rio de Janeiro
Aquarela, Brigadeiro e Colchões na Sala
O sol de sábado no Rio de Janeiro não pedia licença; ele simplesmente arrombava a porta e se instalava. Alexander já tinha se acostumado com a sensação de acordar e sentir que o mundo lá fora estava em brasa, mas aquela manhã era diferente. Não era apenas mais um dia de calor; era o dia da "Operação Invasão", o nome pomposo que Ícaro deu para a festa do pijama na casa de Gael.
Alex conferiu a mochila pela terceira vez. Carregador, uma muda de roupa, escova de dentes e o fone de ouvido que, invariavelmente, acabaria sendo dividido com o loirinho. Ele olhou no espelho antes de sair. O garoto que via ali já não usava mais apenas moletons pretos e expressões de quem queria desaparecer. Havia um leve bronzeado no rosto e uma camiseta de algodão clara que parecia combinar muito mais com a luz daquela cidade.
A casa de Gael ficava em uma rua arborizada da zona sul, onde o cheiro de maresia se misturava ao das flores das árvores de oiti. Quando Alex chegou, o som de risadas já podia ser ouvido do portão.
— Se você quebrar o vaso da minha mãe, Benício, eu juro que te enterro na areia de Copacabana só com a cabeça de fora! — A voz de Gael ecoou, seguida pelo barulho seco de um skate batendo no chão.
Alex tocou a campainha e, segundos depois, a porta foi aberta por uma mulher de sorriso largo e olhos que tinham o mesmo brilho acolhedor de Gael.
— Você deve ser o Alexander! — disse dona Helena, puxando-o para um abraço antes mesmo que ele pudesse se apresentar. — O Gael não para de falar de você. "O Alex isso", "o Alex aquilo", "o Alex é de São Paulo mas já tem alma de carioca". Entra, querido, a casa é sua!
— Obrigado, dona Helena. Prazer em conhecer a senhora — Alex respondeu, sentindo o rosto esquentar.
A sala de Gael era o caos personificado. Benício estava tentando equilibrar o skate em cima de um tapete, Ícaro estava jogado no sofá lendo um gibi antigo e Dante, como sempre, estava num canto estratégico, limpando a lente da sua Nikon com a concentração de um cirurgião.
— O moreno chegou! — gritou Ícaro, jogando o gibi para o alto. — Agora a festa pode começar oficialmente. Gael estava na janela de cinco em cinco minutos parecendo Julieta esperando o Romeu.
— Mentira dele, Alex — Gael apareceu vindo da cozinha, secando as mãos em um pano de prato. Ele usava um short de tactel e uma regata larga, o cabelo loiro mais bagunçado que o normal. — Eu só estava vendo se o entregador do açaí chegava.
— Sei, o açaí de 1,80m e sotaque paulista — provocou Benício, recebendo um peteleco de Gael.
Gael caminhou até Alex e, com a naturalidade de quem já fazia aquilo há anos, pegou a mochila da mão dele.
— Deixa aí no canto, a gente vai forrar a sala com colchões mais tarde. Minha mãe fez pão de queijo.
— Pão de queijo? No Rio? — Alex brincou.
— Herança da minha avó mineira, respeita a tradição — rebateu Gael com um sorriso, guiando-o para a cozinha.
A tarde passou em um borrão de risadas e o calor típico que só o ar-condicionado da sala, no máximo, conseguia combater. Eles passaram horas jogando videogame, uma competição feroz de futebol virtual onde Benício narrava os gols como se estivesse no Maracanã, gritando tão alto que dona Helena teve que aparecer duas vezes pedindo "um pouco de misericórdia pelos ouvidos da vizinhança".
— O Dante não joga, ele só documenta a nossa derrota — reclamou Ícaro, após perder de 3 a 0 para Alex.
— Alguém tem que registrar a prova do crime — respondeu Dante, sem tirar o olho do visor da câmera. — A foto do Ícaro quase chorando porque o Alex fez um gol de cobertura vai ser o meu papel de parede por um mês.
Lá pelas cinco da tarde, o ritmo desacelerou. O sol começou a baixar, pintando as paredes da sala de um laranja profundo. Gael e Alex acabaram sentados no chão, encostados no sofá, dividindo um pote de sorvete que estava derretendo rápido demais.
— Sabe — começou Alex, observando o movimento da rua pela janela —, em São Paulo, eu nunca fiz isso.
— O quê? Tomar sorvete derretido? — perguntou Gael, oferecendo a colher para ele.
— Não. Isso. Ter amigos que simplesmente aparecem e ficam. Sem roteiro, sem precisar fingir que eu sou super sociável. Lá, se eu ficasse em silêncio por dez minutos, as pessoas achavam que eu estava bravo ou me esqueciam num canto.
Gael olhou para ele, os olhos observadores captando cada detalhe da confissão. Ele se inclinou um pouco mais, o ombro tocando o de Alex.
— Aqui a gente gosta do seu silêncio, Alex. Ele é confortável. É tipo aquela pausa entre uma música e outra no rádio, sabe? Necessária para a gente apreciar o que vem depois.
Alex sorriu, sentindo aquela pontada de calor no peito que não tinha nada a ver com o clima do Rio. Antes que o momento ficasse "meloso demais", como Benício diria, Ícaro surgiu do nada com uma lata de leite condensado e um pacote de achocolatado.
