Rintama high
O Rugido da Rosa e a Fragilidade do Vidro
A Escola Secundária Anaktos tinha um ecossistema peculiar. Era um lugar onde o silêncio não significava paz, mas sim que algo grande estava prestes a explodir. Mizi, sentada em cima de uma mesa no corredor do terceiro ano, balançava as pernas ritmicamente enquanto mastigava um chiclete de morango. Ela estava cercada por Kael e mais dois membros da Mukuro, rindo de alguma piada interna sobre como um novato da gangue rival tinha tropeçado nos próprios cadarços durante uma fuga.
— Eu juro por Deus, Kael — dizia Mizi, ajeitando a gravata frouxa com um sorriso sarcástico —, se aquele moleque correr mais devagar, eu vou ter que dar um curso de atletismo pra concorrência. Tá ficando sem graça ganhar deles.
— A senhora é impiedosa, chefe — Kael riu, encostado na parede. — Eles tremem só de ver a ponta azul do seu cabelo.
Alguns metros adiante, perto dos armários, o clima era mais contido. Sua estava encostada no metal frio, segurando um livro de poemas, enquanto Hyuna e Luka discutiam sobre o cronograma das provas finais. Ivan e Till, para variar, estavam a alguns passos de distância, trocando olhares que poderiam incendiar o corredor de puro ódio — ou de algo que nenhum dos dois queria admitir.
— Você está no meu caminho, Ivan — rosnou Till, ajustando a alça da mochila.
— O corredor é público, Till. Mas se você quiser passar por cima de mim, sinta-se à vontade. Eu sei que você gosta de contato físico — Ivan provocou, exibindo um sorriso irritante enquanto cruzava os braços.
— Vai se foder! — Till desviou o caminho, bufando.
Tudo parecia seguir a rotina caótica de sempre, até que o som de botas pesadas e risadas guturais ecoou pelo corredor. Era a gangue dos "Cães de Aluguel". Eles eram conhecidos por serem o lixo da Anaktos — um grupo de caras mais velhos, brutais, que não respeitavam as regras tácitas das outras gangues. Eles não lutavam por território ou honra; eles lutavam para intimidar os mais fracos, especialmente as meninas que não tinham a proteção de uma facção.
O líder deles, um sujeito corpulento chamado Brutus, parou o grupo exatamente na frente de onde Sua estava.
Mizi, que até então estava rindo com Kael, parou de balançar as pernas. Seus olhos dourados se estreitaram instantaneamente, focando no grupo que cercava sua "poetisa".
— Olha só o que temos aqui — disse Brutus, com uma voz que parecia cascalho sendo triturado. Ele ignorou Hyuna e Luka, fixando o olhar em Sua. — O brinquedinho novo do terceiro ano. A intelectualzinha pálida.
Sua nem sequer levantou os olhos do livro, mas seus nós dos dedos ficaram brancos ao redor da capa dura.
— Você tem um rosto bem delicado, boneca — continuou um dos seguidores de Brutus, um cara magricela com um sorriso nojento. — Imagina como seria ver esse rosto pedindo por favor quando a gente levar você pro depósito lá atrás.
— Ela tem cara de que aguenta todos nós de uma vez, não tem? — outro comentou, soltando uma risada asquerosa. — A gente podia fazer um revezamento. Aposto que depois da terceira rodada você solta esse livro e aprende a gritar de verdade.
Hyuna deu um passo à frente, os olhos azuis faiscando.
— Sumam daqui agora, seus merdas, antes que eu...
— Fica na sua, morena — Brutus a cortou, empurrando-a levemente. — A gente quer a pálida. Ela parece que precisa de uma lição sobre como o mundo real funciona fora dos livros.
O que aconteceu a seguir foi tão rápido que a maioria dos alunos só viu um borrão rosa e azul cruzando o corredor.
Mizi não gritou. Ela não deu aviso. Ela simplesmente saltou da mesa com a agilidade de um predador e, antes que Brutus pudesse terminar sua próxima frase obscena, o punho de Mizi conectou-se com a mandíbula dele.
