Rintama high
O Silêncio das Sombras e o Gosto do Sangue
A manhã na Escola Secundária Anaktos nasceu com uma atmosfera pesada, como se o próprio ar soubesse que algo estava fora de esquadro. No fundo da sala de aula, a cadeira ao lado de Ivan estava vazia. Para qualquer observador casual, era apenas uma ausência; para quem conhecia a rotina milimétrica da dupla, era um eclipse. Mizi nunca faltava. Mesmo quando estava com febre, ou quando a gangue Mukuro exigia sua presença em algum beco de madrugada, ela aparecia para a primeira aula, mesmo que fosse apenas para babar sobre os livros de geografia com um sorriso sarcástico no rosto.
Ivan encarava o celular pela décima vez em cinco minutos. Nenhuma resposta. Nenhuma visualização. A última mensagem dela era da noite anterior, uma piada idiota sobre o cabelo de Till, e depois disso, o silêncio. Ele sentia uma inquietação crescendo no peito, uma sensação de que as engrenagens da escola estavam começando a ranger.
Na outra extremidade da sala, o grupo de amigos de Sua também notou. Hyuna arqueou a sobrancelha, olhando para o lugar vazio. Luka ajustou os óculos, anotando algo em seu caderno que provavelmente era uma probabilidade estatística sobre a ausência da líder da Mukuro. Till, por sua vez, tentava não olhar para Ivan, mas falhava miseravelmente. Ele percebeu que o garoto pálido não estava com seu habitual pirulito na boca. Ivan estava sério. Quase sombrio.
— A Mizi faltou? — sussurrou Hyuna para o grupo. — Isso é tipo ver um cometa passar. Acontece uma vez a cada cem anos.
— Talvez ela esteja doente — sugeriu Luka, embora seu tom indicasse que ele não acreditava nisso. — Ou talvez a Mukuro esteja lidando com algo grande.
— Se fosse algo da gangue, o Ivan não estaria aqui — rebateu Sua, sem tirar os olhos de seu livro, embora sua voz tivesse um rastro de dúvida. — Eles são grudados. Se ela sumiu, ele deveria ser o primeiro a saber.
Till apenas bufou, cruzando os braços sobre a jaqueta da Gnash.
— Que se foda. Menos barulho na sala.
Mas o barulho veio de fora. E não era o tipo de barulho que Till gostava.
A porta da sala foi aberta com um estrondo que fez o professor de história recuar dois passos, deixando o giz cair. Não eram membros da Mukuro, nem da Gnash. Eram os "Lâminas de Obsidiana", a gangue que disputava o território norte com a Mukuro, mantendo um empate técnico e sangrento há meses.
No comando estava Krow, um veterano de ombros largos, cicatriz no supercílio e uma aura de violência pura. Ele ignorou completamente a autoridade do professor e caminhou até o fundo da sala, parando diante da mesa de Ivan.
O silêncio que se instalou foi absoluto. Era o tipo de silêncio que precede um desastre natural.
— Onde ela está, gracinha? — Krow perguntou, a voz rouca e carregada de escárnio.
Ivan levantou o olhar lentamente. Ele parecia cansado, mas não intimidado.
— Se você está falando da Mizi, eu não sou o GPS dela, Krow — respondeu Ivan, a voz calma demais para a situação. — Ela não veio hoje.
Krow soltou uma risada seca, inclinando-se sobre a mesa de Ivan, invadindo seu espaço pessoal de forma agressiva.
— Não fode comigo. Todo mundo sabe que você é o cachorrinho de madame dela. Se ela não está aqui, é porque está tramando alguma coisa. Onde a Mukuro está se escondendo?
— Eu já disse — Ivan repetiu, cada palavra saindo como um suspiro de tédio. — Eu não sei. Ela não atende o celular. Agora, se você puder sair da frente, você está bloqueando a luz. Eu gosto de ver o que o professor está escrevendo, embora seja inútil.
O movimento foi tão rápido que poucos conseguiram acompanhar. Krow agarrou Ivan pelo colarinho e o jogou contra a parede do fundo da sala. O baque foi surdo e pesado.
— Você acha que eu estou brincando? — Krow rugiu, desferindo o primeiro soco no estômago de Ivan.
