Rintama high
O Eclipse de Sangue no Pátio Sul
A manhã seguinte na Escola Secundária Anaktos não cheirava a café ou a livros novos; cheirava a ferro e a tempestade iminente. Ivan entrou pelos portões sentindo cada fibra de seu corpo gritar. A maquiagem escondia as manchas arroxeadas, mas não conseguia camuflar a rigidez de seus movimentos. Ele parecia um boneco de porcelana remendado, pronto para quebrar ao primeiro toque.
Mizi ainda não tinha dado sinal de vida. O celular dele estava uma tumba digital.
Ao entrar na sala, o ar pareceu fugir. Till estava lá, sentado em sua mesa, batucando furiosamente. Quando Ivan passou, o ritmo do batuque falhou por um milésimo de segundo. Till o encarou, os olhos verdes varrendo o rosto pálido de Ivan como se procurassem as rachaduras na máscara. Ivan, fiel ao seu papel de irritante profissional, apenas deu um aceno de cabeça quase imperceptível e sentou-se.
Não demorou dez minutos.
A porta da sala não foi apenas aberta; ela foi chutada. Krow entrou com a confiança de um carrasco, seguido por três de seus cães de guarda das Lâminas de Obsidiana. O professor de matemática, que estava no meio de uma equação, simplesmente soltou o apagador e recuou para o canto, como um animal acuado.
— Onde ela está, seu pedaço de lixo? — Krow rugiu, caminhando direto para a mesa de Ivan. — Eu mandei ela me procurar. Ela acha que pode me dar um bolo?
Ivan nem se deu ao trabalho de levantar. Ele olhou para Krow com um desdém que beirava o suicídio.
— Eu já disse ontem, Krow. Eu não sou a secretária dela. Se ela não quer te ver, provavelmente é porque você é feio demais para a estética dela.
Krow rosnou, a veia em sua testa saltando. Ele agarrou a gola da camisa de Ivan, levantando-o da cadeira.
— Você quer morrer hoje, é isso? Eu vou acabar com...
— KROW! — Um grito vindo do corredor interrompeu a ameaça.
Um dos membros da Obsidiana apareceu na porta, ofegante, o rosto pálido de terror.
— Krow! No pátio sul! Agora! É a Mizi... ela enlouqueceu!
O aperto no colarinho de Ivan afrouxou instantaneamente. Krow soltou o garoto, que caiu de volta na cadeira, tossindo. Sem dizer uma palavra, a gangue de Obsidiana saiu em disparada.
A sala inteira congelou por um segundo, e então, como se um gatilho tivesse sido puxado, todos se levantaram. O caos era magnético.
— Ivan! — Hyuna gritou, já correndo em direção à porta. — Vamos!
Ivan não precisou ser chamado duas vezes. Apesar da dor nas costelas, ele correu. Till, Sua e Luka estavam logo atrás. A escola inteira parecia estar convergindo para o pátio sul. Professores tentavam barrar os corredores, mas eram empurrados pela maré de adolescentes sedentos por ver a queda — ou a ascensão — da Rainha da Mukuro.
Quando chegaram à sacada que dava para o pátio, a cena era digna de um pesadelo.
Lá embaixo, no centro de um círculo humano de gritos e apostas, estava Mizi. Mas não era a Mizi sarcástica e sonolenta que eles conheciam. Seus cabelos rosa e azul estavam empastados de suor e poeira. Sua camisa social estava rasgada, revelando hematomas, e o rosto... o rosto estava coberto de sangue. Não apenas o dela.
Ela estava enfrentando cinco líderes de gangues menores que haviam se aliado na ausência dela para tentar tomar o território da Mukuro.
— Puta que pariu... — Till murmurou, os olhos arregalados. — Ela está sozinha.
Mizi estava por cima de um deles, um cara chamado Riku, desferindo socos rítmicos e brutais. O som da carne batendo era audível mesmo com a gritaria.
— MIZI! PARE! — gritou um dos membros da Mukuro que tentava furar o bloqueio, mas ele foi jogado para trás por membros das outras gangues que formavam uma parede humana.
