.

— Tá bom! — Mizi gritou, a voz subindo de tom. — Se você não me quer, tem quem queira! Eu não preciso de você, Sua! Eu sou a líder da Mukuro, eu sou linda pra caralho e eu posso ter quem eu quiser!

Ela girou nos calcanhares, quase caindo no processo, e varreu o corredor com o olhar. Foi então que ela viu a "Garota Popular", a loira platínica de olhos vermelhos que ela tinha ajudado na semana anterior. A garota estava saindo da biblioteca, parecendo uma visão angelical no meio do caos matinal.

Mizi marchou até ela.

— Ei, loirinha! — Mizi exclamou, chegando perto demais e invadindo o espaço pessoal da garota. — Lembra de mim?

A garota popular, cujo nome era Elena, corou instantaneamente, mas sorriu.

— Mizi? Você está... bem?

— Eu estou ótima! — Mizi declarou, agarrando a mão de Elena com uma força desnecessária. — Eu estou maravilhosa! E você é a coisa mais bonita desse lugar. Vamos sair daqui.

Sem dar tempo para Elena responder, Mizi começou a puxá-la pelo corredor. A escola inteira parou para assistir. Era uma cena surreal: a líder bêbada da gangue mais perigosa da escola, arrastando a garota mais "pura" e popular pelos corredores, indo em direção a uma única direção óbvia.

O banheiro feminino.

Ivan arregalou os olhos. Till soltou um "caralho" audível. Hyuna cobriu a boca com as mãos.

— Ela não vai fazer o que eu acho que ela vai fazer... — sussurrou Luka, ajustando os óculos em choque.

Mizi chutou a porta do banheiro feminino com força, entrando com Elena e trancando a porta por dentro com um estalo sonoro que ecoou pelo corredor agora silencioso.

O silêncio que se seguiu no corredor da Anaktos era absoluto. Ninguém se mexia. Ninguém falava. Era como se o tempo tivesse parado. Todos os olhos estavam fixos na porta de madeira pintada de bege.

Lá dentro, o barulho começou. Não era um barulho de briga. Eram risadas abafadas, o som de água correndo e, logo em seguida, o som inconfundível de corpos batendo contra os boxes de metal. Gemidos baixos e respirações ofegantes começaram a vazar pelas frestas da porta.

No corredor, a multidão de alunos começou a trocar olhares frenéticos.

— Sexo... — alguém sussurrou ao fundo.

— Elas estão transando? Agora? No meio da manhã? — outro comentou, incrédulo.

Ivan olhou para Sua. A garota de cabelos pretos permanecia na mesma posição, mas seus nós dos dedos estavam tão brancos que pareciam prestes a rasgar a pele. Sua mandíbula estava travada, e um brilho de fúria contida emanava dela.

— Sua... — Ivan começou, mas ela o cortou com um olhar.

— Eu não me importo — mentiu Sua, a voz saindo mais afiada do que o normal. — Ela pode fazer o que quiser com quem quiser.

Dentro do banheiro, a atmosfera era de um delírio febril. Mizi tinha Elena prensada contra a pia de mármore. O álcool tinha removido qualquer filtro, e o desejo de Mizi — misturado com a necessidade de ferir o ego de Sua — estava no comando.

— Você é tão macia... — Mizi sussurrou contra o pescoço de Elena, suas mãos explorando o corpo da garota com uma urgência selvagem. — E você não fica me olhando como se eu fosse um erro.

Elena estava perdida. Ela sempre teve uma queda por Mizi, pela sua força e pelo seu jeito rebelde. Ser o objeto de atenção da líder da Mukuro, mesmo que em um estado deplorável, era algo que ela não conseguia recusar. Ela envolveu o pescoço de Mizi com os braços, puxando-a para um beijo profundo que tinha gosto de vodca e desespero.

Mizi a ergueu, sentando-a na pia. O som dos sapatos de Elena batendo contra a porcelana ecoou. Mizi não parava. Suas mãos subiram pela saia de Elena, e os gemidos da garota popular aumentaram de volume, atravessando a porta e atingindo os ouvidos de todos os alunos que ainda permaneciam no corredor, paralisados pela audácia da cena.

— Caralho... a Mizi é louca — Till comentou, passando a mão pelo cabelo cinza, visivelmente desconfortável e impressionado ao mesmo tempo.

— Ela não é louca — disse Hyuna, observando a porta com uma expressão triste. — Ela está machucada. E quando a Mizi se machuca, ela quebra tudo ao redor dela.

