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rio de Janeiro

O Despertar dos Sentidos e o Golpe do Destino

A luz do sol carioca não pede licença; ela atravessa as frestas da persiana como se fosse dona da casa, pintando listras douradas sobre o tapete da sala. Benício foi o primeiro a despertar, impulsionado por uma cãibra na panturrilha e pelo som de um caminhão de lixo passando na rua. Ele se espreguiçou de forma escandalosa, chutando Ícaro sem querer no processo.

— Ai, desgraça! — resmungou Ícaro, com a voz rouca de sono e o cabelo parecendo um ninho de mafagafos. — Para de me chutar, Benício. Ainda são cinco da manhã na minha escala biológica.

— São quase nove, seu vagabundo — rebateu Benício, sentando-se no colchão e esfregando os olhos. — E olha só… o Dante já está de pé.

Dante estava sentado no sofá, com uma caneca de café fumegante em uma mão e a câmera repousando no colo. Ele não disse nada, apenas apontou com o queixo para o colchão no centro da sala.

Benício e Ícaro viraram a cabeça simultaneamente, como se estivessem coreografados. O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado.

Alex e Gael estavam emaranhados de um jeito que desafiava a anatomia de quem "apenas divide um colchão". Gael estava praticamente em cima de Alex, com o rosto escondido na curva do pescoço do moreno, enquanto os braços de Alex o rodeavam com uma possessividade inconsciente. As pernas estavam entrelaçadas sob o lençol bagunçado. Era uma imagem de paz absoluta, um contraste gritante com o caos que costumava ser o grupo Ameaça Pública.

— Se eu tirar o celular agora e postar no grupo, o Alex me mata quando acordar? — sussurrou Ícaro, já tateando o chão em busca do aparelho.

— O Alex talvez. O Gael com certeza te caça até o fim do mundo com aquele jeito calmo-passivo-agressivo dele — respondeu Benício, mantendo a voz baixa, mas com um sorriso de orelha a orelha. — Olha a cara do paulista. Ele parece que finalmente baixou a guarda.

— Ele não parece mais um robô de São Paulo que esqueceu de carregar a bateria — comentou Dante, bebendo um gole de café. — Tirei uma foto mais cedo. Ficou boa. A luz estava perfeita.

— Vocês são uns fofoqueiros de marca maior — disse dona Helena, surgindo no corredor com um prato de bolinho de chuva. — Deixem os meninos descansarem. O Alex precisava desse sono. Desde que chegou, ele parece que carrega o mundo nas costas.

— Ele carrega o Gael nas costas, isso sim — brincou Ícaro, mas aceitou um bolinho de chuva com gratidão. — Mas sério, dona Helena, a senhora já viu o jeito que eles se olham? É tipo comercial de margarina, só que com mais suor e menos pão.

A manhã seguiu em um tom de conspiração silenciosa. Os três amigos tomaram café na cozinha, cochichando e apostando quanto tempo levaria para os "pombinhos" acordarem e perceberem a posição em que estavam.

Lá pelas dez e meia, Alex começou a despertar. O peso reconfortante sobre seu peito foi a primeira coisa que sentiu. O cheiro de shampoo de coco e o calor da pele de Gael eram âncoras que o prendiam àquele momento. Ele abriu os olhos devagar e deu de cara com os fios loiros bagunçados de Gael.

Por um segundo, o antigo Alex — aquele que morava em São Paulo e tinha pavor de ser tocado ou notado — tentou dar as caras, enviando um sinal de alerta de "proximidade excessiva". Mas o Alex do Rio, o Alex que jogava vôlei no Aterro e comia biscoito Globo, simplesmente relaxou. Ele apertou o abraço por mais alguns segundos, sentindo o coração de Gael batendo calmo contra o seu.

— Bom dia, moreno — sussurrou Gael, a voz ainda embargada pelo sono, sem se afastar.

— Bom dia, loirinho — Alex respondeu, sentindo um frio na barriga que não tinha nada a ver com o ar-condicionado.

— A gente está sendo observado, não está?

— Com certeza. Consigo sentir a energia caótica do Ícaro a quilômetros de distância.

Gael riu baixo, a vibração reverberando no peito de Alex, e finalmente se levantou, espreguiçando-se como um gato solar.

— OLHA QUEM SURGIU! — gritou Benício da cozinha, batendo com uma colher em uma panela. — O casal real decidiu agraciar os plebeus com sua presença!

— Dormiram bem? — perguntou Ícaro, aparecendo na porta da sala com um sorriso malicioso. — A gente estava aqui discutindo se vocês iam acordar para o almoço ou se iam direto para o chá de panela.