O som foi como um tiro. O impacto foi tão brutal que Brutus foi erguido do chão por um milésimo de segundo antes de desabar como um saco de cimento. Um dente voou pelo ar, batendo no armário de metal com um tilintar seco. Ele estava nocauteado antes mesmo de atingir o piso.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mizi estava parada sobre o corpo do líder caído, a respiração pesada, os nós dos dedos já sangrando. O sarcasmo brincalhão tinha desaparecido completamente. O que restava era a líder da Mukuro, o demônio que mantinha a ordem na Anaktos.
— M-Mizi? — o magricela gaguejou, dando um passo atrás.
Mizi não respondeu com palavras. Ela avançou.
Ela agarrou o magricela pelo colarinho e desferiu uma cabeçada que quebrou o nariz dele instantaneamente. Enquanto ele caía, ela girou e acertou um chute circular no peito do terceiro cara, jogando-o contra uma lixeira de metal.
— Kael! — Mizi rugiu, a voz carregada de uma fúria selvagem. — O que vocês estão esperando? Ajudem a limpar esse lixo!
Kael e os outros dois membros da Mukuro, que estavam paralisados pelo choque da velocidade da chefe, saltaram na briga imediatamente. Ivan, vendo a cena, não hesitou. Ele esqueceu a provocação com Till e avançou no grupo dos Cães de Aluguel, distribuindo socos com uma precisão técnica que contrastava com a selvageria de Mizi.
Até Till, movido pelo ódio puro que sentia por aquele tipo de cara, entrou na confusão, acertando um chute nas costelas de um dos agressores que tentava se levantar.
Mizi era um furacão. Ela pegou o taco de beisebol que Kael carregava e começou a desferir golpes nas pernas de qualquer um que usasse a jaqueta dos Cães de Aluguel.
— Vocês... — *Pá!* O taco atingiu o joelho de um garoto. — Acham... — *Pá!* Outro golpe no ombro. — Que podem... — *Pá!* — Falar assim na minha presença?!
Os membros da gangue que ainda estavam conscientes começaram a fugir desesperadamente, tropeçando uns nos outros para sair do corredor. Mizi ainda tentou correr atrás de um deles, mas Kael a segurou pelo braço.
— Chefe, chega! Eles já foram! Eles estão fugindo!
Mizi parou, o peito subindo e descendo violentamente. Ela jogou o taco no chão, o som de madeira batendo no linóleo ecoando pelo corredor agora vazio de agressores. Ela olhou ao redor, os olhos dourados ainda brilhando com uma intensidade perigosa.
— Eu hein! — Mizi exclamou, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de sangue. — Que bando de desgraçado! Onde já se viu? Falar essas nojeiras no meio do corredor? Se querem ser escrotos, que façam isso longe da minha vista! Que falta de classe, que coisa ridícula!
Ela começou a reclamar em voz alta, gesticulando dramaticamente, voltando ao seu tom de indignação quase cômica.
— E vocês viram o dente daquele cara? — Ela apontou para o chão. — Voou longe! Se eu soubesse que a cara dele era tão mole, eu nem tinha usado tanta força. Agora minha mão tá doendo, olha isso, Kael! Tá inchando!
Ela se virou para o grupo. Ivan estava limpando o sangue do canto da boca, Till estava ofegante e Hyuna tentava acalmar Luka, que parecia levemente traumatizado com a violência súbita.
Mizi caminhou até Sua. A garota de cabelos pretos ainda estava encostada no armário. Ela não tinha se movido um milímetro durante a briga. O livro de poemas ainda estava em suas mãos, mas seus olhos roxos estavam fixos em Mizi.
Mizi parou na frente dela. O fogo da briga ainda estava ali, mas suavizado por algo mais profundo. Ela queria abraçar Sua. Queria puxá-la para perto e garantir que aqueles comentários nojentos não tinham penetrado na mente da garota. Mas elas não tinham "nada". Não havia um título, não havia um acordo de intimidade física além das provocações de Mizi.
Mizi hesitou. Ela estendeu a mão, mas parou no meio do caminho, apenas ajeitando uma mecha do cabelo de Sua que tinha caído sobre o rosto.