Ivan dobrou-se, o ar escapando de seus pulmões em um som agoniado. Ele caiu de joelhos.
Na sala, ninguém se mexeu. O professor, um homem magro que claramente temia pela própria vida, desviou o olhar para a janela. Os outros alunos, aterrorizados com a reputação da Obsidiana, grudaram-se em suas cadeiras.
Till sentiu seus dedos enterrarem-se na madeira da própria mesa. Seus olhos verdes estavam arregalados, fixos na cena. "Faz alguma coisa", uma voz gritava em sua cabeça. Mas ele sabia como as coisas funcionavam. Intervir em um assunto de outra gangue, especialmente contra um líder como Krow, era assinar uma sentença de morte ou iniciar uma guerra que a Gnash não estava pronta para lutar. Ele olhou para Hyuna, esperando um sinal, mas ela estava com a mandíbula travada, os olhos cheios de ódio, mas imóvel. Luka estava pálido. Sua mantinha os olhos fixos no livro, mas suas mãos tremiam tanto que as páginas faziam barulho.
— Levanta — ordenou Krow, puxando Ivan pelos cabelos pretos. — Me diz onde ela está ou eu vou transformar seu rosto em uma poça de sangue.
— Eu... não... sei — Ivan cuspiu, o sangue já começando a escorrer do canto da boca.
Krow desferiu um soco direto no rosto de Ivan. Depois outro. E mais um. O som da carne atingindo a carne ecoava na sala como chicotadas. Ivan não revidava. Ele não tinha a força física de Mizi, e sem ela ali para ser seu escudo ou seu ímpeto, ele parecia aceitar o castigo com uma resignação assustadora.
Till sentiu o estômago revirar. Ele odiava Ivan. Odiava o jeito que ele se achava superior, odiava o jeito que ele o irritava. Mas ver o garoto ser espancado daquela forma, sem que ninguém — nem mesmo sua própria irmã — movesse um dedo, era insuportável. Till começou a se levantar, mas sentiu a mão de Hyuna em seu pulso.
— Não — ela sussurrou, os olhos azuis nublados. — Se você for, eles matam você também. Não é nossa briga, Till.
— É covardia, porra! — Till sibilou, mas permaneceu parado, odiando a própria impotência.
Krow finalmente soltou Ivan, que desabou no chão, encostado na parede, o rosto inchado e a camisa social branca manchada de vermelho. O líder da Obsidiana limpou o sangue de suas juntas na própria calça e cuspiu ao lado de Ivan.
— Escuta aqui, seu lixo. Quando a sua namoradinha aparecer, diz pra ela que eu quero falar com ela. Urgente. Se ela não me procurar até amanhã, eu vou terminar o que comecei com você, mas dessa vez na frente de toda a escola.
Krow e seus capangas saíram da sala com a mesma arrogância com que entraram.
O silêncio que ficou era pior do que o barulho da briga. Ivan permaneceu no chão, respirando com dificuldade. O professor pigarreou, tentando retomar a aula como se nada tivesse acontecido, uma tentativa patética de normalidade que ninguém comprou.
Sua fechou o livro com força e se levantou. Ela caminhou até o irmão, mas não o tocou. Ficou apenas parada ali, olhando para ele com uma mistura de desprezo e uma dor que ela se recusava a nomear.
— Você é um idiota — ela disse, a voz fria.
Ivan deu um sorriso dolorido, revelando os dentes manchados de sangue.
— É de família... — ele murmurou.
Sua deu as costas e saiu da sala. Ela não ia ajudá-lo. Naquele mundo, a fraqueza era um pecado, e Ivan tinha acabado de demonstrar a maior de todas: a dependência de alguém que não estava lá para salvá-lo.
Till observou Ivan se arrastar para cima, tentando se sentar na cadeira. Ninguém foi ajudá-lo. Nem os colegas, nem os seguidores da Mukuro que estavam em outras salas. Sem Mizi, a aura de proteção de Ivan havia evaporado.
O resto do dia passou como um borrão de agonia para Ivan. Cada movimento fazia suas costelas protestarem, e o gosto de ferro em sua boca era um lembrete constante de sua vulnerabilidade. Ele checou o celular novamente. Nada.