— Vai se ferrar, Ícaro — disse Alex, embora estivesse sorrindo enquanto dobrava o lençol, tentando esconder o rubor nas bochechas.

— Não liga para eles, Alex — Gael disse, passando por ele e dando um tapinha carinhoso em seu ombro. — É inveja porque ninguém quer abraçar o Benício, ele chuta enquanto dorme.

O dia seguiu naquele clima de "verão eterno". O plano era ir até a Urca para ver o pôr do sol na mureta, um clássico que eles nunca cansavam de repetir. Mas antes, passaram a tarde na sala, jogando cartas e ouvindo música. O assunto "Alex e Gael abraçados" virou o tema principal de todas as piadas de Benício e Ícaro.

— Gente, o Alex está muito calado — comentou Ícaro enquanto distribuía as cartas do Uno. — Será que ele está pensando no enxoval? Ou será que o Gael já escolheu o nome dos filhos? Eu voto em Ícaro Júnior para o primeiro.

— Eu voto em "Cala a boca, Ícaro" para o primeiro, segundo e terceiro — retrucou Alex, jogando um +4 em cima de Ícaro com um prazer vingativo.

— Toma! — Gael comemorou, batendo na mão de Alex. — Não mexe com o meu moreno.

— "Meu" moreno, Dante! Você ouviu? — Benício apontou para os dois como se tivesse descoberto um crime. — Ele disse "meu"!

Dante apenas deu um meio sorriso e ajustou o foco da câmera, capturando a troca de olhares cúmplices entre Alex e Gael. Era uma linguagem própria, feita de pequenos gestos: o modo como Gael encostava o joelho no de Alex, a forma como Alex buscava a opinião de Gael em cada detalhe, o silêncio que nunca era desconfortável entre os dois.

No final da tarde, eles pegaram o ônibus para a Urca. O Rio estava vibrante, o céu começando a transitar do azul claro para um tom de pêssego. Eles se sentaram na mureta, com as pernas balançando sobre a água, dividindo algumas empadinhas e refrigerantes.

Benício e Ícaro se afastaram um pouco para tentar convencer um pescador local a deixá-los segurar a vara de pescar, enquanto Dante se embrenhou entre as árvores para buscar um ângulo diferente do Pão de Açúcar.

Alex e Gael ficaram sozinhos em um pequeno trecho da mureta. O som das ondas batendo suavemente nas pedras e o burburinho distante das pessoas criavam uma bolha de privacidade.

— Você está bem? — perguntou Gael, observando Alex olhar para o horizonte. — Está meio pensativo desde que acordou.

— Estou só processando — admitiu Alex, virando-se para o loirinho. — Sabe, se você me dissesse há um ano que eu estaria no Rio, com amigos de verdade, e que eu… bom, que eu estaria tão feliz assim, eu ia achar que você estava louco.

Gael sorriu, aquele sorriso calmo que sempre desarmava Alex.

— Você merece ser feliz, Alex. O Rio só te deu o cenário, mas quem mudou foi você.

Gael se aproximou, diminuindo o espaço na mureta. O calor do sol poente batia no rosto dele, destacando o dourado dos cabelos e a doçura nos olhos. Alex sentiu o coração acelerar. Aquele era o momento. Não havia câmeras, não havia piadas de Ícaro, apenas os dois e o som do mar.

— Gael… — Alex começou, sua voz falhando levemente.

— Oi — respondeu Gael, a voz baixa, quase um sussurro.

Alex tomou coragem e levou a mão ao rosto de Gael, o polegar acariciando a maçã do rosto dele. Gael não recuou; pelo contrário, inclinou a cabeça para o toque, fechando os olhos por um breve segundo. Eles foram se aproximando, centímetro por centímetro, o mundo ao redor desaparecendo até que restasse apenas a respiração um do outro.

Os lábios estavam a milímetros de se tocarem quando…

— GENTE! O ÍCARO CAIU NA ÁGUA! — o grito de Benício rasgou o ar como uma sirene de ambulância.

Alex e Gael se afastaram bruscamente, o susto fazendo Alex quase cair da mureta para trás. Eles olharam para o lado e viram Benício gesticulando freneticamente perto de um grupo de pescadores, enquanto Dante tentava, simultaneamente, ajudar e tirar uma foto da tragédia.

— O quê?! — Gael se levantou, preocupado.

— Ele tentou fazer uma pose artística na beirada e escorregou! — gritou Dante, agora rindo abertamente. — Ele está bem, a água está rasa, mas ele parece um pinto molhado!