— Você está bem, poetisa? — perguntou Mizi, a voz subitamente suave, ignorando a dor nos nós dos dedos.
Sua fechou o livro. Ela olhou para Mizi, depois para o rastro de destruição no corredor, e finalmente voltou para os olhos dourados da líder da gangue.
— Você é uma idiota, Mizi — disse Sua, com sua habitual voz monótona. — Podia ter se machucado sério por causa de palavras vazias.
— Palavras vazias o caramba! — Mizi voltou a reclamar, cruzando os braços. — Eles falaram coisas horríveis! Eu não ia deixar aquele monte de estrume continuar latindo. E olha só, eu nem me machuquei tanto. Só a minha mão que... ai, porra, tá doendo mesmo.
Ivan se aproximou, olhando para a irmã e depois para Mizi.
— Você tem um problema sério de controle de raiva, Mizi. Mas... obrigado.
Mizi olhou para Ivan e deu um sorriso de lado.
— Não agradece não, seu feio. Eu fiz isso porque o barulho deles tava me dando dor de cabeça. E porque ninguém mexe com o que é... — Ela parou, olhando para Sua. — Com o que é da minha escola.
Till limpou a poeira da jaqueta, evitando olhar para Ivan.
— Aqueles caras não vão voltar tão cedo — murmurou Till. — Você quase matou o líder deles.
— Se voltarem, eu arranco o resto dos dentes — Mizi declarou, recuperando seu taco de beisebol. — Kael, limpa essa bagunça. Não quero ver sangue de gente imunda no meu corredor preferido.
Os membros da Mukuro começaram a arrastar os corpos inconscientes para longe, enquanto os outros alunos voltavam lentamente às suas atividades, embora o clima de medo e respeito tivesse dobrado de intensidade.
Mizi voltou a se encostar no armário ao lado de Sua. Ela ainda estava elétrica, a adrenalina demorando a baixar.
— Sabe, Sua — Mizi disse, inclinando a cabeça para perto da outra —, eu acho que mereço um prêmio por ter salvado a sua honra literária hoje.
Sua abriu o livro novamente, mas um pequeno, quase imperceptível sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— O seu prêmio é que eu não vou contar para o diretor que você quebrou o patrimônio escolar usando a cara de um aluno.
— Ah, você é muito dura comigo! — Mizi reclamou, fazendo um biquinho. — Eu salvo a vida dela e recebo o quê? Sarcasmo? Eu hein, esse mundo tá perdido.
Ivan revirou os olhos e começou a caminhar, fazendo um sinal para que o grupo o seguisse.
— Vamos, o sinal vai bater. E Mizi, vai lavar essa mão. Você está sujando o chão.
— Tá bom, mamãe! — Mizi gritou de volta, mas não se moveu.
Ela permaneceu ali por mais um segundo, observando Sua ler. O caos tinha passado, a gangue dos Cães de Aluguel tinha sido desmantelada com um único soco, e a hierarquia da Anaktos tinha sido reafirmada. Mas para Mizi, a única coisa que importava era que, no meio de toda aquela violência, Sua ainda estava ali, segura sob a sombra de suas pontas azuis.
— Ei, Sua — Mizi sussurrou, aproximando-se ainda mais.
— O que foi agora?
— Aquele cara... ele tava errado.
— Sobre o quê? — Sua levantou os olhos.
— Você não é um brinquedo — Mizi disse, a seriedade voltando por um breve momento. — Você é a coisa mais real dessa escola de merda.
Sua sustentou o olhar por um longo tempo. O silêncio entre elas não era mais de indiferença, mas de um entendimento mútuo que não precisava de rótulos.
— Eu sei, Mizi — disse Sua, fechando o livro com um estalo suave. — Agora vamos. Você tem uma mão para cuidar.
Mizi sorriu, o brilho brincalhão voltando aos seus olhos. Ela seguiu Sua pelo corredor, reclamando alto sobre como o sabonete da escola ardia nos cortes, enquanto Kael e os outros membros da Mukuro observavam, sabendo que, a partir daquele dia, mexer com a "poetisa" era o mesmo que assinar uma sentença de morte escrita em rosa e azul.