Dois dos líderes avançaram contra ela simultaneamente. Eles a puxaram pelos ombros, arrancando-a de cima de Riku. Mizi rosnou, chutando o ar, mas um chute certeiro atingiu seu estômago. Ela dobrou-se, e um soco direto no rosto a fez cambalear.
— Ela vai morrer — Luka disse, a voz trêmula por trás dos óculos. — A proporção é injusta.
Mas Mizi não sabia o que era rendição. Com um grito gutural, ela se impulsionou para a frente, agarrando o braço do cara que a tinha chutado. Em um movimento fluido e cruel, ela girou o corpo e houve um estalo seco. O braço dele dobrou em um ângulo impossível. O grito de dor dele cortou o ar do pátio.
Outro líder, um brutamontes de quase dois metros, avançou e conseguiu derrubá-la no chão. Ele montou sobre ela e começou a desferir golpes pesados. A cabeça de Mizi batia contra o concreto a cada impacto.
— NÃO! — Ivan gritou, tentando pular o parapeito da sacada, mas Till o segurou pelo braço.
— Se você for lá agora, você morre, Ivan! Olha o tamanho daquela confusão! — Till gritou de volta, o rosto vermelho de tensão.
Lá embaixo, quando todos achavam que Mizi tinha apagado, ela cravou as unhas no rosto do agressor, atingindo os olhos dele. O homem urrou, perdendo o equilíbrio. Mizi trocou de posição com uma agilidade sobrenatural, ficando por cima. Ela não deu um soco; ela deu uma marretada com as duas mãos unidas. O cara desmaiou instantaneamente, a cabeça quicando no chão.
Mizi se levantou, cambaleando. Ela parecia um demônio de cabelos coloridos. Seus olhos dourados estavam injetados de sangue. Ela viu um dos líderes tentando fugir em direção ao prédio da biblioteca.
— Onde você pensa que vai, seu merda? — ela gritou, a voz rouca.
Ela o alcançou na porta da biblioteca, no andar de baixo. Ela agarrou o cabelo dele e o arrastou como se ele não pesasse nada. O pátio inteiro silenciou enquanto observava a brutalidade. Ela abriu a porta pesada de madeira e metal, colocou a cabeça do garoto no vão e começou a bater a porta contra o crânio dele.
Um estrondo. Dois estrondos.
Os gritos de dor dele eram lancinantes.
— Mizi, chega! Você vai matar ele! — gritou Hyuna da sacada.
Mizi parou por um segundo, olhando para cima. Aquele breve momento de distração foi o erro fatal.
Os últimos dois líderes, que estavam observando de longe, avançaram por trás. Um deles a empurrou com toda a força contra a parede de pedra da biblioteca. Mizi tentou se virar, mas o segundo desferiu um chute lateral com a bota reforçada diretamente em sua têmpora.
O corpo de Mizi foi arremessado. Sua cabeça atingiu a quina viva da parede de pedra com um som oco e aterrorizante.
O tempo pareceu parar.
O sangue jorrou instantaneamente, pintando o cinza da pedra de um vermelho vivo e quente. Mizi deslizou pela parede, os olhos dourados perdendo o foco até se revirarem. Ela caiu no chão, imóvel, em uma poça que crescia a cada segundo.
O silêncio que se seguiu durou apenas um batimento cardíaco. E então, o inferno abriu suas portas.
— MIZIIIIII! — O grito de Ivan rasgou a escola.
Ele se soltou de Till com uma força que ninguém sabia que ele tinha e saltou da sacada, caindo de forma desajeitada no pátio, mas levantando-se imediatamente.
— MATEM ELES! — gritou um veterano da Mukuro, perdendo completamente o controle. — MATEM TODOS ELES!
A contenção acabou. Os membros da Mukuro avançaram como lobos famintos contra as outras gangues. Cadeiras começaram a voar das janelas dos andares superiores. Alunos que nem faziam parte de gangues começaram a brigar por puro pânico ou adrenalina.
Um professor tentou intervir, gritando por ordem, mas foi atingido por um soco perdido e caiu, sendo pisoteado pela multidão.
No meio do pátio, Ivan chegou ao corpo de Mizi. Ele caiu de joelhos, sujando as calças social de sangue.