"Mizi, onde diabos você está?", ele pensou, sentindo um medo real começar a suplantar a dor física. Não era medo de apanhar de novo. Era medo de que algo tivesse acontecido com a única pessoa que realmente o via.
Ao final das aulas, Ivan saiu da escola cambaleando. Ele precisava ir até a casa dela. Ele precisava saber. Mas, ao chegar ao portão, viu o carro preto de luxo estacionado. O motorista de seu pai estava lá, esperando.
— Merda — Ivan praguejou baixinho.
Ele havia esquecido. O jantar de negócios. Seu pai era um homem de aparências e de punhos de ferro, de uma forma diferente de Mizi, mas igualmente letal. Se ele faltasse àquele jantar, ou se chegasse parecendo que tinha passado por um moedor de carne, as consequências seriam desastrosas não só para ele, mas para o pouco de paz que Sua ainda tinha em casa.
Ele entrou no carro, tentando esconder o lado inchado do rosto nas sombras do banco traseiro.
— Direto para casa, senhor? — perguntou o motorista, olhando pelo retrovisor com uma expressão neutra. Eles eram pagos para não fazer perguntas.
— Sim. E rápido.
Enquanto o carro se afastava, Ivan viu Till parado na calçada, observando o veículo partir. Por um momento, seus olhos se cruzaram. Não houve provocação, não houve sarcasmo. Apenas um reconhecimento silencioso de que as coisas tinham mudado.
A noite na mansão da família de Ivan e Sua foi um exercício de tortura psicológica. Ivan passou camadas de maquiagem que pegara escondido no quarto da irmã para esconder os hematomas, torcendo para que a iluminação baixa da sala de jantar fizesse o resto do trabalho.
Seu pai falava sobre ações, sobre expansão, sobre como a imagem da família era o ativo mais precioso que eles possuíam. Sua comia em silêncio, a postura impecável, agindo como se o irmão nem existisse ao seu lado.
Ivan mal conseguia engolir. Cada garfada era um lembrete das costelas machucadas. Mas o que mais doía era o celular vibrando no bolso com notificações de membros da gangue Mukuro, perguntando sobre Mizi, perguntando por que ele não tinha revidado, perguntando se a gangue estava desmoronando.
Ele não respondeu a ninguém.
A escola toda já comentava. A notícia de que Ivan tinha apanhado e Mizi não tinha aparecido para "limpar o chão" com o agressor correu como pólvora. No submundo das gangues escolares, isso era visto como um sinal de fraqueza terminal. Se a líder não protegia seu braço direito, ela não era mais líder.
Quando o jantar finalmente acabou e Ivan pôde se trancar em seu quarto, ele desabou na cama, soltando um gemido de dor que segurava há horas. Ele pegou o celular e viu que Mizi ainda não tinha visualizado as mensagens.
— Porra, Mizi... — ele sussurrou para o teto escuro. — Onde você se meteu?
Ele pensou em Till. Pensou no jeito que o garoto de cabelo cinza o olhou na sala de aula. Havia algo ali que Ivan não conseguia decifrar. Não era apenas pena. Era algo mais profundo, algo que parecia uma corda esticada prestes a romper.
Naquela noite, Ivan não dormiu. Ele ficou olhando para a janela, esperando ver uma sombra rosa e azul pulando seu muro, esperando ouvir uma piada sarcástica que fizesse tudo voltar ao normal. Mas a única coisa que veio foi o silêncio frio da madrugada e a certeza de que, no dia seguinte, Krow estaria esperando. E Mizi, pela primeira vez em anos, não estaria lá para segurar sua mão ou dividir o fardo do mundo.
Ele estava sozinho. E na Escola Anaktos, estar sozinho era o mesmo que estar morto. Além disso, uma dúvida amarga corroía seu peito: e se Mizi não estivesse apenas faltando? E se o silêncio dela fosse o sinal de que o jogo tinha mudado de patamar, e ele fosse apenas um peão que foi deixado para trás no tabuleiro?
Ivan fechou os olhos, o gosto de sangue ainda presente em sua boca, e desejou, pela primeira vez na vida, que o amanhã nunca chegasse.