Alex soltou um suspiro longo, uma mistura de alívio e frustração. Ele olhou para Gael, que também parecia dividido entre o riso e a irritação por terem sido interrompidos.

— A gente nunca vai ter paz com esses três, não é? — perguntou Alex, passando a mão pelo rosto.

— Paz é superestimada — disse Gael, rindo e estendendo a mão para Alex se levantar. — Vamos lá ver o estrago.

Eles ajudaram a resgatar um Ícaro ensopado e reclamão, que insistia que "a culpa era do lodo, que era conspiratório". O resto do caminho de volta foi uma sucessão de piadas sobre o mergulho não planejado. Ícaro teve que viajar no fundo do ônibus, sentado em cima de uns sacos de lixo que o motorista cedeu, para não molhar os bancos, enquanto Benício filmava tudo para o "Ameaça Pública".

Quando finalmente chegaram de volta à casa de Gael, todos estavam exaustos. Dona Helena obrigou Ícaro a ir direto para o banho e deu roupas secas do Gael para ele.

— Eu vou morrer de pneumonia — dramatizou Ícaro, enrolado em um cobertor no sofá.

— No Rio de Janeiro, com trinta graus? Difícil — retrucou Dante, revisando as fotos do dia.

Aos poucos, o cansaço venceu a bagunça. Benício e Ícaro capotaram no colchão da sala antes mesmo das onze. Dante se recolheu para o sofá, colocando os fones de ouvido.

Alex estava na varanda da casa, observando a rua silenciosa. O ar estava mais fresco agora. Ele sentiu a presença de Gael antes mesmo de ouvi-lo. O loirinho parou ao seu lado, apoiando os braços no parapeito.

— Sinto muito pela interrupção de mais cedo — disse Gael, sem olhar para ele. — O timing do Ícaro é lendário para coisas ruins.

Alex deu um riso curto.

— Talvez tenha sido melhor assim. Eu estava uma pilha de nervos.

— Estava? — Gael se virou para ele, os olhos brilhando sob a luz do poste da rua.

— Ainda estou um pouco.

Gael deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Alex. Dessa vez, não havia mureta, não havia pescadores e os amigos estavam devidamente apagados na sala.

— Você não precisa ter nervos comigo, moreno — disse Gael, a voz suave como a brisa da noite.

Ele colocou as mãos nos ombros de Alex, subindo lentamente até a nuca. Alex sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não era de frio. Ele envolveu a cintura de Gael, trazendo-o para mais perto. O contraste entre eles era lindo: o loirinho solar e o moreno que estava aprendendo a brilhar.

Dessa vez, não houve hesitação. Alex inclinou a cabeça e selou a distância.

O beijo foi calmo no início, um reconhecimento de tudo o que vinham construindo nos últimos meses. Tinha gosto de açaí, de salitre e de uma descoberta doce. Era o Rio de Janeiro em forma de toque. Gael suspirou contra os lábios de Alex, aprofundando o beijo e puxando-o para mais perto, como se quisesse compensar todos os momentos em que quase aconteceu e não foi.

Quando se separaram, ambos estavam sem fôlego, as testas encostadas.

— Uau — sussurrou Alex, com um sorriso bobo que ele nunca imaginou ter no rosto.

— É — concordou Gael, os olhos brilhando. — Definitivamente melhor que o mergulho do Ícaro.

— Qualquer coisa é melhor que o mergulho do Ícaro.

Eles ficaram ali por um tempo, apenas abraçados, ouvindo o som distante da cidade que nunca dorme. Alex olhou para dentro da sala, onde seus amigos dormiam em um emaranhado de braços e pernas, e depois de volta para o garoto em seus braços.

Ele tinha saído de São Paulo achando que sua vida tinha acabado. Mas ali, sob o céu do Rio, ele percebeu que ela estava apenas começando.

— Alex? — chamou Gael.

— Oi.

— Amanhã a gente vai ter que aguentar o Benício perguntando por que a gente demorou tanto na varanda.

Alex riu, beijando a testa do loirinho.

— Deixa ele perguntar. Acho que agora eu não me importo mais de ser o assunto principal do grupo.

Eles entraram de volta, deitando-se no colchão. Dante, que ainda não tinha dormido totalmente, abriu um olho e viu os dois se acomodando, as mãos dadas sobre o lençol. Ele deu um sorriso discreto, guardou a câmera na bolsa e finalmente fechou os olhos.

O álbum da amizade deles tinha acabado de ganhar o capítulo mais importante. E o verão, ao que parecia, seria eterno.