Dez minutos se passaram. Quinze. O sinal para a primeira aula tocou, mas ninguém se moveu. Nem mesmo os professores, que observavam de longe, ousavam intervir na área dominada pela Mukuro e pelo rastro de caos de sua líder.

Finalmente, o som da tranca se abrindo ecoou.

A porta do banheiro feminino se abriu lentamente. Mizi saiu primeiro. Ela parecia um pouco mais sóbria, ou talvez apenas exausta. Seu cabelo estava ainda mais bagunçado, e havia marcas de batom no seu pescoço e na sua camisa social desalinhada. Ela não olhou para ninguém. Atrás dela, Elena saiu, com o rosto vermelho e as roupas visivelmente amassadas, mantendo a cabeça baixa enquanto desaparecia rapidamente pelo corredor oposto.

Mizi caminhou até o centro do corredor, onde seu grupo ainda estava parado. Ela parou na frente de Sua.

O silêncio era tão denso que poderia ser cortado com uma tesoura.

Mizi olhou para Sua. Não havia mais lágrimas, apenas um vazio desafiador. Ela limpou o canto da boca com as costas da mão e deu um sorriso de lado, um sorriso que não chegava aos olhos dourados.

— Satisfeita, poetisa? — perguntou Mizi, a voz agora rouca e baixa. — Eu não cheiro mais tanto a lixo, não é? O perfume da Elena é bem forte.

Sua não respondeu. Em vez disso, ela fez algo que ninguém esperava. Ela deu um passo à frente, reduziu a distância entre elas e, com uma força surpreendente, agarrou o colarinho de Mizi, puxando-a para baixo até que seus rostos estivessem a centímetros de distância.

— Você acha que isso me atinge, Mizi? — Sua sibilou, os olhos roxos brilhando com uma intensidade assustadora. — Você acha que se jogar nos braços de qualquer uma para provar um ponto muda o fato de que você é uma covarde que não consegue lidar com um "não"?

Mizi tentou rir, mas o som morreu na sua garganta.

— Eu não sou covarde — Mizi murmurou, a bravata começando a desmoronar.

— É sim — Sua afirmou, soltando o colarinho dela com um empurrão. — Você é patética. E se você acha que transar em um banheiro público te faz a rainha da escola, você está mais bêbada do que eu pensava.

Sua virou as costas e começou a caminhar em direção à sala de aula, sem olhar para trás.

Ivan, Till, Hyuna e Luka ficaram ali, observando Mizi. Ela parecia subitamente pequena no meio do corredor vasto. A adrenalina tinha ido embora, deixando apenas a ressaca moral e o peso das palavras de Sua.

— Mizi... — Ivan tentou se aproximar, mas ela levantou a mão, pedindo silêncio.

— Não — disse Mizi, a voz trêmula. — Eu... eu vou pra enfermaria. Ou pra casa. Sei lá.

Ela começou a caminhar na direção oposta, tropeçando levemente. O show tinha acabado. A escola Anaktos tinha testemunhado um dos momentos mais escandalosos de sua história, mas para Mizi, a vitória tinha um gosto amargo de cinzas.

Enquanto ela se afastava, Ivan olhou para Till.

— Isso vai dar uma merda colossal — comentou Ivan, pegando um pirulito do bolso para tentar acalmar os nervos.

— Já deu merda — respondeu Till, olhando para o lugar onde Sua tinha desaparecido. — A Mizi acabou de incendiar a única ponte que ela realmente queria atravessar.

Naquela manhã, as aulas foram apenas um ruído de fundo. O nome de Mizi e o "incidente do banheiro" eram os únicos tópicos de conversa. A Mukuro estava em silêncio, seus membros confusos pela atitude da líder. E no fundo da sala de literatura, Sua permanecia com o livro aberto na mesma página há uma hora, seus olhos fixos em um poema sobre ruínas e corações de vidro, enquanto, pela primeira vez na vida, ela sentia uma vontade avassaladora de quebrar algo.

A Anaktos nunca mais seria a mesma depois daquela sexta-feira. A rainha tinha caído, não por um soco ou por uma gangue rival, mas pelo peso de seus próprios delírios e pela frieza de uma garota que ela não conseguia conquistar com violência ou com ciúmes. O jogo tinha mudado, e as feridas abertas no banheiro feminino levariam muito tempo para cicatrizar.