— Mizi... Mizi, acorda! — Ele tremia violentamente, as mãos pairando sobre o ferimento na cabeça dela, com medo de tocar. — Por favor, Mizi, brincadeira idiota, acorda!
Till, Hyuna e Luka chegaram logo atrás, formando um pequeno círculo de proteção ao redor deles enquanto a guerra explodia ao redor. Till distribuía socos em qualquer um que chegasse perto, seu rosto cinza manchado de respingos de sangue alheio. Sua estava parada a poucos metros, os olhos roxos arregalados, o livro de poesia caído no chão, esquecido.
— Ivan, a gente precisa tirar ela daqui! — Hyuna gritou, chutando um membro da Obsidiana que tentava se aproximar com um pedaço de pau. — Ela está perdendo muito sangue!
Luka, agindo por puro instinto de sobrevivência, tirou o próprio casaco escolar.
— Pressiona isso no corte! Ivan, faz pressão agora!
Ivan obedeceu, as mãos mergulhadas no vermelho quente. Ele olhou para cima, para o caos que consumia a Anaktos. O corredor da biblioteca estava um cenário de guerra; armários eram derrubados, vidros estourados. A escola que um dia foi um monumento de giz e regras agora era apenas uma jaula de animais feridos.
Till olhou para Ivan. O garoto pálido estava chorando silenciosamente, a maquiagem escorrendo e revelando a violência que sofrera no dia anterior. A vulnerabilidade de Ivan naquele momento atingiu Till como um soco no peito.
— Luka, ajuda o Ivan a carregar ela! — Till ordenou, assumindo a liderança. — Hyuna, abre caminho! Eu vou na frente. Se alguém encostar neles, eu juro por Deus que não sai vivo daqui.
— E você, Sua? — Hyuna perguntou, olhando para a garota estática.
Sua olhou para o irmão. Olhou para Mizi, que parecia uma boneca quebrada. Ela fechou os punhos.
— Eu vou atrás — Sua disse, a voz subitamente firme. — Ninguém toca nas minhas costas.
Eles começaram a se mover pelo pátio, um pequeno comboio de desespero no meio do massacre. Ivan e Luka carregavam Mizi, cujos pés arrastavam levemente no chão. O sangue de Mizi deixava um rastro no asfalto, uma linha vermelha que marcava o fim da inocência daquela escola.
A Mukuro e as outras gangues continuavam a se destruir. O som de sirenes começou a ecoar à distância, mas ninguém parava. O ódio acumulado de meses de hierarquias de giz tinha finalmente transbordado.
Ao chegarem ao portão lateral, Till derrubou um garoto que tentou barrar a passagem. Ele se virou para Ivan, que estava ofegante, o rosto manchado de lágrimas e sangue.
— Ivan, corre! Leva ela pro hospital da esquina, agora!
Ivan olhou para Till. Por um segundo, em meio ao barulho de ossos quebrando e gritos, houve um entendimento.
— Obrigado, Till — Ivan sussurrou.
— Vai logo, porra! Antes que eu me arrependa! — Till gritou, virando-se para enfrentar a horda que vinha atrás deles.
Ivan e Luka atravessaram o portão. Hyuna e Sua ficaram na retaguarda com Till, formando uma barreira humana contra o caos.
Enquanto Ivan corria pela rua, sentindo o peso de Mizi em seus braços, ele só conseguia pensar em uma coisa. Se Mizi morresse, a Mukuro morreria. A escola morreria. E ele... ele deixaria de existir. Porque sem o brilho impulsivo daquela garota de cabelos rosa, o mundo de Ivan era apenas um deserto de silêncio e pirulitos amargos.
— Fica comigo, Mizi — ele implorava, a voz falhando. — Fica comigo, sua idiota sarcástica. Você ainda tem que ver o Till me dar um soco. Você não pode perder isso.
Mas Mizi não respondeu. O único som era o das sirenes que finalmente cercavam a escola Anaktos, enquanto a fumaça de um incêndio começava a subir de uma das janelas do segundo andar. A era das gangues tinha atingido seu ápice sangrento, e ninguém sabia quem, ou o quê, restaria quando a poeira baixasse.