— Parem tudo! — anunciou Ícaro. — Tive uma visão. O destino da humanidade depende de uma panela de brigadeiro feita por mim.
— Deus nos proteja — murmurou Dante, mas já se levantando para ajudar.
A cozinha de dona Helena foi invadida. Enquanto Ícaro mexia a panela com uma técnica duvidosa, Benício tentava "ajudar" raspando o resto do leite condensado da lata com o dedo. Gael e Alex ficaram responsáveis por vigiar o ponto do doce, o que resultou em Gael tentando ensinar Alex a técnica correta de mexer sem queimar o fundo.
— É em círculos, Alex! Você está batendo como se fosse massa de bolo — riu Gael, colocando a mão sobre a de Alex na colher de pau para guiar o movimento.
A pele de Gael estava quente, e o toque fez Alex perder o ritmo por um segundo. Eles ficaram ali, próximos demais, cercados pelo cheiro de chocolate e pelo caos dos amigos ao redor. Por um instante, o mundo se resumia ao calor daquela mão sobre a sua e ao som da risada de Gael perto do seu ouvido.
— Ih, olha lá, Dante. Foto 42: "O amor nasce no brigadeiro" — comentou Benício, levando um chute (de leve) de Alex.
— Deixa os caras, Benício. Foca no granulado — disse Dante, mas Alex ouviu o clique familiar da câmera logo em seguida.
Depois que o brigadeiro ficou pronto e foi devidamente devorado direto da panela (porque ninguém teve paciência de esperar esfriar para enrolar), a noite caiu de vez. Dona Helena saiu para jantar com as amigas, deixando o território livre para os cinco.
Foi o momento de transformar a sala em um acampamento urbano. Arrastaram o sofá, pegaram colchões de todos os quartos e uma montanha de travesseiros e lençóis.
— Eu quero o canto perto da tomada! — gritou Ícaro, mergulhando no monte de almofadas.
— Nem pensar, a tomada é do meu skate elétrico — rebateu Benício.
— Você não vai andar de skate dentro de casa à noite, seu animal — cortou Gael, jogando um travesseiro na cara de Benício.
No fim, a configuração ficou decidida: Ícaro e Benício em um colchão de casal, Dante no sofá (ele dizia que preferia a estrutura para as costas) e Alex e Gael dividindo o outro colchão no centro da sala.
As luzes foram apagadas, restando apenas o brilho azulado da TV e algumas luzes de natal que Gael tinha pendurado na estante. Eles colocaram um filme de terror qualquer, mas ninguém estava realmente prestando atenção. O clima era de confidências.
— Alguém já parou para pensar que daqui a pouco a gente termina a faculdade e vai ter que ser adulto de verdade? — perguntou Benício, a voz subitamente séria, enquanto olhava para o teto.
— Eu me recuso — disse Ícaro. — Vou viver de arte e das ideias geniais que o Alex ainda vai me ajudar a financiar.
— Nem morto — Alex riu, ajeitando-se debaixo do lençol. — Mas é estranho pensar nisso. Há uns meses, eu nem achava que ia chegar aos 18 com amigos, quanto mais planejar o futuro.
Gael, que estava deitado de lado, de frente para Alex, estendeu a mão por baixo do cobertor e encontrou a de Alex. Ele apertou os dedos dele de leve, um gesto invisível para os outros, mas que significava o mundo para os dois.
— O futuro é longe demais — sussurrou Gael, apenas para Alex ouvir. — O importante é que amanhã a gente vai acordar, tomar o café da minha mãe e decidir em qual praia a gente vai se queimar.
— Você tem razão — Alex sussurrou de volta, fechando os olhos e sentindo a respiração de Gael se sincronizar com a sua.
A conversa na sala foi morrendo aos poucos. Benício começou a roncar baixo, Ícaro chutou o lençol para longe e Dante desligou a TV, deixando a sala no silêncio pontuado apenas pelo som do ar-condicionado.
No meio da noite, Alex sentiu Gael se aproximar mais. O loirinho buscou o calor dele, apoiando a cabeça no peito de Alex de forma automática, como se aquele fosse o seu lugar de direito. Alex não recuou. Ele passou o braço pelos ombros de Gael, puxando-o para perto e descansando o queixo no topo da cabeça dele.
Naquele momento, envolto pelo cheiro de chocolate, maresia e o conforto de uma casa que o aceitava por inteiro, Alexander teve certeza. Ele não era mais o garoto fechado de São Paulo. Ele era o moreno do grupo "Ameaça Pública". Ele era a pessoa favorita do loirinho.
E o Rio de Janeiro, com todo o seu caos e calor, era, finalmente, o lugar onde ele podia respirar.
Dante, ainda acordado no sofá, viu a cena pela luz fraca que vinha da rua. Ele não pegou a câmera dessa vez. Algumas memórias eram boas demais para ficarem presas em um sensor digital; elas mereciam ser guardadas apenas no coração. Ele sorriu, fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, o grupo estava em completo e absoluto silêncio.
Pelo menos até Ícaro acordar às seis da manhã com uma ideia "brilhante" sobre como fritar ovos usando apenas a luz do sol refletida num espelho. Mas isso era um problema para o Alexander do futuro. O Alexander de agora só queria que aquela noite de verão durasse para sempre.